O dia depois de amanhã e o início da era Trump

Meu café que me acompanha agora está amargo, assim como meus pensamentos. Não é fácil acordar depois de uma tremenda ressaca emocional, onde eu vi vencer o racismo, o machismo e a misoginia. Mas é preciso erguer a cabeça e ver a figura inteira: como chegamos até aqui e para onde iremos depois?

Donald Trump venceu democraticamente e legitimamente, por pouco menos da metade dos votos. O sistema eleitoral americano, que é completamente diferente do brasileiro, o elegeu através da maioria ganha nos colégios eleitorais. Isso indica que os EUA está dividido, rachado ao meio entre dois pensamentos completamente diferentes.

Essa mesma polarização aconteceu na Inglaterra, na Itália, em Israel e no Brasil, entre tantos outros lugares… Trata-se de um fenômeno atual e global. Não existe mais meio termo, pessoas estão se amotinando atrás de suas crenças, deixando nenhum espaço para a conciliação.

No primeiro dia após o resultado da eleição, esse efeito devastador já pôde ser observado em atitudes execráveis ao longo do país. Alunos de uma High School da Pensilvânia marcharam durante o refeitório e gritando: construa o muro!  Eles carregavam placas do Trump, enquanto outros alunos latinos, asiáticos e imigrantes em geral ficaram acuados de cabeça baixa.

A filha de 8 anos de um conhecido meu, eleitor de Trump, foi para a escola pública em Maryland e foi questionada por sua professora em quem seus pais votaram. Quando a resposta foi Trump a professora começou a gritar com a menina, sendo apoiada por outra professora. Pais que estavam no corredor tiveram que entrar na sala para acalmar os ânimos.

Vários fatos, tristes como esses, já começaram a acontecer no primeiro dia da era Trump e podem ser facilmente encontrados na internet. Milhares já se programam para protestar contra o novo presidente e milhares já se preparam para defendê-lo. O clima é tenso, hostil e infelizmente não vai melhorar….

Passei boa parte da noite pensando e lendo tudo o que podia para tentar encontrar respostas. Cheguei a algumas conclusões, ainda muito cruas, que queria dividir aqui.

Graças à internet e sobretudo ao Mark Zuckerberg o mundo mudou! Todas as nossas relações mudaram completamente mas continuamos a ser educados a pensarmos em moldes que não fazem o menor sentido hoje. Felizmente, agora um número infinitamente maior de pessoas ao redor do mundo tem acesso à informação. Basta um clique de qualquer celular e você estará assistindo ao vivo pessoas falando de Bangladesh, se você quiser.

O problema – grave –  é que com a democratização massiva da informação, podemos filtrar aquilo que nos alimenta. Dificilmente perderemos nossos minutos de navegação diária para lermos a respeito daquilo que não aceitamos. Um exemplo prático para qualquer brasileiro: eleitores da Dilma e do PT jamais usarão como fonte de informação o blogue do Reinaldo de Azevedo. Da mesma forma que seguidores do Rodrigo Constantino jamais lerão os textos de Jean Willis.

E assim vamos nos aprisionando em uma bolha perigosa, que só reforça nossas convicções e nos faz acreditar em certezas distorcidas da realidade. O ódio vem na sequência e tudo que é diferente daquilo que eu acredito passa a ser visto como abjeto e desprezível.

É um perigo! Eu mesma caí nessa bolha, quando me opus veemente à reeleição de Dilma no Brasil. Fui rasa, fui parcial e me alimentava só de informações que me diziam o que eu acreditava. Foi através da dor de viver em outra língua e ser obrigada a conviver em uma realidade muito diferente  que me fez ver o quanto a gente cresce na diversidade e o quanto nossos pontos de vista podem ser estreitos.

Nesse momento, por mais que seja difícil,  é preciso pensar: Será que a metade dos eleitores americanos, que são pró Trump, estão totalmente desprovidos de suas razões? O maior exercício de humanidade é colocar-se na pele do outro e cada vez menos fazemos isso.

Não sou imparcial e tenho  também minhas próprias convicções, seguem algumas:

  • não sou religiosa e critico racionalmente a fé cristã (já perdi amigos por isso L )
  • defendo o aborto e o direito de escolha das mulheres (apesar de nunca cogitar em fazê-lo, sendo essa a minha escolha)
  • aplaudo a diversidade e o casamento homossexual, assim como a liberdade sexual de qualquer pessoa
  • sou a favor da democracia e ainda que ela traga resultados amargos, como os dessa eleição, ela é o sistema mais justo criado pelo homem
  • sou absolutamente contra qualquer arma de fogo e defendo a restrição absoluta das mesmas

Poderia continuar essa lista infinitamente e nem assim estaria falando verdades mas apenas expondo o meu ponto de vista! Percebem a diferença entre opinar e catequizar?

Respeito e estou completamente aberta à discussão de argumentos contrários a qualquer um dos itens que escrevi acima, mas infelizmente sei que muitos, depois dessas minhas afirmações, passarão a me ignorar solenemente.

Eu sigo firme na minha maior defesa: ter liberdade para fazer minhas escolhas ideológicas, pessoais e políticas, sem cercear e agredir os diferentes e nem permitir que me agridam.

Parece utópico demais pensar que um dia esse consenso irá existir, mas o contrário disso está apenas nos arrastando para as trevas que o mundo assiste hoje.

Permita-se ler e se informar em fontes diferentes das que te agradam, aproveitando o privilégio de ter acesso a toda e qualquer informação.  Você pode se surpreender positivamente! Isso ontem aconteceu comigo, quando um crítico ferrenho à campanha da Hillary Clinton me apontou motivos incontestáveis para a vitória de Trump.

É preciso sair da bolha, é preciso ouvir o outro, é possível darmos as mãos e pensarmos na construção de um mundo menos cruel. Precisamos mais do que nunca de pontes ao invés de muros….

Vamos todos tomar um trago de esperança?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Casamento – o maior de todos os desafios!

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O que nos diferencia como humanos de todos os outros seres vivos do planeta? A convivência e os afetos…

Desde bebês amar é o verbo mais utilizado. Amamos nossas mães, amamos o colo e conforto do peito. Crescemos e vamos nos conectando, com irmãos, amigos, colegas e vizinhos. Alguns permanecem, outros vão se embora pela vida.

Nesse oceano de rostos e personalidades terá sempre uma que baterá mais forte e com essa decidimos nos casar. A paixão, os sonhos de uma vida em comum pela frente, os arrepios e desejos, tudo isso faz parte do caldo inicial. Achamos que não poderemos mais viver sem aquela pessoa e decidimos nos unir em matrimônio (oficial ou não).

Começam os desafios, as dificuldades. Dividir cozinha, banheiro e dinheiro não é para qualquer um… De repente chegam filhos e tudo vira outra coisa. Não é mais um casal, mas sim uma família. Um micro-organismo vivo, com regras e funcionamentos próprios, que compartilham ideias, gostos e sonhos.

Claro que existem divergências profundas, cada um vêm de um background diferente. Aquele charme do início, “ai que fofo, ele ama filmes de terror”, vira rapidinho uma implicância e uma irritação.

Tudo pode ser motivo para briga e discórdia, mas quando o encontro é de almas, isso fica pequeno.

Por que falo tudo isso? Porque hoje, dia do meu aniversário, comemoro 20 anos de casamento. Não com a mesma pessoa, porque no decorrer desses anos todos nos modificamos bastante. Estou longe daquela menina insegura que entrou na igreja em 1996…

Mas a vontade de ficar junto, a parceria, a amizade são maiores. Claro que a viagem nem sempre foi tranquila e enfrentamos muitas águas turbulentas. Mas o segredo, se é que existe um é esse: nos amamos  exatamente pelo que somos.

Podemos passar horas em silêncio um ao lado do outro, sem a necessidade de palavras. Cultivamos e investimos em prazeres em comum, brigamos e ficamos de mal, mas nunca mais do que por uma noite. Sentimos saudades e toleramos a cara feia e amassada de manhã. Te amo, parabéns pelos 20 parceiro!

É possível encontrar isso, não existe só em filmes e contos de fadas.  Pego carona na dica de  Vinícius de Moraes, que casou dezenas de vezes e conhecia o assunto como ninguém! Fica aqui a contribuição do poetinha:

“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração”

Vinícius de Moraes – Samba de Benção

 

 

 

A hora de visitar a terrinha – confusão de sentimentos!

Hoje finalmente recebi meu ticket de viagem ao Brasil. Serão 20 dias de férias por lá, depois de quase dois anos longe. Fica difícil descrever a confusão de sentimentos.

Estou muito feliz, por poder rever as pessoas que marcaram a minha vida e sempre serão meu norte. Mas devo confessar que bate um arrepio na alma….o que se passou enquanto eu estive fora, o quanto eu mudei? O quanto tantos mudaram?

A vida de um expatriado é como uma montanha russa. Apesar do clichê, ainda não encontrei definição melhor: uma constante de altos e baixos.  Novas descobertas, novos cheiros, novos sabores e novos amigos e ao mesmo tempo a certeza irrefutável de que tudo que deixamos para trás não voltará jamais!  Não tem como não ser dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

Rever o Brasil, minha terra adorada e dourada, depois de quase dois longos anos, causa sim um tremendo frio na barriga.

Nesse tempo que me ausentei, pessoas se amotinaram por suas crenças políticas, guerra travada entre dois símbolos sagrados aos brazucas: a mortadela e a coxinha!   Em comum, pelo menos para quem vê de fora, uma vontade feroz de ver as coisas melhorarem.

Nada  melhorou por enquanto, e o sol poente ainda parece distante da terra brasilis, mas algumas coisas permanecem, como esse calor inconfundível que só se vê por aí….

Ai, meu Brasil, que saudade de você! Saudade de me sentir verdadeiramente abraçada, saudades de ouvir a melodia linda da língua de Camões, saudades de ouvir Chico Buarque ( sim, eu o amo apesar de tudo e contra todos!), saudades do desejo e da saliva na boca de quem espera por uma caipirinha de maracujá com cachaça na areia quente da praia….

São tantas coisas que fazem falta, que acredite você – que sonha com os outlets da Flórida –  nada será capaz de substituí-las!

Acontece que a vida anda, o dia toma o lugar da noite e a primavera dá lugar ao verão! Descobrimos, a duras penas, que não somos árvores e sim seres adaptáveis às condições que nos cercam.

Hoje, gosto de ver bandeiras vermelhas e azuis, pontuadas de estrelas, balançando ao ritmo dos ventos. Gosto de  ouvir Hotel Califórnia, na voz de um cantor anônimo no bar, tanto quanto ouvia Djavan nos bares da vida da Vila Madalena. Aprendi a degustar o sabor de um verdadeiro hamburger e me emociona ver crianças de todas as raças, cores e credos jurarem fidelidade à bandeira de Abraham Lincoln, todos os dias na escola pela manhã.

Enfim e por fim, não existem respostas óbvias ou caminhos claros. A vida é passagem e como dizia meu amado Guimarães Rosa, estamos todos à margem desse grande rio.

Vou fazer minhas malas e rever meus amados, mas agora com um outro sentimento: não mais pertenço ao Brasil, nem tampouco aos EUA! Sou apenas uma terráquea tentando fazer dos limões da vida uma grande limonada! Seguimos….

 

 

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Meu momento trevoso, capturado pelas lentes insensíveis do meu marido! A vida não é só beleza e sorrisos photoshopados galera 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atirando para se defender? Brasil e EUA – diferenças…

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Casa Branca – Washington DC

 

Pela milésima vez estive em frente à Casa Branca nesse final de semana. Morando em Washington DC, é impossível não levar parentes e amigos que chegam aqui pela primeira vez para conhecerem a “Casa do Obama”(por enquanto).

Não reclamo, eu gosto! A Casa Branca fica em um lugar lindo e agradável para caminhadas, além de ser ao lado de uma das galerias de arte mais charmosas da cidade, Renwick Gallery. Para mim é sempre um bom programa.

Contudo, quando estive lá não consegui parar de pensar em um fato recentemente acontecido e pouco mencionado na mídia. Em maio desse ano, um homem aproximou-se do edifício com uma arma em punho. Sem questionamentos, policiais à paisana dispararam e atingiram o indivíduo, que foi levado em estado crítico ao hospital, mas sobreviveu.

Esse lugar bonito, bem cuidado e aparentemente simpático e cheio de turistas é sem dúvidas um dos pontos de maior tensão do planeta. O policiamento é ostensivo e não se engane, além dos vários policiais uniformizados visíveis, existem outros tantos disfarçados de cidadãos comuns sempre prontos para a ação.

Moro nesse país há pouco mais de um ano, portanto não me sinto confortável para discutir ou questionar seus métodos. Na minha visão pacifista, me pareceu uma reação exagerada, mas de novo, não sou apta para julgar!

Essa semana, quando ainda lidávamos com o absurdo do estupro coletivo no RJ, fomos atropelados pela notícia do menino de 11 anos baleado por um policial em São Paulo.

As discussões acaloradas e cheias de opinião logo tomaram conta do Facebook e vi com tristeza todos discutindo as consequências de mais um trágico acontecimento: os que acham que fez bem a polícia em matar e os que enxergam o fato como uma execução sumária de uma criança de 11 anos. Ao invés de pontes, as pessoas constroem trincheiras através das certezas de suas opiniões.

Pouco se falou sobre as causas e a falência de uma sociedade como um todo que esse caso representa: crianças de 10 e 11 anos, armadas, assaltando na calada da noite, dirigindo carros roubados por São Paulo…

Sim, eu me sinto responsável! Eu falhei como cidadã brasileira e acho que falhamos todos. Não é um problema da periferia, não é um problema de caráter, é um problema social, do qual somos todos igualmente culpados.

Em países de primeiro mundo, até pipocam casos de violência infantil, mas na maioria das vezes ligados a problemas de psicopatias. Casos isolados de transtorno mental. Infelizmente no Brasil é uma epidemia, mais cruel que o vírus da Zika.

Enquanto os intelectualizados discutem fervorosamente no Facebook, tecendo críticas ferozes (e justas) à nossa vergonhosa classe política, uma massa de invisíveis cresce nas periferias.

Me lembro que em 2013 dirigi pelas ruas de Carapicuíba, periferia de São Paulo. Era época de férias escolares e fiquei estarrecida com a quantidade de crianças nas ruas. Sem pais, crianças muito pequenas brincavam perigosamente em telhados das construções precárias, na beira do lago poluído. Sem escola, crianças muito pequenas não sabiam dos perigos que as estavam rondando. Sem atividades, crianças muito pequenas, ficam zanzando a toa pelas ruas de um dos municípios mais violentos do Brasil. Não eram 10 ou 20, mas centenas! Não me esqueço da sensação de tristeza ao olhar para os morros e ver um mar infinito de barracos e crianças por toda parte.

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Crianças nas vielas de Carapicuíba – São Paulo

Cheguei em casa e covardemente encarei  as minhas filhas, achando que o que me cabia era dar o máximo de mim para educá-las para um fim melhor. Não me engajei em nenhuma ONG, não voluntariei nas favelas, não participei de nenhum projeto social, apenas reforcei minha atenção para as minhas crias e para as crianças de conhecidos próximos.

Fui egoísta, cuidei somente do meu jardim e achei que votar  para governos melhores e investir pesado na educação das minhas filhas era o que de máximo me cabia fazer. Que tola!

A vida ensina, e foi aqui, no país mais capitalista do mundo que aprendi a importância da coletividade. Os jardins públicos e gramados das ruas em geral, são muitas vezes mais cuidados que os jardins particulares.

Pode ser uma metáfora boba, mas que mostra o que faz um país ser chamado de primeiro mundo: o coletivo vem em primeiro lugar! Nas escolas públicas o voluntariado por parte dos pais é quase que uma regra e não exceção. As crianças se engajam em campanhas de ajuda aos menos favorecidos: são inúmeros os eventos promovidos para esse fim. A diversidade cultural e social, coloca no mesmo banco de escola filhos de congressistas e de imigrantes latinos. Todos limpam a cafeteria depois da refeição e aprendem massivamente a importância de respeitar e honrar o país.

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Crianças nos jardins de uma escola pública em Northern Virgínia 

 

Ter uma experiência em voluntariado no seu currículo é tão importante quanto uma graduação e desde a escola elementar as crianças são estimuladas a isso.

Isso é mérito do governo? NÃO! Isso é mérito de uma sociedade participativa.

As pessoas trocam facilmente o seu tempo de folga para limpar a escola e a rua do bairro, ao invés de passar o dia cuidando da própria casa. Dividem igualmente seu tempo à manutenção do bairro, a atividades escolares e aos assuntos pessoais. É implícito o conhecimento de que se o todo não vai bem, a sua vida pessoal também estará afetada.

Claro que a perfeição passa longe e o fato acontecido na Casa Branca ilustra o quanto estamos longe de uma sociedade equililbrada. Tanto nos EUA, quanto no Brasil pessoas foram sumariamente baleadas quando se mostraram uma ameaça.

Mas existem diferenças gritantes em ambas situações. Um homem armado em frente à residência oficial do presidente dos EUA, lugar que reúne diariamente centenas de turistas do mundo todo. Trata-se de um país que está em guerra declarada há anos contra o terrorismo internacional e vive sob constante ameaça de ataques. Policiais à paisana atiraram, mas não mataram, em uma “provável” ameaça terrorista.

Já o Brasil é outro país latino que parece ter sucumbido à violência cotidiana: a ameaça veio por parte de um menino de onze anos, que usava uma arma e tinha cometido um assalto ao lado do amigo de dez anos. Foi atingido mortalmente.

Devido a nossa omissão social assistimos inertes a  um país falindo nos escombros da violência e da falta de perspectiva. É mais do que urgente que a sociedade brasileira dedique atenção e cuidado à tudo que rege a vida pública. Quando lutamos somente pela nossa vida privada e pelos nossos interesses pessoais, o país perde como um todo e a bala que atingiu uma criança de 11 anos, na verdade atingiu a todos nós!

Conheço felizmente algumas vozes nessa imensidão que se propuseram à ação. Deixarei abaixo os links aos interessados e uma pergunta aos meus conterrâneos: o que VOCÊ está fazendo a respeito? Acredite, regar apenas o seu jardim não será suficiente. O Brasil clama urgentemente por uma sociedade mais participativa, mais engajada em questões relacionadas à cidadania. Pode parecer pouco, mas o trabalho que você realiza coletivamente dentro do seu próprio condomínio já é um exercício eficaz na construção de comunidades melhores.

Projeto Aquarela  – Projeto comunitário que trabalha com crianças em situação de risco na região de Campo Limpo em  São Paulo. Necessita urgentemente de voluntários!

Projeto Mundo Irmão – Projeto comunitário que atua em duas frentes: estímulo à construção da cidadania através da leitura de livros infantis e ajuda financeira a diversas instituições de caridade proveniente da comercialização dos livros

Band Voluntário – Organização que surgiu no Colégio Bandeirantes em São Paulo e atua na divulgação de várias ONGS engajadas em trabalhos de melhorias sociais, além de outras atividades

Instituto Brasil Solidário – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, voltada à valorização dos ser humano, oferecendo-lhe oportunidades por meio da educação. Atua em todo o Brasil com inúmeros projetos sociais, culturais, educacionais e de saúde. Lindíssimo trabalho que tive a oportunidade de conhecer.

São apenas algumas opções que conheço pessoalmente, mas para quem se interessar, basta um google e certamente você encontrará oportunidades de trabalho para a construção de um Brasil melhor!

 

 

 

 

 

Andanças por aí: seres humanos, a melhor parte!

Fiz uma viagem recente à Charleston, Carolina do Sul. Vi coisas lindas e interessantes, aprendi um bocado sobre história norte-americana, tirei muitas fotos, tomei sol na praia e blá blá blá. Poderia ficar aqui me exibindo e detalhando o que qualquer busca no google pode te mostrar e que também detalharei em breve no blog Brasileiras pelo Mundo, mas ao invés disso quero falar de encontros.

Isso mesmo, encontros! Tive dois momentos únicos nessa viagem que valem um post. O primeiro foi em um entardecer na deslumbrante praia de Folly Beach. Um píer destinado aos pescadores segue em direção ao mar, e a sensação de ver o sol se pondo no oceano, em profundo silêncio e acompanhada de quem mais amo já serviu para valer o dia.

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Píer de pescadores na mágica Folly Beach – Carolina do Sul

Mas estávamos em um dia de sorte e teve mais. Na saída do píer notei um belo casal, ele pintava a nanquim em um cavalete e ela estava sentada sobre uma canga colorida cercada de cartas de tarot. Não resisti e parei para puxar conversa…. ele foi criado na mesma cidade que moro hoje, Fairfax VA e anda pelo mundo pintando, desenhando e criando. Uma vida dura, como a de todo artista que ainda não encontrou seu lugar ao sol. Ela tirava cartas e me pediu que escolhesse uma. Fiquei impressionada por ouvir coisas tão coerentes a meu próprio respeito.

Um casal jovem, bonito, desses que fogem às regras e as convenções a que estamos acostumados. Senti emanar deles uma liberdade que desconheço. Apesar das dificuldades que certamente eles enfrentam, eles seguem firmes naquilo que acreditam. Arte.

O trabalho dele, Aaron Burke, é impressionante. Um traço ágil, forte e uma imaginação infinita. Foi um encontro rápido, emoldurado por uma paisagem deslumbrante e que certamente me trouxe um enriquecimento que carregarei comigo, melhor que qualquer souvenir de lojinhas.

Na noite seguinte estávamos caminhando pelas ruas já vazias de Charleston, iluminadas por uma lua que parecia um sol. Procurávamos fantasmas e estávamos justamente fotografando túmulos do belo cemitério da Igreja quando surgiu outro casal. Policiais fardados, típicos americanos desses que você imagina comendo donuts e tomando café.

O homem chegou de mansinho e em um gesto surpreendente perguntou se poderia assustar meu marido, que estava distraído nas fotografias de terror. Achei graça e começamos a conversar. Logos estávamos falando do Brasil e de nossas vidas e qual não foi a minha surpresa quando a policial feminina arriscou umas frases em português! Ela me contou que havia passado o Natal de 2013 no Rio de Janeiro, na casa de uns amigos. Tirou o celular do bolso e me mostrou orgulhosa as fotos da viagem, de uma ceia de Natal em uma comunidade pobre de algum morro carioca. Me disse que esses amigos eram mais que especiais e que os conheceu pois a filha deles tinha sido assassinada em Charleston pelo ex-marido americano, que continua foragido. Essa policial se envolveu na história, ficou íntima da família, a ponto de viajar para o Rio e se hospedar com eles. Disse para mim que não vai desistir de encontrar o culpado e que cuidou pessoalmente de toda a burocracia que um caso desses envolve, prestando apoio irrestrito à família.

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Noite de lua cheia em Charleston, cheia de surpresas e encontros

 

Veja só minha gente: dois casais representando os opostos de uma sociedade. Os “hippies”livres e de espírito artístico e os militares uniformizados. Dois casais que em noites seguidas me mostraram o que é humanidade, o que é simpatia, o que é ser solidário ao outro. Dois casais que têm freqüentemente seus papéis execrados nessas redes sociais de ódio e verdades absolutas  (hippie vagabundo e militar opressor).

Sou feliz por estar construindo na minha vida uma rede de amigos que é diversificada. Odeio as panelinhas, odeio as posições estanques que as pessoas se colocam, julgando e condenando os diferentes. Procuro andar pelo mundo de olhos abertos e coração também e sou agraciada por isso recebendo de presente encontros assim, tanto de policias americanos imponentes, quanto de hippies belíssimos no píer. Ambos me mostrando em sua plenitude que ao final somos todos igualmente  seres humanos.

Em tempos de trevas e ódio pelo mundo chega a ser ridícula a repetição da famosa frase cafona: mais amor, por favor. Porém não vejo outra saída que não a da tolerância, a do respeito e fim de julgamentos preconceituosos.

Março já acabou e a Primavera por aqui segue a todo vapor. Esses encontros foram minhas lições de Páscoa e aí? Quais foram as suas?

Até a próxima…. 😉

 

 

Papo de mulherzinha: a beleza nos EUA

Bom, as coisas andam quentes com Trump aqui e Lula aí, por isso resolvi dar um tempo de papo cabeça e mergulhar no universo mulherzinha, também como homenagem ao nosso dia internacional. Vamos falar de vaidade e como é se cuidar nos States?

Já havia viajado muitas vezes para os EUA como turista e sempre me encantava com a infinidade de opções, cheiros e cores das prateleiras de cosméticos em farmácias, super-mercados e lojas de departamento.

Eu era o tipo preguiçosa consumista, que adorava comprar produtos lindos e fofos para as gavetas usarem e  foi só recentemente  que passei a usar religiosamente filtro solar, depois de eliminar uma pinta suspeita que surgiu no meu braço e levar uma bronca danada da minha dermatologista. (Graças a Deus não era nada!)

Pois bem, me mudando para cá e chegando nos temidos 40, mudei um pouco a minha disciplina. O primeiro fato é sem dúvida o clima. Muito mais seco e frio que no Brasil, a pele logo fica parecendo uma escama de peixe ressecada. Horrível mesmo! E para piorar, a água dos chuveiros e torneiras são bem mais turvas e químicas que no  Brasil, deixando  os cabelos parecendo vassouras.

A contrapartida é que a oferta de bons produtos é infinita. Desde lojas tentação como Sephora e Ulta até corredores da Target e Walmart, sem contar as compras online! Criei um hábito de cuidados, tão religioso e chato quanto o uso do fio-dental , mas que tem funcionado muito bem. Hoje acho a minha pele melhor do que há alguns anos atrás.

Tudo começa com o filtro-solar pelas manhãs, seguido de  um hidratante da marca Olay, linha Regenerist, que pesquisei na internet e é campeão de vendas e fama. Acreditem, é uma beleza mesmo! À noite uso uma duplinha da ROC com ácido retinol e acordo com a cara da Bela Adormecida (quem dera…)

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Minha bancada de produtos. Em destaque o indispensável Floral de Bach Rescue  que me mantém sã e serena ;0
Principalmente nos meses frios, que já começam em outubro e vão até abril, a pele parece sentir sede, e essa hidratação é necessária. O corpo, as mãos e os lábios também não podem ser esquecidos. E quando chega a primavera e o verão é preciso tomar banho de filtro solar já que o sol aqui brilha tão forte e é tão quente, que até as 19h00 da noite sentimos a pele arder. Ou seja, cuidados o ano inteiro.

Quanto aos truques de maquiagem e afins, eu não sou nenhuma expertise, mas adoro usar minha santa máscara de cílios todos os dias e um corretivo, quando a situação pede, ou quase todo dia. No lábios vou apenas de Chapstick (uma espécie de protetor labial super popular aqui nos EUA) e só quando quero me sentir diferente, abuso de um batonzinho e de cores nos olhos.

A dificuldade é o tom da pele. Nós brasileiras, mesmo as branquinhas, carregamos um D.N.A. inconfundível e aquele branco rosado, chic e etéreo da Cate Blanchet, parece mais um amarelo esverdeado na nossa pele sem bronze. Pavoroso!

Para disfarçar me rendi a uma mania americana e comecei a usar essa semana uma loção auto-bronzeadora que promete dar um toque de “sun kissed”, ou beijada pelo sol. A marca que comprei é Saint Tropez, bem carinha aliás, mas de novo: nas avaliações da internet ganha disparado de todas as outras. Faz apenas uma semana que estou usando e por enquanto estou gostando muito, seca rápido e não tem cheiro, além de dar mesmo uma corzinha.

As avaliações disponíveis na internet são muito úteis  e extremamente precisas. Hoje, não compro quase nada que desconheço, sem dar um Google antes.

Quanto às unhas….ah, as unhas! Nunca fui fanática por escovas de cabelo no salão, maquiagens, tratamentos a laser, etc, mas sempre gostei de ter cores nas minhas unhas. Fazia as unhas toda semana no Brasil e adorava aquela horinha, de escolher um esmalte, tomar um cafezinho e bater um papo com a fofa da minha manicure.

Aqui acabou a graça. Custa caro, é bem pior que no Brasil e bate-papo amigável com manicure é coisa de brasucas. Descobri então que sou boa nos pincéis e pinto as unhas direitinho. Parei de tirar cutículas e  não me arrisco. Uso o tempo todo um bom hidratante para as mãos e elas quase nem aparecem mais. Já pedicure eu me dei bem porque é bem mais agradável de se fazer do que no Brasil. A cadeira é deliciosa e a massagem vale cada um dos (muitos) dólares pagos. Claro que ao invés de quinzenalmente, faço só de vez em quando. Falta tempo e verdinhas…

Aliás, como já escrevi antes nesse post sobre vida doméstica, vivendo nesse país somos mulheres com 1001 utilidades. Quer ver só? Acordar, preparar o café, preparar o almoço das crianças para a escola, cuidar do cachorro, limpar a cozinha, lavar a roupa, secar a roupa, dobrar e guardar, ir ao mercado, carregar o carro, descarregar o carro, guardar as compras, encontrar os pares de meia, abastecer o carro, passear com o cachorro, fazer o jantar, colocar o lixo na rua, etc. etc. e nesse meio tempo, estudar, passear, trabalhar, escrever, comprar, ler, ser mãe, ser mulher  e…. tentar se cuidar!

Merecíamos o Oscar, mais do que o Leo di Caprio. Não à toa que se vê tanta mulher desencanada por aqui. Eu mesma mudei muito. Tem dias que nem penteio o cabelo e ao melhor estilo americano, faço um coque, coloco um casaco por cima do moletom de dormir e vou tomar meu café na minha deli favorita, segura e feliz.

Acho interessante que no paraíso dos cosméticos, liga-se muito menos para a aparência do que no Brasil. Já experimentou passear no shopping Iguatemi-SP com seu moletom surrado e os cabelos sujos? Com certeza se sentirá avaliado da cabeça aos pés….

Ganhei a liberdade de poder ser quem eu quiser.  Ontem estava na academia ao lado de um cara que corria na esteira com calça de pijama flanelada e estampada com renas (!) E provavelmente eu era a única a olhar e achar estranho  (um costume feio que tenho lutado cada vez mais para me livrar). Na mesma hora, entrou a loira deslumbrante, bronzeada em pleno mês de janeiro, com o cabelo impecável, maquiagem e tudo mais…. diversidade maior impossível!

Eu procuro manter o meio termo. Não quero virar um elefante descabelado, mas também jamais serei o estilo “neura pugliesi”. Mudei meus hábitos alimentares: mais verduras, frutas e orgânicos. Menos carboidrato, açúcar e gorduras. Vou à academia pelo menos três vezes por semana (ok…2), faço yoga, caminho muito pelo meu bairro, por DC e outras cidades nos arredores. Frequento parques para jogar bola e andar de bicicleta quando o tempo permite e continuo tomando minha taça de vinho  e meu café espresso e de vez em quando coca-zero  e o principal: tento ver a vida sob novas perspectivas a cada dia, aceitando de coração aberto o que ela me trás. E claro, tudo isso  besuntada de filtro solar, afinal 40 é 40!

 

 

Surpresas positivas e negativas depois de um ano de América

Já passou um ano que me mudei com a minha família de São Paulo para a região de Washington D.C. Depois de passar pelo ciclo completo das quatro estações chegou a hora de um balanço. Como foram muitas descobertas,  esse post vai em itens  que descrevem alguns dos preconceitos comuns que muitos têm em relação aos EUA e a confirmação ou negação dos mesmos. Vamos lá…

  • A cultura americana é pobre, rasa e de consumo imediato.

Mentira! Sempre achei que nada poderia superar a cultura brasileira em termos de diversidade, riqueza e criatividade. Pois bem, me surpreendi! Os EUA é um dos ambientes mais criativos que eu conheci. Devido ao grande número de imigrantes que aqui chegam diariamente, o caldo cultural supera o brasileiro. Música, teatro, cinema, literatura, artes visuais, etc. têm produções intensas e constantes, surgindo assim coisas maravilhosas e outras péssimas, mas em termos de volume é admirável!

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Exposição “Wonder” Na Renwick Gallery em DC. Um dos milhares de centros culturais que existe só aqui na Costa Leste.
  • Come-se mal nos EUA. Tudo é fast food e de baixa qualidade.

Mentira! Pelo menos em regiões com grande diversidade migratória a culinária é riquíssima.  Em cada esquina é possível encontrar restaurantes de todas as origens e preços possíveis. Se quiser cozinhar em casa então, a quantidade de opções e variedades de produtos chega a ser assustadora. Mesmo há um ano aqui, continuo passando horas dentro dos supermercados, perdida entre tantas possibilidades de escolhas, cheiros e sabores. Encontro mais variedade de queijos e vinhos do que já vi na Espanha e na França. Mais variedades de massas do que na Itália. Mais variedade e modos de preparo de sushis do que em S. Paulo, enfim…uma aventura constante de variedades gastronômicas. Fora a quantidade de supermercados e produtos orgânicos, com uma preocupação que chega a ser excessiva com o “comer saudável”. Apenas uma ressalva, comer bem por aqui significa gastar muito mais. A alimentação de qualidade não é barata e nem tampouco acessível a todos.

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Loja especializada em vinhos. Parece um supermercado gigante, mas só com vinhos de todos os tipos, preços e nacionalidades.
  •  Americanos em geral são sedentários 

Mais ou menos! Mais um aspecto que talvez varie de região a região mas aqui na costa leste todo mundo se mexe. No inverno ou no verão é constante o número de pessoas caminhando pelas ruas, pedalando, correndo e se exercitando. Nas escolas o programa de educação física é intenso e as crianças praticam muitas atividades, inclusive nos finais de semana. Vários esportes que nunca ouvi falar são muito populares e também  o nosso “futebol” é super praticado. Ainda assim grande parte da população  apresenta sobrepeso, devido ao consumo excessivo de gorduras e carboidratos. Felizmente esse mal hábito está mudando, mas ainda faz parte da vida de muita gente por aqui.

  • Americanos são egocêntricos e nada sabem além da América

Mentira! Ao longo desse ano não encontrei ninguém que não soubesse do Brasil. Quase todos que conheci ou cruzei por aqui estão muito bem informados sobre o que acontece no nosso país e em todos os continentes. Muitas vezes quem se mostrou desinformada e ignorante fui eu, principalmente no que diz respeito aos povos e costumes do Oriente Médio e da Ásia, que pouco fazem parte da realidade brasileira.

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Biblioteca do Congresso Nacional, uma das mais belas que já vi. Aqui existem bibliotecas públicas  quase a cada esquina e são altamente freqüentadas. O povo americano tem intrínseco o hábito da leitura e informação.
  • Americanos são racistas e preconceituosos

Mentira! O que mais me surpreende por aqui é a quantidade de imigrantes bem sucedidos. A América realmente cumpre o papel de abrigar povos e sonhos do mundo inteiro e criar oportunidades reais de sucesso. Gente de todos os cantos do planeta conseguem trabalho e qualidade de vida. Se fosse um país tão xenofóbico como pintam, isso não seria possível. Lembrando que pensamentos nazistas e retrógrados como o do Sr. Donald Trump são rejeitados pela grande maioria dos norte-americanos que reconhecem a força e a contribuição dos imigrantes nesse país.

  • História e cultura vc encontra na Europa! EUA é só entretenimento e compras

Mentira! Os EUA  preservam demais a sua história e cultura. Em quase todas as cidades americanas vc encontra uma opção imensa de monumentos históricos, museus, bibliotecas e tudo o mais para conhecer e se aprofundar na história do país. As casas centenárias são preservadas com muito primor, e claro, não se pode esquecer que os EUA é um país  jovem como o Brasil, se o compararmos à Europa. Eu pessoalmente, não sou fã do entretenimento fácil da Disney, e passei um ano aqui me surpreendendo com inúmeras atrações culturais e históricas sem pisar na terra do Mickey. 😉

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Mount Vernon, casa onde viveu George Washington no século XVIII. Um dos exemplos de primor de preservação do patrimônio histórico
  • São poucas as opções de beleza natural nos EUA.

Mentira! Com certeza essa foi a maior das surpresas. Já havia visitado os EUA como turista inúmeras vezes, mas morando na costa leste tive a oportunidade de conhecer lugares magníficos. Paisagens marítimas e pôr do sol cinematográficos na Chesapeakbay, montanhas cobertas de folhas douradas em Shenandoah, vinícolas deslumbrantes em Loundon County, cidades históricas à beira do Potomac, cavernas surpreendentes em Luray, etc., etc. A lista é imensa e olha que estou me referindo somente à região que cerca DC. Poderia ainda falar das belezas de Massachusets, Rhode Island, Connecticut, e tantos lugares que tive o privilégio de visitar, mas isso é assunto para outro post.

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O espetáculo do outono

 

Como nem tudo são flores, seguem algumas decepções que também fazem parte dessa trajetória:

  • Sistema de Saúde americano é excelente

Mentira! Não existe saúde pública, nem de péssima qualidade. Se você não tem como pagar está bem encrencado e pior não há o que fazer. Convênio de saúde é essencial, como água! Não é possível viver sem isso nesse país. A má notícia é que isso custa caro, e muito. Além do preço dos planos serem elevados, o paciente sempre paga uma co-participação em tudo, das consultas, aos exames e cirurgias e esse valor pode ser bem assustador. A relação médico-paciente é fria. Tudo se conversa por email e as consultas são super concisas, nada de papear e saber além do necessário. Deu uma dor de barriga, enxaqueca ou febre no final de semana? Se não for algo absolutamente grave, segure a onda e espere até marcar uma consulta, porque atendimentos emergenciais podem custar uma fortuna. Nunca pensei que diria isso, mas até o capenga SUS do Brasil consegue ser melhor do que o nada que é a saúde pública americana.

  • Custo de vida é baratíssimo

Mentira! De todos os comentários desagradáveis que ouço de amigos e parentes brasileiros, esse é o mais irritante: “você está muito bem, ganha em dólar!” A ignorância está em cada palavra dessa frase. Ganha-se em dólar sim e paga-se em dólar tb! E caro, muito caro! Moradia na região de DC é tão cara quanto no Leblon do Rio de Janeiro. Alugueis de uma casa boa com três dormitórios giram em torno de U$3.500,00 podendo chegar aos U$5.000,oo com facilidade. Não se compra uma casa razoável, em um bairro com boas escolas públicas por menos de U$900mil e casas acima de U$1 milhão são a grande maioria. Alimentação de qualidade é caríssima, tanto quanto no Pão de Açúcar ou no Saint Marché (mercados caros de S.Paulo). Você encontra tudo que imagina e de excelente qualidade, mas com preços exorbitantes também. Ok, sei que os fanáticos por outlets (outra roubada) devem estar discordando. Eletrodomésticos, carros, roupas de grifes e cosméticos são mais baratos que no Brasil, mas morando aqui esse não é seu gasto essencial e acreditem, gasta-se tanto com saúde, moradia e alimentação que sobra muito pouco para as pechinchas de uma bolsa de grife a U$100,00!

  • Os EUA é o país da diversão

Mentira! Quem conhece os EUA pelo grande número de parques temáticos, shows da Broadway, filmes de Hollywood pode ter a impressão de que é um país em constante festa e diversão! Sinto dizer que não. Aqui se trabalha mais do que no Brasil (o custo de vida é caro, lembra?) e americanos em geral tem uma maneira muito diferente de se divertir. Mesmo as atividades de lazer costumam seguir um roteiro e regras pré-estabelecidas. Espontaneidade é uma qualidade rara por aqui. Um hobby por exemplo, feito para se relaxar e sair da rotina é sempre algo levado extremamente à sério, com cobranças, metas e a necessidade de buscar a perfeição em tudo. Olhando os rankings mundiais de esportes, de descobertas científicas e tecnológicas, de artes, etc. é comum ver muitas vezes os EUA nos primeiros lugares. Consigo entender isso hoje, observando o profundo espírito de competição e a busca por excelência em absolutamente tudo! Para nós, brasileiros, pode ser exaustivo. A máxima de “deixa a vida me levar, vida leva eu” não existe aqui. Até a diversão tem que ter objetivos bem definidos, com horário sempre marcados….costumo dizer que no Brasil o almoço acaba quando acaba a conversa. Aqui a conversa é literalmente interrompida no meio, se acabou o horário. Deu pra entender?

  • É fácil fazer amigos

Mentira! Americanos são muito bem educados. Todos te cumprimentam, seguram a porta para você passar e oferecem ajuda ao menor sinal de problemas. Bom dia, boa tarde e como vai são as expressões mais ouvidas, sempre e em todos os lugares. Porém, não confunda educação e simpatia com amizade. Raramente passa disso. Os grupos são muito fechados e a intimidade é o valor mais precioso para eles. Festas e encontros são raros, e quando acontecem são sempre cheios de formalidades. Imagino o tamanho da dificuldade em se morar em um estado norte americano onde existem poucos estrangeiros…. Fiz com facilidade muitas amigas brasileiras, algumas européias, latinas e asiáticas, mas americanas o saldo por enquanto é zero.  Mesmo entre eles, amizades onde se visitam constantemente, fazem viagens juntos e trocam confidências são muito raras. Trata-se de outra forma de se relacionar e para nós, cheios de calor brasileiro, esse é um dos desafios mais difíceis de encarar. O que salva, são os amigos da terrinha e também de outras nacionalidades que encontramos por aqui.

  • Não existe violência

A violência no Brasil atingiu um dos maiores patamares mundiais e fica difícil de se comparar, mas aqui, apesar de números muito menores, a violência existe sim!Não sofremos de medos de assaltos ou sequestros, nem violência decorrente de tráfico de drogas e desigualdade social, mas os terríveis “mass shootings” são uma triste realidade. Nas escolas públicas as crianças são submetidas à simulações preventivas de incêndio e massacres! Confesso que fiquei apavorada, mas a prevenção é algo levado muito a sério por aqui e os números são alarmantes. Esse é outro tópico que poderia se alongar muito e falo sobre ele aqui, somente para afirmar, que infelizmente os EUA não estão isentos da violência.

Ok….e o saldo de tudo isso? Diria que por enquanto estamos vivendo um empate técnico. Ganhamos muito e perdemos também, um ano ainda é pouco para sedimentar impressões. Sei que muito está por vir, para o bem e para o mal, afinal a vida é feita de luminosos verões e escuros invernos, não tem jeito! Comparar Brasil e EUA é um erro, que pode levar a um estado profundo de desânimo.  O Brasil é único e os EUA também. Tentar afastar-se de preconceitos pode ser o começo de um caminho para o final feliz, nessa difícil transição.

Vamos que vamos e Feliz 2016!!!

 

 

De Charlie Brown à Cebolinha – qual a sua infância?

Acabei de sair do cinema, onde passei quase duas horas me divertindo com o filme Peanuts, ou Charlie Brown, como era conhecido na minha infância.

Quem já chegou aos quarenta sabe do que estou falando: no começo dos anos 80 uma febre invadiu São Paulo, não sei se se estendeu pelo Brasil inteiro, mas o cachorrinho Snoopy era o item mais cobiçado entre as crianças da minha época. Eu mesma sonhava com um, mas tive que me contentar em ter uma versão fajuta, já que a original era caríssima para os padrões da minha família.

Mas só hoje, vivendo há quase um ano nesse país, pude entender Charlie Brown e seus amigos. Confesso que fiquei intrigada e confusa, pois se trata de um produto tão característico da cultura americana, que não entendo como fez tamanho sucesso na terra brasilis.

Não há exageros em Charlie Brown! A escola que se vê no filme é exatamente uma Elementary School, assim como a casa, o bairro, os dias de neve, as brincadeiras na rua, a biblioteca, o bulling, as premiações escolares…tudo! Minha filha disse: as cadeiras são idênticas às da minha classe. Poderia até ser um documentário.

Por isso a paixão americana pelo Snoopy. É um retrato vivo da infância norte-americana. A vida das crianças aqui gira em torno da escola, do bairro, das ruas. São espaços democráticos, onde uma mistura interessante de classes sociais, culturas e raças acontece.

Como já falei outras vezes, o menino rico que chega à escola de BMW usa roupas parecidas com o menino pobre de origem hispânica que vem a pé cuidando dos irmãos menores. Todos na mesma sala, se encontrando na mesma biblioteca, no mesmo parque e brincando juntos em um dia de neve na rua.

A escola pública proporciona isso. Os espaços públicos proporcionam isso.

Infelizmente a minha infância foi carente de tais espaços. Era longe de ser rica, mas estudei em escola particular e apesar de morar perto de uma imensa favela paulistana, nunca tive um amigo de lá. Assim como também nunca tive um amigo muito mais rico que eu.

No Brasil vivemos em prateleiras. Podemos nos mover um degrau ou dois, mas nunca além disso, estamos sempre cercados por iguais. Os espaços públicos de uma grande cidade como São Paulo segregam mais do que agregam. No jeito de vestir, falar, frequentar você já atesta a sua origem e com certeza se sente absolutamente desconfortável se estiver em lugares muito distantes da sua classe social. Para cima ou para baixo, não importa.

Tanto Charlie Brown quanto a Turma da Mônica, que eu lia compulsivamente, povoaram a minha imaginação infantil. Confesso que bateu uma invejinha, porque o americano se reconhece na vida de Charlie Brown. Agora para uma criança brasileira (rica ou pobre)  o bairro do Limoeiro, arborizado, com praças e ruas, onde o Cascão, o Cebolinha, a Magali e a Mônica brincam, aprontam e caminham, sem perigos ou muros, é uma enorme obra de ficção. Um espaço tão distante da realidade que só poderia existir em quadrinhos.

Nos anos 80 já não era assim. Nos anos 2000, geração das minhas filhas, a liberdade então se encolheu ainda mais, se encerrando dentro dos muros do condomínio, dos exércitos de babás vestidas de branco, das cancelas dos clubes, dos corredores de shoppings (credo!). Por ser otimista, gosto de pensar que talvez exista em algum cantinho do Brasil uma cidade com o bairro do Limoeiro, com casas confortáveis para todo mundo, crianças caminhado até a padaria, correndo nas ruas, deitando nos gramados. Pena que cada vez que  vejo notícias do meu país, minha esperança morre um pouco, com escolas sendo fechadas, pessoas sendo baleadas, cidades sendo engolidas pela lama da irresponsabilidade.

Tristes trópicos, Charlie Brown! 😦

Where are you from?

Engraçado, a língua, o sotaque, a cara não negam, não sou daqui. Basta eu abrir a boca para ouvir a pergunta: where are you from?

Quando digo que sou do Brasil recebo sempre um sorriso amigável. Eu realmente não tinha ideia de como o Brasil é popular mundo afora, dizer que é do Brasil te leva instantaneamente  a uma posição “cool”, bacana.

Aqui tem gente do mundo inteiro e já observei essa reação em suecos, alemães, franceses, italianos, japoneses, coreanos, salvadorenhos, colombianos, paquistaneses, afegãos, filipinos, russos, nepaleses, iraquianos, americanos…ufa, a lista é imensa!

Sempre ouço a mesma resposta, não necessariamente nessa ordem: Uau! Brasil! Que sorte, que lugar lindo, e a Copa do Mundo? Foi duro perder pra Alemanha…” Alguns mais bem informados, me perguntam qual a explicação para a horrenda crise econômica e a crescente violência. Outros, que sabem apenas do Brasil idílico me perguntam das praias e sempre, sempre, sempre do futebol!

Outro dia foi irritante. Um vietnamita ficou super bravo quando eu disse que era brasileira. Me deu uma bronca: “Como vcs conseguiram perder para Alemanha daquele jeito? Nós do Vietnã, que amamos o futebol brasileiro ficamos desesperados! Como vocês fizeram uma coisa dessas?” Eu juro que não sabia se xingava ou ria. Foi uma situação bizarra, para dizer o mínimo.

Teve também uma simpática mulher de El Salvador que só faltou me pedir um autógrafo. Segundo ela o Brasil é o lugar mais incrível do mundo, com as melhores pessoas, só porque é a terra de Ronaldinho Gaúcho, o maior craque de todos os tempos, na opinião dela.  Engraçado o poder do futebol…

Já  entre os americanos, que pouco ligam para futebol, as reações são também curiosas. Conheci ocasionalmente uns três ou quatro que viajaram ao Brasil e esses sofrem de uma paixão platônica pela nossa terra. Me convidaram para fazer churrasco na casa deles, adoram falar umas poucas palavras em português e tem um orgulho danado em mostrar que sabem a diferença entre Rio e São Paulo.

Ah o Brasil é realmente uma terra querida mundo afora, mas tão odiado internamente. Sou a última a poder reclamar dos insatisfeitos, eu era e ainda sou muito crítica em relação ao nosso desenvolvimento, sobretudo educacional e cultural. Mas não posso negar, somos vistos como um povo bonito, alegre, simpático, que come muitíssimo bem e domina a arte do futebol, além claro de passarmos a maior parte de nossas vidas deitados sob um sol maravilhoso à beira mar (quem dera…)  Penso que deve ser muito mais difícil dizer: sou do Afeganistão, sou do Irã, sou da Venezuela…. Nós temos uma imagem positiva perante o mundo, que provoca admiração, mesmo que para nós, que vivemos a realidade na pele, isso seja um tanto estereotipado.

Não se conhece uma terra, um povo, ou mesmo uma língua sem vivenciá-la. Posso dizer isso agora, com quase um ano (já!!!) de Estados Unidos. Vários dos meus (pre)conceitos foram por terra, da comida aos costumes, positiva e negativamente! Acho divertido observar o reverso da moeda, como somos vistos mundo afora…

Estar aberto para o novo é a melhor sacada da vida, e acreditem, tudo pode surpreender. E por falar em surpresas, eu descobri que o povo afegão é um dos mais lindos do mundo. Conheci um homem que poderia trabalhar em Hollywood, tamanha era  a beleza de seus traços, e antes de reclamarem, estava acompanhada do meu marido, que apesar de seu machismo brazuca, concordou comigo! 😉

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Para ilustrar: meu cantinho favorito no Brasil: Paraty! Com suas ruas de pedras, suas casinhas históricas, seu mar deslumbrante, sua cachaça e sua música popular nas rodas de samba. Tudo isso representa o que o Brasil tem de melhor e que me mata de saudades…. 😦

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