Sou brasileira.

 

Sou brasileira. Paulistana, nascida e criada na capital. Cidade em que vivi por 39 anos. Sou brasileira. Quando cheguei à capital americana, de mala e cuia no inverno gelado de 2014, senti meus ossos tremerem, de frio, de medo. Sou brasileira. Enfrentei uma língua que não dominava muito bem, enfrentei sozinha, o pânico de minhas filhas em seus primeiros dias de aula, cobertos de neve e ausentes de sorriso e gentileza. Sou brasileira. Chorei várias noites, encolhida no armário de casacos, com saudades do calor, da comida, dos amigos e das conversas. Sou brasileira. Assisti encantada a políticas de inclusão feitas pelo melhor presidente da história, um negro que honrou a Casa Branca. Sou brasileira. Senti pânico e dor de barriga, quando vi bandeiras que lembravam às do Reich Nazista tomarem conta dos belíssimos monumentos históricos de Washington DC, na inauguração presidencial de 2016. Sou brasileira. Me comovi e me identifiquei com os relatos assustados de mulheres imigrantes, refugiadas e sozinhas, nos meus encontros semanais de inglês. Sou brasileira. Segurei na mão de uma menina de El Salvador e levei ela, sua mãe e seus irmãos pequenos para casa, em um dia de frio e chuva, onde eles não tinham sequer roupas adequadas. Sou brasileira. Desenhei cartazes de protesto com minhas filhas e juntas nos unimos a milhares de outras mulheres pelas ruas, de Nova Iorque e Seattle, contra as decisões equivocadas do presidente Trump. Sou brasileira. Engoli o choro e tentei mudar de assunto, quando a caminho da escola, ouvimos no rádio os tiros que mataram centenas de pessoas em Las Vegas, e fizeram minha filha caçula entrar em pânico. Sou brasileira. Recebi em minha casa, adolescentes gays, negros, pobres, ricos e refugiados. Todos eles, queridos amigos das minhas filhas. Sou brasileira. Cozinho feijão na panela de pressão e faço churrasco, sempre que o tempo permite. Sou brasileira. Me revoltei quando a corrupção desvendada pela Lava Jato veio à tona. Me indignei e me assustei com as primeiras palavras que ouvi, de um deputado então desconhecido – Jair Messias Bolsonaro. Sou brasileira. Ouvi, paciente e com empatia, o lamento de parentes e amigos, sobre a trágica situação brasileira, sobre a crise e sobre como tudo andava difícil, mesmo que essas pessoas, ainda viajassem, comprassem e trocassem de carro com muito mais frequência, do que os ricos que conheci em Mclean (uma das cidades mais ricas dos EUA). Sou brasileira. Sofri por saber que meu padrasto, tinha sido diagnosticado com uma doença séria e não tinha convênio médico. Sou brasileira. Fiquei eternamente grata por ele estar no Brasil e lá, diferente dos EUA, ele conseguiu ser atendido e tratado pelo Sistema Único de Saúde, sem gastar um real, sequer. Sou brasileira. O Brasil, do Oiapoque ao Chuí, também me pertence. Suas terras, sua gente, também me dizem respeito. Não importa se moro em Brasília ou em Xangai. Sou brasileira. Foram muitas dores nesses anos de imigrante. Frio, medo, solidão, insegurança, falta de grana, falta de apoio. Chorei litros. Sou brasileira. Mas acho que de tudo, o que doeu mais e será mais difícil de superar, foi ter gente (bem próxima até) gritando no meu FB, no meu Whatsapp, mas nunca na minha cara – covardes que são – de que eu, não posso opinar, não posso questionar a insanidade coletiva dessas eleições presidenciais. Sou brasileira. Estudei em Universidade Pública, cresci na periferia, frequentei a classe média alta de São Paulo, transitei pelas ruas dos jardins e pelas vielas de Carapicuíba. Já peguei ônibus em ponto final do Heliópolis e já tive motorista particular. Sou brasileira. Entendo a falta de contato, de telefonemas e mensagens, de quem antes vivia na minha casa. Entendo as distâncias que aos poucos foram construídas porque a vida vai lentamente, aproximando aqueles que têm almas e propósitos comuns, a medida que afasta os que são díspares. Sou brasileira. Entendo que prioridades e valores são diferentes à cada pessoa, à cada realidade. Sou brasileira.  Entendo que a corrupção, a ganância, a falta de vergonha na cara, criam espaços vazios que podem ser preenchidos por loucos e populistas de plantão. Sou brasileira. Entendo que cada um individualmente, se coloque a frente do coletivo. Sou brasileira. Entendo o medo de assalto e bala perdida. Sou brasileira. Entendo a paixão pela Anita, Neymar e Roberto Carlos. Sou brasileira. Entendo que quando o carnaval chega, todos pulam felizes. Sou brasileira. Entendo que a casa está sempre bagunçada, e a discórdia sempre à espreita. Sou brasileira. Entendo amores doentios por extremos como Lula e Bolsonaro. Sou brasileira. Entendo que dar um Iphone X para seu filho seja mais importante do que levá-lo a conhecer o MoMA. Sou brasileira. Entendo que pagar impostos e ter estradas esburacadas, irrita demais. Sou brasileira. Entendo que mãe pobre, solteira e moradora da favela, pouco pode fazer para que seu filho não sucumba ao tráfico. Sou brasileira. Entendo as fofocas e intrigas pelas costas, e os sorrisos amarelos nas reuniões de família. Sou brasileira. Entendo o sofrimento em ostentar um estilo de vida, incompatível com o salário ganho. Sou brasileira. Entendo o ódio no olhar do menor infrator, que nunca teve acesso à nada. Sou brasileira. Entendo a fé cega ao Edir Macedo, ao Chico Xavier e ao Papa Francisco. Sou brasileira. Entendo coisas e dicotomias, que talvez, nenhum outro povo do mundo, possa entender. Entendo o Brasil e sua brasilidade, muito mais do que a América e seu “way of life”. Concordo, discordo, questiono, aprendo, ignoro. Sou brasileira. Mas não entendo o preconceito, o racismo e o ódio. Não entendo a intolerância ao meu modo de pensar diferente. Não entendo e não aceito, ser questionada no meu direito de opinar e votar (garantido pela Constituição), porque não moro no Brasil. Já fui vítima de assalto, traição, fofoca, inveja, rancor. Tudo isso passou. Mas agora doeu, e doeu fundo, ter a minha legitimidade de ser brasileira colocada à prova, porque moro fora. E simplesmente porque discordo da escolha de vocês! Porque né, sejamos sinceros, se eu colocasse agora a faixa do seu candidato no meu perfil, seria compartilhada e até citada como exemplo: olha: ela mora nos States e defende o nosso “presidenciável”. Cada um que me acusou nesse sentido, saiba que seu objetivo foi atingido. Me magoaram, me machucaram e criaram um abismo em nossas relações. Eu sou brasileira. Esse país, que vocês ocupam, também é meu, e sempre será. E vou gritar, até perder a minha voz, pelos valores que eu acredito, ainda que eu more em Marte. Essas cores, essa bandeira e essa terra, que vocês estão maltratando, também são minhas! EU SOU BRASILEIRA, ainda que seja uma brasileira pelo mundo…

Tarsila do Amaral, Figura Solitária
Óleo sobre tela, 1930

Meu amor por você… São Paulo!

Ah São Paulo….cidade onde passei 39 anos da minha vida. Cresci em um bairro tradicional e histórico: Ipiranga. Lá encontrei as amigas que são para sempre, apesar de não nos vermos há algum tempo já.

Infância na rua, brincando com meus primos e enlouquecendo as freiras do colégio que eu estudava. Não tinha muita ideia da imensidão da cidade, porque meu mundo se resumia às padarias do Ipiranga, onde adorava ir com meu pai, tomar café da manhã e esperar o frango de televisão ficar pronto para o almoço.

Só aos 17 anos entendi essa cidade. Entrei na faculdade, do lado oposto, extremo da zona oeste! Cruzava todos os dias, do Ipiranga ao Butantã de transporte coletivo: ônibus e metro. Quanta gente diferente, quantas coisas no percurso de duas horas. Aprendia tanto, ou mais do que na sala de aula…

O tempo passou e tanta água rolou por debaixo das pontes do rio Pinheiros e Tietê.

Brooklin, Higienópolis, Consolação, Jardins, Vila Mariana, Pinheiros, Santo Amaro, Lapa, Perdizes, Morumbi, Sé, Aclimação, Vila Prudente, Vila Madalena, Barra Funda…. um bocado de bairros se somaram ao meu repertório. Cada um sendo quase um universo particular.

Problemas, assaltos, descaso. Comecei a odiar e reclamar, muito! Achei que eu e São Paulo estávamos quites. Chega! Vou me embora, não para Passárgada, mas pra Washington DC mesmo.

Já fazem 3 anos e nem em DC estou mais. Agora vivo no Acre americano, Seattle, um canto no extremo noroeste americano, mas que pretende ser e agir como uma cidade cosmopolita, cheia de tecnologia e modernidade, mas um pouco carente da diversidade e da energia que faz da Pauliceia algo tão único!

Nem em Nova Iorque é possível encontrar essa magnitude urbana – desculpa aí Douglas 😉

Penso que não sou do Brasil, sou de São Paulo. Essa terra do concreto e da feiura, que carrega uma mistura explosiva de todos os cantos, carregada de brasilidade. Eu sei, é confuso mesmo.

Não tinha ideia do quanto já era familiarizada com a cultura japonesa, goiana, italiana, mineira, espanhola, alemã, baiana, recifense, curitibana, catarinense, haitiana, francesa, manauense, árabe, judaica…  Nos limites dessa cidade cabe o mundo!  Obrigada São Paulo, por me preparar. E ah, São Paulo, como te odeio. Porque você me deixou mal- acostumada e em nenhum canto do mundo encontrarei o que você me proporcionou.

Saudades do seu caos, minha amada terra! Foi preciso perder-te para ver o quanto é gigante e generosa.

Quem sabe, um dia, não nos encontramos novamente?

Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

Que venham as flores….

Já chegou a Primavera por aqui e essa será a minha terceira desde que deixei o Brasil. Engraçado, tenho 41 anos e só passei a apreciar e esperar pela Primavera desde que vim para cá. Claro que o inverno longo e monocromático, é um dos grandes responsáveis por isso, mas não quero atribuir essa espera somente ao frio do norte.

Eu mudei. Não só de endereço e país, mas mudei algo dentro de mim. Não me atrevo a dizer que foi para melhor, porque isso seria ser simplista demais. Nunca gostei de resumir as coisas entre isso ou aquilo.

Fiquei mais reflexiva e com isso perdi um pouco da leveza. Explico: no conforto da minha terra e da minha língua era muito mais fácil ser comunicativa. Podia falar o que pensava, usar as referências todas da minha infância, as piadas internas da minha geração, que todo mundo saberia o que eu estava querendo dizer.

Aqui tudo passa por um filtro. Primeiro o da língua…como traduzir meus pensamentos e ideias em inglês? Depois o comportamental e social, qual será a reação, saberão entender o que estou falando? E finalmente o da relevância, pois já que tudo tem que ser pensado e mastigado, sempre penso se vale a pena tal esforço e muitas vezes opto simplesmente por me calar.

Conseguem perceber como pode ser exaustivo? Claro que isso muda algo dentro de você. E não é só isso…

Viver imersa em outras culturas e valores me fez me questionar o tempo inteiro quais são os meus verdadeiros valores. O que me move? O que  é importante para mim?

No Brasil gostava de comprar sapatos. Ok, sei que é um exemplo frívolo mas serve bem para ilustrar. Ter um sapato novo em um almoço com as amigas, ou em um compromisso de trabalho era sempre um motivo a mais para uma conversa, mesmo que fosse das mais fúteis: uau! Que sapato bacana!

Aqui eu experimento a sensação de ser transparente. São tantas pessoas, de tão diferentes lugares e com tão diversas bagagens, que você se torna apenas mais um. Todos parecem que olham através de você. Me sinto uma parede de vidro, que ninguém  nota, quanto mais olha para os meus sapatos.

Saindo dos sapatos e partindo para algo muito mais substancioso como a vida, percebo que de onde vim (São Paulo) há uma pressão constante pelo “parecer”. A lista é infinita, vai desde ter o carro mais sofisticado ao comportamento descolado de só usar bike e carregar uma sacola reciclável.

Estamos sempre querendo pertencer, seja ao grupo da escola, do trabalho ou dos amigos. A sociedade que nos molda, parece exigir isso de nós. Quando somos recolocados em um meio desconhecido ao nosso e ao qual, definitivamente NÃO pertencemos, experimentamos uma liberdade gigante de finalmente ser o que quisermos.

Isso é bom. E muda muito nossos conceitos. Não é privilégio de um país de primeiro mundo. Novamente vamos fugir da tentação de banalizar as coisas. Trata-se apenas de uma das vantagens de ser estrangeiro.

Digo isso porque noto os mesmos comportamentos equivocados de tentar pertencer, que eu via e fazia em S. Paulo, dentro de pessoas que nasceram aqui, ou foram criadas aqui nos Estados Unidos.

Isso é tão curioso percebem? Conseguimos ser mais livre e mais autênticos dentro de grupos que desconhecemos, mesmo que a gente se sinta extremamente desconfortável, com a língua, com os hábitos, com a cultura…

A intimidade cobra um preço alto: o de sempre representar o papel que esperam que a gente faça. Imagine aquela festa de família, que te deu mais trabalho para escolher o que vestir do que qualquer outro evento, afinal o que sua tia e seus primos iriam pensar….

Dito isso, vou para um outro ponto. Viver fora NÃO nos faz melhores. Leio e escuto infinitos depoimentos de ex-patriados e em todos há sempre aquela pitada de arrogância: “ah, como hoje eu sei muito mais do que aqueles que ficaram na mesma”.

Eu também caí nessa armadilha. Mas o deslumbramento se esvai depois de três anos (no meu caso) e começa a se formar uma ideia mais realista: Eu não melhorei, eu não evoluí. Eu apenas fui exposta a novas experiências que transformaram meu modo de pensar e confesso, a Gabriela de antes me faz uma falta imensa.

É difícil lidar com a ausência de nós mesmos, com aquilo que fomos e acreditamos um dia e hoje não mais. Dói se sentir um peixe fora d’água em grupo de antigos amigos e parentes, onde nada daquilo, nem mesmo as piadinhas de sempre, parecem fazer sentido.

Como tudo, a realidade não é plana, é cheia de curvas, subidas e descidas e determinar as coisas entre branco e preto é um engano lamentável que estamos sempre cometendo.

A vida é cíclica, como as estações. Muitas vezes é preciso paciência para esperar o tempo certo das coisas. E assim volto à primavera e a metáfora do que ela representa: renovação.

Viver aqui, nesses dois anos iniciais foi como atravessar um inverno rigoroso, com surpresas desagradáveis e um frio que não passava, causado pelo desconforto da solidão e a saudades de tudo que me era familiar. Estou finalmente pronta pra podar meus galhos e deixar a Primavera entrar de novo em minha vida, anunciando uma nova fase.

Terei que abrir mão de muita coisa (mais ainda do que já tive), mas tudo com a esperança de me ver renovada e cheia de cores novas. Viver, pode ser sim, uma delícia! A gente só precisa ter coragem para jogar fora o que não serve mais e abrir o peito e o coração para uma nova estação.

Que venham as flores… 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Somos todos iguais…simples assim.

Pois é, ser humano é uma coisa engraçada não? A gente nasce e logo nas primeiras horas de vida começamos a aprender. Aprendemos por observação e instinto e assim, quando a fome aperta choramos, pois já sabemos que aquele ser maravilhoso que nos carregou por meses na barriga, irá correndo nos atender na nossa primeira necessidade. Observação e instinto, portanto.

Vamos nos desenvolvendo e continuamos a copiar ou rejeitar comportamentos alheios. Nossa língua, não à toa, é chamada de língua mãe, pois é o som mais familiar que conhecemos. Repetimos os sons, jeitos e comportamentos de nossos pais, desde a primeira infância. Depois saímos do conforto da casa e caímos nos desafios da escola e do mundo: convivências e muito, muito mais aprendizado.

Reagimos conforme aprendemos e assim, aos poucos vamos construindo a nossa personalidade. E aqui está a pegadinha: nos achamos únicos, incríveis ou não, mas quase sempre acreditamos erroneamente que só nós sentimos, pensamos e vivemos dessa ou daquela maneira. Esquecemos que somos, antes de qualquer coisa, frutos de um meio e portanto, produto e consequência de outros que vieram antes ou ao mesmo tempo que nós.

Não somos exclusivos, não somos especiais e nem a última cereja do bolo. Também não somos os renegados, coitados e únicos sofredores nesse mundo. Se é assim, por que então nos agoniamos tanto com nossas próprias vidas? Ou por que nos sentimos sempre tão importantes e extraordinários?

Para deixar mais claro o que digo vou citar um exemplo pra lá de clássico: das mamães que acham que seus filhotes são seres especiais e iluminados, com inteligência acima da média e com caráter que lembra o do Buda….pois é, acho que 99,99% das mães que conheço acreditam nisso e por que então não vivemos em uma sociedade iluminada e perfeita?

Todo esse papo é para dizer que quando saí do meu mundo confortável e conhecido e passei a viver aqui nos EUA, imersa em outra cultura, fui obrigada a expandir meu olhar. A solidão nos torna automaticamente grandes observadores. Parei de viver no automático e passei a prestar muito mais atenção ao que me cerca. Aos lugares e pessoas a minha volta.

Descobri semelhanças profundas em mães que vieram de um lugar chamado Eritréia, que eu antes nunca tinha ouvido falar. Descobri diferenças gritantes em meio a brasileiras que vieram de um mesmo contexto que o meu. E assim percebi o óbvio: somos exatamente iguais. Medíocres iguais, medrosos iguais, ansiosos iguais, orgulhosos iguais, teimosos iguais, etc. etc.

Temos sonhos, medos e anseios semelhantes ao do nosso vizinho, do entregador de pizza ou do presidente da república. (mesmo que ele seja laranja! 😀 ). Somos simples e complexamente humanos.

Um post que encontrei essa semana no Facebook foi o que me motivou a escrever esse texto. Trata-se da linda história de dois amigos da pré-escola que cortaram seus cabelos iguais, para que a professora pudesse confundi-los. Eles se amam tanto e se reconhecem tanto um no outro que o fato de um ser branco e o outro negro simplesmente passou despercebido. A história toda você vê aqui.

Eu me emocionei e parei para pensar. Em que momento deixamos essa simplicidade maravilhosa da infância ir embora? Em que momento passamos a nos sentir superiores ou inferiores ao outro e assim começamos um processo mesquinho e egoísta de vida?

Ser humano significa andar pelo mundo com milhões de espelhos a nossa volta.

Espelhos que encontramos naquele vizinho antipático, naquela amiga fofoqueira, naquela modelo maravilhosa da revista. Somos todos muito mais parecidos do que pensamos….

Morar em uma cultura que não é tão aberta à troca é difícil. Norte-americanos são normalmente muito fechados. Dificilmente abrem a guarda da vida e da intimidade e é comum o sentimento de isolamento de quem vem de fora. Mas analisando friamente a cultura de onde vim e de onde fui criada (Brasil) também chego a conclusão que somos “aparentemente” abertos. Expomos nossos feitos em redes sociais, lamentamos nossas dores publicamente no FB, mas a relação de sinceridade, de olho no olho e troca autêntica de experiências é coisa muito rara, mesmo em amizades longínquas e relações familiares.

Vivendo aqui sinto muita falta desse olho no olho, e percebo que a intimidade e o amor que achei que tivesse com tantos no Brasil, na verdade era muito fugaz e superficial.  Eu que mantinha a minha casa brasileira cheia de amigos e família, vejo hoje que foram poucos, pouquíssimos os que permaneceram.

A responsabilidade também é minha. Acho que todos nós nos colocamos em uma bolha de superioridade ou inferioridade em um certo momento, e com isso nos isolamos em nossos mundos, sem perceber que é a troca que nos salva, é a troca que nos faz crescer.

Como sempre a arte é muito mais precisa do que as palavras. Esse magnífico trabalho de Hans Eijkelboom, exposto na 30. Bienal de Artes de S. Paulo, mostra pessoas ao redor do globo que foram fotografadas por ele durante 20 anos.

Ele agrupou-as em tipos semelhantes de roupas e comportamento e o resultado é esse: não somos únicos! Inevitavelmente existirão ao redor de nós muito mais iguais do que imaginamos e mesmo o nosso maior arroubo de criatividade já foi feito por outrem ou será feito um dia. Somos apenas pequenos pontos nesse vasto universo…

Vamos descer do pedestal? Vamos romper as bolhas?

Um caminho é ter como lema a belíssima frase de Mário Quintana: “O amor é quando moramos um no outro”. Quando entendemos e aplicamos a dimensão disso em nossas vidas, tudo fica infinitamente mais fácil. Bora tentar?

Até a próxima! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conexões 


A vida é a arte dos encontros, ou desencontros. Não importa realmente como, mas de uma maneira ou de outra estamos sempre nos conectando a  pessoas e nos desconectando de algumas. Já pararam para pensar em quantos seres cruzam nossos caminhos? Pode ser o vizinho passeando com o cachorro, o guarda de trânsito, o colega de trabalho no elevador, a mãe segurando o filho no banco do metrô, enfim…. possibilidades infinitas! Desses encontros aleatórios podem surgir conexões profundas e duradouras, assim como amizades fugazes que duram somente uma estação ou o tempo dos interesses em comum.

Falo isso porque  já estou batendo na porta de 2017 e também já cruzei a linha dos quarenta anos. A reflexão é inevitável. Penso em tantas pessoas que passaram pela minha vida. Tão poucas que permaneceram e tantas que deixei seguir ou que me deixaram também. 

A internet e sua conexão poderosa até permite que eu bisbilhote de quando em vez aqueles que já não são íntimos. Aqueles que dividiram um tempo com uma Gabriela que já não existe mais.

Dizem que morremos e renascemos constantemente e eu vejo verdade nessa afirmação. Os propósitos, as crenças, os sonhos e realidades se transformam e modificam também nossa essência. 

Mudar de país e viver em um lugar longe de tudo que é familiar criou um divisor de águas na minha existência. A solidão virou a companhia constante e o sorriso do caixa do supermercado passou a ter uma importância gigante.

Parei de viver no automático e passei a ser observadora de cada segundo da minha vida, afinal tudo traz possibilidades e experiências inéditas.

Às vezes dói  e outras alivia.  Ser a sua própria companhia proporciona revelações que  relação nenhuma poderá te trazer. Aprendemos muito com o outro, mas aprendemos ainda mais com o que o outro deixa em nós.

Agora estou de férias, em um dos lugares mais paradisíacos do planeta. A natureza vibra aqui em uma proporção assustadora! Me faz refletir, me faz aquietar e curiosamente tem me feito sonhar. 

Sonho todas as noites com pessoas que já passaram pela minha vida , pessoas de quem não ouço falar faz tempo, mas que de uma certa maneira continuam vivendo em mim.

Estamos todos ao mesmo tempo dividindo esse passeio pela Terra, em um momento complicado, turbulento, com muito mais dúvidas que respostas. 

Eu tenho medo, confesso. E talvez tenha até deixado meu otimismo cair da bolsa nesses meses difíceis que preencheram 2016. Porém estar  aqui e sonhar com olhares e sorrisos de quem já fez parte da minha vida me fez acreditar definitivamente em algo maior. Uma espécie de conexão que ultrapassa a barreira do contato físico.

O ano novo não muda nada, apenas mais uma página virada no calendário. A mudança está na mente e no coração de cada um. 2017 chega e exige que sejamos fortes, perante a tantos obstáculos.

Próximos ou não, amigos ou não, acho que devemos  apenas nos conectar e deixar viver no outro aquilo que nos falta. 

Sinto muito falta de alguns e também gratidão, principalmente por todos os pedacinhos que habitam em mim, e que me fazem ser quem sou. Eles vieram de todos vocês, que um dia compartilharam o meu caminho.

Namastê e que venha 2017 com mais pontes do que muros.

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