Que mundo confuso!

Faz frio. Muito. Algo meio estranho para as temperaturas normalmente suportáveis de Seattle. O frio também vêm da enxurrada de notícias ruins que não param de chegar nesse 2019 soturno.

É preciso um esforço contínuo para não cair nos abismos da tristeza e desânimo. Confesso que para mim, esses meses invernais são sempre infernais.

Assim, cada migalha de boa notícia tem que ser celebrada. Esses dias fiquei atualizada e feliz sobre os conteúdos estudados pela minha filha de 13 anos na escola.

Contextualizando: ela está no sétimo ano em uma escola particular e católica de um bairro tradicional de Seattle.

Pois bem, ela está trabalhando em um projeto sobre priviégios. A professora está fazendo com que os alunos percebam que não há mérito ou sorte no sucesso, mas sim privilégios, que independem de nossas ações. Julia me disse ontem: não é escolha onde nascemos ou que raça temos e não deveríamos ser julgados por isso!

Por que para tanta gente, esse básico é tão difícil de entender? Pior, por que hoje em dia, todas as questões que defendem humanidade e empatia são consideradas políticas e perversas? Credo!

Publiquei um texto difícil sobre racismo no site Brasileiras pelo Mundo, que você pode ler aqui.

Recebi alguns comentários inacreditáveis. Teve gente que me chamou de “esquerdalha”, coisa que nem sei o que significa. Teve gente com teorias nazistas, querendo me convencer que a raça branca é superior (!!!) enfim… o que está acontecendo conosco, brasileiros?

Defender seres humanos, exigir igualdade de direitos entre homens e mulheres, ser contra racismo e xenofobia, ser contra morte sumária de pessoas pobres, negras e homossexuais virou coisa de esquerda?

Que polarização ridícula, infantil e perigosa… Sinceramente eu me recuso a entrar nessa confusão. Tenho minhas opiniões e preferências políticas, que nunca escondi de ninguém. Respeito opiniões contrárias, e procuro ler e escutar outros argumentos. Aliás, sou leitora compulsiva, sempre fui. Tento me informar o máximo que posso antes de emitir “achismos”, mas mesmo assim, vivo escorregando.

Admito que não sou um exemplo absoluto de tolerância e paciência. Tem argumentos, que simplesmente fazem ferver o meu sangue. Mas me controlo, conto até dez e muitas vezes deixo pra lá.

Com a família, por exemplo, as conversas hoje são sobre o tempo, as piadinhas toscas, amenidades etc. Não há mais troca de ideias e nem vontade de interagir, confesso. Muito triste, mas talvez consequência desse momento em que vivemos.

Sei que o meio é fator determinante na nossa formação. Vivo nos EUA, moro em Seattle, uma cidade extremamente progressista, onde inclusão e tolerância religiosa e sexual, são consideradas premissas básicas de humanidade e civilidade. E não bandeiras políticas partidárias…. Seattle é o berço de gigantes empresas do capitalismo: Amazon, Starbucks, Boeing, Microsoft… só para citar algumas. Faz sentido chamar esses valores de “comunistas”?

HUMANIDADE< RESPEITO< EMPATIA são valores fundamentais de preservação da nossa espécie e relações. Não podemos deixar que sejam sequestrados por plataformas políticas.

Ande pelo seu bairro, vá à praia, à praça, ao supermercado… perceba quantas cores, formas e cheiros diferentes você consegue notar pelo caminho. O mundo e as coisas NÃO são bilaterais. Não há só branco ou preto, bom ou mal, esquerda ou direita.

Ou acabamos agora com esse maniqueísmo ou esse maniqueísmo acabará conosco. Reflitam!

 

 

Aquilo que escondemos: nossa energia verdadeira

Pois é, nessa vida contemporânea, de redes sociais e exposição máxima, ficamos com a (falsa) impressão que conhecemos tudo e todos a fundo.

A Gisele Büdchen coloca fotos da cozinha dela e imediatamente já nos sentimos íntimos. O que falar então, das celebridades que enchem nosso dia de vídeos e histórias, mostrando até o momento em que escovam os dentes? Aquele colega, que você mal conhecia quando trabalhavam juntos, agora se exibe jogado no sofá, de calção de gosto duvidoso, assistindo Palmeiras e tomando cerveja….

Fico surpresa, em saber que a colega de escola da minha filha, tem milhares de seguidores e fica se questionando, ao vivo, sobre que cor deve pintar as sobrancelhas…. e por aí vai. O mundo em ebulição, guerras iminentes, líderes equivocados, corrupção impune, mortes inexplicáveis, etc. etc. e nós nos apegando ao molho que a Gabriela Pugliesi coloca no macarrão.

De 2016 para cá, isso parece que perdeu o controle. Até meu marido, que era um anti- mídia social convicto, fica grudado no feed do Instagram. E eu também! Basta ver as minhas mais de 2000 fotos. (Já curtiu? Já me segue?)

Acho que estamos todos sofrendo de uma espécie de contágio coletivo. Algo que vicia mais que morfina, e que nos mantém alienados e anestesiados. Além disso –  para mim isso é que é grave –  nos iludimos e acreditamos em coisas que funcionam somente em um clique e não, necessariamente, correspondem à verdade.

Sem querer bancar a erudita, mas a filosofia já antecipou o fenômeno e, através de séculos, vários autores se debruçaram sobre as necessidades e comportamentos humanos em seus meios sociais. Em 1967, Guy Debord, filósofo francês, publica o ensaio “A sociedade do espetáculo”. Eu confesso que estudei trechos e ainda não o encarei por inteiro, mas o que vi foi o suficiente para me deixar embasbacada. Seria Guy Debord, um Nostradamus reencarnado? Como ele pôde descrever, tão bem, a loucura que vivemos hoje, com mais de meio século de antecipação?

Deixo aqui um aperitivo, uma das frases do seu texto, que me provoca arrepios e que de forma  tão simples e genial, define a nossa sociedade atual:

“No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”

Sim! Estamos vivendo uma realidade invertida, um cotidiano às avessas. A vida, como é, está cada vez mais se tornando desinteressante e cedendo seu lugar às stories forjadas e cheias de filtros. Há filtros para tudo! Te rejuvenescer, fazer o sol brilhar em um dia que a praia está uma caca, afinar a sua cintura, colocar uma cara de palhaço que te deixa feliz, etc. O céu parece ser o limite. E assim, criamos intimidades falsas, com pessoas e vidas falsas. As consequências, têm sido por hora, uma série de sentimentos equivocados, distorcidos e doloridos.

Um dos que mais andam em alta: inveja! Quem nunca a sentiu? Você está, embaixo da chuva e de cachecol, há mais de 8 meses, e vê a recepcionista da escola que você frequentou em 1980, tomando sol na praia, sob um céu azul e caipirinha na mão. Dá para não sentir inveja?

Abriram-se também as portas do inferno! Somos constantemente invejados, e até odiados, simplesmente porque mostramos que temos um jardim bonitinho. Amigos se afastam e semi-desconhecidos mandam comentários irônicos e agressivos. Que fase!

Outras vezes, ao contrário, nos sentimos tão privilegiados, que chega a provocar um incômodo. Isso acontece quando você vê a espinha gigantesca no meio da testa, da Luana Piovani, que tentando se fazer de descolada, fotografa em close o seu infortúnio.

E assim o tempo vai passando e esses feeds vão nos assombrando. Alguns inspiram, muitos incomodam e outros tanto aborrecem, de tão chatos que são.

Não percebemos que a vida também está passando. Enquanto me distraio no celular, deixo de notar o passarinho azul que pousou no meu gramado.

Esse distanciamento, do que é real, certamente trará consequências. Não sei ainda quais serão, mas agradeço a dica de amigos bem informados, que possam me indicar autores mais atuais que já estão fritando no assunto.

Só tenho a certeza de que o mundo não para. As estações continuam se modificando, meus cabelos ficando cada vez mais brancos e o tempo, implacavelmente, correndo rápido.

A minha vida não é perfeita, meu jardim nem sempre está florido e também não sou imune a problemas e preocupações, de toda ordem. Vida perfeita, somente a da Cinderela, depois que se casou com o príncipe, mas assim mesmo, será? Ninguém nunca escreveu a parte 2 da história…

Somos humanos, somos falíveis e somos frágeis, sujeitos a ventos e trovoadas, e também momentos de calmaria. Ufa!

Se eu fosse o Zuckerberg, tratava logo de criar mais um aplicativo. Que fotografasse em tempo real a nossa aura, a nossa energia pessoal. De forma realista! Já imaginaram? Seria um exercício maravilhoso, para nos policiarmos e controlarmos o fluxo de nossas emoções e pensamentos. Pararmos de desejar, ainda que inconscientemente, o mal àqueles que estão “aparentemente” felizes. Sermos gratos, mesmo quando há uma pilha de louças na pia. E mais do que tudo, resgatarmos a simplicidade da vida. Aquilo que cotidianamente importa, e não é digno, ou espetacular o suficiente, para ir parar nos posts do Instagram.

Viram só? Lancei a ideia. Se algum gênio resolver investir a fundo e capitalizar, fique a vontade, só se lembre de me mandar o crédito ok?

Beijos e boa vida real pra todo mundo!

 

 

 

Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

Somos todos iguais…simples assim.

Pois é, ser humano é uma coisa engraçada não? A gente nasce e logo nas primeiras horas de vida começamos a aprender. Aprendemos por observação e instinto e assim, quando a fome aperta choramos, pois já sabemos que aquele ser maravilhoso que nos carregou por meses na barriga, irá correndo nos atender na nossa primeira necessidade. Observação e instinto, portanto.

Vamos nos desenvolvendo e continuamos a copiar ou rejeitar comportamentos alheios. Nossa língua, não à toa, é chamada de língua mãe, pois é o som mais familiar que conhecemos. Repetimos os sons, jeitos e comportamentos de nossos pais, desde a primeira infância. Depois saímos do conforto da casa e caímos nos desafios da escola e do mundo: convivências e muito, muito mais aprendizado.

Reagimos conforme aprendemos e assim, aos poucos vamos construindo a nossa personalidade. E aqui está a pegadinha: nos achamos únicos, incríveis ou não, mas quase sempre acreditamos erroneamente que só nós sentimos, pensamos e vivemos dessa ou daquela maneira. Esquecemos que somos, antes de qualquer coisa, frutos de um meio e portanto, produto e consequência de outros que vieram antes ou ao mesmo tempo que nós.

Não somos exclusivos, não somos especiais e nem a última cereja do bolo. Também não somos os renegados, coitados e únicos sofredores nesse mundo. Se é assim, por que então nos agoniamos tanto com nossas próprias vidas? Ou por que nos sentimos sempre tão importantes e extraordinários?

Para deixar mais claro o que digo vou citar um exemplo pra lá de clássico: das mamães que acham que seus filhotes são seres especiais e iluminados, com inteligência acima da média e com caráter que lembra o do Buda….pois é, acho que 99,99% das mães que conheço acreditam nisso e por que então não vivemos em uma sociedade iluminada e perfeita?

Todo esse papo é para dizer que quando saí do meu mundo confortável e conhecido e passei a viver aqui nos EUA, imersa em outra cultura, fui obrigada a expandir meu olhar. A solidão nos torna automaticamente grandes observadores. Parei de viver no automático e passei a prestar muito mais atenção ao que me cerca. Aos lugares e pessoas a minha volta.

Descobri semelhanças profundas em mães que vieram de um lugar chamado Eritréia, que eu antes nunca tinha ouvido falar. Descobri diferenças gritantes em meio a brasileiras que vieram de um mesmo contexto que o meu. E assim percebi o óbvio: somos exatamente iguais. Medíocres iguais, medrosos iguais, ansiosos iguais, orgulhosos iguais, teimosos iguais, etc. etc.

Temos sonhos, medos e anseios semelhantes ao do nosso vizinho, do entregador de pizza ou do presidente da república. (mesmo que ele seja laranja! 😀 ). Somos simples e complexamente humanos.

Um post que encontrei essa semana no Facebook foi o que me motivou a escrever esse texto. Trata-se da linda história de dois amigos da pré-escola que cortaram seus cabelos iguais, para que a professora pudesse confundi-los. Eles se amam tanto e se reconhecem tanto um no outro que o fato de um ser branco e o outro negro simplesmente passou despercebido. A história toda você vê aqui.

Eu me emocionei e parei para pensar. Em que momento deixamos essa simplicidade maravilhosa da infância ir embora? Em que momento passamos a nos sentir superiores ou inferiores ao outro e assim começamos um processo mesquinho e egoísta de vida?

Ser humano significa andar pelo mundo com milhões de espelhos a nossa volta.

Espelhos que encontramos naquele vizinho antipático, naquela amiga fofoqueira, naquela modelo maravilhosa da revista. Somos todos muito mais parecidos do que pensamos….

Morar em uma cultura que não é tão aberta à troca é difícil. Norte-americanos são normalmente muito fechados. Dificilmente abrem a guarda da vida e da intimidade e é comum o sentimento de isolamento de quem vem de fora. Mas analisando friamente a cultura de onde vim e de onde fui criada (Brasil) também chego a conclusão que somos “aparentemente” abertos. Expomos nossos feitos em redes sociais, lamentamos nossas dores publicamente no FB, mas a relação de sinceridade, de olho no olho e troca autêntica de experiências é coisa muito rara, mesmo em amizades longínquas e relações familiares.

Vivendo aqui sinto muita falta desse olho no olho, e percebo que a intimidade e o amor que achei que tivesse com tantos no Brasil, na verdade era muito fugaz e superficial.  Eu que mantinha a minha casa brasileira cheia de amigos e família, vejo hoje que foram poucos, pouquíssimos os que permaneceram.

A responsabilidade também é minha. Acho que todos nós nos colocamos em uma bolha de superioridade ou inferioridade em um certo momento, e com isso nos isolamos em nossos mundos, sem perceber que é a troca que nos salva, é a troca que nos faz crescer.

Como sempre a arte é muito mais precisa do que as palavras. Esse magnífico trabalho de Hans Eijkelboom, exposto na 30. Bienal de Artes de S. Paulo, mostra pessoas ao redor do globo que foram fotografadas por ele durante 20 anos.

Ele agrupou-as em tipos semelhantes de roupas e comportamento e o resultado é esse: não somos únicos! Inevitavelmente existirão ao redor de nós muito mais iguais do que imaginamos e mesmo o nosso maior arroubo de criatividade já foi feito por outrem ou será feito um dia. Somos apenas pequenos pontos nesse vasto universo…

Vamos descer do pedestal? Vamos romper as bolhas?

Um caminho é ter como lema a belíssima frase de Mário Quintana: “O amor é quando moramos um no outro”. Quando entendemos e aplicamos a dimensão disso em nossas vidas, tudo fica infinitamente mais fácil. Bora tentar?

Até a próxima! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conexões 


A vida é a arte dos encontros, ou desencontros. Não importa realmente como, mas de uma maneira ou de outra estamos sempre nos conectando a  pessoas e nos desconectando de algumas. Já pararam para pensar em quantos seres cruzam nossos caminhos? Pode ser o vizinho passeando com o cachorro, o guarda de trânsito, o colega de trabalho no elevador, a mãe segurando o filho no banco do metrô, enfim…. possibilidades infinitas! Desses encontros aleatórios podem surgir conexões profundas e duradouras, assim como amizades fugazes que duram somente uma estação ou o tempo dos interesses em comum.

Falo isso porque  já estou batendo na porta de 2017 e também já cruzei a linha dos quarenta anos. A reflexão é inevitável. Penso em tantas pessoas que passaram pela minha vida. Tão poucas que permaneceram e tantas que deixei seguir ou que me deixaram também. 

A internet e sua conexão poderosa até permite que eu bisbilhote de quando em vez aqueles que já não são íntimos. Aqueles que dividiram um tempo com uma Gabriela que já não existe mais.

Dizem que morremos e renascemos constantemente e eu vejo verdade nessa afirmação. Os propósitos, as crenças, os sonhos e realidades se transformam e modificam também nossa essência. 

Mudar de país e viver em um lugar longe de tudo que é familiar criou um divisor de águas na minha existência. A solidão virou a companhia constante e o sorriso do caixa do supermercado passou a ter uma importância gigante.

Parei de viver no automático e passei a ser observadora de cada segundo da minha vida, afinal tudo traz possibilidades e experiências inéditas.

Às vezes dói  e outras alivia.  Ser a sua própria companhia proporciona revelações que  relação nenhuma poderá te trazer. Aprendemos muito com o outro, mas aprendemos ainda mais com o que o outro deixa em nós.

Agora estou de férias, em um dos lugares mais paradisíacos do planeta. A natureza vibra aqui em uma proporção assustadora! Me faz refletir, me faz aquietar e curiosamente tem me feito sonhar. 

Sonho todas as noites com pessoas que já passaram pela minha vida , pessoas de quem não ouço falar faz tempo, mas que de uma certa maneira continuam vivendo em mim.

Estamos todos ao mesmo tempo dividindo esse passeio pela Terra, em um momento complicado, turbulento, com muito mais dúvidas que respostas. 

Eu tenho medo, confesso. E talvez tenha até deixado meu otimismo cair da bolsa nesses meses difíceis que preencheram 2016. Porém estar  aqui e sonhar com olhares e sorrisos de quem já fez parte da minha vida me fez acreditar definitivamente em algo maior. Uma espécie de conexão que ultrapassa a barreira do contato físico.

O ano novo não muda nada, apenas mais uma página virada no calendário. A mudança está na mente e no coração de cada um. 2017 chega e exige que sejamos fortes, perante a tantos obstáculos.

Próximos ou não, amigos ou não, acho que devemos  apenas nos conectar e deixar viver no outro aquilo que nos falta. 

Sinto muito falta de alguns e também gratidão, principalmente por todos os pedacinhos que habitam em mim, e que me fazem ser quem sou. Eles vieram de todos vocês, que um dia compartilharam o meu caminho.

Namastê e que venha 2017 com mais pontes do que muros.

A vida é tão rara….

Eu ando cansada…. Cansada do frio que mal começou, cansada dos dias curtos que terminam às 4h30 da tarde, cansada do meu feed de notícias que só me traz desilusão, enfim, não estou vivendo meus melhores dias.

Já li um bocado sobre a depressão de inverno, bastante comum em pessoas “tropicais”que vivem no hemisfério norte. O antídoto é sempre o mesmo: atividades ao ar livre, alimentação saudável, pensamentos positivos. Parece tão fácil, mas não é.

Fica difícil ter coragem de caminhar sob a garoa constante e o frio de 0 grau, impossível trocar o chocolate quente pelo suco de couve e o mais complicado: pensar em coisas boas quando você acorda e vê que um avião com vários jovens atletas, cheios de esperança e alegria caiu nas florestas da Colombia.

O mundo anda árido e 2016 foi um ano bem complicado. Depois de 2015, com o terrível incidente da Samarco em MG, processo político decadente do Brasil e do planeta, a crise de refugiados, etc. cheguei a achar que nada de pior poderia vir a acontecer nessa maltratada atualidade. Mas 2016 chegou querendo destaque: atentados terroristas, mais e mais decadência política, morte de pessoas essenciais e Donald Trump. Agora essa tragédia aérea envolvendo os meninos de Chapecó….

Eu sei, está difícil. Mas continuo acreditando que a vida é escolha. Em meio ao caos, precisamos focar nosso olhar em direção àquilo que nos alenta. Parece uma bobagem, mas às vezes a felicidade vem em gotas homeopáticas.

Uma fotografia bonita, uma mensagem carinhosa e inesperada, um salto amoroso do cachorro de estimação, uma chamada de vídeo no Facetime, um estranho gentil que segura a porta e sorri pra você…. São nessas miudezas da vida que a gente se alimenta e encontra forças para seguir em frente

A vida não para, não espera e é rara, como já diz aquela música linda do Lenine que eu deixo aqui  para vocês.

 

Acho que precisamos todos de um esforço coletivo, retornando ao mundo paciência e esperança, porque só assim conseguiremos sair dessa nuvem cinza para transformar positivamente esse mundão, que apesar de todas as suas dores é maravilhoso. Estamos todos juntos nesse barco que não para nunca e cabe somente a nós que seu percurso seja feito sobre águas calmas.

 

A experiência de ser turista na minha terra – 20 dias de Brasil

Então, eu fiz um carnaval em um outro post quando disse que iria ao Brasil não foi mesmo? Estou me sentindo em dívida para quem me lê e quer saber como foi essa experiência de ser turista na própria terra. Vamos lá?

O primeiro choque é o conforto de ouvir, falar e pensar em português o tempo todo. Foi uma espécie de alívio, como quando a cabeça para de doer depois de dias de um incômodo. Se traduzir o tempo todo é um dos grandes desafios de quem vive fora da terra de origem. Mesmo aqueles ultra super fluentes, com o inglês no automático, sabem que o conforto de se expressar na sua própria língua faz uma grande diferença.

Se sentir abraçado e sentir querido também cativa o coração. Mas algumas gotinhas de dor pingam nessa atmosfera. Você percebe que nem todos sentiram sua falta como você as deles e alguns com quem você tanto contava e ansiava em ver, simplesmente ignoram a sua visita, afogado que estão nas suas vidas cotidianas. Pode ser um pouco chato, mas é a primeira e grande lição: a vida continuou…. Você mudou de casa, de país, de emprego e de amigos, quase um tsunami na própria vida e acaba se esquecendo de que todo mundo que ficou continuou com a mesma rotina de sempre. Fica difícil para aqueles que ficaram dimensionar e avaliar a importância de um abraço. Eu entendo e supero, juro!

Outros, ao contrário, nos surpreendem com o carinho sincero e a receptividade. E aí até machuca mais, afinal como voltar e viver longe de pessoas tão especiais? (aqui faço uma pausa pra engolir um soluço).

As comparações são inevitáveis. Moro na Virgínia, ao lado da capital norte-americana. Ruas e bairros impecáveis, equipamentos e serviços públicos primorosos, melhores escolas do país, altíssima renda per capita, blá, blá, blá…. São Paulo me dá um soco com o seu oposto: ruas ainda mais sujas e abandonadas do que me lembrava, violência explosiva, sensação constante de insegurança, estilo de vida caríssimo e incompatível com a realidade da maioria. Miséria e carro blindado, o tempo todo, todo o tempo.

Foi difícil essa parte. Confesso que pensei, não quero viver mais aqui não. O ar pesado de poluição e uma gigantesca diferença social. R$700,00 reais um jantar em um lugar comum, muita gente, mas MUITA, dormindo sobre jornais na Av. Paulista  (!). Difícil lidar e encarar.

Mas aí vem o almoço elaborado no capricho pelas amigas, o mar verde e delicioso em pleno inverno, o cheiro de pão da padaria e a coxinha estalando na boca. Complicou! Uma montanha russa de emoções. Pertenço mas não pertenço, entende.

Esse é o sentimento de um expatriado. Cadê meu lugar, aqui ou lá, ou os dois? Já aprendi a gostar dos EUA, da organização, do respeito e da beleza dos lugares por onde passo. Só que meu coração não vibra, ele se aquieta. É diferente.

No Brasil eu odeio e amo intensamente o tempo todo, meio exaustivo, mas muito vivo.

Não tenho respostas…. por enquanto vou tocando meu barco aqui focando na frente, absorvendo todas as experiências e oportunidades que essa terra proporciona e tentando não olhar para trás. Continuo fiel ao meu ideal de não ser árvore e poder me deslocar por esse mundo todo de olhos e peitos abertos. Mas faço um adendo, apesar de não ser árvore, tenho raízes e essas serão eternamente verde e amarelas!

 

 

A hora de visitar a terrinha – confusão de sentimentos!

Hoje finalmente recebi meu ticket de viagem ao Brasil. Serão 20 dias de férias por lá, depois de quase dois anos longe. Fica difícil descrever a confusão de sentimentos.

Estou muito feliz, por poder rever as pessoas que marcaram a minha vida e sempre serão meu norte. Mas devo confessar que bate um arrepio na alma….o que se passou enquanto eu estive fora, o quanto eu mudei? O quanto tantos mudaram?

A vida de um expatriado é como uma montanha russa. Apesar do clichê, ainda não encontrei definição melhor: uma constante de altos e baixos.  Novas descobertas, novos cheiros, novos sabores e novos amigos e ao mesmo tempo a certeza irrefutável de que tudo que deixamos para trás não voltará jamais!  Não tem como não ser dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

Rever o Brasil, minha terra adorada e dourada, depois de quase dois longos anos, causa sim um tremendo frio na barriga.

Nesse tempo que me ausentei, pessoas se amotinaram por suas crenças políticas, guerra travada entre dois símbolos sagrados aos brazucas: a mortadela e a coxinha!   Em comum, pelo menos para quem vê de fora, uma vontade feroz de ver as coisas melhorarem.

Nada  melhorou por enquanto, e o sol poente ainda parece distante da terra brasilis, mas algumas coisas permanecem, como esse calor inconfundível que só se vê por aí….

Ai, meu Brasil, que saudade de você! Saudade de me sentir verdadeiramente abraçada, saudades de ouvir a melodia linda da língua de Camões, saudades de ouvir Chico Buarque ( sim, eu o amo apesar de tudo e contra todos!), saudades do desejo e da saliva na boca de quem espera por uma caipirinha de maracujá com cachaça na areia quente da praia….

São tantas coisas que fazem falta, que acredite você – que sonha com os outlets da Flórida –  nada será capaz de substituí-las!

Acontece que a vida anda, o dia toma o lugar da noite e a primavera dá lugar ao verão! Descobrimos, a duras penas, que não somos árvores e sim seres adaptáveis às condições que nos cercam.

Hoje, gosto de ver bandeiras vermelhas e azuis, pontuadas de estrelas, balançando ao ritmo dos ventos. Gosto de  ouvir Hotel Califórnia, na voz de um cantor anônimo no bar, tanto quanto ouvia Djavan nos bares da vida da Vila Madalena. Aprendi a degustar o sabor de um verdadeiro hamburger e me emociona ver crianças de todas as raças, cores e credos jurarem fidelidade à bandeira de Abraham Lincoln, todos os dias na escola pela manhã.

Enfim e por fim, não existem respostas óbvias ou caminhos claros. A vida é passagem e como dizia meu amado Guimarães Rosa, estamos todos à margem desse grande rio.

Vou fazer minhas malas e rever meus amados, mas agora com um outro sentimento: não mais pertenço ao Brasil, nem tampouco aos EUA! Sou apenas uma terráquea tentando fazer dos limões da vida uma grande limonada! Seguimos….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andanças por aí: seres humanos, a melhor parte!

Fiz uma viagem recente à Charleston, Carolina do Sul. Vi coisas lindas e interessantes, aprendi um bocado sobre história norte-americana, tirei muitas fotos, tomei sol na praia e blá blá blá. Poderia ficar aqui me exibindo e detalhando o que qualquer busca no google pode te mostrar e que também detalharei em breve no blog Brasileiras pelo Mundo, mas ao invés disso quero falar de encontros.

Isso mesmo, encontros! Tive dois momentos únicos nessa viagem que valem um post. O primeiro foi em um entardecer na deslumbrante praia de Folly Beach. Um píer destinado aos pescadores segue em direção ao mar, e a sensação de ver o sol se pondo no oceano, em profundo silêncio e acompanhada de quem mais amo já serviu para valer o dia.

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Píer de pescadores na mágica Folly Beach – Carolina do Sul

Mas estávamos em um dia de sorte e teve mais. Na saída do píer notei um belo casal, ele pintava a nanquim em um cavalete e ela estava sentada sobre uma canga colorida cercada de cartas de tarot. Não resisti e parei para puxar conversa…. ele foi criado na mesma cidade que moro hoje, Fairfax VA e anda pelo mundo pintando, desenhando e criando. Uma vida dura, como a de todo artista que ainda não encontrou seu lugar ao sol. Ela tirava cartas e me pediu que escolhesse uma. Fiquei impressionada por ouvir coisas tão coerentes a meu próprio respeito.

Um casal jovem, bonito, desses que fogem às regras e as convenções a que estamos acostumados. Senti emanar deles uma liberdade que desconheço. Apesar das dificuldades que certamente eles enfrentam, eles seguem firmes naquilo que acreditam. Arte.

O trabalho dele, Aaron Burke, é impressionante. Um traço ágil, forte e uma imaginação infinita. Foi um encontro rápido, emoldurado por uma paisagem deslumbrante e que certamente me trouxe um enriquecimento que carregarei comigo, melhor que qualquer souvenir de lojinhas.

Na noite seguinte estávamos caminhando pelas ruas já vazias de Charleston, iluminadas por uma lua que parecia um sol. Procurávamos fantasmas e estávamos justamente fotografando túmulos do belo cemitério da Igreja quando surgiu outro casal. Policiais fardados, típicos americanos desses que você imagina comendo donuts e tomando café.

O homem chegou de mansinho e em um gesto surpreendente perguntou se poderia assustar meu marido, que estava distraído nas fotografias de terror. Achei graça e começamos a conversar. Logos estávamos falando do Brasil e de nossas vidas e qual não foi a minha surpresa quando a policial feminina arriscou umas frases em português! Ela me contou que havia passado o Natal de 2013 no Rio de Janeiro, na casa de uns amigos. Tirou o celular do bolso e me mostrou orgulhosa as fotos da viagem, de uma ceia de Natal em uma comunidade pobre de algum morro carioca. Me disse que esses amigos eram mais que especiais e que os conheceu pois a filha deles tinha sido assassinada em Charleston pelo ex-marido americano, que continua foragido. Essa policial se envolveu na história, ficou íntima da família, a ponto de viajar para o Rio e se hospedar com eles. Disse para mim que não vai desistir de encontrar o culpado e que cuidou pessoalmente de toda a burocracia que um caso desses envolve, prestando apoio irrestrito à família.

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Noite de lua cheia em Charleston, cheia de surpresas e encontros

 

Veja só minha gente: dois casais representando os opostos de uma sociedade. Os “hippies”livres e de espírito artístico e os militares uniformizados. Dois casais que em noites seguidas me mostraram o que é humanidade, o que é simpatia, o que é ser solidário ao outro. Dois casais que têm freqüentemente seus papéis execrados nessas redes sociais de ódio e verdades absolutas  (hippie vagabundo e militar opressor).

Sou feliz por estar construindo na minha vida uma rede de amigos que é diversificada. Odeio as panelinhas, odeio as posições estanques que as pessoas se colocam, julgando e condenando os diferentes. Procuro andar pelo mundo de olhos abertos e coração também e sou agraciada por isso recebendo de presente encontros assim, tanto de policias americanos imponentes, quanto de hippies belíssimos no píer. Ambos me mostrando em sua plenitude que ao final somos todos igualmente  seres humanos.

Em tempos de trevas e ódio pelo mundo chega a ser ridícula a repetição da famosa frase cafona: mais amor, por favor. Porém não vejo outra saída que não a da tolerância, a do respeito e fim de julgamentos preconceituosos.

Março já acabou e a Primavera por aqui segue a todo vapor. Esses encontros foram minhas lições de Páscoa e aí? Quais foram as suas?

Até a próxima…. 😉

 

 

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