Arte salva. Sempre.

Muitas vezes é preciso darmos um passo para trás, ou nos afastarmos um pouco para ver as coisas em perspectiva. Foi o que fiz nessa semana difícil, talvez uma das piores do ano, onde dois fatos aparentemente distintos, me tiraram o chão.

O primeiro foi a imensa polêmica do Museu de Arte Moderna – O MAM – em S. Paulo.

Multidões em fúria passaram a agredir até fisicamente todas as instituições culturais, que segundo suas óticas distorcidas, são compostas de gente deturpada, praticantes de pedofilia, zoofilia e outras tantas atrocidades. O motivo disso tudo? Um homem nu.

Quem cresceu nos anos 80, como eu, deve se lembrar da abertura da novela Brega e Chic das 7:00 pm da Rede Globo, onde um homem pelado ficava de costas mostrando a bunda. Ou então da Xuxa, Mara e Angélica, com seus vestidinhos curtos e super-erotizados. Isso sem falar na Tiazinha, figura explícita que incitava práticas sadomasoquistas na TV aberta.

Isso nunca chocou, como também nunca chocou o carnaval da Globeleza pelada, as piadas machistas dos programas humorísticos ou o pai de família falando no almoço de domingo: meu filho tem que ser comedor!

Por que isso agora? A resposta é: nos tornamos todos, massas de manobra.Por trás desse moralismo repentino está uma entidade poderosa e perigosa, querendo evangelizar o país. Sem perceber, até os descrentes passam a compartilhar vídeos com mensagens subliminares a respeito de ódio e discursos de nós contra eles. Não é mais possível nesse país dividido, defender qualquer linha progressista, sem ser acusado de esquerdopata, comunista, petista, etc.

E a Arte? Que papel ela tem nessa celeuma toda? Aqui vai a minha crítica. Involuntariamente a arte contemporânea brasileira é também responsável por esse maniqueísmo. Para quem já vivenciou o circuito paulistano de arte, sabe muito bem que é um clube fechado, para poucos. A arte brasileira não é inclusiva! Existem maravilhosas iniciativas pelas periferias do brasilsão afora, existem geniais artistas produzindo a duras penas em seus ateliês improvisados com pouquíssimos recursos e apoios nulos. E a triste constatação, a visibilidade dada a eles é zero!

O establisment da arte brasileira não lhes dá espaço. Prefere navegar nas águas seguras dos cânones, dos consagrados. E dá-lhe releitura, reinterpretação, etc. etc. O Panorama de Arte Brasileiro, até onde eu saiba, era responsável por trazer à tona as novidades da arte brasileira, um cenário amplo da produção atual nacional. Mas a curadoria resolveu ir para o caminho mais fácil, que fala a língua dos colecionadores. E lá vamos nós de Lígia Clark, em uma performance, na minha opinião equivocada. Veja bem: não me refiro aqui à moralidade ou ao fato de mãe, filha, homem pelado, etc. Isso passa longe da minha discussão. Me refiro a uma interpretação rasa de um trabalho magnífico, que são os bichos.

O momento foi péssimo! As águas da ignorância ainda estavam fervendo por conta do Queermuseum e aí foi só questão de minutos para se abrirem as portas do inferno. O brasileiro médio, que tem sua vida cultural pautada nos programas televisivos de domingo, passou a ser crítico raivoso de arte contemporânea. Arte que ele nunca ouviu falar, arte que nunca lhe foi apresentada!

Ressalto aqui que o ingresso do MASP custa R$30,00, que as feiras de arte, patrocinadas com leis de isenção fiscal, custam R$40,00. Que as galerias paulistanas estão longe de ser os lugares mais simpáticos e acolhedores para uma visita de final de semana, para aqueles que não tem como comprar trabalhos de milhares de reais. Enfim, muita água nesse caldo.

A classe artística em peso se posicionou veemente e eu aplaudo essa iniciativa! Porém ao mesmo tempo me pergunto, que ações foram feitas ao longo de todos esses anos no intuito de incluir, de agregar essa horda marginalizada pela elite cultural?

O curioso é que certamente muitos de meus colegas do meio artístico me chamarão de retrógrada e careta por essa crítica, ao passo que familiares e conhecidos me excluirão para sempre de suas vidas por eu ter me tornado uma “esquerdopata”.

Entendem como a saída está difícil?

Viro a página e sinto sangrar meu coração ao som dos tiros de Las Vegas. Minha dor aumenta, quando vejo parentes e amigos defendendo o porte de armas, a defesa do cidadão de bem.

Parece que são mundos distintos, mas na verdade fazem parte da mesma moeda. As melhores lições que recebi na vida sobre humanidade, respeito, liberdade, tolerância, diversidade, amor, etc. etc. foram em museus e exposições de arte.

Arte, desde os tempos da caverna, é o caminho que nos leva a entender o passado e a desenhar o futuro. Arte é o que melhor atinge a nossa sensibilidade humana, que nos difere de todos os outros mamíferos. Arte é o que nos mostra que a violência das ações e reações não serão nunca o melhor caminho. Arte é sempre a primeira coisa a ser banida em sociedades autoritárias e cruéis. Por que será?

Vamos refletir juntos, vamos expandir nossa humanidade para além das crenças moralistas e rasas que querem nos infringir. Vamos fugir das respostas prontas e baratas, como o fechamento de um museu ou o armamento de uma população.

Vamos ser inclusivos, vamos ser tolerantes, vamos amar ao próximo para além de nossas diferenças. Esse é o único caminho, e não me parece tão difícil. Que tal tentarmos?

Arte salva. Sempre.

 

PS: dedico esse texto aos brilhantes artistas e curadores brasileiros, que produzem sem parar, mesmo que não tenham reconhecimento ou espaço, nem dentro da cena de arte estabelecida, nem entre seus familiares e conhecidos, que desconhecem o brilhantismo dessa luta! Eles sabem quem são ❤

 

 

 

Atirando para se defender? Brasil e EUA – diferenças…

Pela milésima vez estive em frente à Casa Branca nesse final de semana. Morando em Washington DC, é impossível não levar parentes e amigos que chegam aqui pela primeira vez para conhecerem a “Casa do Obama”(por enquanto).

Não reclamo, eu gosto! A Casa Branca fica em um lugar lindo e agradável para caminhadas, além de ser ao lado de uma das galerias de arte mais charmosas da cidade, Renwick Gallery. Para mim é sempre um bom programa.

Contudo, quando estive lá não consegui parar de pensar em um fato recentemente acontecido e pouco mencionado na mídia. Em maio desse ano, um homem aproximou-se do edifício com uma arma em punho. Sem questionamentos, policiais à paisana dispararam e atingiram o indivíduo, que foi levado em estado crítico ao hospital, mas sobreviveu.

Esse lugar bonito, bem cuidado e aparentemente simpático e cheio de turistas é sem dúvidas um dos pontos de maior tensão do planeta. O policiamento é ostensivo e não se engane, além dos vários policiais uniformizados visíveis, existem outros tantos disfarçados de cidadãos comuns sempre prontos para a ação.

Moro nesse país há pouco mais de um ano, portanto não me sinto confortável para discutir ou questionar seus métodos. Na minha visão pacifista, me pareceu uma reação exagerada, mas de novo, não sou apta para julgar!

Essa semana, quando ainda lidávamos com o absurdo do estupro coletivo no RJ, fomos atropelados pela notícia do menino de 11 anos baleado por um policial em São Paulo.

As discussões acaloradas e cheias de opinião logo tomaram conta do Facebook e vi com tristeza todos discutindo as consequências de mais um trágico acontecimento: os que acham que fez bem a polícia em matar e os que enxergam o fato como uma execução sumária de uma criança de 11 anos. Ao invés de pontes, as pessoas constroem trincheiras através das certezas de suas opiniões.

Pouco se falou sobre as causas e a falência de uma sociedade como um todo que esse caso representa: crianças de 10 e 11 anos, armadas, assaltando na calada da noite, dirigindo carros roubados por São Paulo…

Sim, eu me sinto responsável! Eu falhei como cidadã brasileira e acho que falhamos todos. Não é um problema da periferia, não é um problema de caráter, é um problema social, do qual somos todos igualmente culpados.

Em países de primeiro mundo, até pipocam casos de violência infantil, mas na maioria das vezes ligados a problemas de psicopatias. Casos isolados de transtorno mental. Infelizmente no Brasil é uma epidemia, mais cruel que o vírus da Zika.

Enquanto os intelectualizados discutem fervorosamente no Facebook, tecendo críticas ferozes (e justas) à nossa vergonhosa classe política, uma massa de invisíveis cresce nas periferias.

Me lembro que em 2013 dirigi pelas ruas de Carapicuíba, periferia de São Paulo. Era época de férias escolares e fiquei estarrecida com a quantidade de crianças nas ruas. Sem pais, crianças muito pequenas brincavam perigosamente em telhados das construções precárias, na beira do lago poluído. Sem escola, crianças muito pequenas não sabiam dos perigos que as estavam rondando. Sem atividades, crianças muito pequenas, ficam zanzando a toa pelas ruas de um dos municípios mais violentos do Brasil. Não eram 10 ou 20, mas centenas! Não me esqueço da sensação de tristeza ao olhar para os morros e ver um mar infinito de barracos e crianças por toda parte.

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Crianças nas vielas de Carapicuíba – São Paulo

Cheguei em casa e covardemente encarei  as minhas filhas, achando que o que me cabia era dar o máximo de mim para educá-las para um fim melhor. Não me engajei em nenhuma ONG, não voluntariei nas favelas, não participei de nenhum projeto social, apenas reforcei minha atenção para as minhas crias e para as crianças de conhecidos próximos.

Fui egoísta, cuidei somente do meu jardim e achei que votar  para governos melhores e investir pesado na educação das minhas filhas era o que de máximo me cabia fazer. Que tola!

A vida ensina, e foi aqui, no país mais capitalista do mundo que aprendi a importância da coletividade. Os jardins públicos e gramados das ruas em geral, são muitas vezes mais cuidados que os jardins particulares.

Pode ser uma metáfora boba, mas que mostra o que faz um país ser chamado de primeiro mundo: o coletivo vem em primeiro lugar! Nas escolas públicas o voluntariado por parte dos pais é quase que uma regra e não exceção. As crianças se engajam em campanhas de ajuda aos menos favorecidos: são inúmeros os eventos promovidos para esse fim. A diversidade cultural e social, coloca no mesmo banco de escola filhos de congressistas e de imigrantes latinos. Todos limpam a cafeteria depois da refeição e aprendem massivamente a importância de respeitar e honrar o país.

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Crianças nos jardins de uma escola pública em Northern Virgínia 

Ter uma experiência em voluntariado no seu currículo é tão importante quanto uma graduação e desde a escola elementar as crianças são estimuladas a isso.

Isso é mérito do governo? NÃO! Isso é mérito de uma sociedade participativa.

As pessoas trocam facilmente o seu tempo de folga para limpar a escola e a rua do bairro, ao invés de passar o dia cuidando da própria casa. Dividem igualmente seu tempo à manutenção do bairro, a atividades escolares e aos assuntos pessoais. É implícito o conhecimento de que se o todo não vai bem, a sua vida pessoal também estará afetada.

Claro que a perfeição passa longe e o fato acontecido na Casa Branca ilustra o quanto estamos longe de uma sociedade equililbrada. Tanto nos EUA, quanto no Brasil pessoas foram sumariamente baleadas quando se mostraram uma ameaça.

Mas existem diferenças gritantes em ambas situações. Um homem armado em frente à residência oficial do presidente dos EUA, lugar que reúne diariamente centenas de turistas do mundo todo. Trata-se de um país que está em guerra declarada há anos contra o terrorismo internacional e vive sob constante ameaça de ataques. Policiais à paisana atiraram, mas não mataram, em uma “provável” ameaça terrorista.

Já o Brasil é outro país latino que parece ter sucumbido à violência cotidiana: a ameaça veio por parte de um menino de onze anos, que usava uma arma e tinha cometido um assalto ao lado do amigo de dez anos. Foi atingido mortalmente.

Devido a nossa omissão social assistimos inertes a  um país falindo nos escombros da violência e da falta de perspectiva. É mais do que urgente que a sociedade brasileira dedique atenção e cuidado à tudo que rege a vida pública. Quando lutamos somente pela nossa vida privada e pelos nossos interesses pessoais, o país perde como um todo e a bala que atingiu uma criança de 11 anos, na verdade atingiu a todos nós!

Conheço felizmente algumas vozes nessa imensidão que se propuseram à ação. Deixarei abaixo os links aos interessados e uma pergunta aos meus conterrâneos: o que VOCÊ está fazendo a respeito? Acredite, regar apenas o seu jardim não será suficiente. O Brasil clama urgentemente por uma sociedade mais participativa, mais engajada em questões relacionadas à cidadania. Pode parecer pouco, mas o trabalho que você realiza coletivamente dentro do seu próprio condomínio já é um exercício eficaz na construção de comunidades melhores.

Projeto Aquarela  – Projeto comunitário que trabalha com crianças em situação de risco na região de Campo Limpo em  São Paulo. Necessita urgentemente de voluntários!

Projeto Mundo Irmão – Projeto comunitário que atua em duas frentes: estímulo à construção da cidadania através da leitura de livros infantis e ajuda financeira a diversas instituições de caridade proveniente da comercialização dos livros

Band Voluntário – Organização que surgiu no Colégio Bandeirantes em São Paulo e atua na divulgação de várias ONGS engajadas em trabalhos de melhorias sociais, além de outras atividades

Instituto Brasil Solidário – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, voltada à valorização dos ser humano, oferecendo-lhe oportunidades por meio da educação. Atua em todo o Brasil com inúmeros projetos sociais, culturais, educacionais e de saúde. Lindíssimo trabalho que tive a oportunidade de conhecer.

São apenas algumas opções que conheço pessoalmente, mas para quem se interessar, basta um google e certamente você encontrará oportunidades de trabalho para a construção de um Brasil melhor!

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