Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

A experiência de ser turista na minha terra – 20 dias de Brasil

Então, eu fiz um carnaval em um outro post quando disse que iria ao Brasil não foi mesmo? Estou me sentindo em dívida para quem me lê e quer saber como foi essa experiência de ser turista na própria terra. Vamos lá?

O primeiro choque é o conforto de ouvir, falar e pensar em português o tempo todo. Foi uma espécie de alívio, como quando a cabeça para de doer depois de dias de um incômodo. Se traduzir o tempo todo é um dos grandes desafios de quem vive fora da terra de origem. Mesmo aqueles ultra super fluentes, com o inglês no automático, sabem que o conforto de se expressar na sua própria língua faz uma grande diferença.

Se sentir abraçado e sentir querido também cativa o coração. Mas algumas gotinhas de dor pingam nessa atmosfera. Você percebe que nem todos sentiram sua falta como você as deles e alguns com quem você tanto contava e ansiava em ver, simplesmente ignoram a sua visita, afogado que estão nas suas vidas cotidianas. Pode ser um pouco chato, mas é a primeira e grande lição: a vida continuou…. Você mudou de casa, de país, de emprego e de amigos, quase um tsunami na própria vida e acaba se esquecendo de que todo mundo que ficou continuou com a mesma rotina de sempre. Fica difícil para aqueles que ficaram dimensionar e avaliar a importância de um abraço. Eu entendo e supero, juro!

Outros, ao contrário, nos surpreendem com o carinho sincero e a receptividade. E aí até machuca mais, afinal como voltar e viver longe de pessoas tão especiais? (aqui faço uma pausa pra engolir um soluço).

As comparações são inevitáveis. Moro na Virgínia, ao lado da capital norte-americana. Ruas e bairros impecáveis, equipamentos e serviços públicos primorosos, melhores escolas do país, altíssima renda per capita, blá, blá, blá…. São Paulo me dá um soco com o seu oposto: ruas ainda mais sujas e abandonadas do que me lembrava, violência explosiva, sensação constante de insegurança, estilo de vida caríssimo e incompatível com a realidade da maioria. Miséria e carro blindado, o tempo todo, todo o tempo.

Foi difícil essa parte. Confesso que pensei, não quero viver mais aqui não. O ar pesado de poluição e uma gigantesca diferença social. R$700,00 reais um jantar em um lugar comum, muita gente, mas MUITA, dormindo sobre jornais na Av. Paulista  (!). Difícil lidar e encarar.

Mas aí vem o almoço elaborado no capricho pelas amigas, o mar verde e delicioso em pleno inverno, o cheiro de pão da padaria e a coxinha estalando na boca. Complicou! Uma montanha russa de emoções. Pertenço mas não pertenço, entende.

Esse é o sentimento de um expatriado. Cadê meu lugar, aqui ou lá, ou os dois? Já aprendi a gostar dos EUA, da organização, do respeito e da beleza dos lugares por onde passo. Só que meu coração não vibra, ele se aquieta. É diferente.

No Brasil eu odeio e amo intensamente o tempo todo, meio exaustivo, mas muito vivo.

Não tenho respostas…. por enquanto vou tocando meu barco aqui focando na frente, absorvendo todas as experiências e oportunidades que essa terra proporciona e tentando não olhar para trás. Continuo fiel ao meu ideal de não ser árvore e poder me deslocar por esse mundo todo de olhos e peitos abertos. Mas faço um adendo, apesar de não ser árvore, tenho raízes e essas serão eternamente verde e amarelas!

 

 

A hora de visitar a terrinha – confusão de sentimentos!

Hoje finalmente recebi meu ticket de viagem ao Brasil. Serão 20 dias de férias por lá, depois de quase dois anos longe. Fica difícil descrever a confusão de sentimentos.

Estou muito feliz, por poder rever as pessoas que marcaram a minha vida e sempre serão meu norte. Mas devo confessar que bate um arrepio na alma….o que se passou enquanto eu estive fora, o quanto eu mudei? O quanto tantos mudaram?

A vida de um expatriado é como uma montanha russa. Apesar do clichê, ainda não encontrei definição melhor: uma constante de altos e baixos.  Novas descobertas, novos cheiros, novos sabores e novos amigos e ao mesmo tempo a certeza irrefutável de que tudo que deixamos para trás não voltará jamais!  Não tem como não ser dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

Rever o Brasil, minha terra adorada e dourada, depois de quase dois longos anos, causa sim um tremendo frio na barriga.

Nesse tempo que me ausentei, pessoas se amotinaram por suas crenças políticas, guerra travada entre dois símbolos sagrados aos brazucas: a mortadela e a coxinha!   Em comum, pelo menos para quem vê de fora, uma vontade feroz de ver as coisas melhorarem.

Nada  melhorou por enquanto, e o sol poente ainda parece distante da terra brasilis, mas algumas coisas permanecem, como esse calor inconfundível que só se vê por aí….

Ai, meu Brasil, que saudade de você! Saudade de me sentir verdadeiramente abraçada, saudades de ouvir a melodia linda da língua de Camões, saudades de ouvir Chico Buarque ( sim, eu o amo apesar de tudo e contra todos!), saudades do desejo e da saliva na boca de quem espera por uma caipirinha de maracujá com cachaça na areia quente da praia….

São tantas coisas que fazem falta, que acredite você – que sonha com os outlets da Flórida –  nada será capaz de substituí-las!

Acontece que a vida anda, o dia toma o lugar da noite e a primavera dá lugar ao verão! Descobrimos, a duras penas, que não somos árvores e sim seres adaptáveis às condições que nos cercam.

Hoje, gosto de ver bandeiras vermelhas e azuis, pontuadas de estrelas, balançando ao ritmo dos ventos. Gosto de  ouvir Hotel Califórnia, na voz de um cantor anônimo no bar, tanto quanto ouvia Djavan nos bares da vida da Vila Madalena. Aprendi a degustar o sabor de um verdadeiro hamburger e me emociona ver crianças de todas as raças, cores e credos jurarem fidelidade à bandeira de Abraham Lincoln, todos os dias na escola pela manhã.

Enfim e por fim, não existem respostas óbvias ou caminhos claros. A vida é passagem e como dizia meu amado Guimarães Rosa, estamos todos à margem desse grande rio.

Vou fazer minhas malas e rever meus amados, mas agora com um outro sentimento: não mais pertenço ao Brasil, nem tampouco aos EUA! Sou apenas uma terráquea tentando fazer dos limões da vida uma grande limonada! Seguimos….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Charlie Brown à Cebolinha – qual a sua infância?

Acabei de sair do cinema, onde passei quase duas horas me divertindo com o filme Peanuts, ou Charlie Brown, como era conhecido na minha infância.

Quem já chegou aos quarenta sabe do que estou falando: no começo dos anos 80 uma febre invadiu São Paulo, não sei se se estendeu pelo Brasil inteiro, mas o cachorrinho Snoopy era o item mais cobiçado entre as crianças da minha época. Eu mesma sonhava com um, mas tive que me contentar em ter uma versão fajuta, já que a original era caríssima para os padrões da minha família.

Mas só hoje, vivendo há quase um ano nesse país, pude entender Charlie Brown e seus amigos. Confesso que fiquei intrigada e confusa, pois se trata de um produto tão característico da cultura americana, que não entendo como fez tamanho sucesso na terra brasilis.

Não há exageros em Charlie Brown! A escola que se vê no filme é exatamente uma Elementary School, assim como a casa, o bairro, os dias de neve, as brincadeiras na rua, a biblioteca, o bulling, as premiações escolares…tudo! Minha filha disse: as cadeiras são idênticas às da minha classe. Poderia até ser um documentário.

Por isso a paixão americana pelo Snoopy. É um retrato vivo da infância norte-americana. A vida das crianças aqui gira em torno da escola, do bairro, das ruas. São espaços democráticos, onde uma mistura interessante de classes sociais, culturas e raças acontece.

Como já falei outras vezes, o menino rico que chega à escola de BMW usa roupas parecidas com o menino pobre de origem hispânica que vem a pé cuidando dos irmãos menores. Todos na mesma sala, se encontrando na mesma biblioteca, no mesmo parque e brincando juntos em um dia de neve na rua.

A escola pública proporciona isso. Os espaços públicos proporcionam isso.

Infelizmente a minha infância foi carente de tais espaços. Era longe de ser rica, mas estudei em escola particular e apesar de morar perto de uma imensa favela paulistana, nunca tive um amigo de lá. Assim como também nunca tive um amigo muito mais rico que eu.

No Brasil vivemos em prateleiras. Podemos nos mover um degrau ou dois, mas nunca além disso, estamos sempre cercados por iguais. Os espaços públicos de uma grande cidade como São Paulo segregam mais do que agregam. No jeito de vestir, falar, frequentar você já atesta a sua origem e com certeza se sente absolutamente desconfortável se estiver em lugares muito distantes da sua classe social. Para cima ou para baixo, não importa.

Tanto Charlie Brown quanto a Turma da Mônica, que eu lia compulsivamente, povoaram a minha imaginação infantil. Confesso que bateu uma invejinha, porque o americano se reconhece na vida de Charlie Brown. Agora para uma criança brasileira (rica ou pobre)  o bairro do Limoeiro, arborizado, com praças e ruas, onde o Cascão, o Cebolinha, a Magali e a Mônica brincam, aprontam e caminham, sem perigos ou muros, é uma enorme obra de ficção. Um espaço tão distante da realidade que só poderia existir em quadrinhos.

Nos anos 80 já não era assim. Nos anos 2000, geração das minhas filhas, a liberdade então se encolheu ainda mais, se encerrando dentro dos muros do condomínio, dos exércitos de babás vestidas de branco, das cancelas dos clubes, dos corredores de shoppings (credo!). Por ser otimista, gosto de pensar que talvez exista em algum cantinho do Brasil uma cidade com o bairro do Limoeiro, com casas confortáveis para todo mundo, crianças caminhado até a padaria, correndo nas ruas, deitando nos gramados. Pena que cada vez que  vejo notícias do meu país, minha esperança morre um pouco, com escolas sendo fechadas, pessoas sendo baleadas, cidades sendo engolidas pela lama da irresponsabilidade.

Tristes trópicos, Charlie Brown! 😦

Where are you from?

Engraçado, a língua, o sotaque, a cara não negam, não sou daqui. Basta eu abrir a boca para ouvir a pergunta: where are you from?

Quando digo que sou do Brasil recebo sempre um sorriso amigável. Eu realmente não tinha ideia de como o Brasil é popular mundo afora, dizer que é do Brasil te leva instantaneamente  a uma posição “cool”, bacana.

Aqui tem gente do mundo inteiro e já observei essa reação em suecos, alemães, franceses, italianos, japoneses, coreanos, salvadorenhos, colombianos, paquistaneses, afegãos, filipinos, russos, nepaleses, iraquianos, americanos…ufa, a lista é imensa!

Sempre ouço a mesma resposta, não necessariamente nessa ordem: Uau! Brasil! Que sorte, que lugar lindo, e a Copa do Mundo? Foi duro perder pra Alemanha…” Alguns mais bem informados, me perguntam qual a explicação para a horrenda crise econômica e a crescente violência. Outros, que sabem apenas do Brasil idílico me perguntam das praias e sempre, sempre, sempre do futebol!

Outro dia foi irritante. Um vietnamita ficou super bravo quando eu disse que era brasileira. Me deu uma bronca: “Como vcs conseguiram perder para Alemanha daquele jeito? Nós do Vietnã, que amamos o futebol brasileiro ficamos desesperados! Como vocês fizeram uma coisa dessas?” Eu juro que não sabia se xingava ou ria. Foi uma situação bizarra, para dizer o mínimo.

Teve também uma simpática mulher de El Salvador que só faltou me pedir um autógrafo. Segundo ela o Brasil é o lugar mais incrível do mundo, com as melhores pessoas, só porque é a terra de Ronaldinho Gaúcho, o maior craque de todos os tempos, na opinião dela.  Engraçado o poder do futebol…

Já  entre os americanos, que pouco ligam para futebol, as reações são também curiosas. Conheci ocasionalmente uns três ou quatro que viajaram ao Brasil e esses sofrem de uma paixão platônica pela nossa terra. Me convidaram para fazer churrasco na casa deles, adoram falar umas poucas palavras em português e tem um orgulho danado em mostrar que sabem a diferença entre Rio e São Paulo.

Ah o Brasil é realmente uma terra querida mundo afora, mas tão odiado internamente. Sou a última a poder reclamar dos insatisfeitos, eu era e ainda sou muito crítica em relação ao nosso desenvolvimento, sobretudo educacional e cultural. Mas não posso negar, somos vistos como um povo bonito, alegre, simpático, que come muitíssimo bem e domina a arte do futebol, além claro de passarmos a maior parte de nossas vidas deitados sob um sol maravilhoso à beira mar (quem dera…)  Penso que deve ser muito mais difícil dizer: sou do Afeganistão, sou do Irã, sou da Venezuela…. Nós temos uma imagem positiva perante o mundo, que provoca admiração, mesmo que para nós, que vivemos a realidade na pele, isso seja um tanto estereotipado.

Não se conhece uma terra, um povo, ou mesmo uma língua sem vivenciá-la. Posso dizer isso agora, com quase um ano (já!!!) de Estados Unidos. Vários dos meus (pre)conceitos foram por terra, da comida aos costumes, positiva e negativamente! Acho divertido observar o reverso da moeda, como somos vistos mundo afora…

Estar aberto para o novo é a melhor sacada da vida, e acreditem, tudo pode surpreender. E por falar em surpresas, eu descobri que o povo afegão é um dos mais lindos do mundo. Conheci um homem que poderia trabalhar em Hollywood, tamanha era  a beleza de seus traços, e antes de reclamarem, estava acompanhada do meu marido, que apesar de seu machismo brazuca, concordou comigo! 😉

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Para ilustrar: meu cantinho favorito no Brasil: Paraty! Com suas ruas de pedras, suas casinhas históricas, seu mar deslumbrante, sua cachaça e sua música popular nas rodas de samba. Tudo isso representa o que o Brasil tem de melhor e que me mata de saudades…. 😦

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