Vilarejo

Tocando “Vilarejo” da Marisa Monte no carro e eu começo a chorar. As lágrimas escorrem no meu rosto e mal consigo me controlar. Dirigindo mais uma vez, por baixo das gigantes e centenárias árvores das ruas de Capitol Hill – o bairro mais bonito de Seattle – com o sol dourado de janeiro, iluminando os galhos.

Sempre gostei de sinais. Acho que são ferramentas dos anjos, ainda que não acredite muito em anjos, vai entender… E a música começou a tocar quando eu estava pensando no quanto estou sempre de partida.

Na verdade, estamos todos de partida, mas para mim isso ficou muito mais concreto depois que saí do Brasil. São tantas despedidas que mal cabem no meu peito. Além das pessoas, passei a me despedir de calçadas, árvores, cafés, cheiros, paredes e texturas. Toda essa miscelânea de coisas ordinárias que compõem uma vida…

Agora estou aqui, escrevendo a mão. Só por curiosidade, mas quando as palavras saem lá do fundinho de mim, preciso de papel e caneta. Não dá para digitar, vai entender, de novo!

Estou aqui pensando e dissecando cada verso da letra de Vilarejo, como eu fazia nas aulas de literatura da FFLCH. Por que essa simplicidade me emociona tanto?

Porque fala de lugares que buscamos e que não existem. Utópicos.      


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe

Paraíso se mudou para lá.

Vilarejo povoado por heróis e mães. Amor e segurança. Amor e empatia. Amor e proteção. Paraíso, só pode ser…

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

E pela sensatez das coisas, a vida não deveria ser assim? Um semear e colher de sonhos? Na nossa realidade cotidiana, vivemos sem perceber, o sonho plantado de outros. O sonho de quem um dia pensou em se locomover sobre rodas, em voar como pássaro, o sonho de quem imaginou uma ferramenta de comunicação como a internet, e assim exemplos se acumulam, indefinidamente. Mas em que lugar escondemos os nossos próprios sonhos e por que não fazemos deles sementes?

Toda a gente cabe lá
Palestina, Xangrilá
Lá o tempo espera
Lá é Primavera

Infelizmente com cada vez mais frequência não deixamos pessoas “caberem” na nossa vida, na nossa casa, na nossa cidade, no nosso país. Encolhemos nossos espaços afetivos. Reclamamos de políticas restritivas de acesso imigratório, mas não abrimos as janelas de nossa alma para os novos amigos e os novos encontros.

Sabemos que o tempo não espera. Essa talvez, seja a única certeza e a mais dolorida também. Assim como a areia, o tempo escorre pelos dedos. Projetos não executados se perdem em gavetas empoeiradas da memória, sonhos não realizados, viram sementes de frustração, escolhas não feitas tornam-se arrependimentos amargos. Não, o tempo não espera…

E assim como a Primavera, estação colorida perfumada e efêmera, o tempo se esvai tal qual pétalas de flores caídas no jardim. O lugar ideal seria de fato o da eterna Primavera, eterno tempo de renascimento e florescência….

Em todas as mesas pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção

Por que cada vez é mais difícil se ater ao que é essencial? Pão, amor, sonhos e flores. Será que precisamos de muito mais que isso? Nos perdemos em demandas sucessivas e insatisfações eternas.

Chorei porque vejo que estou sempre a procura desse vilarejo. Como uma alma em desassossego, já deixei o Brasil, já mudei de costa a costa nos Eua e agora outra mudança se desenhando no horizonte. No fundo é isso que buscamos, esse vilarejo, onde portas e janelas se abrem para sorte.

Mas talvez, esse Vilarejo possa estar dentro da gente. Reformar a casa, jogar fora os excessos e encher o pulmão com a brisa da simplicidade. Amar, ser amado, semear sonhos e colher realizações.

Nunca é tarde, e um dia, certamente me mudarei para lá…

Até a próxima! 😉

Meu amor por você… São Paulo!

Ah São Paulo….cidade onde passei 39 anos da minha vida. Cresci em um bairro tradicional e histórico: Ipiranga. Lá encontrei as amigas que são para sempre, apesar de não nos vermos há algum tempo já.

Infância na rua, brincando com meus primos e enlouquecendo as freiras do colégio que eu estudava. Não tinha muita ideia da imensidão da cidade, porque meu mundo se resumia às padarias do Ipiranga, onde adorava ir com meu pai, tomar café da manhã e esperar o frango de televisão ficar pronto para o almoço.

Só aos 17 anos entendi essa cidade. Entrei na faculdade, do lado oposto, extremo da zona oeste! Cruzava todos os dias, do Ipiranga ao Butantã de transporte coletivo: ônibus e metro. Quanta gente diferente, quantas coisas no percurso de duas horas. Aprendia tanto, ou mais do que na sala de aula…

O tempo passou e tanta água rolou por debaixo das pontes do rio Pinheiros e Tietê.

Brooklin, Higienópolis, Consolação, Jardins, Vila Mariana, Pinheiros, Santo Amaro, Lapa, Perdizes, Morumbi, Sé, Aclimação, Vila Prudente, Vila Madalena, Barra Funda…. um bocado de bairros se somaram ao meu repertório. Cada um sendo quase um universo particular.

Problemas, assaltos, descaso. Comecei a odiar e reclamar, muito! Achei que eu e São Paulo estávamos quites. Chega! Vou me embora, não para Passárgada, mas pra Washington DC mesmo.

Já fazem 3 anos e nem em DC estou mais. Agora vivo no Acre americano, Seattle, um canto no extremo noroeste americano, mas que pretende ser e agir como uma cidade cosmopolita, cheia de tecnologia e modernidade, mas um pouco carente da diversidade e da energia que faz da Pauliceia algo tão único!

Nem em Nova Iorque é possível encontrar essa magnitude urbana – desculpa aí Douglas 😉

Penso que não sou do Brasil, sou de São Paulo. Essa terra do concreto e da feiura, que carrega uma mistura explosiva de todos os cantos, carregada de brasilidade. Eu sei, é confuso mesmo.

Não tinha ideia do quanto já era familiarizada com a cultura japonesa, goiana, italiana, mineira, espanhola, alemã, baiana, recifense, curitibana, catarinense, haitiana, francesa, manauense, árabe, judaica…  Nos limites dessa cidade cabe o mundo!  Obrigada São Paulo, por me preparar. E ah, São Paulo, como te odeio. Porque você me deixou mal- acostumada e em nenhum canto do mundo encontrarei o que você me proporcionou.

Saudades do seu caos, minha amada terra! Foi preciso perder-te para ver o quanto é gigante e generosa.

Quem sabe, um dia, não nos encontramos novamente?

Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

Maternidade – um banho exagerado de doçura

Ainda é maio e me permito continuar pensando na data mais melosa do calendário: o dia das mães e seu excesso de amor e doçura.

Aqui nos EUA a comemoração coincide com a do Brasil e somos sufocados por todos os tipos de apelos publicitários. Além disso, somos obrigados a lidar com a enorme pressão que vem das mídias sociais. Não basta ser filho, não basta ser mãe. Faz parte do jogo da vida contemporânea expor ao máximo nossas intimidades, numa espécie de competição velada: quem teve o dia das mães mais bonito? Quem demonstra mais o seu amor? Quem é a mãe perfeita?

Ok, sei que que estou sendo insuportável, mas é que ando cansada desse vácuo existente entre vida real e vida virtual. Não pensem que me excluo dessa onda: basta ver meu perfil no Instagram.

O problema é que tudo isso gera uma demanda por perfeição. E nós, seres humanos complexos, estamos longe, bem longe de sermos plenos e cheios de filtros como mostra a vida do facebuki.

Ser mulher implica em tantas escolhas e ser mãe é apenas uma delas – ou não. Eu, por exemplo, não escolhi ser mãe. Fui surpreendida aos 17 anos de idade e embarquei na aventura. Recebi minha filha de braços abertos com o máximo de cuidado e responsabilidade cabíveis em uma menina de 17 anos. Errei, sofri, acertei, perdi e ganhei. Não foi uma estrada fácil, aliás não é e não será nunca. Mas acho que gostei da brincadeira e quis repetir. Oito anos depois me planejei com tudo que tinha direito e fui mãe novamente, dessa vez com marido, casa e enxoval personalizado.

A família parecia completa e finalmente achei que era o momento de sossegar e investir em tantas coisas que tiveram que ser adiadas. Mas quem disse que somos nós que planejamos a vida? Veio mais um bebê para a conta, sem aviso prévio! Eu era já uma mulher experiente de 30 anos e ainda assim engravidei de novo, no susto.

Depois disso nem preciso dizer que meu marido correu e fechou a fábrica definitivamente!

Mas para que digo tudo isso? Eu sou a prova viva que ser mãe às vezes, independe da nossa vontade. Quando era adolescente e inconsequente, ok, até é esperado uma gravidez indesejada, mas e depois? Quando já era uma balzaquiana?

Claro que poderia optar por não ter, mas eu pessoalmente, já sinto a vida pulsando dentro das minhas entranhas no primeiro exame de sangue e isso para mim Gabriela, não seria uma opção que eu fosse capaz de encarar.

Não julgo quem o faça! Respeito e acho que da vida e do corpo de cada um, ninguém -nem presidente, nem papa, nem pastor – tem direito de meter a colher. (Alerta de tema ultra polêmico! Espero ter deixado bem clara minha posição…)

Só acho que nós mulheres merecemos um descanso verdadeiro dessa sublimação toda. Entendo as mamães de primeira viagem e seus encantamentos descomunais. Entendo as relutantes em ceder à maternidade, entendo as que amam um playground, como admiro as que detestam e preferem mil vezes viagens de negócios.

O que não entendo e que já encheu a paciência é essa necessidade insuportável de se definir tudo em moldes e regras.

Claro que isso faz parte da natureza humana, mas de uns tempos pra cá, com a vida virtual democratizando todo e qualquer achismo, está ficando muito chato.

Tem manual para tudo! Parto normal? Que absurdo! Parto cesariano? Que anti-natural! Papinha orgânica? Coisa de vegano chato! Saquinho de doritos no lanche escolar? Essa mãe deveria ser processada!

Desde quando permitimos tantas “verdades” embasadas em achismos nas nossas vidas?

A vida passa e rápido! Minha filha mais velha já tem 24 anos. Cresceu dançando Carla Perez e comeu muito miojo. Hoje revejo certas escolhas e provavelmente faria diferente, mas ela sobreviveu! Tem um conhecimento absurdo sobre arte e se alimenta com um cuidado impecável. Não virou “funkeira” nem comedora compulsiva de Big Mac. E mesmo se fosse assim, qual o problema?

Estamos nessa vida em um mesmo barco, cuja única certeza é um fim cada vez mais próximo. Por que então tanta energia gasta em julgamentos, achismos e uma disputa louca por verdades absolutas?

Sou mãe e gosto do meu papel. Isso não significa que às vezes eu não me ressinta por não ter dedicado mais tempo à uma carreira profissional. Isso não quer dizer o quanto às vezes preciso e amo estar sozinha, sem ninguém dependo de mim. Somos uma montanha russa de emoções, sentimentos e vontades e deixar que outros nos ditem caminhos é o maior desserviço que poderíamos fazer por nós mesmos.

Acho que mais do que nunca, com o mundo gritando por ajuda, é preciso que a maternidade resulte na formação de adultos conscientes e preparados para as adversidades, porque vou te dizer uma coisa: do jeito que caminham as coisas a vida não dará tréguas nem sossego para as próximas gerações.

Errem, acertem, experimentem e não acreditem em fotos ou cenas perfeitas de “my stories”. A vida é infinitamente maior e mais surpreendente que isso.

Vamos em frente com mais realidade e menos virtualidade. O que você acha?

 

 

 

As pequenas grandes mentiras…

Me faltou ar. Fazia tempo que um filme, ou série de televisão tivesse esse impacto em mim. Estou falando de Big Little Lies.

Essa micro-série da HBO que se encerrou ontem, foi gloriosa em suas escolhas. A começar pelo elenco afiadíssimo, sobretudo Nicole Kidman no papel mais marcante de sua carreira. Esse show foi baseado em um livro da escritora australiana Liane Moryart. Eu já havia lido uma obra da mesma autora há anos atrás e já havia me impressionado com sua capacidade precisa de tratar de temas densos.

A identificação foi imediata. Também já fiz parte de um grupo de mulheres parecidas, na faixa dos 40 anos, com filhos frequentando a mesma escola e com as vidas aparentemente idílicas. Casas bonitas e casamentos perfeitos.

Quantas são as mentiras que escondemos dos outros atrás das nossas máscaras de perfeição? E o mais grave, quantas são as mentiras que escondemos de nós mesmos, querendo sempre nos auto enganar que estamos a salvo dos problemas?

Por trás de famílias bonitas no Facebook,  viagens sensacionais no Instagram e rotinas impecáveis existem camadas obscuras de realidade que nem sempre vêm à superfície.

Não se trata de uma situação específica que acomete apenas uma classe social, mas se trata da nossa frágil humanidade. É isso que me encanta. Por baixo de máscaras estamos todos, igualmente, enfrentando a vida, fazendo-nos equivalentes, apesar de toda e qualquer diferença.

O tema central da série é a violência doméstica e os relacionamentos abusivos. Os danos podem ser imensuráveis e irreparáveis, não à toa que parece que vivemos em um ciclo, onde a violência sempre se repete, de pai para filho, condenando nossa sociedade a uma recorrência de sofrimento eterno.

Quase sempre o lado frágil da moeda é o feminino. Estamos em 2017, quase na segunda década do século XXI e ainda assistimos passivamente à subserviência feminina.

Eu cresci em um ambiente abusivo. Ainda guardo fresco na memória o comportamento agressivo de meu pai dirigido a mim e a minha mãe. São ecos de memória que me acompanharão para sempre, infelizmente.

Quis o destino que eu fosse mãe de três meninas de dois pais diferentes, mas ambos amorosos e respeitosos com suas mulheres. Ainda assim, um medo inconsciente me persegue, será que minhas filhas terão a mesma sorte, de viverem relacionamentos saudáveis e livres de agressões físicas e psicológicas?

Considerando os avanços da luta feminina, a essa altura do campeonato, essa questão já nem deveria ser considerada. Tal qual como pensarmos nos perigos da Peste Negra, que dizimou a Idade Média,  em dias atuais. Mas, trata-se de uma realidade cruel e palpável.

Ano de 2017: os EUA elegeram um homem para a presidência da república, que se gabou publicamente de tocar mulheres pela vagina, sem o consentimento delas. Que entrava, sem permissão e sem medo em vestiários femininos, onde adolescentes se trocavam.

Ano de 2017: famoso ator global sexagenário assedia e agride verbalmente assistente de figurino da rede globo. Repercussão: silêncio. Nem as mais ativistas artistas dentro da rede mencionaram uma palavra.

Ano de 2017: mulheres continuam a se boicotar. Sofrem assédio sexual violento em festas de carnaval nas ruas do Brasil, e ainda são criticadas publicamente por outras, como se fossem responsáveis por tal violência.

Chega! Estou esgotada…. Não aguento mais tamanha hipocrisia. Não aguento mais.

O mundo ainda é um lugar muito hostil às mulheres. Até quando?

Se você faz parte daquele grupo, que se reúne com amigas para sempre julgar e condenar comportamentos femininos alheios, sinto te dizer, você também é responsável por essa violência.

Comentários como: Por que ela se veste assim? Por que ela trabalha fora e deixa os filhos? Por que ela se acomoda e vive às custas do marido? Por que ela é desleixada? Por que ela é tão vaidosa? Por que ela namora tanto? Por que ela é tão pudica? Por que ela é bem sucedida? Por que ela não faz nada?  etc. etc. etc.

Podem parecer inócuos, mas servem de combustível para a mulher ser sempre subjugada dentro da sociedade.

Já escrevi aqui sobre o drama da violência contra a mulher, que atinge mulheres em todo mundo, de todas as classes sociais.  Eu repetirei incansavelmente: essa condição poderá mudar quando mulheres se enxergarem como aliadas. Quando mulheres se levantarem em defesa de outras, deixando para trás a superficialidade das competições, ciúmes, invejas e recalques.

Abro meu coração, minha alma e meu tempo para quem quiser se dedicar a essa causa de união e valorização sincera da condição feminina. Ao mesmo tempo, fecho as portas definitivamente para quem só pensa em julgar, boicotar, agredir e fofocar.

Só existe uma saída e isso o show Big Little Lies mostrou lindamente nas cenas finais: juntas somos mais fortes e invencíveis.

Vamos dar, finalmente, as mãos?

http://www.hbo.com/big-little-lies/about/video/trailer.html?autoplay=true

 

 

 

 

 

50 tons de laranja

 

50 tons de laranja….

Laranja sempre foi uma das minhas cores favoritas, alegre, vibrante, cheia de energia! Além de remeter à fruta, que pela combinação de simplicidade e riqueza é uma das maiores bênçãos da natureza.

Infelizmente deixei de ser fã da cor, desde o início do ano passado, por razões um tanto óbvias. Laranja também pode remeter ao “fake”, ao bronzeado ridículo e artificial e também àqueles que inocentemente (ou não) se prestam a fazer papéis escusos para defenderem poderosos.

Você sabia que uma escala tonal pode ser composta por infinitas graduações de cor, e não é só o cinza que apresenta essas nuances todas.

Usando um pouco da ironia como estilo de escrita, já que em tempos estranhos é melhor falar em entrelinhas, vou propor um teste, para saber em que tom de laranja você se encontra. Cada resposta afirmativa aumenta o seu tom cítrico.

  • Você acredita ferozmente que suas opiniões (sobre tudo) correspondem à verdade absoluta?
  • Você acha que o único caminho a Deus e à salvação religiosa é através da sua crença pessoal e todas as outras estão equivocadas?
  • Em uma roda de amigos, ou em feeds de redes sociais, você sempre quer ter a palavra final?
  • Você despreza todos que tem visão política diferente da sua?
  • Você abomina o aborto, mas fecha os olhos para as milhares de crianças em situação de miséria extrema e risco de vida dentro do seu país?
  • Você defende que “cidadão de bem” possua arma para se defender e matar quando for preciso?
  • Você se diz tolerante aos gays, mas desde que eles expressem suas escolhas bem longe de você e de seus filhos?
  • Você acha que “ser gay” é fruto de uma má influência da mídia e dos tempos atuais?
  • Você respeita as mulheres, mas concorda que a culpa de estupros, traições e sexismo é sempre delas mesmas?
  • Você abomina a visão política da esquerda?
  • Você despreza a visão política da direita?
  • Você acredita que o mundo é bipolar, dividido claramente entre bons e maus, petistas e coxinhas, anjos e demônios, sem nada entre eles?
  • Você repete frases como: “bandido  bom é bandido morto?
  • Você acredita que todo favelado é bandido? (ou que todo muçulmano é terrorista?)
  • Você acha que o Sudeste (e sobretudo S. Paulo) carregam o Brasil nas costas e deveriam existir barreiras físicas contra a migração nordestina?
  • Você acredita que o esforço individual é o único fator responsável pelo sucesso (ou fracasso), sem considerar o contexto social?
  • Você defende uma cidade limpa, onde qualquer manifestação artística tem que ser substituída por cinza? Afinal de contas está se cuidando da saúde pública e uma coisa tem tudo a ver com a outra coisa, assim como borboletas, sereias e maionese e inclusive verba pública!!….

Pois é, eu poderia continuar essa lista infinitamente, mas paro por aqui. Viu só como temos mais laranja dentro de nós do que imaginamos (eu inclusive!). Em uma escala ou outra, essa é a cor do momento e não se trata de exclusividade dos EUA.

Acho que é tempo de refletir: em que medida me situo no meio em que vivo? Em que medida minha tolerância e empatia superam as minhas crenças ideológicas e religiosas?

O mundo só muda quando mudamos e mais do que nunca é preciso revermos aquilo que nos torna humanos, ou corremos o risco de nos olharmos no espelho e vermos refletido apenas a sombra de um palhaço laranja….

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida é tão rara….

Eu ando cansada…. Cansada do frio que mal começou, cansada dos dias curtos que terminam às 4h30 da tarde, cansada do meu feed de notícias que só me traz desilusão, enfim, não estou vivendo meus melhores dias.

Já li um bocado sobre a depressão de inverno, bastante comum em pessoas “tropicais”que vivem no hemisfério norte. O antídoto é sempre o mesmo: atividades ao ar livre, alimentação saudável, pensamentos positivos. Parece tão fácil, mas não é.

Fica difícil ter coragem de caminhar sob a garoa constante e o frio de 0 grau, impossível trocar o chocolate quente pelo suco de couve e o mais complicado: pensar em coisas boas quando você acorda e vê que um avião com vários jovens atletas, cheios de esperança e alegria caiu nas florestas da Colombia.

O mundo anda árido e 2016 foi um ano bem complicado. Depois de 2015, com o terrível incidente da Samarco em MG, processo político decadente do Brasil e do planeta, a crise de refugiados, etc. cheguei a achar que nada de pior poderia vir a acontecer nessa maltratada atualidade. Mas 2016 chegou querendo destaque: atentados terroristas, mais e mais decadência política, morte de pessoas essenciais e Donald Trump. Agora essa tragédia aérea envolvendo os meninos de Chapecó….

Eu sei, está difícil. Mas continuo acreditando que a vida é escolha. Em meio ao caos, precisamos focar nosso olhar em direção àquilo que nos alenta. Parece uma bobagem, mas às vezes a felicidade vem em gotas homeopáticas.

Uma fotografia bonita, uma mensagem carinhosa e inesperada, um salto amoroso do cachorro de estimação, uma chamada de vídeo no Facetime, um estranho gentil que segura a porta e sorri pra você…. São nessas miudezas da vida que a gente se alimenta e encontra forças para seguir em frente

A vida não para, não espera e é rara, como já diz aquela música linda do Lenine que eu deixo aqui  para vocês.

 

Acho que precisamos todos de um esforço coletivo, retornando ao mundo paciência e esperança, porque só assim conseguiremos sair dessa nuvem cinza para transformar positivamente esse mundão, que apesar de todas as suas dores é maravilhoso. Estamos todos juntos nesse barco que não para nunca e cabe somente a nós que seu percurso seja feito sobre águas calmas.

 

O dia depois de amanhã e o início da era Trump

Meu café que me acompanha agora está amargo, assim como meus pensamentos. Não é fácil acordar depois de uma tremenda ressaca emocional, onde eu vi vencer o racismo, o machismo e a misoginia. Mas é preciso erguer a cabeça e ver a figura inteira: como chegamos até aqui e para onde iremos depois?

Donald Trump venceu democraticamente e legitimamente, por pouco menos da metade dos votos. O sistema eleitoral americano, que é completamente diferente do brasileiro, o elegeu através da maioria ganha nos colégios eleitorais. Isso indica que os EUA está dividido, rachado ao meio entre dois pensamentos completamente diferentes.

Essa mesma polarização aconteceu na Inglaterra, na Itália, em Israel e no Brasil, entre tantos outros lugares… Trata-se de um fenômeno atual e global. Não existe mais meio termo, pessoas estão se amotinando atrás de suas crenças, deixando nenhum espaço para a conciliação.

No primeiro dia após o resultado da eleição, esse efeito devastador já pôde ser observado em atitudes execráveis ao longo do país. Alunos de uma High School da Pensilvânia marcharam durante o refeitório e gritando: construa o muro!  Eles carregavam placas do Trump, enquanto outros alunos latinos, asiáticos e imigrantes em geral ficaram acuados de cabeça baixa.

A filha de 8 anos de um conhecido meu, eleitor de Trump, foi para a escola pública em Maryland e foi questionada por sua professora em quem seus pais votaram. Quando a resposta foi Trump a professora começou a gritar com a menina, sendo apoiada por outra professora. Pais que estavam no corredor tiveram que entrar na sala para acalmar os ânimos.

Vários fatos, tristes como esses, já começaram a acontecer no primeiro dia da era Trump e podem ser facilmente encontrados na internet. Milhares já se programam para protestar contra o novo presidente e milhares já se preparam para defendê-lo. O clima é tenso, hostil e infelizmente não vai melhorar….

Passei boa parte da noite pensando e lendo tudo o que podia para tentar encontrar respostas. Cheguei a algumas conclusões, ainda muito cruas, que queria dividir aqui.

Graças à internet e sobretudo ao Mark Zuckerberg o mundo mudou! Todas as nossas relações mudaram completamente mas continuamos a ser educados a pensarmos em moldes que não fazem o menor sentido hoje. Felizmente, agora um número infinitamente maior de pessoas ao redor do mundo tem acesso à informação. Basta um clique de qualquer celular e você estará assistindo ao vivo pessoas falando de Bangladesh, se você quiser.

O problema – grave –  é que com a democratização massiva da informação, podemos filtrar aquilo que nos alimenta. Dificilmente perderemos nossos minutos de navegação diária para lermos a respeito daquilo que não aceitamos. Um exemplo prático para qualquer brasileiro: eleitores da Dilma e do PT jamais usarão como fonte de informação o blogue do Reinaldo de Azevedo. Da mesma forma que seguidores do Rodrigo Constantino jamais lerão os textos de Jean Willis.

E assim vamos nos aprisionando em uma bolha perigosa, que só reforça nossas convicções e nos faz acreditar em certezas distorcidas da realidade. O ódio vem na sequência e tudo que é diferente daquilo que eu acredito passa a ser visto como abjeto e desprezível.

É um perigo! Eu mesma caí nessa bolha, quando me opus veemente à reeleição de Dilma no Brasil. Fui rasa, fui parcial e me alimentava só de informações que me diziam o que eu acreditava. Foi através da dor de viver em outra língua e ser obrigada a conviver em uma realidade muito diferente  que me fez ver o quanto a gente cresce na diversidade e o quanto nossos pontos de vista podem ser estreitos.

Nesse momento, por mais que seja difícil,  é preciso pensar: Será que a metade dos eleitores americanos, que são pró Trump, estão totalmente desprovidos de suas razões? O maior exercício de humanidade é colocar-se na pele do outro e cada vez menos fazemos isso.

Não sou imparcial e tenho  também minhas próprias convicções, seguem algumas:

  • não sou religiosa e critico racionalmente a fé cristã (já perdi amigos por isso L )
  • defendo o aborto e o direito de escolha das mulheres (apesar de nunca cogitar em fazê-lo, sendo essa a minha escolha)
  • aplaudo a diversidade e o casamento homossexual, assim como a liberdade sexual de qualquer pessoa
  • sou a favor da democracia e ainda que ela traga resultados amargos, como os dessa eleição, ela é o sistema mais justo criado pelo homem
  • sou absolutamente contra qualquer arma de fogo e defendo a restrição absoluta das mesmas

Poderia continuar essa lista infinitamente e nem assim estaria falando verdades mas apenas expondo o meu ponto de vista! Percebem a diferença entre opinar e catequizar?

Respeito e estou completamente aberta à discussão de argumentos contrários a qualquer um dos itens que escrevi acima, mas infelizmente sei que muitos, depois dessas minhas afirmações, passarão a me ignorar solenemente.

Eu sigo firme na minha maior defesa: ter liberdade para fazer minhas escolhas ideológicas, pessoais e políticas, sem cercear e agredir os diferentes e nem permitir que me agridam.

Parece utópico demais pensar que um dia esse consenso irá existir, mas o contrário disso está apenas nos arrastando para as trevas que o mundo assiste hoje.

Permita-se ler e se informar em fontes diferentes das que te agradam, aproveitando o privilégio de ter acesso a toda e qualquer informação.  Você pode se surpreender positivamente! Isso ontem aconteceu comigo, quando um crítico ferrenho à campanha da Hillary Clinton me apontou motivos incontestáveis para a vitória de Trump.

É preciso sair da bolha, é preciso ouvir o outro, é possível darmos as mãos e pensarmos na construção de um mundo menos cruel. Precisamos mais do que nunca de pontes ao invés de muros….

Vamos todos tomar um trago de esperança?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A experiência de ser turista na minha terra – 20 dias de Brasil

Então, eu fiz um carnaval em um outro post quando disse que iria ao Brasil não foi mesmo? Estou me sentindo em dívida para quem me lê e quer saber como foi essa experiência de ser turista na própria terra. Vamos lá?

O primeiro choque é o conforto de ouvir, falar e pensar em português o tempo todo. Foi uma espécie de alívio, como quando a cabeça para de doer depois de dias de um incômodo. Se traduzir o tempo todo é um dos grandes desafios de quem vive fora da terra de origem. Mesmo aqueles ultra super fluentes, com o inglês no automático, sabem que o conforto de se expressar na sua própria língua faz uma grande diferença.

Se sentir abraçado e sentir querido também cativa o coração. Mas algumas gotinhas de dor pingam nessa atmosfera. Você percebe que nem todos sentiram sua falta como você as deles e alguns com quem você tanto contava e ansiava em ver, simplesmente ignoram a sua visita, afogado que estão nas suas vidas cotidianas. Pode ser um pouco chato, mas é a primeira e grande lição: a vida continuou…. Você mudou de casa, de país, de emprego e de amigos, quase um tsunami na própria vida e acaba se esquecendo de que todo mundo que ficou continuou com a mesma rotina de sempre. Fica difícil para aqueles que ficaram dimensionar e avaliar a importância de um abraço. Eu entendo e supero, juro!

Outros, ao contrário, nos surpreendem com o carinho sincero e a receptividade. E aí até machuca mais, afinal como voltar e viver longe de pessoas tão especiais? (aqui faço uma pausa pra engolir um soluço).

As comparações são inevitáveis. Moro na Virgínia, ao lado da capital norte-americana. Ruas e bairros impecáveis, equipamentos e serviços públicos primorosos, melhores escolas do país, altíssima renda per capita, blá, blá, blá…. São Paulo me dá um soco com o seu oposto: ruas ainda mais sujas e abandonadas do que me lembrava, violência explosiva, sensação constante de insegurança, estilo de vida caríssimo e incompatível com a realidade da maioria. Miséria e carro blindado, o tempo todo, todo o tempo.

Foi difícil essa parte. Confesso que pensei, não quero viver mais aqui não. O ar pesado de poluição e uma gigantesca diferença social. R$700,00 reais um jantar em um lugar comum, muita gente, mas MUITA, dormindo sobre jornais na Av. Paulista  (!). Difícil lidar e encarar.

Mas aí vem o almoço elaborado no capricho pelas amigas, o mar verde e delicioso em pleno inverno, o cheiro de pão da padaria e a coxinha estalando na boca. Complicou! Uma montanha russa de emoções. Pertenço mas não pertenço, entende.

Esse é o sentimento de um expatriado. Cadê meu lugar, aqui ou lá, ou os dois? Já aprendi a gostar dos EUA, da organização, do respeito e da beleza dos lugares por onde passo. Só que meu coração não vibra, ele se aquieta. É diferente.

No Brasil eu odeio e amo intensamente o tempo todo, meio exaustivo, mas muito vivo.

Não tenho respostas…. por enquanto vou tocando meu barco aqui focando na frente, absorvendo todas as experiências e oportunidades que essa terra proporciona e tentando não olhar para trás. Continuo fiel ao meu ideal de não ser árvore e poder me deslocar por esse mundo todo de olhos e peitos abertos. Mas faço um adendo, apesar de não ser árvore, tenho raízes e essas serão eternamente verde e amarelas!

 

 

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