Surpresas positivas e negativas depois de um ano de América

Já passou um ano que me mudei com a minha família de São Paulo para a região de Washington D.C. Depois de passar pelo ciclo completo das quatro estações chegou a hora de um balanço. Como foram muitas descobertas,  esse post vai em itens  que descrevem alguns dos preconceitos comuns que muitos têm em relação aos EUA e a confirmação ou negação dos mesmos. Vamos lá…

  • A cultura americana é pobre, rasa e de consumo imediato.

Mentira! Sempre achei que nada poderia superar a cultura brasileira em termos de diversidade, riqueza e criatividade. Pois bem, me surpreendi! Os EUA é um dos ambientes mais criativos que eu conheci. Devido ao grande número de imigrantes que aqui chegam diariamente, o caldo cultural supera o brasileiro. Música, teatro, cinema, literatura, artes visuais, etc. têm produções intensas e constantes, surgindo assim coisas maravilhosas e outras péssimas, mas em termos de volume é admirável!

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Exposição “Wonder” Na Renwick Gallery em DC. Um dos milhares de centros culturais que existe só aqui na Costa Leste.
  • Come-se mal nos EUA. Tudo é fast food e de baixa qualidade.

Mentira! Pelo menos em regiões com grande diversidade migratória a culinária é riquíssima.  Em cada esquina é possível encontrar restaurantes de todas as origens e preços possíveis. Se quiser cozinhar em casa então, a quantidade de opções e variedades de produtos chega a ser assustadora. Mesmo há um ano aqui, continuo passando horas dentro dos supermercados, perdida entre tantas possibilidades de escolhas, cheiros e sabores. Encontro mais variedade de queijos e vinhos do que já vi na Espanha e na França. Mais variedades de massas do que na Itália. Mais variedade e modos de preparo de sushis do que em S. Paulo, enfim…uma aventura constante de variedades gastronômicas. Fora a quantidade de supermercados e produtos orgânicos, com uma preocupação que chega a ser excessiva com o “comer saudável”. Apenas uma ressalva, comer bem por aqui significa gastar muito mais. A alimentação de qualidade não é barata e nem tampouco acessível a todos.

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Loja especializada em vinhos. Parece um supermercado gigante, mas só com vinhos de todos os tipos, preços e nacionalidades.
  •  Americanos em geral são sedentários 

Mais ou menos! Mais um aspecto que talvez varie de região a região mas aqui na costa leste todo mundo se mexe. No inverno ou no verão é constante o número de pessoas caminhando pelas ruas, pedalando, correndo e se exercitando. Nas escolas o programa de educação física é intenso e as crianças praticam muitas atividades, inclusive nos finais de semana. Vários esportes que nunca ouvi falar são muito populares e também  o nosso “futebol” é super praticado. Ainda assim grande parte da população  apresenta sobrepeso, devido ao consumo excessivo de gorduras e carboidratos. Felizmente esse mal hábito está mudando, mas ainda faz parte da vida de muita gente por aqui.

  • Americanos são egocêntricos e nada sabem além da América

Mentira! Ao longo desse ano não encontrei ninguém que não soubesse do Brasil. Quase todos que conheci ou cruzei por aqui estão muito bem informados sobre o que acontece no nosso país e em todos os continentes. Muitas vezes quem se mostrou desinformada e ignorante fui eu, principalmente no que diz respeito aos povos e costumes do Oriente Médio e da Ásia, que pouco fazem parte da realidade brasileira.

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Biblioteca do Congresso Nacional, uma das mais belas que já vi. Aqui existem bibliotecas públicas  quase a cada esquina e são altamente freqüentadas. O povo americano tem intrínseco o hábito da leitura e informação.
  • Americanos são racistas e preconceituosos

Mentira! O que mais me surpreende por aqui é a quantidade de imigrantes bem sucedidos. A América realmente cumpre o papel de abrigar povos e sonhos do mundo inteiro e criar oportunidades reais de sucesso. Gente de todos os cantos do planeta conseguem trabalho e qualidade de vida. Se fosse um país tão xenofóbico como pintam, isso não seria possível. Lembrando que pensamentos nazistas e retrógrados como o do Sr. Donald Trump são rejeitados pela grande maioria dos norte-americanos que reconhecem a força e a contribuição dos imigrantes nesse país.

  • História e cultura vc encontra na Europa! EUA é só entretenimento e compras

Mentira! Os EUA  preservam demais a sua história e cultura. Em quase todas as cidades americanas vc encontra uma opção imensa de monumentos históricos, museus, bibliotecas e tudo o mais para conhecer e se aprofundar na história do país. As casas centenárias são preservadas com muito primor, e claro, não se pode esquecer que os EUA é um país  jovem como o Brasil, se o compararmos à Europa. Eu pessoalmente, não sou fã do entretenimento fácil da Disney, e passei um ano aqui me surpreendendo com inúmeras atrações culturais e históricas sem pisar na terra do Mickey. 😉

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Mount Vernon, casa onde viveu George Washington no século XVIII. Um dos exemplos de primor de preservação do patrimônio histórico
  • São poucas as opções de beleza natural nos EUA.

Mentira! Com certeza essa foi a maior das surpresas. Já havia visitado os EUA como turista inúmeras vezes, mas morando na costa leste tive a oportunidade de conhecer lugares magníficos. Paisagens marítimas e pôr do sol cinematográficos na Chesapeakbay, montanhas cobertas de folhas douradas em Shenandoah, vinícolas deslumbrantes em Loundon County, cidades históricas à beira do Potomac, cavernas surpreendentes em Luray, etc., etc. A lista é imensa e olha que estou me referindo somente à região que cerca DC. Poderia ainda falar das belezas de Massachusets, Rhode Island, Connecticut, e tantos lugares que tive o privilégio de visitar, mas isso é assunto para outro post.

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O espetáculo do outono

 

Como nem tudo são flores, seguem algumas decepções que também fazem parte dessa trajetória:

  • Sistema de Saúde americano é excelente

Mentira! Não existe saúde pública, nem de péssima qualidade. Se você não tem como pagar está bem encrencado e pior não há o que fazer. Convênio de saúde é essencial, como água! Não é possível viver sem isso nesse país. A má notícia é que isso custa caro, e muito. Além do preço dos planos serem elevados, o paciente sempre paga uma co-participação em tudo, das consultas, aos exames e cirurgias e esse valor pode ser bem assustador. A relação médico-paciente é fria. Tudo se conversa por email e as consultas são super concisas, nada de papear e saber além do necessário. Deu uma dor de barriga, enxaqueca ou febre no final de semana? Se não for algo absolutamente grave, segure a onda e espere até marcar uma consulta, porque atendimentos emergenciais podem custar uma fortuna. Nunca pensei que diria isso, mas até o capenga SUS do Brasil consegue ser melhor do que o nada que é a saúde pública americana.

  • Custo de vida é baratíssimo

Mentira! De todos os comentários desagradáveis que ouço de amigos e parentes brasileiros, esse é o mais irritante: “você está muito bem, ganha em dólar!” A ignorância está em cada palavra dessa frase. Ganha-se em dólar sim e paga-se em dólar tb! E caro, muito caro! Moradia na região de DC é tão cara quanto no Leblon do Rio de Janeiro. Alugueis de uma casa boa com três dormitórios giram em torno de U$3.500,00 podendo chegar aos U$5.000,oo com facilidade. Não se compra uma casa razoável, em um bairro com boas escolas públicas por menos de U$900mil e casas acima de U$1 milhão são a grande maioria. Alimentação de qualidade é caríssima, tanto quanto no Pão de Açúcar ou no Saint Marché (mercados caros de S.Paulo). Você encontra tudo que imagina e de excelente qualidade, mas com preços exorbitantes também. Ok, sei que os fanáticos por outlets (outra roubada) devem estar discordando. Eletrodomésticos, carros, roupas de grifes e cosméticos são mais baratos que no Brasil, mas morando aqui esse não é seu gasto essencial e acreditem, gasta-se tanto com saúde, moradia e alimentação que sobra muito pouco para as pechinchas de uma bolsa de grife a U$100,00!

  • Os EUA é o país da diversão

Mentira! Quem conhece os EUA pelo grande número de parques temáticos, shows da Broadway, filmes de Hollywood pode ter a impressão de que é um país em constante festa e diversão! Sinto dizer que não. Aqui se trabalha mais do que no Brasil (o custo de vida é caro, lembra?) e americanos em geral tem uma maneira muito diferente de se divertir. Mesmo as atividades de lazer costumam seguir um roteiro e regras pré-estabelecidas. Espontaneidade é uma qualidade rara por aqui. Um hobby por exemplo, feito para se relaxar e sair da rotina é sempre algo levado extremamente à sério, com cobranças, metas e a necessidade de buscar a perfeição em tudo. Olhando os rankings mundiais de esportes, de descobertas científicas e tecnológicas, de artes, etc. é comum ver muitas vezes os EUA nos primeiros lugares. Consigo entender isso hoje, observando o profundo espírito de competição e a busca por excelência em absolutamente tudo! Para nós, brasileiros, pode ser exaustivo. A máxima de “deixa a vida me levar, vida leva eu” não existe aqui. Até a diversão tem que ter objetivos bem definidos, com horário sempre marcados….costumo dizer que no Brasil o almoço acaba quando acaba a conversa. Aqui a conversa é literalmente interrompida no meio, se acabou o horário. Deu pra entender?

  • É fácil fazer amigos

Mentira! Americanos são muito bem educados. Todos te cumprimentam, seguram a porta para você passar e oferecem ajuda ao menor sinal de problemas. Bom dia, boa tarde e como vai são as expressões mais ouvidas, sempre e em todos os lugares. Porém, não confunda educação e simpatia com amizade. Raramente passa disso. Os grupos são muito fechados e a intimidade é o valor mais precioso para eles. Festas e encontros são raros, e quando acontecem são sempre cheios de formalidades. Imagino o tamanho da dificuldade em se morar em um estado norte americano onde existem poucos estrangeiros…. Fiz com facilidade muitas amigas brasileiras, algumas européias, latinas e asiáticas, mas americanas o saldo por enquanto é zero.  Mesmo entre eles, amizades onde se visitam constantemente, fazem viagens juntos e trocam confidências são muito raras. Trata-se de outra forma de se relacionar e para nós, cheios de calor brasileiro, esse é um dos desafios mais difíceis de encarar. O que salva, são os amigos da terrinha e também de outras nacionalidades que encontramos por aqui.

  • Não existe violência

A violência no Brasil atingiu um dos maiores patamares mundiais e fica difícil de se comparar, mas aqui, apesar de números muito menores, a violência existe sim!Não sofremos de medos de assaltos ou sequestros, nem violência decorrente de tráfico de drogas e desigualdade social, mas os terríveis “mass shootings” são uma triste realidade. Nas escolas públicas as crianças são submetidas à simulações preventivas de incêndio e massacres! Confesso que fiquei apavorada, mas a prevenção é algo levado muito a sério por aqui e os números são alarmantes. Esse é outro tópico que poderia se alongar muito e falo sobre ele aqui, somente para afirmar, que infelizmente os EUA não estão isentos da violência.

Ok….e o saldo de tudo isso? Diria que por enquanto estamos vivendo um empate técnico. Ganhamos muito e perdemos também, um ano ainda é pouco para sedimentar impressões. Sei que muito está por vir, para o bem e para o mal, afinal a vida é feita de luminosos verões e escuros invernos, não tem jeito! Comparar Brasil e EUA é um erro, que pode levar a um estado profundo de desânimo.  O Brasil é único e os EUA também. Tentar afastar-se de preconceitos pode ser o começo de um caminho para o final feliz, nessa difícil transição.

Vamos que vamos e Feliz 2016!!!

 

 

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16 comentários em “Surpresas positivas e negativas depois de um ano de América

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  1. Muito legal sua iniciativa de compartilhar suas experiências. Sou advogado em São Paulo, também busquei fugir da violência me mudando para Bonito, no Mato Grosso do Sul, próximo ao Pantanal. O índice de violência lá é próximo a zero, entretanto o calor abrasador e a falta de recursos é um grande problema. A alimentação é baseada quase que exclusivamente em carne bovina, arror, feijão e mandioca. Fiquei 08 meses lá e voltei. Agora moro em Juquitiba, interior de São Paulo, 70 km da Avenida Paulista, em um chácara, aqui a violência é bem menor e estou a um pulo de tudo que São Paulo oferece. Parei de advogar e vou me dedicar a comercialização de imóveis aqui mesmo. O Brasil é muito grande, exintem muitos lugares onde a violência não chega, mas tem que se adaptar, não dá pra morar a metros de tudo o que temos de melhor e ter segurança. abraços e felicidade para vc e sua família.

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  2. Bem , tenho um sonho a 27 anos de mudar do Brasil , já estive na Europa 8 vezes(vários países) , USA e Chile , e espero um dia realizar , mas o dificil é a parte legal , pois visto de moradia par USA é quase impossível .

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  3. Adorei seu blog, tive um pouco mais de noção da realidade. Meu sonho é ir embora com minha família para os EUA, e assim, lendo suas experiências fica mais fácil avaliar, não fantasiamos tanto a terra do tio Sam!!!
    Obrigada por compartilhar suas experiências.

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  4. Gabriela, parabéns pela iniciativa !
    Eu, minha esposa e filho de 3 anos, moramos em SP/ZS e temos muita vontade de ir morar nos USA.
    Estamos cansados de tantas coisas erradas por aqui.
    Contudo, seus depoimentos são preciosos, pois trazem mais clareza quanto as dificuldades de mudar para um país com cultura diversa da terra Brasilis.
    Não dá para conhecer um lugar apenas durante as férias, pois isso só é possível após enfrentar as dificuldades diárias que apenas os moradores conhecem em seu dia a dia.
    Seus relatos nos fazem analisar a imigração com mais razão e menos emoção.
    Parabéns mais uma vez e boa sorte !

    Curtido por 1 pessoa

  5. Gostei demais desse post, bem realista. Tenho parentes que moram há 25 anos nos EUA e é isso mesmo. Com o tempo o jeitão americano entra no sangue. É isso, ou voltar para o Brasil. Só fui aí a turismo, mas confesso que tenho muita vontade de mudar-me do Brasil. Não é só a questão da violência, que por si só já seria motivo e tanto. Mas, é a eterna promessa do “agora vai” que nunca se confirma. Graças a Deus (e a muito esforço pessoal) faço parte da “classe média paulistana” (média-média, não pense em média-padrão-Jardins), e isso tem me segurado por aqui. Porém, além do problema da violência, para mim, o que mais me entristece no Brasil é não ver as coisas funcionarem de fato e não ver mudanças efetivas no nível de vida da maior parte da população, é não ver efetivamente a situação social melhorar. OK, moro em um apartamento bom, bem localizado e (relativamente) seguro, posso trocar de carro a cada 4 anos e viajo todo ano (ás vezes, até para o exterior), mas que graça isso tem se ao viajar eu passo em frente a gigantescas regiões de favelas (comunidades como se chama hoje em dia), se nas ruas centrais de toda grande ou média cidade há um número enorme de pedintes, principalmente crianças, se vejo nossas estatísticas de educação no fim da fila entre todos os países do mundo, etc, etc.? Enfim, nossa condição e estrutura social não muda nunca. Não há de fato (não importa qual partido ou governante que ganhe eleição municipal, estadual ou federal) uma mudança estrutural, permanecemos quase o mesmo país extremamente desigual desde os tempos do Império. Os EUA, por ter parentes morando aí, seria minha primeira opção, mas, pelos pontos negativos tratados em seu post, acho que poderia minimizá-los se optasse pelo Canadá. Mas, antes preciso tomar alguns litros de um xarope chamado “Coragem”.

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    1. Olá Francisco! Obrigada por compartilhar sua opinião. Existem sim dificuldades, mas acho que sempre compensa. Primeiro precisamos aceitar que não existe lugar perfeito nesse mundo, as dificuldades variam mas nunca estamos a salvo delas. Se esse é seu sonho, vá em frente! Quanto ao Canadá, pouco posso falar a respeito mas tem mais semelhanças com os EUA do que diferenças. Boa sorte!

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  6. Gabi, eu gosto muito de ler relatos como o seu! É sempre válido pra quebrar estereótipos e pré-conceitos. Só vou deixar uma observação aqui: você vive em DC, região repleta de estrangeiros e população com alto nível de escolaridade. Em ambientes assim, as pessoas costumam ser menos preconceituosas e egocentricas mesmo. Mas os EUA são um país grande e o americano médio não é bem assim como esses de Washington não…

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  7. Ola Gabriela! Que leitura gostosa sobre mudar com filhos adolescentes! Tbm sou minoria! Cheguei ha 1 ano e 2 meses! Inicialmente morei em Dallas e cheguei ontem à Boston! Sim. Duas mudanças neste período pequeno e com nossa filha de 14 anos!!! Se eu faria tudo novamente? Claro! Se e difícil? Sim, e muito! Mas procuramos encarar esta experiência juntamente com as dificuldades, como crescimento! E tem dado certo! Adorei o blogue! Vou estar sempre por aqui! Bj

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