Sou brasileira.

 

Sou brasileira. Paulistana, nascida e criada na capital. Cidade em que vivi por 39 anos. Sou brasileira. Quando cheguei à capital americana, de mala e cuia no inverno gelado de 2014, senti meus ossos tremerem, de frio, de medo. Sou brasileira. Enfrentei uma língua que não dominava muito bem, enfrentei sozinha, o pânico de minhas filhas em seus primeiros dias de aula, cobertos de neve e ausentes de sorriso e gentileza. Sou brasileira. Chorei várias noites, encolhida no armário de casacos, com saudades do calor, da comida, dos amigos e das conversas. Sou brasileira. Assisti encantada a políticas de inclusão feitas pelo melhor presidente da história, um negro que honrou a Casa Branca. Sou brasileira. Senti pânico e dor de barriga, quando vi bandeiras que lembravam às do Reich Nazista tomarem conta dos belíssimos monumentos históricos de Washington DC, na inauguração presidencial de 2016. Sou brasileira. Me comovi e me identifiquei com os relatos assustados de mulheres imigrantes, refugiadas e sozinhas, nos meus encontros semanais de inglês. Sou brasileira. Segurei na mão de uma menina de El Salvador e levei ela, sua mãe e seus irmãos pequenos para casa, em um dia de frio e chuva, onde eles não tinham sequer roupas adequadas. Sou brasileira. Desenhei cartazes de protesto com minhas filhas e juntas nos unimos a milhares de outras mulheres pelas ruas, de Nova Iorque e Seattle, contra as decisões equivocadas do presidente Trump. Sou brasileira. Engoli o choro e tentei mudar de assunto, quando a caminho da escola, ouvimos no rádio os tiros que mataram centenas de pessoas em Las Vegas, e fizeram minha filha caçula entrar em pânico. Sou brasileira. Recebi em minha casa, adolescentes gays, negros, pobres, ricos e refugiados. Todos eles, queridos amigos das minhas filhas. Sou brasileira. Cozinho feijão na panela de pressão e faço churrasco, sempre que o tempo permite. Sou brasileira. Me revoltei quando a corrupção desvendada pela Lava Jato veio à tona. Me indignei e me assustei com as primeiras palavras que ouvi, de um deputado então desconhecido – Jair Messias Bolsonaro. Sou brasileira. Ouvi, paciente e com empatia, o lamento de parentes e amigos, sobre a trágica situação brasileira, sobre a crise e sobre como tudo andava difícil, mesmo que essas pessoas, ainda viajassem, comprassem e trocassem de carro com muito mais frequência, do que os ricos que conheci em Mclean (uma das cidades mais ricas dos EUA). Sou brasileira. Sofri por saber que meu padrasto, tinha sido diagnosticado com uma doença séria e não tinha convênio médico. Sou brasileira. Fiquei eternamente grata por ele estar no Brasil e lá, diferente dos EUA, ele conseguiu ser atendido e tratado pelo Sistema Único de Saúde, sem gastar um real, sequer. Sou brasileira. O Brasil, do Oiapoque ao Chuí, também me pertence. Suas terras, sua gente, também me dizem respeito. Não importa se moro em Brasília ou em Xangai. Sou brasileira. Foram muitas dores nesses anos de imigrante. Frio, medo, solidão, insegurança, falta de grana, falta de apoio. Chorei litros. Sou brasileira. Mas acho que de tudo, o que doeu mais e será mais difícil de superar, foi ter gente (bem próxima até) gritando no meu FB, no meu Whatsapp, mas nunca na minha cara – covardes que são – de que eu, não posso opinar, não posso questionar a insanidade coletiva dessas eleições presidenciais. Sou brasileira. Estudei em Universidade Pública, cresci na periferia, frequentei a classe média alta de São Paulo, transitei pelas ruas dos jardins e pelas vielas de Carapicuíba. Já peguei ônibus em ponto final do Heliópolis e já tive motorista particular. Sou brasileira. Entendo a falta de contato, de telefonemas e mensagens, de quem antes vivia na minha casa. Entendo as distâncias que aos poucos foram construídas porque a vida vai lentamente, aproximando aqueles que têm almas e propósitos comuns, a medida que afasta os que são díspares. Sou brasileira. Entendo que prioridades e valores são diferentes à cada pessoa, à cada realidade. Sou brasileira.  Entendo que a corrupção, a ganância, a falta de vergonha na cara, criam espaços vazios que podem ser preenchidos por loucos e populistas de plantão. Sou brasileira. Entendo que cada um individualmente, se coloque a frente do coletivo. Sou brasileira. Entendo o medo de assalto e bala perdida. Sou brasileira. Entendo a paixão pela Anita, Neymar e Roberto Carlos. Sou brasileira. Entendo que quando o carnaval chega, todos pulam felizes. Sou brasileira. Entendo que a casa está sempre bagunçada, e a discórdia sempre à espreita. Sou brasileira. Entendo amores doentios por extremos como Lula e Bolsonaro. Sou brasileira. Entendo que dar um Iphone X para seu filho seja mais importante do que levá-lo a conhecer o MoMA. Sou brasileira. Entendo que pagar impostos e ter estradas esburacadas, irrita demais. Sou brasileira. Entendo que mãe pobre, solteira e moradora da favela, pouco pode fazer para que seu filho não sucumba ao tráfico. Sou brasileira. Entendo as fofocas e intrigas pelas costas, e os sorrisos amarelos nas reuniões de família. Sou brasileira. Entendo o sofrimento em ostentar um estilo de vida, incompatível com o salário ganho. Sou brasileira. Entendo o ódio no olhar do menor infrator, que nunca teve acesso à nada. Sou brasileira. Entendo a fé cega ao Edir Macedo, ao Chico Xavier e ao Papa Francisco. Sou brasileira. Entendo coisas e dicotomias, que talvez, nenhum outro povo do mundo, possa entender. Entendo o Brasil e sua brasilidade, muito mais do que a América e seu “way of life”. Concordo, discordo, questiono, aprendo, ignoro. Sou brasileira. Mas não entendo o preconceito, o racismo e o ódio. Não entendo a intolerância ao meu modo de pensar diferente. Não entendo e não aceito, ser questionada no meu direito de opinar e votar (garantido pela Constituição), porque não moro no Brasil. Já fui vítima de assalto, traição, fofoca, inveja, rancor. Tudo isso passou. Mas agora doeu, e doeu fundo, ter a minha legitimidade de ser brasileira colocada à prova, porque moro fora. E simplesmente porque discordo da escolha de vocês! Porque né, sejamos sinceros, se eu colocasse agora a faixa do seu candidato no meu perfil, seria compartilhada e até citada como exemplo: olha: ela mora nos States e defende o nosso “presidenciável”. Cada um que me acusou nesse sentido, saiba que seu objetivo foi atingido. Me magoaram, me machucaram e criaram um abismo em nossas relações. Eu sou brasileira. Esse país, que vocês ocupam, também é meu, e sempre será. E vou gritar, até perder a minha voz, pelos valores que eu acredito, ainda que eu more em Marte. Essas cores, essa bandeira e essa terra, que vocês estão maltratando, também são minhas! EU SOU BRASILEIRA, ainda que seja uma brasileira pelo mundo…

Tarsila do Amaral, Figura Solitária
Óleo sobre tela, 1930

Somos reflexos de nossas escolhas

Dizer que são tempos estranhos é chover no molhado. O mundo parece que saiu dos trilhos, principalmente para aqueles desatentos que não perceberam que esses trilhos nunca existiram. Mas então o que mudou?

Acho que a internet e as mídias sociais estão entre as maiores revoluções da humanidade. A informação é rápida e em segundos fico a par do que acontece na China. O curioso é que isso toma meu tempo, e deixo de andar pelo meu próprio bairro para ficar grudada no Facebook. Fico sabendo do tsunami na Indonésia, mas não sei mais se minha vizinha continua viva…

Nos desconectamos da realidade com o pretexto de nos conectarmos virtualmente. Meio bizarro não?

As notícias que nos inundam são terríveis. Imagens fortes de famintos na Venezuela, crianças bombardeadas na Síria, refugiados náufragos na Europa e adolescentes baleados na Rocinha.

Desemprego, alta do dólar, crise na saúde pública, escolas sucateadas, arrastão nas praias cariocas, tiroteios por toda parte. O que fazer?

Não dá para negar que está difícil e em tempos assim precisamos sempre nomear culpados e salvadores. Nossa natureza imediatista se auto-engana e procura por soluções fáceis e milagrosas. Querem um exemplo?  Cirurgias plásticas e remédios de dieta mágicos, são sempre mais desejados do que o velho e cansativo combo de reeducação alimentar e rotina pesada de exercícios físicos.

Por que nos problemas sociais haveria de ser diferente? Quantos de nós, trocamos nosso tempo de Facebook por trabalhos comunitários na nossa cidade, no nosso bairro, no nosso condomínio? Mais fácil e cômodo repassar textos e vídeos de Whatsapp e acreditarmos, que assim, estamos fazendo nossa parte!

Quem de nós leva os filhos a museus e exposições de arte? Quem de nós visita asilos para aprender com os mais velhos? Quem de nós organiza campanhas de prevenção e educação sexual nas favelas do Brasil? Quem de nós vista a Cracolândia para levar um prato de sopa, ou um cobertor para aqueles zumbis?

Muito mais fácil as soluções imediatas: Ipad para os filhos,  pena de morte, revólver na mão, etc. Crescer e evoluir dá trabalho, e muito! Mas acreditamos que essa responsabilidade não nos cabe. O governo que faça sua parte! Para isso que pagamos impostos….

Nos isentamos de responsabilidades e quando aparecem aqueles que validam os nossos desejos mais inomináveis, nos rendemos facilmente e com os braços abertos. Ah, que alívio! Vai acabara esse “mimimi” de igualdade de gêneros, igualdade social, etc. etc.

Percebo que erroneamente tentam comparar nossos tempos sombrios aos tempos que precederam o Nazi-Fascismo. Acho agora pior… se Hitler tivesse acesso ao Twitter e ao Whatsapp, talvez estivesse por aqui até hoje.

Nosso cérebro desenhado para procurar  zonas de conforto, já criou um antídoto mais que certeiro para aquilo que contradiz as nossas suposições: Fake News! Olha que fácil! Aquilo que me incomoda e faz pensar, eu simplesmente coloco na prateleira do “fake”.

Sinto ser a portadora das más notícias, que você pode até dizer que são “fakes”, mas empurrar pobres e minorias para debaixo do tapete, ou morro acima, não é solução. Ipanema que o diga! Ao contrário, políticas excludentes tendem a médio prazo, fazer da classe média de hoje, a classe baixa de amanhã… e essa massa só irá crescer. Você sim, vai em breve perceber que será impossível parcelar aquela viagem à Miami.

Já sei, quem chegou até aqui, a contragosto, deve estar pensando: lá vem mais uma esquerdopata petista. Bom não sou petista, nunca fui! Muito menos esquerdopata. Quadrilhas que assaltaram o Brasil por 4 mandatos seguidos, não me representam. Mas menos ainda, deputados encostados há 30 anos, que propagam o ódio e a violência.

O meu país (esse é um direito meu, ainda que eu more fora) está sendo representado por duas correntes abomináveis.  São escolhas políticas que refletem o que somos.

Por muito tempo, atribuí isso à nossa falta de educação e formação. Não é verdade! Quem está elegendo Bolsonaro foi bem educado, em escolas e universidades particulares do Brasil. Ele não é fruto da ignorância. Ele é fruto da nossa desumanidade, do nosso preconceito, do nosso moralismo hipócrita, que rebola ao som da Anita, mas feministas que mostram o peito, merecem a morte! Essa mesma desumanidade que passeia de carro financiado, depois da pizza de sábado, checando o Iphone, enquanto ignora as crianças  maltrapilhas nas calçadas,  famintas e fumando crack. Essa sociedade que se diz Cristã e  esquece que Jesus foi o maior líder da não-violência, deixando-se morrer pelos seus algozes, sem jamais revidar na mesma moeda da bárbarie.

Por outro lado, quem defende Haddad e Lula acredita igualmente em soluções simplistas, valendo-se de uma hipocrisia arrogante, incapaz de reconhecer seus próprios erros e ver que de verdade, o Partido dos Trabalhadores, há muito tempo deixou de ser de trabalhadores. Uma gente que grita e faz barulho, mas fecha os olhos para aquilo que é incoveniente e mancha sua reputação: uma adesão escancarada ao sistema corrupto que assola o Brasil desde o seu descobrimento.

Minha escolha é clara: jamais serei conivente à corrupção. Irei sempre combatê-la com os recursos que me são cabidos. Mas além disso,  jamais conseguirei olhar da mesma maneira, para aqueles que por trás desse escudo de pretensa moralidade, estão entregando o país ao ódio e à intolerância.

O mundo está doente. Mas meu país está na UTI, e acho quem nem os balões de oxigênio irão salvá-lo.

 

 

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