Aquilo que escondemos: nossa energia verdadeira

Pois é, nessa vida contemporânea, de redes sociais e exposição máxima, ficamos com a (falsa) impressão que conhecemos tudo e todos a fundo.

A Gisele Büdchen coloca fotos da cozinha dela e imediatamente já nos sentimos íntimos. O que falar então, das celebridades que enchem nosso dia de vídeos e histórias, mostrando até o momento em que escovam os dentes? Aquele colega, que você mal conhecia quando trabalhavam juntos, agora se exibe jogado no sofá, de calção de gosto duvidoso, assistindo Palmeiras e tomando cerveja….

Fico surpresa, em saber que a colega de escola da minha filha, tem milhares de seguidores e fica se questionando, ao vivo, sobre que cor deve pintar as sobrancelhas…. e por aí vai. O mundo em ebulição, guerras iminentes, líderes equivocados, corrupção impune, mortes inexplicáveis, etc. etc. e nós nos apegando ao molho que a Gabriela Pugliesi coloca no macarrão.

De 2016 para cá, isso parece que perdeu o controle. Até meu marido, que era um anti- mídia social convicto, fica grudado no feed do Instagram. E eu também! Basta ver as minhas mais de 2000 fotos. (Já curtiu? Já me segue?)

Acho que estamos todos sofrendo de uma espécie de contágio coletivo. Algo que vicia mais que morfina, e que nos mantém alienados e anestesiados. Além disso –  para mim isso é que é grave –  nos iludimos e acreditamos em coisas que funcionam somente em um clique e não, necessariamente, correspondem à verdade.

Sem querer bancar a erudita, mas a filosofia já antecipou o fenômeno e, através de séculos, vários autores se debruçaram sobre as necessidades e comportamentos humanos em seus meios sociais. Em 1967, Guy Debord, filósofo francês, publica o ensaio “A sociedade do espetáculo”. Eu confesso que estudei trechos e ainda não o encarei por inteiro, mas o que vi foi o suficiente para me deixar embasbacada. Seria Guy Debord, um Nostradamus reencarnado? Como ele pôde descrever, tão bem, a loucura que vivemos hoje, com mais de meio século de antecipação?

Deixo aqui um aperitivo, uma das frases do seu texto, que me provoca arrepios e que de forma  tão simples e genial, define a nossa sociedade atual:

“No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”

Sim! Estamos vivendo uma realidade invertida, um cotidiano às avessas. A vida, como é, está cada vez mais se tornando desinteressante e cedendo seu lugar às stories forjadas e cheias de filtros. Há filtros para tudo! Te rejuvenescer, fazer o sol brilhar em um dia que a praia está uma caca, afinar a sua cintura, colocar uma cara de palhaço que te deixa feliz, etc. O céu parece ser o limite. E assim, criamos intimidades falsas, com pessoas e vidas falsas. As consequências, têm sido por hora, uma série de sentimentos equivocados, distorcidos e doloridos.

Um dos que mais andam em alta: inveja! Quem nunca a sentiu? Você está, embaixo da chuva e de cachecol, há mais de 8 meses, e vê a recepcionista da escola que você frequentou em 1980, tomando sol na praia, sob um céu azul e caipirinha na mão. Dá para não sentir inveja?

Abriram-se também as portas do inferno! Somos constantemente invejados, e até odiados, simplesmente porque mostramos que temos um jardim bonitinho. Amigos se afastam e semi-desconhecidos mandam comentários irônicos e agressivos. Que fase!

Outras vezes, ao contrário, nos sentimos tão privilegiados, que chega a provocar um incômodo. Isso acontece quando você vê a espinha gigantesca no meio da testa, da Luana Piovani, que tentando se fazer de descolada, fotografa em close o seu infortúnio.

E assim o tempo vai passando e esses feeds vão nos assombrando. Alguns inspiram, muitos incomodam e outros tanto aborrecem, de tão chatos que são.

Não percebemos que a vida também está passando. Enquanto me distraio no celular, deixo de notar o passarinho azul que pousou no meu gramado.

Esse distanciamento, do que é real, certamente trará consequências. Não sei ainda quais serão, mas agradeço a dica de amigos bem informados, que possam me indicar autores mais atuais que já estão fritando no assunto.

Só tenho a certeza de que o mundo não para. As estações continuam se modificando, meus cabelos ficando cada vez mais brancos e o tempo, implacavelmente, correndo rápido.

A minha vida não é perfeita, meu jardim nem sempre está florido e também não sou imune a problemas e preocupações, de toda ordem. Vida perfeita, somente a da Cinderela, depois que se casou com o príncipe, mas assim mesmo, será? Ninguém nunca escreveu a parte 2 da história…

Somos humanos, somos falíveis e somos frágeis, sujeitos a ventos e trovoadas, e também momentos de calmaria. Ufa!

Se eu fosse o Zuckerberg, tratava logo de criar mais um aplicativo. Que fotografasse em tempo real a nossa aura, a nossa energia pessoal. De forma realista! Já imaginaram? Seria um exercício maravilhoso, para nos policiarmos e controlarmos o fluxo de nossas emoções e pensamentos. Pararmos de desejar, ainda que inconscientemente, o mal àqueles que estão “aparentemente” felizes. Sermos gratos, mesmo quando há uma pilha de louças na pia. E mais do que tudo, resgatarmos a simplicidade da vida. Aquilo que cotidianamente importa, e não é digno, ou espetacular o suficiente, para ir parar nos posts do Instagram.

Viram só? Lancei a ideia. Se algum gênio resolver investir a fundo e capitalizar, fique a vontade, só se lembre de me mandar o crédito ok?

Beijos e boa vida real pra todo mundo!

 

 

 

Anúncios

E essa chuva que não passa?

Bom, viver é adaptar-se. Nunca pensei que essa seria a regra da minha vida. Já perdi a conta a quantas adaptações fui submetida desde dezembro de 2014, quando fechei as portas da minha casa e embarquei para os EUA.

De lá, para cá, já morei em 6 (SEIS) casas diferentes. Virei uma expert em embalar e desembalar objetos e chorar de desespero tendo que organizar uma casa do chão ao teto – de novo – sem ajuda.

Isso cria na gente uma alma cigana, uma espécie de desapego constante, ou talvez um trauma: não posso gostar, não posso me envolver, porque a qualquer momento, tenho que deixar tudo para trás. Não é fácil, desde o aspecto emocional e cabeludo da coisa, até às bobagens do cotidiano. Dia desses, me peguei desesperada na cozinha, procurando pelo espremedor de limão, que eu tinha certeza que estava na gaveta X. Sim, estava. Mas na última casa que morei, não nessa.

Pode parecer bobagem, mas estressa e irrita. Textos e posts inspirados adoram dizer e falar sobre desapego, olhar o copo meio cheio, aceitar, blá-blá-blá, como se fossem coisas fáceis de se atingir. Confesso que isso anda me agoniando! A verdade é que, acabam  trazendo ainda mais fardo sobre os meus ombros, pois se não me adapto a culpa é minha, de novo.

Pois bem, estou já há quase oito meses em Seattle. Uma cidade completamente diferente da última que morei, parece até que mudei de país. Se não fosse pelo Starbucks e o Wallgreens, me lembrando a toda hora que estou na América, poderia pensar que mudei para outro planeta.

A cidade tem um milhão de vantagens, se eu fizer uma lista de prós e contras, tenho certeza que as qualidades vencem. Comida maravilhosa, cafés espetaculares, parques lindíssimos, lagos por todos os lados, pessoas simpáticas, senso de comunidade, etc.

Mas tem a chuva, e ela é cruel. Incansável. Não tem praticamente um dia, desde novembro, que ela não apareceu. Nem que seja por alguns minutos, ou algumas gotas. Falta sol, falta cor, falta o brilho das coisas e também das pessoas.

Tudo é perfeito, que nem frutas de cera em uma bandeja. Mas cadê a vida? Essa é a minha sensação. Me obriguei a me olhar no espelho. Não esse, que fica no banheiro, em cima da pia, mas no espelho da alma, mergulhar dentro de mim e tentar entender o porquê de tanta insatisfação. Coitada da cidade, que se esforça tanto para ser cool e diversificada, a culpa não é dela. Nem da chuva.

O que está me faltando são os pedaços de mim, que fui obrigada a largar pelo caminho, com tantas mudanças. Larguei a estudante de crítica e curadoria, larguei a dançarina de flamenco, larguei a mulher chic de almoços com amigas no Shopping Iguatemi, larguei a prima divertida, que fazia festas e churrascos animados em casa, larguei a rata de praia, que descia a serra todo santo final de semana, larguei a dona da galeria virtual, projeto que sonhei tanto. Larguei a aluna de inglês na aula super diversificada de Fairfax, larguei a espectadora voraz de museus e exposições, larguei a exploradora de vinícolas de final de semana, larguei a voluntária da biblioteca, etc. etc.

Ser imigrante é virar uma cebola. Sem glamour e sem luxo nenhum, vamos nos descascando, vamos nos desfazendo e trocando de pele o tempo todo. Creio que aos vinte anos, deve ser maravilhoso. Aos 40, nem tanto! Cansa e eu estou sentindo esse cansaço.

O inverno não acaba, já estamos em meados de abril e o termômetro mal consegue chegar nos 10C. A chuva e o cinza continuam, mas temos o colorido das flores. (Primavera em Seattle é um espetáculo! Muita chuva, lembram? As flores amam…)

Isso cria um tempo, interminável de reflexões e elocubrações, nem sempre positivas.

Esse texto não é inspiracional, é um desabafo. Tem dias que é exaustivo tentar se manter forte e positiva.

Estou com saudades, de todas as Gabrielas que ficaram no caminho. Mas não desisto, continuo procurando preencher todos os buraquinhos que elas deixaram. Escrevo, porque tem coisas em mim, que só saem por escrito e mergulho na arte, minha salvadora de todas as horas.

Aqui em Seattle, apareceu a Gabriela que ama pintar a óleo, faz uns desenhos ridículos, mas está caminhando. Para onde, não tenho a menor ideia, afinal, pode ser que a vida me mova de novo, a qualquer momento.

O negócio é seguir o mantra budista e viver um momento de cada vez. O meu agora é, enrolar o cachecol no pescoço e colocar o casacão de chuva para encarar a rua, afinal esse texto-desabafo me atrasou para o meu compromisso…

Fazer o quê? A vida não para. Sigamos….

 

 

 

 

Meu amor por você… São Paulo!

Ah São Paulo….cidade onde passei 39 anos da minha vida. Cresci em um bairro tradicional e histórico: Ipiranga. Lá encontrei as amigas que são para sempre, apesar de não nos vermos há algum tempo já.

Infância na rua, brincando com meus primos e enlouquecendo as freiras do colégio que eu estudava. Não tinha muita ideia da imensidão da cidade, porque meu mundo se resumia às padarias do Ipiranga, onde adorava ir com meu pai, tomar café da manhã e esperar o frango de televisão ficar pronto para o almoço.

Só aos 17 anos entendi essa cidade. Entrei na faculdade, do lado oposto, extremo da zona oeste! Cruzava todos os dias, do Ipiranga ao Butantã de transporte coletivo: ônibus e metro. Quanta gente diferente, quantas coisas no percurso de duas horas. Aprendia tanto, ou mais do que na sala de aula…

O tempo passou e tanta água rolou por debaixo das pontes do rio Pinheiros e Tietê.

Brooklin, Higienópolis, Consolação, Jardins, Vila Mariana, Pinheiros, Santo Amaro, Lapa, Perdizes, Morumbi, Sé, Aclimação, Vila Prudente, Vila Madalena, Barra Funda…. um bocado de bairros se somaram ao meu repertório. Cada um sendo quase um universo particular.

Problemas, assaltos, descaso. Comecei a odiar e reclamar, muito! Achei que eu e São Paulo estávamos quites. Chega! Vou me embora, não para Passárgada, mas pra Washington DC mesmo.

Já fazem 3 anos e nem em DC estou mais. Agora vivo no Acre americano, Seattle, um canto no extremo noroeste americano, mas que pretende ser e agir como uma cidade cosmopolita, cheia de tecnologia e modernidade, mas um pouco carente da diversidade e da energia que faz da Pauliceia algo tão único!

Nem em Nova Iorque é possível encontrar essa magnitude urbana – desculpa aí Douglas 😉

Penso que não sou do Brasil, sou de São Paulo. Essa terra do concreto e da feiura, que carrega uma mistura explosiva de todos os cantos, carregada de brasilidade. Eu sei, é confuso mesmo.

Não tinha ideia do quanto já era familiarizada com a cultura japonesa, goiana, italiana, mineira, espanhola, alemã, baiana, recifense, curitibana, catarinense, haitiana, francesa, manauense, árabe, judaica…  Nos limites dessa cidade cabe o mundo!  Obrigada São Paulo, por me preparar. E ah, São Paulo, como te odeio. Porque você me deixou mal- acostumada e em nenhum canto do mundo encontrarei o que você me proporcionou.

Saudades do seu caos, minha amada terra! Foi preciso perder-te para ver o quanto é gigante e generosa.

Quem sabe, um dia, não nos encontramos novamente?

Arte salva. Sempre.

Muitas vezes é preciso darmos um passo para trás, ou nos afastarmos um pouco para ver as coisas em perspectiva. Foi o que fiz nessa semana difícil, talvez uma das piores do ano, onde dois fatos aparentemente distintos, me tiraram o chão.

O primeiro foi a imensa polêmica do Museu de Arte Moderna – O MAM – em S. Paulo.

Multidões em fúria passaram a agredir até fisicamente todas as instituições culturais, que segundo suas óticas distorcidas, são compostas de gente deturpada, praticantes de pedofilia, zoofilia e outras tantas atrocidades. O motivo disso tudo? Um homem nu.

Quem cresceu nos anos 80, como eu, deve se lembrar da abertura da novela Brega e Chic das 7:00 pm da Rede Globo, onde um homem pelado ficava de costas mostrando a bunda. Ou então da Xuxa, Mara e Angélica, com seus vestidinhos curtos e super-erotizados. Isso sem falar na Tiazinha, figura explícita que incitava práticas sadomasoquistas na TV aberta.

Isso nunca chocou, como também nunca chocou o carnaval da Globeleza pelada, as piadas machistas dos programas humorísticos ou o pai de família falando no almoço de domingo: meu filho tem que ser comedor!

Por que isso agora? A resposta é: nos tornamos todos, massas de manobra.Por trás desse moralismo repentino está uma entidade poderosa e perigosa, querendo evangelizar o país. Sem perceber, até os descrentes passam a compartilhar vídeos com mensagens subliminares a respeito de ódio e discursos de nós contra eles. Não é mais possível nesse país dividido, defender qualquer linha progressista, sem ser acusado de esquerdopata, comunista, petista, etc.

E a Arte? Que papel ela tem nessa celeuma toda? Aqui vai a minha crítica. Involuntariamente a arte contemporânea brasileira é também responsável por esse maniqueísmo. Para quem já vivenciou o circuito paulistano de arte, sabe muito bem que é um clube fechado, para poucos. A arte brasileira não é inclusiva! Existem maravilhosas iniciativas pelas periferias do brasilsão afora, existem geniais artistas produzindo a duras penas em seus ateliês improvisados com pouquíssimos recursos e apoios nulos. E a triste constatação, a visibilidade dada a eles é zero!

O establisment da arte brasileira não lhes dá espaço. Prefere navegar nas águas seguras dos cânones, dos consagrados. E dá-lhe releitura, reinterpretação, etc. etc. O Panorama de Arte Brasileiro, até onde eu saiba, era responsável por trazer à tona as novidades da arte brasileira, um cenário amplo da produção atual nacional. Mas a curadoria resolveu ir para o caminho mais fácil, que fala a língua dos colecionadores. E lá vamos nós de Lígia Clark, em uma performance, na minha opinião equivocada. Veja bem: não me refiro aqui à moralidade ou ao fato de mãe, filha, homem pelado, etc. Isso passa longe da minha discussão. Me refiro a uma interpretação rasa de um trabalho magnífico, que são os bichos.

O momento foi péssimo! As águas da ignorância ainda estavam fervendo por conta do Queermuseum e aí foi só questão de minutos para se abrirem as portas do inferno. O brasileiro médio, que tem sua vida cultural pautada nos programas televisivos de domingo, passou a ser crítico raivoso de arte contemporânea. Arte que ele nunca ouviu falar, arte que nunca lhe foi apresentada!

Ressalto aqui que o ingresso do MASP custa R$30,00, que as feiras de arte, patrocinadas com leis de isenção fiscal, custam R$40,00. Que as galerias paulistanas estão longe de ser os lugares mais simpáticos e acolhedores para uma visita de final de semana, para aqueles que não tem como comprar trabalhos de milhares de reais. Enfim, muita água nesse caldo.

A classe artística em peso se posicionou veemente e eu aplaudo essa iniciativa! Porém ao mesmo tempo me pergunto, que ações foram feitas ao longo de todos esses anos no intuito de incluir, de agregar essa horda marginalizada pela elite cultural?

O curioso é que certamente muitos de meus colegas do meio artístico me chamarão de retrógrada e careta por essa crítica, ao passo que familiares e conhecidos me excluirão para sempre de suas vidas por eu ter me tornado uma “esquerdopata”.

Entendem como a saída está difícil?

Viro a página e sinto sangrar meu coração ao som dos tiros de Las Vegas. Minha dor aumenta, quando vejo parentes e amigos defendendo o porte de armas, a defesa do cidadão de bem.

Parece que são mundos distintos, mas na verdade fazem parte da mesma moeda. As melhores lições que recebi na vida sobre humanidade, respeito, liberdade, tolerância, diversidade, amor, etc. etc. foram em museus e exposições de arte.

Arte, desde os tempos da caverna, é o caminho que nos leva a entender o passado e a desenhar o futuro. Arte é o que melhor atinge a nossa sensibilidade humana, que nos difere de todos os outros mamíferos. Arte é o que nos mostra que a violência das ações e reações não serão nunca o melhor caminho. Arte é sempre a primeira coisa a ser banida em sociedades autoritárias e cruéis. Por que será?

Vamos refletir juntos, vamos expandir nossa humanidade para além das crenças moralistas e rasas que querem nos infringir. Vamos fugir das respostas prontas e baratas, como o fechamento de um museu ou o armamento de uma população.

Vamos ser inclusivos, vamos ser tolerantes, vamos amar ao próximo para além de nossas diferenças. Esse é o único caminho, e não me parece tão difícil. Que tal tentarmos?

Arte salva. Sempre.

 

PS: dedico esse texto aos brilhantes artistas e curadores brasileiros, que produzem sem parar, mesmo que não tenham reconhecimento ou espaço, nem dentro da cena de arte estabelecida, nem entre seus familiares e conhecidos, que desconhecem o brilhantismo dessa luta! Eles sabem quem são ❤

 

 

 

Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

Maternidade – um banho exagerado de doçura

Ainda é maio e me permito continuar pensando na data mais melosa do calendário: o dia das mães e seu excesso de amor e doçura.

Aqui nos EUA a comemoração coincide com a do Brasil e somos sufocados por todos os tipos de apelos publicitários. Além disso, somos obrigados a lidar com a enorme pressão que vem das mídias sociais. Não basta ser filho, não basta ser mãe. Faz parte do jogo da vida contemporânea expor ao máximo nossas intimidades, numa espécie de competição velada: quem teve o dia das mães mais bonito? Quem demonstra mais o seu amor? Quem é a mãe perfeita?

Ok, sei que que estou sendo insuportável, mas é que ando cansada desse vácuo existente entre vida real e vida virtual. Não pensem que me excluo dessa onda: basta ver meu perfil no Instagram.

O problema é que tudo isso gera uma demanda por perfeição. E nós, seres humanos complexos, estamos longe, bem longe de sermos plenos e cheios de filtros como mostra a vida do facebuki.

Ser mulher implica em tantas escolhas e ser mãe é apenas uma delas – ou não. Eu, por exemplo, não escolhi ser mãe. Fui surpreendida aos 17 anos de idade e embarquei na aventura. Recebi minha filha de braços abertos com o máximo de cuidado e responsabilidade cabíveis em uma menina de 17 anos. Errei, sofri, acertei, perdi e ganhei. Não foi uma estrada fácil, aliás não é e não será nunca. Mas acho que gostei da brincadeira e quis repetir. Oito anos depois me planejei com tudo que tinha direito e fui mãe novamente, dessa vez com marido, casa e enxoval personalizado.

A família parecia completa e finalmente achei que era o momento de sossegar e investir em tantas coisas que tiveram que ser adiadas. Mas quem disse que somos nós que planejamos a vida? Veio mais um bebê para a conta, sem aviso prévio! Eu era já uma mulher experiente de 30 anos e ainda assim engravidei de novo, no susto.

Depois disso nem preciso dizer que meu marido correu e fechou a fábrica definitivamente!

Mas para que digo tudo isso? Eu sou a prova viva que ser mãe às vezes, independe da nossa vontade. Quando era adolescente e inconsequente, ok, até é esperado uma gravidez indesejada, mas e depois? Quando já era uma balzaquiana?

Claro que poderia optar por não ter, mas eu pessoalmente, já sinto a vida pulsando dentro das minhas entranhas no primeiro exame de sangue e isso para mim Gabriela, não seria uma opção que eu fosse capaz de encarar.

Não julgo quem o faça! Respeito e acho que da vida e do corpo de cada um, ninguém -nem presidente, nem papa, nem pastor – tem direito de meter a colher. (Alerta de tema ultra polêmico! Espero ter deixado bem clara minha posição…)

Só acho que nós mulheres merecemos um descanso verdadeiro dessa sublimação toda. Entendo as mamães de primeira viagem e seus encantamentos descomunais. Entendo as relutantes em ceder à maternidade, entendo as que amam um playground, como admiro as que detestam e preferem mil vezes viagens de negócios.

O que não entendo e que já encheu a paciência é essa necessidade insuportável de se definir tudo em moldes e regras.

Claro que isso faz parte da natureza humana, mas de uns tempos pra cá, com a vida virtual democratizando todo e qualquer achismo, está ficando muito chato.

Tem manual para tudo! Parto normal? Que absurdo! Parto cesariano? Que anti-natural! Papinha orgânica? Coisa de vegano chato! Saquinho de doritos no lanche escolar? Essa mãe deveria ser processada!

Desde quando permitimos tantas “verdades” embasadas em achismos nas nossas vidas?

A vida passa e rápido! Minha filha mais velha já tem 24 anos. Cresceu dançando Carla Perez e comeu muito miojo. Hoje revejo certas escolhas e provavelmente faria diferente, mas ela sobreviveu! Tem um conhecimento absurdo sobre arte e se alimenta com um cuidado impecável. Não virou “funkeira” nem comedora compulsiva de Big Mac. E mesmo se fosse assim, qual o problema?

Estamos nessa vida em um mesmo barco, cuja única certeza é um fim cada vez mais próximo. Por que então tanta energia gasta em julgamentos, achismos e uma disputa louca por verdades absolutas?

Sou mãe e gosto do meu papel. Isso não significa que às vezes eu não me ressinta por não ter dedicado mais tempo à uma carreira profissional. Isso não quer dizer o quanto às vezes preciso e amo estar sozinha, sem ninguém dependo de mim. Somos uma montanha russa de emoções, sentimentos e vontades e deixar que outros nos ditem caminhos é o maior desserviço que poderíamos fazer por nós mesmos.

Acho que mais do que nunca, com o mundo gritando por ajuda, é preciso que a maternidade resulte na formação de adultos conscientes e preparados para as adversidades, porque vou te dizer uma coisa: do jeito que caminham as coisas a vida não dará tréguas nem sossego para as próximas gerações.

Errem, acertem, experimentem e não acreditem em fotos ou cenas perfeitas de “my stories”. A vida é infinitamente maior e mais surpreendente que isso.

Vamos em frente com mais realidade e menos virtualidade. O que você acha?

 

 

 

As pequenas grandes mentiras…

Me faltou ar. Fazia tempo que um filme, ou série de televisão tivesse esse impacto em mim. Estou falando de Big Little Lies.

Essa micro-série da HBO que se encerrou ontem, foi gloriosa em suas escolhas. A começar pelo elenco afiadíssimo, sobretudo Nicole Kidman no papel mais marcante de sua carreira. Esse show foi baseado em um livro da escritora australiana Liane Moryart. Eu já havia lido uma obra da mesma autora há anos atrás e já havia me impressionado com sua capacidade precisa de tratar de temas densos.

A identificação foi imediata. Também já fiz parte de um grupo de mulheres parecidas, na faixa dos 40 anos, com filhos frequentando a mesma escola e com as vidas aparentemente idílicas. Casas bonitas e casamentos perfeitos.

Quantas são as mentiras que escondemos dos outros atrás das nossas máscaras de perfeição? E o mais grave, quantas são as mentiras que escondemos de nós mesmos, querendo sempre nos auto enganar que estamos a salvo dos problemas?

Por trás de famílias bonitas no Facebook,  viagens sensacionais no Instagram e rotinas impecáveis existem camadas obscuras de realidade que nem sempre vêm à superfície.

Não se trata de uma situação específica que acomete apenas uma classe social, mas se trata da nossa frágil humanidade. É isso que me encanta. Por baixo de máscaras estamos todos, igualmente, enfrentando a vida, fazendo-nos equivalentes, apesar de toda e qualquer diferença.

O tema central da série é a violência doméstica e os relacionamentos abusivos. Os danos podem ser imensuráveis e irreparáveis, não à toa que parece que vivemos em um ciclo, onde a violência sempre se repete, de pai para filho, condenando nossa sociedade a uma recorrência de sofrimento eterno.

Quase sempre o lado frágil da moeda é o feminino. Estamos em 2017, quase na segunda década do século XXI e ainda assistimos passivamente à subserviência feminina.

Eu cresci em um ambiente abusivo. Ainda guardo fresco na memória o comportamento agressivo de meu pai dirigido a mim e a minha mãe. São ecos de memória que me acompanharão para sempre, infelizmente.

Quis o destino que eu fosse mãe de três meninas de dois pais diferentes, mas ambos amorosos e respeitosos com suas mulheres. Ainda assim, um medo inconsciente me persegue, será que minhas filhas terão a mesma sorte, de viverem relacionamentos saudáveis e livres de agressões físicas e psicológicas?

Considerando os avanços da luta feminina, a essa altura do campeonato, essa questão já nem deveria ser considerada. Tal qual como pensarmos nos perigos da Peste Negra, que dizimou a Idade Média,  em dias atuais. Mas, trata-se de uma realidade cruel e palpável.

Ano de 2017: os EUA elegeram um homem para a presidência da república, que se gabou publicamente de tocar mulheres pela vagina, sem o consentimento delas. Que entrava, sem permissão e sem medo em vestiários femininos, onde adolescentes se trocavam.

Ano de 2017: famoso ator global sexagenário assedia e agride verbalmente assistente de figurino da rede globo. Repercussão: silêncio. Nem as mais ativistas artistas dentro da rede mencionaram uma palavra.

Ano de 2017: mulheres continuam a se boicotar. Sofrem assédio sexual violento em festas de carnaval nas ruas do Brasil, e ainda são criticadas publicamente por outras, como se fossem responsáveis por tal violência.

Chega! Estou esgotada…. Não aguento mais tamanha hipocrisia. Não aguento mais.

O mundo ainda é um lugar muito hostil às mulheres. Até quando?

Se você faz parte daquele grupo, que se reúne com amigas para sempre julgar e condenar comportamentos femininos alheios, sinto te dizer, você também é responsável por essa violência.

Comentários como: Por que ela se veste assim? Por que ela trabalha fora e deixa os filhos? Por que ela se acomoda e vive às custas do marido? Por que ela é desleixada? Por que ela é tão vaidosa? Por que ela namora tanto? Por que ela é tão pudica? Por que ela é bem sucedida? Por que ela não faz nada?  etc. etc. etc.

Podem parecer inócuos, mas servem de combustível para a mulher ser sempre subjugada dentro da sociedade.

Já escrevi aqui sobre o drama da violência contra a mulher, que atinge mulheres em todo mundo, de todas as classes sociais.  Eu repetirei incansavelmente: essa condição poderá mudar quando mulheres se enxergarem como aliadas. Quando mulheres se levantarem em defesa de outras, deixando para trás a superficialidade das competições, ciúmes, invejas e recalques.

Abro meu coração, minha alma e meu tempo para quem quiser se dedicar a essa causa de união e valorização sincera da condição feminina. Ao mesmo tempo, fecho as portas definitivamente para quem só pensa em julgar, boicotar, agredir e fofocar.

Só existe uma saída e isso o show Big Little Lies mostrou lindamente nas cenas finais: juntas somos mais fortes e invencíveis.

Vamos dar, finalmente, as mãos?

http://www.hbo.com/big-little-lies/about/video/trailer.html?autoplay=true

 

 

 

 

 

Que venham as flores….

Já chegou a Primavera por aqui e essa será a minha terceira desde que deixei o Brasil. Engraçado, tenho 41 anos e só passei a apreciar e esperar pela Primavera desde que vim para cá. Claro que o inverno longo e monocromático, é um dos grandes responsáveis por isso, mas não quero atribuir essa espera somente ao frio do norte.

Eu mudei. Não só de endereço e país, mas mudei algo dentro de mim. Não me atrevo a dizer que foi para melhor, porque isso seria ser simplista demais. Nunca gostei de resumir as coisas entre isso ou aquilo.

Fiquei mais reflexiva e com isso perdi um pouco da leveza. Explico: no conforto da minha terra e da minha língua era muito mais fácil ser comunicativa. Podia falar o que pensava, usar as referências todas da minha infância, as piadas internas da minha geração, que todo mundo saberia o que eu estava querendo dizer.

Aqui tudo passa por um filtro. Primeiro o da língua…como traduzir meus pensamentos e ideias em inglês? Depois o comportamental e social, qual será a reação, saberão entender o que estou falando? E finalmente o da relevância, pois já que tudo tem que ser pensado e mastigado, sempre penso se vale a pena tal esforço e muitas vezes opto simplesmente por me calar.

Conseguem perceber como pode ser exaustivo? Claro que isso muda algo dentro de você. E não é só isso…

Viver imersa em outras culturas e valores me fez me questionar o tempo inteiro quais são os meus verdadeiros valores. O que me move? O que  é importante para mim?

No Brasil gostava de comprar sapatos. Ok, sei que é um exemplo frívolo mas serve bem para ilustrar. Ter um sapato novo em um almoço com as amigas, ou em um compromisso de trabalho era sempre um motivo a mais para uma conversa, mesmo que fosse das mais fúteis: uau! Que sapato bacana!

Aqui eu experimento a sensação de ser transparente. São tantas pessoas, de tão diferentes lugares e com tão diversas bagagens, que você se torna apenas mais um. Todos parecem que olham através de você. Me sinto uma parede de vidro, que ninguém  nota, quanto mais olha para os meus sapatos.

Saindo dos sapatos e partindo para algo muito mais substancioso como a vida, percebo que de onde vim (São Paulo) há uma pressão constante pelo “parecer”. A lista é infinita, vai desde ter o carro mais sofisticado ao comportamento descolado de só usar bike e carregar uma sacola reciclável.

Estamos sempre querendo pertencer, seja ao grupo da escola, do trabalho ou dos amigos. A sociedade que nos molda, parece exigir isso de nós. Quando somos recolocados em um meio desconhecido ao nosso e ao qual, definitivamente NÃO pertencemos, experimentamos uma liberdade gigante de finalmente ser o que quisermos.

Isso é bom. E muda muito nossos conceitos. Não é privilégio de um país de primeiro mundo. Novamente vamos fugir da tentação de banalizar as coisas. Trata-se apenas de uma das vantagens de ser estrangeiro.

Digo isso porque noto os mesmos comportamentos equivocados de tentar pertencer, que eu via e fazia em S. Paulo, dentro de pessoas que nasceram aqui, ou foram criadas aqui nos Estados Unidos.

Isso é tão curioso percebem? Conseguimos ser mais livre e mais autênticos dentro de grupos que desconhecemos, mesmo que a gente se sinta extremamente desconfortável, com a língua, com os hábitos, com a cultura…

A intimidade cobra um preço alto: o de sempre representar o papel que esperam que a gente faça. Imagine aquela festa de família, que te deu mais trabalho para escolher o que vestir do que qualquer outro evento, afinal o que sua tia e seus primos iriam pensar….

Dito isso, vou para um outro ponto. Viver fora NÃO nos faz melhores. Leio e escuto infinitos depoimentos de ex-patriados e em todos há sempre aquela pitada de arrogância: “ah, como hoje eu sei muito mais do que aqueles que ficaram na mesma”.

Eu também caí nessa armadilha. Mas o deslumbramento se esvai depois de três anos (no meu caso) e começa a se formar uma ideia mais realista: Eu não melhorei, eu não evoluí. Eu apenas fui exposta a novas experiências que transformaram meu modo de pensar e confesso, a Gabriela de antes me faz uma falta imensa.

É difícil lidar com a ausência de nós mesmos, com aquilo que fomos e acreditamos um dia e hoje não mais. Dói se sentir um peixe fora d’água em grupo de antigos amigos e parentes, onde nada daquilo, nem mesmo as piadinhas de sempre, parecem fazer sentido.

Como tudo, a realidade não é plana, é cheia de curvas, subidas e descidas e determinar as coisas entre branco e preto é um engano lamentável que estamos sempre cometendo.

A vida é cíclica, como as estações. Muitas vezes é preciso paciência para esperar o tempo certo das coisas. E assim volto à primavera e a metáfora do que ela representa: renovação.

Viver aqui, nesses dois anos iniciais foi como atravessar um inverno rigoroso, com surpresas desagradáveis e um frio que não passava, causado pelo desconforto da solidão e a saudades de tudo que me era familiar. Estou finalmente pronta pra podar meus galhos e deixar a Primavera entrar de novo em minha vida, anunciando uma nova fase.

Terei que abrir mão de muita coisa (mais ainda do que já tive), mas tudo com a esperança de me ver renovada e cheia de cores novas. Viver, pode ser sim, uma delícia! A gente só precisa ter coragem para jogar fora o que não serve mais e abrir o peito e o coração para uma nova estação.

Que venham as flores… 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Get out! Sobre a cor da nossa pele e outras coisitas mais….

Fui, meio a contragosto, assistir ao filme Get Out com as minhas filhas. Filmes de terror nunca foram meu forte, mas mesmo assim resolvi encarar e que ótima decisão!!

Em um ano histórico, com uma das maiores premiações da história do Oscar a filmes estrelados e produzidos por afro-americanos, além de histórias que abordam a questão racial no país, Get Out passou completamente despercebido. (Confesso que ainda não assisti à Moonlight, grande campeão…). Mas está se firmando como um dos maiores sucessos de bilheteria e crítica dos últimos tempos, já que despretensiosamente, usou o plot do terror/suspense, para ir a fundo sobre a maior cicatriz americana: preconceito racial!

O filme é escrito e produzido por um afro-americano e a história se resume a um casal interracial (ele negro, ela branca) que resolvem passar um final de semana na casa da família dela, em um típico subúrbio rico americano. Mais não posso falar, porque estragarei a surpresa.

Mas, sem escorregar nos “spoilers” e deixando de lado o tom espetacular de produções de suspense, o filme questiona muitíssimo bem o quanto ainda os EUA é um país claramente divido pela cor de pele, com os brancos usando de todos os meios para afirmarem seu poder.

Saindo do mundo mágico do cinema e embarcando na vida real, posso tentar definir o que estou dizendo a partir da minha experiência pessoal. Ouvi recentemente de um americano: “não se preocupe com o novo governo, você é branca, pele e olhos claros, e isso é um passaporte de segurança”.

Poderia até ser engraçado se não fosse trágico e a pessoa em questão, não estava sendo irônica ou agressiva, mas simplesmente falando a verdade: americanos tem um sério problema com tom de pele! Chega a ser patético, além de uma ignorância profunda. Parentes meus, por exemplo, com a mesmíssima descendência, por terem a pele mais escura já não seriam considerados brancos por aqui…

Acreditem, ser latino, muçulmano, ou ateu, só será um problema se a sua cor for mais escura. O tom da pele, vem antes de qualquer coisa nesse país, e por mais que me digam o contrário, isso é o que vejo na prática. Cidadãos afro-americanos ainda sofrem tanto quanto imigrantes não documentados. Para a supremacia branca que domina os EUA, os verdadeiros donos dessas terras são os brancos e ponto final.

Se falarmos em questões burocráticas, onde é preciso ser documentado, saibam que para quase qualquer  dessas coisas (escolas, consultórios médicos, vagas de emprego, etc.)  que você fizer nos EUA, antes de tudo é preciso responder a um formulário, onde a primeira questão é qual sua raça e origem. Latinos e hispânicos por exemplo, não são considerados “white”, mesmo que sejam descendentes de alemães com olhos transparentes e pele rosada. Somos antes de qualquer coisa, definidos pela nossa raça e isso explica muito dos valores da cultura norte-americana.

Há 8 anos atrás, o mundo se encheu de esperança, ao assistir à uma família negra assumir a Casa Branca. Infelizmente o tempo passou e apesar de algumas mudanças significativas, o preconceito continua forte e enraizado e voltou com uma força assustadora depois da campanha e posse de D. Trump. Organizações tenebrosas como a Ku Klux Klan estão mais fortes do que nunca, tendo inclusive membros atuando em papéis primordiais  dentro da nova administração política.

Depois de um tempo de respiro, o mundo parece retroceder e entrar de novo em um ciclo de ódio e intolerância.

O que salva, como sempre é a arte! Seja a cinematográfica e hollywoodiana, como vimos esse ano, com produções super engajadas, ou seja a arte visual, com artistas bravos e persistentes que não desistem de lutar por essas questões.

Um exemplo magnífico disso é uma série recente de Adriana Varejão, na minha opinião a maior artista brasileira da atualidade.

Chama-se Polvo.

Adriana encomendou a um grupo de retratistas chineses vários retratos seus pintados a óleo, e aqui já temos uma questão suculenta sobre reprodutibilidade e autoria, que nem irei abordar agora…

Depois ela fez inúmeras intervenções, valendo- se de uma paleta de cores de pele desenvolvida por ela mesma, mostrando a diversidade de tons da raça humana. Além disso, Adriana, nomeou essas cores a partir de pesquisas com brasileiros, perguntado como que definiam a sua cor. Os nomes chegam a ser hilários como : “burro quando chove”, “encerada”, “fogoió”, “queimada de sol”, etc.

Inegável que o Brasil também tem um ranço racista extremamente forte, pois assim como os EUA carrega o carma nojento da escravidão. Contudo, brasileiros levam de forma mais leve essa questão e ainda não sei se isso pode ser considerado uma vantagem, deixo isso para os mais letrados no assunto…

A proposta de Adriana é justamente essa, nomear cores para além das definições biológicas, que chegam a beirar a desumanidade, como mencionei sobre os formulários americanos. O resultado é forte, belíssimo e reflexivo, como todos os trabalhos dela.

A série foi exibida no Galpão Fortes Vilaça em S. Paulo e na Lehmann Maupin Gallery em Nova Iorque.

380067-970x600-1
Adriana Varejão – Polvo.  Fotografia Folha de S. Paulo
Dei tantas voltas para dizer, será que seremos sempre definidos pelo tom da nossa pele ao invés do nosso caráter e valores? Precisaremos nos sentir ameaçados por gritos de Get Out, só porque nossa cor não se adequa a padrões estabelecidos sabe-se lá por quem? Até quando?

Obrigada por ler até aqui, comente, compartilhe e vamos enriquecer essa discussão. Até a próxima 🙂

 

 

 

 

 

 

Blog no WordPress.com.

Acima ↑