Vilarejo

Tocando “Vilarejo” da Marisa Monte no carro e eu começo a chorar. As lágrimas escorrem no meu rosto e mal consigo me controlar. Dirigindo mais uma vez, por baixo das gigantes e centenárias árvores das ruas de Capitol Hill – o bairro mais bonito de Seattle – com o sol dourado de janeiro, iluminando os galhos.

Sempre gostei de sinais. Acho que são ferramentas dos anjos, ainda que não acredite muito em anjos, vai entender… E a música começou a tocar quando eu estava pensando no quanto estou sempre de partida.

Na verdade, estamos todos de partida, mas para mim isso ficou muito mais concreto depois que saí do Brasil. São tantas despedidas que mal cabem no meu peito. Além das pessoas, passei a me despedir de calçadas, árvores, cafés, cheiros, paredes e texturas. Toda essa miscelânea de coisas ordinárias que compõem uma vida…

Agora estou aqui, escrevendo a mão. Só por curiosidade, mas quando as palavras saem lá do fundinho de mim, preciso de papel e caneta. Não dá para digitar, vai entender, de novo!

Estou aqui pensando e dissecando cada verso da letra de Vilarejo, como eu fazia nas aulas de literatura da FFLCH. Por que essa simplicidade me emociona tanto?

Porque fala de lugares que buscamos e que não existem. Utópicos.      


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe

Paraíso se mudou para lá.

Vilarejo povoado por heróis e mães. Amor e segurança. Amor e empatia. Amor e proteção. Paraíso, só pode ser…

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

E pela sensatez das coisas, a vida não deveria ser assim? Um semear e colher de sonhos? Na nossa realidade cotidiana, vivemos sem perceber, o sonho plantado de outros. O sonho de quem um dia pensou em se locomover sobre rodas, em voar como pássaro, o sonho de quem imaginou uma ferramenta de comunicação como a internet, e assim exemplos se acumulam, indefinidamente. Mas em que lugar escondemos os nossos próprios sonhos e por que não fazemos deles sementes?

Toda a gente cabe lá
Palestina, Xangrilá
Lá o tempo espera
Lá é Primavera

Infelizmente com cada vez mais frequência não deixamos pessoas “caberem” na nossa vida, na nossa casa, na nossa cidade, no nosso país. Encolhemos nossos espaços afetivos. Reclamamos de políticas restritivas de acesso imigratório, mas não abrimos as janelas de nossa alma para os novos amigos e os novos encontros.

Sabemos que o tempo não espera. Essa talvez, seja a única certeza e a mais dolorida também. Assim como a areia, o tempo escorre pelos dedos. Projetos não executados se perdem em gavetas empoeiradas da memória, sonhos não realizados, viram sementes de frustração, escolhas não feitas tornam-se arrependimentos amargos. Não, o tempo não espera…

E assim como a Primavera, estação colorida perfumada e efêmera, o tempo se esvai tal qual pétalas de flores caídas no jardim. O lugar ideal seria de fato o da eterna Primavera, eterno tempo de renascimento e florescência….

Em todas as mesas pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção

Por que cada vez é mais difícil se ater ao que é essencial? Pão, amor, sonhos e flores. Será que precisamos de muito mais que isso? Nos perdemos em demandas sucessivas e insatisfações eternas.

Chorei porque vejo que estou sempre a procura desse vilarejo. Como uma alma em desassossego, já deixei o Brasil, já mudei de costa a costa nos Eua e agora outra mudança se desenhando no horizonte. No fundo é isso que buscamos, esse vilarejo, onde portas e janelas se abrem para sorte.

Mas talvez, esse Vilarejo possa estar dentro da gente. Reformar a casa, jogar fora os excessos e encher o pulmão com a brisa da simplicidade. Amar, ser amado, semear sonhos e colher realizações.

Nunca é tarde, e um dia, certamente me mudarei para lá…

Até a próxima! 😉

Pessoas

Tentando organizar a bagunça demilhares de fotos no meu computador, me deparei com as imagens que ilustramesse texto.

São pessoas. Pessoas presentesnos meus arquivos de fotos, pessoas que um dia foram tão íntimas a ponto deestarem no meu arquivo de fotos! Pessoas que hoje se tornaram estranhas,distantes e quase desconhecidas. Algumas, sequer me lembro quem são.

A vida é engraçada. É a metáforaperfeita de uma estrada, pela qual caminhamos desde quando nascemos.

Essa estrada possui curvas,ladeiras, abismos e desvios. Por ela, atravessamos tempestades, ondas de calor,gelo e neve e algumas vezes uma brisa suave e doce aparece para afagar nossoscabelos…

Aprendemos com as dificuldades.Muitas vezes, as pernas doem, os pés quase sangram e maldizemos a estrada.Imploramos para que fique suave, para que surjam atalhos. Outras vezes, oterreno se torna tão paradisíaco, que esquecemos o quão árido já foi um dia.

Não há possibilidade de retornos. Até tentamos! Damos alguns passos para trás de quando em vez, mas a vida – ops, a estrada – torna a nos empurrar para frente. Infelizmente alguns desistem, interrompem o caminho muito antes dele terminar. Outros insistem em manipular o tempo. Não aceitam que passe e tentam a todo custo, remover as marcas do envelhecimento. Uma minoria ainda, quer acelerá-lo, antecipando problemas e preocupações. Quanta bobagem! A verdade é que não temos controle. O tempo se vai, independente de nossas vontades.

Há até aqueles que resolvemparar. Abandonam-se na estrada, em estado de paralisia, sem andarem para frenteou para trás. Não é opção, sinto lhes dizer, a própria vida irá empurrá-los.

Descobrimos sabores, cheiros etexturas. Algumas esquinas, nos fazem rever nossos conceitos, nos mudam decabeça para baixo. Outras dão saudades, saudades de quando não éramos o quesomos agora.

Mas os grandes influenciadoresdessa estrada, não são os acidentes geográficos, a temperatura ou a paisagem.São as pessoas. São essas da foto, que agora, parecem figurinhas…

São rostos que podem virarhistórias dentro da nossa biografia, ou apenas vagas lembranças. São almas quenos contaminam, influenciam e às vezes, têm até o poder de mudar nossoscaminhos. Por trilhas mais fáceis – ou não.

Alguns desses rostos escolhemos,outros nos são impostos. Amamos, gostamos, detestamos. Mas é inegável queaprendemos. Por mais mínimo que tenha sido seu papel, em algum momento, fizeramparte de nossa estrada.

Meu caminho me levou para longede grande parte dessas pessoas. Certamente, alguns eu não irei rever novamente.Outros me acompanharão, independente da distância. Com cada um aprendi, mesmoque algumas lições tenham sido doloridas.

No final, colocando todos assim, em perspectiva, no mesmo recorte de uma fotografia ¾, vejo que não há melhores ou piores. Bonitos ou feios, ricos ou pobres. São apenas figurinhas, poeiras de estrelas que um dia brilharam nas galáxias, segundo várias linhas filosóficas.

Grãos infinitamente minúsculonessa imensidão universal. Mas, porém, contudo, todavia, tiveram, em algummomento, impacto na minha vida. Isso os faz gigantes e me leva a conclusão, deque os encontros pessoais são os fatos que verdadeiramente impactam a nossavida.

Que eu possa adicionar mais figurinhas na minha estrada….

E como diria o gênio Guimarães Rosa:

O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

Seguimos.

PS.: Há muito mais rostinhos no meu arquivo, mas a tecnologia exigiu que muitos ficassem de fora, porém continuarão arquivados! 😉

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