Maternidade – um banho exagerado de doçura

Ainda é maio e me permito continuar pensando na data mais melosa do calendário: o dia das mães e seu excesso de amor e doçura.

Aqui nos EUA a comemoração coincide com a do Brasil e somos sufocados por todos os tipos de apelos publicitários. Além disso, somos obrigados a lidar com a enorme pressão que vem das mídias sociais. Não basta ser filho, não basta ser mãe. Faz parte do jogo da vida contemporânea expor ao máximo nossas intimidades, numa espécie de competição velada: quem teve o dia das mães mais bonito? Quem demonstra mais o seu amor? Quem é a mãe perfeita?

Ok, sei que que estou sendo insuportável, mas é que ando cansada desse vácuo existente entre vida real e vida virtual. Não pensem que me excluo dessa onda: basta ver meu perfil no Instagram.

O problema é que tudo isso gera uma demanda por perfeição. E nós, seres humanos complexos, estamos longe, bem longe de sermos plenos e cheios de filtros como mostra a vida do facebuki.

Ser mulher implica em tantas escolhas e ser mãe é apenas uma delas – ou não. Eu, por exemplo, não escolhi ser mãe. Fui surpreendida aos 17 anos de idade e embarquei na aventura. Recebi minha filha de braços abertos com o máximo de cuidado e responsabilidade cabíveis em uma menina de 17 anos. Errei, sofri, acertei, perdi e ganhei. Não foi uma estrada fácil, aliás não é e não será nunca. Mas acho que gostei da brincadeira e quis repetir. Oito anos depois me planejei com tudo que tinha direito e fui mãe novamente, dessa vez com marido, casa e enxoval personalizado.

A família parecia completa e finalmente achei que era o momento de sossegar e investir em tantas coisas que tiveram que ser adiadas. Mas quem disse que somos nós que planejamos a vida? Veio mais um bebê para a conta, sem aviso prévio! Eu era já uma mulher experiente de 30 anos e ainda assim engravidei de novo, no susto.

Depois disso nem preciso dizer que meu marido correu e fechou a fábrica definitivamente!

Mas para que digo tudo isso? Eu sou a prova viva que ser mãe às vezes, independe da nossa vontade. Quando era adolescente e inconsequente, ok, até é esperado uma gravidez indesejada, mas e depois? Quando já era uma balzaquiana?

Claro que poderia optar por não ter, mas eu pessoalmente, já sinto a vida pulsando dentro das minhas entranhas no primeiro exame de sangue e isso para mim Gabriela, não seria uma opção que eu fosse capaz de encarar.

Não julgo quem o faça! Respeito e acho que da vida e do corpo de cada um, ninguém -nem presidente, nem papa, nem pastor – tem direito de meter a colher. (Alerta de tema ultra polêmico! Espero ter deixado bem clara minha posição…)

Só acho que nós mulheres merecemos um descanso verdadeiro dessa sublimação toda. Entendo as mamães de primeira viagem e seus encantamentos descomunais. Entendo as relutantes em ceder à maternidade, entendo as que amam um playground, como admiro as que detestam e preferem mil vezes viagens de negócios.

O que não entendo e que já encheu a paciência é essa necessidade insuportável de se definir tudo em moldes e regras.

Claro que isso faz parte da natureza humana, mas de uns tempos pra cá, com a vida virtual democratizando todo e qualquer achismo, está ficando muito chato.

Tem manual para tudo! Parto normal? Que absurdo! Parto cesariano? Que anti-natural! Papinha orgânica? Coisa de vegano chato! Saquinho de doritos no lanche escolar? Essa mãe deveria ser processada!

Desde quando permitimos tantas “verdades” embasadas em achismos nas nossas vidas?

A vida passa e rápido! Minha filha mais velha já tem 24 anos. Cresceu dançando Carla Perez e comeu muito miojo. Hoje revejo certas escolhas e provavelmente faria diferente, mas ela sobreviveu! Tem um conhecimento absurdo sobre arte e se alimenta com um cuidado impecável. Não virou “funkeira” nem comedora compulsiva de Big Mac. E mesmo se fosse assim, qual o problema?

Estamos nessa vida em um mesmo barco, cuja única certeza é um fim cada vez mais próximo. Por que então tanta energia gasta em julgamentos, achismos e uma disputa louca por verdades absolutas?

Sou mãe e gosto do meu papel. Isso não significa que às vezes eu não me ressinta por não ter dedicado mais tempo à uma carreira profissional. Isso não quer dizer o quanto às vezes preciso e amo estar sozinha, sem ninguém dependo de mim. Somos uma montanha russa de emoções, sentimentos e vontades e deixar que outros nos ditem caminhos é o maior desserviço que poderíamos fazer por nós mesmos.

Acho que mais do que nunca, com o mundo gritando por ajuda, é preciso que a maternidade resulte na formação de adultos conscientes e preparados para as adversidades, porque vou te dizer uma coisa: do jeito que caminham as coisas a vida não dará tréguas nem sossego para as próximas gerações.

Errem, acertem, experimentem e não acreditem em fotos ou cenas perfeitas de “my stories”. A vida é infinitamente maior e mais surpreendente que isso.

Vamos em frente com mais realidade e menos virtualidade. O que você acha?

 

 

 

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As pequenas grandes mentiras…

Me faltou ar. Fazia tempo que um filme, ou série de televisão tivesse esse impacto em mim. Estou falando de Big Little Lies.

Essa micro-série da HBO que se encerrou ontem, foi gloriosa em suas escolhas. A começar pelo elenco afiadíssimo, sobretudo Nicole Kidman no papel mais marcante de sua carreira. Esse show foi baseado em um livro da escritora australiana Liane Moryart. Eu já havia lido uma obra da mesma autora há anos atrás e já havia me impressionado com sua capacidade precisa de tratar de temas densos.

A identificação foi imediata. Também já fiz parte de um grupo de mulheres parecidas, na faixa dos 40 anos, com filhos frequentando a mesma escola e com as vidas aparentemente idílicas. Casas bonitas e casamentos perfeitos.

Quantas são as mentiras que escondemos dos outros atrás das nossas máscaras de perfeição? E o mais grave, quantas são as mentiras que escondemos de nós mesmos, querendo sempre nos auto enganar que estamos a salvo dos problemas?

Por trás de famílias bonitas no Facebook,  viagens sensacionais no Instagram e rotinas impecáveis existem camadas obscuras de realidade que nem sempre vêm à superfície.

Não se trata de uma situação específica que acomete apenas uma classe social, mas se trata da nossa frágil humanidade. É isso que me encanta. Por baixo de máscaras estamos todos, igualmente, enfrentando a vida, fazendo-nos equivalentes, apesar de toda e qualquer diferença.

O tema central da série é a violência doméstica e os relacionamentos abusivos. Os danos podem ser imensuráveis e irreparáveis, não à toa que parece que vivemos em um ciclo, onde a violência sempre se repete, de pai para filho, condenando nossa sociedade a uma recorrência de sofrimento eterno.

Quase sempre o lado frágil da moeda é o feminino. Estamos em 2017, quase na segunda década do século XXI e ainda assistimos passivamente à subserviência feminina.

Eu cresci em um ambiente abusivo. Ainda guardo fresco na memória o comportamento agressivo de meu pai dirigido a mim e a minha mãe. São ecos de memória que me acompanharão para sempre, infelizmente.

Quis o destino que eu fosse mãe de três meninas de dois pais diferentes, mas ambos amorosos e respeitosos com suas mulheres. Ainda assim, um medo inconsciente me persegue, será que minhas filhas terão a mesma sorte, de viverem relacionamentos saudáveis e livres de agressões físicas e psicológicas?

Considerando os avanços da luta feminina, a essa altura do campeonato, essa questão já nem deveria ser considerada. Tal qual como pensarmos nos perigos da Peste Negra, que dizimou a Idade Média,  em dias atuais. Mas, trata-se de uma realidade cruel e palpável.

Ano de 2017: os EUA elegeram um homem para a presidência da república, que se gabou publicamente de tocar mulheres pela vagina, sem o consentimento delas. Que entrava, sem permissão e sem medo em vestiários femininos, onde adolescentes se trocavam.

Ano de 2017: famoso ator global sexagenário assedia e agride verbalmente assistente de figurino da rede globo. Repercussão: silêncio. Nem as mais ativistas artistas dentro da rede mencionaram uma palavra.

Ano de 2017: mulheres continuam a se boicotar. Sofrem assédio sexual violento em festas de carnaval nas ruas do Brasil, e ainda são criticadas publicamente por outras, como se fossem responsáveis por tal violência.

Chega! Estou esgotada…. Não aguento mais tamanha hipocrisia. Não aguento mais.

O mundo ainda é um lugar muito hostil às mulheres. Até quando?

Se você faz parte daquele grupo, que se reúne com amigas para sempre julgar e condenar comportamentos femininos alheios, sinto te dizer, você também é responsável por essa violência.

Comentários como: Por que ela se veste assim? Por que ela trabalha fora e deixa os filhos? Por que ela se acomoda e vive às custas do marido? Por que ela é desleixada? Por que ela é tão vaidosa? Por que ela namora tanto? Por que ela é tão pudica? Por que ela é bem sucedida? Por que ela não faz nada?  etc. etc. etc.

Podem parecer inócuos, mas servem de combustível para a mulher ser sempre subjugada dentro da sociedade.

Já escrevi aqui sobre o drama da violência contra a mulher, que atinge mulheres em todo mundo, de todas as classes sociais.  Eu repetirei incansavelmente: essa condição poderá mudar quando mulheres se enxergarem como aliadas. Quando mulheres se levantarem em defesa de outras, deixando para trás a superficialidade das competições, ciúmes, invejas e recalques.

Abro meu coração, minha alma e meu tempo para quem quiser se dedicar a essa causa de união e valorização sincera da condição feminina. Ao mesmo tempo, fecho as portas definitivamente para quem só pensa em julgar, boicotar, agredir e fofocar.

Só existe uma saída e isso o show Big Little Lies mostrou lindamente nas cenas finais: juntas somos mais fortes e invencíveis.

Vamos dar, finalmente, as mãos?

http://www.hbo.com/big-little-lies/about/video/trailer.html?autoplay=true

 

 

 

 

 

Que venham as flores….

Já chegou a Primavera por aqui e essa será a minha terceira desde que deixei o Brasil. Engraçado, tenho 41 anos e só passei a apreciar e esperar pela Primavera desde que vim para cá. Claro que o inverno longo e monocromático, é um dos grandes responsáveis por isso, mas não quero atribuir essa espera somente ao frio do norte.

Eu mudei. Não só de endereço e país, mas mudei algo dentro de mim. Não me atrevo a dizer que foi para melhor, porque isso seria ser simplista demais. Nunca gostei de resumir as coisas entre isso ou aquilo.

Fiquei mais reflexiva e com isso perdi um pouco da leveza. Explico: no conforto da minha terra e da minha língua era muito mais fácil ser comunicativa. Podia falar o que pensava, usar as referências todas da minha infância, as piadas internas da minha geração, que todo mundo saberia o que eu estava querendo dizer.

Aqui tudo passa por um filtro. Primeiro o da língua…como traduzir meus pensamentos e ideias em inglês? Depois o comportamental e social, qual será a reação, saberão entender o que estou falando? E finalmente o da relevância, pois já que tudo tem que ser pensado e mastigado, sempre penso se vale a pena tal esforço e muitas vezes opto simplesmente por me calar.

Conseguem perceber como pode ser exaustivo? Claro que isso muda algo dentro de você. E não é só isso…

Viver imersa em outras culturas e valores me fez me questionar o tempo inteiro quais são os meus verdadeiros valores. O que me move? O que  é importante para mim?

No Brasil gostava de comprar sapatos. Ok, sei que é um exemplo frívolo mas serve bem para ilustrar. Ter um sapato novo em um almoço com as amigas, ou em um compromisso de trabalho era sempre um motivo a mais para uma conversa, mesmo que fosse das mais fúteis: uau! Que sapato bacana!

Aqui eu experimento a sensação de ser transparente. São tantas pessoas, de tão diferentes lugares e com tão diversas bagagens, que você se torna apenas mais um. Todos parecem que olham através de você. Me sinto uma parede de vidro, que ninguém  nota, quanto mais olha para os meus sapatos.

Saindo dos sapatos e partindo para algo muito mais substancioso como a vida, percebo que de onde vim (São Paulo) há uma pressão constante pelo “parecer”. A lista é infinita, vai desde ter o carro mais sofisticado ao comportamento descolado de só usar bike e carregar uma sacola reciclável.

Estamos sempre querendo pertencer, seja ao grupo da escola, do trabalho ou dos amigos. A sociedade que nos molda, parece exigir isso de nós. Quando somos recolocados em um meio desconhecido ao nosso e ao qual, definitivamente NÃO pertencemos, experimentamos uma liberdade gigante de finalmente ser o que quisermos.

Isso é bom. E muda muito nossos conceitos. Não é privilégio de um país de primeiro mundo. Novamente vamos fugir da tentação de banalizar as coisas. Trata-se apenas de uma das vantagens de ser estrangeiro.

Digo isso porque noto os mesmos comportamentos equivocados de tentar pertencer, que eu via e fazia em S. Paulo, dentro de pessoas que nasceram aqui, ou foram criadas aqui nos Estados Unidos.

Isso é tão curioso percebem? Conseguimos ser mais livre e mais autênticos dentro de grupos que desconhecemos, mesmo que a gente se sinta extremamente desconfortável, com a língua, com os hábitos, com a cultura…

A intimidade cobra um preço alto: o de sempre representar o papel que esperam que a gente faça. Imagine aquela festa de família, que te deu mais trabalho para escolher o que vestir do que qualquer outro evento, afinal o que sua tia e seus primos iriam pensar….

Dito isso, vou para um outro ponto. Viver fora NÃO nos faz melhores. Leio e escuto infinitos depoimentos de ex-patriados e em todos há sempre aquela pitada de arrogância: “ah, como hoje eu sei muito mais do que aqueles que ficaram na mesma”.

Eu também caí nessa armadilha. Mas o deslumbramento se esvai depois de três anos (no meu caso) e começa a se formar uma ideia mais realista: Eu não melhorei, eu não evoluí. Eu apenas fui exposta a novas experiências que transformaram meu modo de pensar e confesso, a Gabriela de antes me faz uma falta imensa.

É difícil lidar com a ausência de nós mesmos, com aquilo que fomos e acreditamos um dia e hoje não mais. Dói se sentir um peixe fora d’água em grupo de antigos amigos e parentes, onde nada daquilo, nem mesmo as piadinhas de sempre, parecem fazer sentido.

Como tudo, a realidade não é plana, é cheia de curvas, subidas e descidas e determinar as coisas entre branco e preto é um engano lamentável que estamos sempre cometendo.

A vida é cíclica, como as estações. Muitas vezes é preciso paciência para esperar o tempo certo das coisas. E assim volto à primavera e a metáfora do que ela representa: renovação.

Viver aqui, nesses dois anos iniciais foi como atravessar um inverno rigoroso, com surpresas desagradáveis e um frio que não passava, causado pelo desconforto da solidão e a saudades de tudo que me era familiar. Estou finalmente pronta pra podar meus galhos e deixar a Primavera entrar de novo em minha vida, anunciando uma nova fase.

Terei que abrir mão de muita coisa (mais ainda do que já tive), mas tudo com a esperança de me ver renovada e cheia de cores novas. Viver, pode ser sim, uma delícia! A gente só precisa ter coragem para jogar fora o que não serve mais e abrir o peito e o coração para uma nova estação.

Que venham as flores… 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Get out! Sobre a cor da nossa pele e outras coisitas mais….

Fui, meio a contragosto, assistir ao filme Get Out com as minhas filhas. Filmes de terror nunca foram meu forte, mas mesmo assim resolvi encarar e que ótima decisão!!

Em um ano histórico, com uma das maiores premiações da história do Oscar a filmes estrelados e produzidos por afro-americanos, além de histórias que abordam a questão racial no país, Get Out passou completamente despercebido. (Confesso que ainda não assisti à Moonlight, grande campeão…). Mas está se firmando como um dos maiores sucessos de bilheteria e crítica dos últimos tempos, já que despretensiosamente, usou o plot do terror/suspense, para ir a fundo sobre a maior cicatriz americana: preconceito racial!

O filme é escrito e produzido por um afro-americano e a história se resume a um casal interracial (ele negro, ela branca) que resolvem passar um final de semana na casa da família dela, em um típico subúrbio rico americano. Mais não posso falar, porque estragarei a surpresa.

Mas, sem escorregar nos “spoilers” e deixando de lado o tom espetacular de produções de suspense, o filme questiona muitíssimo bem o quanto ainda os EUA é um país claramente divido pela cor de pele, com os brancos usando de todos os meios para afirmarem seu poder.

Saindo do mundo mágico do cinema e embarcando na vida real, posso tentar definir o que estou dizendo a partir da minha experiência pessoal. Ouvi recentemente de um americano: “não se preocupe com o novo governo, você é branca, pele e olhos claros, e isso é um passaporte de segurança”.

Poderia até ser engraçado se não fosse trágico e a pessoa em questão, não estava sendo irônica ou agressiva, mas simplesmente falando a verdade: americanos tem um sério problema com tom de pele! Chega a ser patético, além de uma ignorância profunda. Parentes meus, por exemplo, com a mesmíssima descendência, por terem a pele mais escura já não seriam considerados brancos por aqui…

Acreditem, ser latino, muçulmano, ou ateu, só será um problema se a sua cor for mais escura. O tom da pele, vem antes de qualquer coisa nesse país, e por mais que me digam o contrário, isso é o que vejo na prática. Cidadãos afro-americanos ainda sofrem tanto quanto imigrantes não documentados. Para a supremacia branca que domina os EUA, os verdadeiros donos dessas terras são os brancos e ponto final.

Se falarmos em questões burocráticas, onde é preciso ser documentado, saibam que para quase qualquer  dessas coisas (escolas, consultórios médicos, vagas de emprego, etc.)  que você fizer nos EUA, antes de tudo é preciso responder a um formulário, onde a primeira questão é qual sua raça e origem. Latinos e hispânicos por exemplo, não são considerados “white”, mesmo que sejam descendentes de alemães com olhos transparentes e pele rosada. Somos antes de qualquer coisa, definidos pela nossa raça e isso explica muito dos valores da cultura norte-americana.

Há 8 anos atrás, o mundo se encheu de esperança, ao assistir à uma família negra assumir a Casa Branca. Infelizmente o tempo passou e apesar de algumas mudanças significativas, o preconceito continua forte e enraizado e voltou com uma força assustadora depois da campanha e posse de D. Trump. Organizações tenebrosas como a Ku Klux Klan estão mais fortes do que nunca, tendo inclusive membros atuando em papéis primordiais  dentro da nova administração política.

Depois de um tempo de respiro, o mundo parece retroceder e entrar de novo em um ciclo de ódio e intolerância.

O que salva, como sempre é a arte! Seja a cinematográfica e hollywoodiana, como vimos esse ano, com produções super engajadas, ou seja a arte visual, com artistas bravos e persistentes que não desistem de lutar por essas questões.

Um exemplo magnífico disso é uma série recente de Adriana Varejão, na minha opinião a maior artista brasileira da atualidade.

Chama-se Polvo.

Adriana encomendou a um grupo de retratistas chineses vários retratos seus pintados a óleo, e aqui já temos uma questão suculenta sobre reprodutibilidade e autoria, que nem irei abordar agora…

Depois ela fez inúmeras intervenções, valendo- se de uma paleta de cores de pele desenvolvida por ela mesma, mostrando a diversidade de tons da raça humana. Além disso, Adriana, nomeou essas cores a partir de pesquisas com brasileiros, perguntado como que definiam a sua cor. Os nomes chegam a ser hilários como : “burro quando chove”, “encerada”, “fogoió”, “queimada de sol”, etc.

Inegável que o Brasil também tem um ranço racista extremamente forte, pois assim como os EUA carrega o carma nojento da escravidão. Contudo, brasileiros levam de forma mais leve essa questão e ainda não sei se isso pode ser considerado uma vantagem, deixo isso para os mais letrados no assunto…

A proposta de Adriana é justamente essa, nomear cores para além das definições biológicas, que chegam a beirar a desumanidade, como mencionei sobre os formulários americanos. O resultado é forte, belíssimo e reflexivo, como todos os trabalhos dela.

A série foi exibida no Galpão Fortes Vilaça em S. Paulo e na Lehmann Maupin Gallery em Nova Iorque.

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Adriana Varejão – Polvo.  Fotografia Folha de S. Paulo
Dei tantas voltas para dizer, será que seremos sempre definidos pelo tom da nossa pele ao invés do nosso caráter e valores? Precisaremos nos sentir ameaçados por gritos de Get Out, só porque nossa cor não se adequa a padrões estabelecidos sabe-se lá por quem? Até quando?

Obrigada por ler até aqui, comente, compartilhe e vamos enriquecer essa discussão. Até a próxima 🙂

 

 

 

 

 

 

Somos todos iguais…simples assim.

Pois é, ser humano é uma coisa engraçada não? A gente nasce e logo nas primeiras horas de vida começamos a aprender. Aprendemos por observação e instinto e assim, quando a fome aperta choramos, pois já sabemos que aquele ser maravilhoso que nos carregou por meses na barriga, irá correndo nos atender na nossa primeira necessidade. Observação e instinto, portanto.

Vamos nos desenvolvendo e continuamos a copiar ou rejeitar comportamentos alheios. Nossa língua, não à toa, é chamada de língua mãe, pois é o som mais familiar que conhecemos. Repetimos os sons, jeitos e comportamentos de nossos pais, desde a primeira infância. Depois saímos do conforto da casa e caímos nos desafios da escola e do mundo: convivências e muito, muito mais aprendizado.

Reagimos conforme aprendemos e assim, aos poucos vamos construindo a nossa personalidade. E aqui está a pegadinha: nos achamos únicos, incríveis ou não, mas quase sempre acreditamos erroneamente que só nós sentimos, pensamos e vivemos dessa ou daquela maneira. Esquecemos que somos, antes de qualquer coisa, frutos de um meio e portanto, produto e consequência de outros que vieram antes ou ao mesmo tempo que nós.

Não somos exclusivos, não somos especiais e nem a última cereja do bolo. Também não somos os renegados, coitados e únicos sofredores nesse mundo. Se é assim, por que então nos agoniamos tanto com nossas próprias vidas? Ou por que nos sentimos sempre tão importantes e extraordinários?

Para deixar mais claro o que digo vou citar um exemplo pra lá de clássico: das mamães que acham que seus filhotes são seres especiais e iluminados, com inteligência acima da média e com caráter que lembra o do Buda….pois é, acho que 99,99% das mães que conheço acreditam nisso e por que então não vivemos em uma sociedade iluminada e perfeita?

Todo esse papo é para dizer que quando saí do meu mundo confortável e conhecido e passei a viver aqui nos EUA, imersa em outra cultura, fui obrigada a expandir meu olhar. A solidão nos torna automaticamente grandes observadores. Parei de viver no automático e passei a prestar muito mais atenção ao que me cerca. Aos lugares e pessoas a minha volta.

Descobri semelhanças profundas em mães que vieram de um lugar chamado Eritréia, que eu antes nunca tinha ouvido falar. Descobri diferenças gritantes em meio a brasileiras que vieram de um mesmo contexto que o meu. E assim percebi o óbvio: somos exatamente iguais. Medíocres iguais, medrosos iguais, ansiosos iguais, orgulhosos iguais, teimosos iguais, etc. etc.

Temos sonhos, medos e anseios semelhantes ao do nosso vizinho, do entregador de pizza ou do presidente da república. (mesmo que ele seja laranja! 😀 ). Somos simples e complexamente humanos.

Um post que encontrei essa semana no Facebook foi o que me motivou a escrever esse texto. Trata-se da linda história de dois amigos da pré-escola que cortaram seus cabelos iguais, para que a professora pudesse confundi-los. Eles se amam tanto e se reconhecem tanto um no outro que o fato de um ser branco e o outro negro simplesmente passou despercebido. A história toda você vê aqui.

Eu me emocionei e parei para pensar. Em que momento deixamos essa simplicidade maravilhosa da infância ir embora? Em que momento passamos a nos sentir superiores ou inferiores ao outro e assim começamos um processo mesquinho e egoísta de vida?

Ser humano significa andar pelo mundo com milhões de espelhos a nossa volta.

Espelhos que encontramos naquele vizinho antipático, naquela amiga fofoqueira, naquela modelo maravilhosa da revista. Somos todos muito mais parecidos do que pensamos….

Morar em uma cultura que não é tão aberta à troca é difícil. Norte-americanos são normalmente muito fechados. Dificilmente abrem a guarda da vida e da intimidade e é comum o sentimento de isolamento de quem vem de fora. Mas analisando friamente a cultura de onde vim e de onde fui criada (Brasil) também chego a conclusão que somos “aparentemente” abertos. Expomos nossos feitos em redes sociais, lamentamos nossas dores publicamente no FB, mas a relação de sinceridade, de olho no olho e troca autêntica de experiências é coisa muito rara, mesmo em amizades longínquas e relações familiares.

Vivendo aqui sinto muita falta desse olho no olho, e percebo que a intimidade e o amor que achei que tivesse com tantos no Brasil, na verdade era muito fugaz e superficial.  Eu que mantinha a minha casa brasileira cheia de amigos e família, vejo hoje que foram poucos, pouquíssimos os que permaneceram.

A responsabilidade também é minha. Acho que todos nós nos colocamos em uma bolha de superioridade ou inferioridade em um certo momento, e com isso nos isolamos em nossos mundos, sem perceber que é a troca que nos salva, é a troca que nos faz crescer.

Como sempre a arte é muito mais precisa do que as palavras. Esse magnífico trabalho de Hans Eijkelboom, exposto na 30. Bienal de Artes de S. Paulo, mostra pessoas ao redor do globo que foram fotografadas por ele durante 20 anos.

Ele agrupou-as em tipos semelhantes de roupas e comportamento e o resultado é esse: não somos únicos! Inevitavelmente existirão ao redor de nós muito mais iguais do que imaginamos e mesmo o nosso maior arroubo de criatividade já foi feito por outrem ou será feito um dia. Somos apenas pequenos pontos nesse vasto universo…

Vamos descer do pedestal? Vamos romper as bolhas?

Um caminho é ter como lema a belíssima frase de Mário Quintana: “O amor é quando moramos um no outro”. Quando entendemos e aplicamos a dimensão disso em nossas vidas, tudo fica infinitamente mais fácil. Bora tentar?

Até a próxima! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

50 tons de laranja

 

50 tons de laranja….

Laranja sempre foi uma das minhas cores favoritas, alegre, vibrante, cheia de energia! Além de remeter à fruta, que pela combinação de simplicidade e riqueza é uma das maiores bênçãos da natureza.

Infelizmente deixei de ser fã da cor, desde o início do ano passado, por razões um tanto óbvias. Laranja também pode remeter ao “fake”, ao bronzeado ridículo e artificial e também àqueles que inocentemente (ou não) se prestam a fazer papéis escusos para defenderem poderosos.

Você sabia que uma escala tonal pode ser composta por infinitas graduações de cor, e não é só o cinza que apresenta essas nuances todas.

Usando um pouco da ironia como estilo de escrita, já que em tempos estranhos é melhor falar em entrelinhas, vou propor um teste, para saber em que tom de laranja você se encontra. Cada resposta afirmativa aumenta o seu tom cítrico.

  • Você acredita ferozmente que suas opiniões (sobre tudo) correspondem à verdade absoluta?
  • Você acha que o único caminho a Deus e à salvação religiosa é através da sua crença pessoal e todas as outras estão equivocadas?
  • Em uma roda de amigos, ou em feeds de redes sociais, você sempre quer ter a palavra final?
  • Você despreza todos que tem visão política diferente da sua?
  • Você abomina o aborto, mas fecha os olhos para as milhares de crianças em situação de miséria extrema e risco de vida dentro do seu país?
  • Você defende que “cidadão de bem” possua arma para se defender e matar quando for preciso?
  • Você se diz tolerante aos gays, mas desde que eles expressem suas escolhas bem longe de você e de seus filhos?
  • Você acha que “ser gay” é fruto de uma má influência da mídia e dos tempos atuais?
  • Você respeita as mulheres, mas concorda que a culpa de estupros, traições e sexismo é sempre delas mesmas?
  • Você abomina a visão política da esquerda?
  • Você despreza a visão política da direita?
  • Você acredita que o mundo é bipolar, dividido claramente entre bons e maus, petistas e coxinhas, anjos e demônios, sem nada entre eles?
  • Você repete frases como: “bandido  bom é bandido morto?
  • Você acredita que todo favelado é bandido? (ou que todo muçulmano é terrorista?)
  • Você acha que o Sudeste (e sobretudo S. Paulo) carregam o Brasil nas costas e deveriam existir barreiras físicas contra a migração nordestina?
  • Você acredita que o esforço individual é o único fator responsável pelo sucesso (ou fracasso), sem considerar o contexto social?
  • Você defende uma cidade limpa, onde qualquer manifestação artística tem que ser substituída por cinza? Afinal de contas está se cuidando da saúde pública e uma coisa tem tudo a ver com a outra coisa, assim como borboletas, sereias e maionese e inclusive verba pública!!….

Pois é, eu poderia continuar essa lista infinitamente, mas paro por aqui. Viu só como temos mais laranja dentro de nós do que imaginamos (eu inclusive!). Em uma escala ou outra, essa é a cor do momento e não se trata de exclusividade dos EUA.

Acho que é tempo de refletir: em que medida me situo no meio em que vivo? Em que medida minha tolerância e empatia superam as minhas crenças ideológicas e religiosas?

O mundo só muda quando mudamos e mais do que nunca é preciso revermos aquilo que nos torna humanos, ou corremos o risco de nos olharmos no espelho e vermos refletido apenas a sombra de um palhaço laranja….

 

 

 

 

 

 

 

 

Conexões 


A vida é a arte dos encontros, ou desencontros. Não importa realmente como, mas de uma maneira ou de outra estamos sempre nos conectando a  pessoas e nos desconectando de algumas. Já pararam para pensar em quantos seres cruzam nossos caminhos? Pode ser o vizinho passeando com o cachorro, o guarda de trânsito, o colega de trabalho no elevador, a mãe segurando o filho no banco do metrô, enfim…. possibilidades infinitas! Desses encontros aleatórios podem surgir conexões profundas e duradouras, assim como amizades fugazes que duram somente uma estação ou o tempo dos interesses em comum.

Falo isso porque  já estou batendo na porta de 2017 e também já cruzei a linha dos quarenta anos. A reflexão é inevitável. Penso em tantas pessoas que passaram pela minha vida. Tão poucas que permaneceram e tantas que deixei seguir ou que me deixaram também. 

A internet e sua conexão poderosa até permite que eu bisbilhote de quando em vez aqueles que já não são íntimos. Aqueles que dividiram um tempo com uma Gabriela que já não existe mais.

Dizem que morremos e renascemos constantemente e eu vejo verdade nessa afirmação. Os propósitos, as crenças, os sonhos e realidades se transformam e modificam também nossa essência. 

Mudar de país e viver em um lugar longe de tudo que é familiar criou um divisor de águas na minha existência. A solidão virou a companhia constante e o sorriso do caixa do supermercado passou a ter uma importância gigante.

Parei de viver no automático e passei a ser observadora de cada segundo da minha vida, afinal tudo traz possibilidades e experiências inéditas.

Às vezes dói  e outras alivia.  Ser a sua própria companhia proporciona revelações que  relação nenhuma poderá te trazer. Aprendemos muito com o outro, mas aprendemos ainda mais com o que o outro deixa em nós.

Agora estou de férias, em um dos lugares mais paradisíacos do planeta. A natureza vibra aqui em uma proporção assustadora! Me faz refletir, me faz aquietar e curiosamente tem me feito sonhar. 

Sonho todas as noites com pessoas que já passaram pela minha vida , pessoas de quem não ouço falar faz tempo, mas que de uma certa maneira continuam vivendo em mim.

Estamos todos ao mesmo tempo dividindo esse passeio pela Terra, em um momento complicado, turbulento, com muito mais dúvidas que respostas. 

Eu tenho medo, confesso. E talvez tenha até deixado meu otimismo cair da bolsa nesses meses difíceis que preencheram 2016. Porém estar  aqui e sonhar com olhares e sorrisos de quem já fez parte da minha vida me fez acreditar definitivamente em algo maior. Uma espécie de conexão que ultrapassa a barreira do contato físico.

O ano novo não muda nada, apenas mais uma página virada no calendário. A mudança está na mente e no coração de cada um. 2017 chega e exige que sejamos fortes, perante a tantos obstáculos.

Próximos ou não, amigos ou não, acho que devemos  apenas nos conectar e deixar viver no outro aquilo que nos falta. 

Sinto muito falta de alguns e também gratidão, principalmente por todos os pedacinhos que habitam em mim, e que me fazem ser quem sou. Eles vieram de todos vocês, que um dia compartilharam o meu caminho.

Namastê e que venha 2017 com mais pontes do que muros.