Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

A vida é tão rara….

Eu ando cansada…. Cansada do frio que mal começou, cansada dos dias curtos que terminam às 4h30 da tarde, cansada do meu feed de notícias que só me traz desilusão, enfim, não estou vivendo meus melhores dias.

Já li um bocado sobre a depressão de inverno, bastante comum em pessoas “tropicais”que vivem no hemisfério norte. O antídoto é sempre o mesmo: atividades ao ar livre, alimentação saudável, pensamentos positivos. Parece tão fácil, mas não é.

Fica difícil ter coragem de caminhar sob a garoa constante e o frio de 0 grau, impossível trocar o chocolate quente pelo suco de couve e o mais complicado: pensar em coisas boas quando você acorda e vê que um avião com vários jovens atletas, cheios de esperança e alegria caiu nas florestas da Colombia.

O mundo anda árido e 2016 foi um ano bem complicado. Depois de 2015, com o terrível incidente da Samarco em MG, processo político decadente do Brasil e do planeta, a crise de refugiados, etc. cheguei a achar que nada de pior poderia vir a acontecer nessa maltratada atualidade. Mas 2016 chegou querendo destaque: atentados terroristas, mais e mais decadência política, morte de pessoas essenciais e Donald Trump. Agora essa tragédia aérea envolvendo os meninos de Chapecó….

Eu sei, está difícil. Mas continuo acreditando que a vida é escolha. Em meio ao caos, precisamos focar nosso olhar em direção àquilo que nos alenta. Parece uma bobagem, mas às vezes a felicidade vem em gotas homeopáticas.

Uma fotografia bonita, uma mensagem carinhosa e inesperada, um salto amoroso do cachorro de estimação, uma chamada de vídeo no Facetime, um estranho gentil que segura a porta e sorri pra você…. São nessas miudezas da vida que a gente se alimenta e encontra forças para seguir em frente

A vida não para, não espera e é rara, como já diz aquela música linda do Lenine que eu deixo aqui  para vocês.

 

Acho que precisamos todos de um esforço coletivo, retornando ao mundo paciência e esperança, porque só assim conseguiremos sair dessa nuvem cinza para transformar positivamente esse mundão, que apesar de todas as suas dores é maravilhoso. Estamos todos juntos nesse barco que não para nunca e cabe somente a nós que seu percurso seja feito sobre águas calmas.

 

A experiência de ser turista na minha terra – 20 dias de Brasil

Então, eu fiz um carnaval em um outro post quando disse que iria ao Brasil não foi mesmo? Estou me sentindo em dívida para quem me lê e quer saber como foi essa experiência de ser turista na própria terra. Vamos lá?

O primeiro choque é o conforto de ouvir, falar e pensar em português o tempo todo. Foi uma espécie de alívio, como quando a cabeça para de doer depois de dias de um incômodo. Se traduzir o tempo todo é um dos grandes desafios de quem vive fora da terra de origem. Mesmo aqueles ultra super fluentes, com o inglês no automático, sabem que o conforto de se expressar na sua própria língua faz uma grande diferença.

Se sentir abraçado e sentir querido também cativa o coração. Mas algumas gotinhas de dor pingam nessa atmosfera. Você percebe que nem todos sentiram sua falta como você as deles e alguns com quem você tanto contava e ansiava em ver, simplesmente ignoram a sua visita, afogado que estão nas suas vidas cotidianas. Pode ser um pouco chato, mas é a primeira e grande lição: a vida continuou…. Você mudou de casa, de país, de emprego e de amigos, quase um tsunami na própria vida e acaba se esquecendo de que todo mundo que ficou continuou com a mesma rotina de sempre. Fica difícil para aqueles que ficaram dimensionar e avaliar a importância de um abraço. Eu entendo e supero, juro!

Outros, ao contrário, nos surpreendem com o carinho sincero e a receptividade. E aí até machuca mais, afinal como voltar e viver longe de pessoas tão especiais? (aqui faço uma pausa pra engolir um soluço).

As comparações são inevitáveis. Moro na Virgínia, ao lado da capital norte-americana. Ruas e bairros impecáveis, equipamentos e serviços públicos primorosos, melhores escolas do país, altíssima renda per capita, blá, blá, blá…. São Paulo me dá um soco com o seu oposto: ruas ainda mais sujas e abandonadas do que me lembrava, violência explosiva, sensação constante de insegurança, estilo de vida caríssimo e incompatível com a realidade da maioria. Miséria e carro blindado, o tempo todo, todo o tempo.

Foi difícil essa parte. Confesso que pensei, não quero viver mais aqui não. O ar pesado de poluição e uma gigantesca diferença social. R$700,00 reais um jantar em um lugar comum, muita gente, mas MUITA, dormindo sobre jornais na Av. Paulista  (!). Difícil lidar e encarar.

Mas aí vem o almoço elaborado no capricho pelas amigas, o mar verde e delicioso em pleno inverno, o cheiro de pão da padaria e a coxinha estalando na boca. Complicou! Uma montanha russa de emoções. Pertenço mas não pertenço, entende.

Esse é o sentimento de um expatriado. Cadê meu lugar, aqui ou lá, ou os dois? Já aprendi a gostar dos EUA, da organização, do respeito e da beleza dos lugares por onde passo. Só que meu coração não vibra, ele se aquieta. É diferente.

No Brasil eu odeio e amo intensamente o tempo todo, meio exaustivo, mas muito vivo.

Não tenho respostas…. por enquanto vou tocando meu barco aqui focando na frente, absorvendo todas as experiências e oportunidades que essa terra proporciona e tentando não olhar para trás. Continuo fiel ao meu ideal de não ser árvore e poder me deslocar por esse mundo todo de olhos e peitos abertos. Mas faço um adendo, apesar de não ser árvore, tenho raízes e essas serão eternamente verde e amarelas!

 

 

Casamento – o maior de todos os desafios!

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O que nos diferencia como humanos de todos os outros seres vivos do planeta? A convivência e os afetos…

Desde bebês amar é o verbo mais utilizado. Amamos nossas mães, amamos o colo e conforto do peito. Crescemos e vamos nos conectando, com irmãos, amigos, colegas e vizinhos. Alguns permanecem, outros vão se embora pela vida.

Nesse oceano de rostos e personalidades terá sempre uma que baterá mais forte e com essa decidimos nos casar. A paixão, os sonhos de uma vida em comum pela frente, os arrepios e desejos, tudo isso faz parte do caldo inicial. Achamos que não poderemos mais viver sem aquela pessoa e decidimos nos unir em matrimônio (oficial ou não).

Começam os desafios, as dificuldades. Dividir cozinha, banheiro e dinheiro não é para qualquer um… De repente chegam filhos e tudo vira outra coisa. Não é mais um casal, mas sim uma família. Um micro-organismo vivo, com regras e funcionamentos próprios, que compartilham ideias, gostos e sonhos.

Claro que existem divergências profundas, cada um vêm de um background diferente. Aquele charme do início, “ai que fofo, ele ama filmes de terror”, vira rapidinho uma implicância e uma irritação.

Tudo pode ser motivo para briga e discórdia, mas quando o encontro é de almas, isso fica pequeno.

Por que falo tudo isso? Porque hoje, dia do meu aniversário, comemoro 20 anos de casamento. Não com a mesma pessoa, porque no decorrer desses anos todos nos modificamos bastante. Estou longe daquela menina insegura que entrou na igreja em 1996…

Mas a vontade de ficar junto, a parceria, a amizade são maiores. Claro que a viagem nem sempre foi tranquila e enfrentamos muitas águas turbulentas. Mas o segredo, se é que existe um é esse: nos amamos  exatamente pelo que somos.

Podemos passar horas em silêncio um ao lado do outro, sem a necessidade de palavras. Cultivamos e investimos em prazeres em comum, brigamos e ficamos de mal, mas nunca mais do que por uma noite. Sentimos saudades e toleramos a cara feia e amassada de manhã. Te amo, parabéns pelos 20 parceiro!

É possível encontrar isso, não existe só em filmes e contos de fadas.  Pego carona na dica de  Vinícius de Moraes, que casou dezenas de vezes e conhecia o assunto como ninguém! Fica aqui a contribuição do poetinha:

“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração”

Vinícius de Moraes – Samba de Benção

 

 

 

A hora de visitar a terrinha – confusão de sentimentos!

Hoje finalmente recebi meu ticket de viagem ao Brasil. Serão 20 dias de férias por lá, depois de quase dois anos longe. Fica difícil descrever a confusão de sentimentos.

Estou muito feliz, por poder rever as pessoas que marcaram a minha vida e sempre serão meu norte. Mas devo confessar que bate um arrepio na alma….o que se passou enquanto eu estive fora, o quanto eu mudei? O quanto tantos mudaram?

A vida de um expatriado é como uma montanha russa. Apesar do clichê, ainda não encontrei definição melhor: uma constante de altos e baixos.  Novas descobertas, novos cheiros, novos sabores e novos amigos e ao mesmo tempo a certeza irrefutável de que tudo que deixamos para trás não voltará jamais!  Não tem como não ser dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

Rever o Brasil, minha terra adorada e dourada, depois de quase dois longos anos, causa sim um tremendo frio na barriga.

Nesse tempo que me ausentei, pessoas se amotinaram por suas crenças políticas, guerra travada entre dois símbolos sagrados aos brazucas: a mortadela e a coxinha!   Em comum, pelo menos para quem vê de fora, uma vontade feroz de ver as coisas melhorarem.

Nada  melhorou por enquanto, e o sol poente ainda parece distante da terra brasilis, mas algumas coisas permanecem, como esse calor inconfundível que só se vê por aí….

Ai, meu Brasil, que saudade de você! Saudade de me sentir verdadeiramente abraçada, saudades de ouvir a melodia linda da língua de Camões, saudades de ouvir Chico Buarque ( sim, eu o amo apesar de tudo e contra todos!), saudades do desejo e da saliva na boca de quem espera por uma caipirinha de maracujá com cachaça na areia quente da praia….

São tantas coisas que fazem falta, que acredite você – que sonha com os outlets da Flórida –  nada será capaz de substituí-las!

Acontece que a vida anda, o dia toma o lugar da noite e a primavera dá lugar ao verão! Descobrimos, a duras penas, que não somos árvores e sim seres adaptáveis às condições que nos cercam.

Hoje, gosto de ver bandeiras vermelhas e azuis, pontuadas de estrelas, balançando ao ritmo dos ventos. Gosto de  ouvir Hotel Califórnia, na voz de um cantor anônimo no bar, tanto quanto ouvia Djavan nos bares da vida da Vila Madalena. Aprendi a degustar o sabor de um verdadeiro hamburger e me emociona ver crianças de todas as raças, cores e credos jurarem fidelidade à bandeira de Abraham Lincoln, todos os dias na escola pela manhã.

Enfim e por fim, não existem respostas óbvias ou caminhos claros. A vida é passagem e como dizia meu amado Guimarães Rosa, estamos todos à margem desse grande rio.

Vou fazer minhas malas e rever meus amados, mas agora com um outro sentimento: não mais pertenço ao Brasil, nem tampouco aos EUA! Sou apenas uma terráquea tentando fazer dos limões da vida uma grande limonada! Seguimos….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atirando para se defender? Brasil e EUA – diferenças…

Pela milésima vez estive em frente à Casa Branca nesse final de semana. Morando em Washington DC, é impossível não levar parentes e amigos que chegam aqui pela primeira vez para conhecerem a “Casa do Obama”(por enquanto).

Não reclamo, eu gosto! A Casa Branca fica em um lugar lindo e agradável para caminhadas, além de ser ao lado de uma das galerias de arte mais charmosas da cidade, Renwick Gallery. Para mim é sempre um bom programa.

Contudo, quando estive lá não consegui parar de pensar em um fato recentemente acontecido e pouco mencionado na mídia. Em maio desse ano, um homem aproximou-se do edifício com uma arma em punho. Sem questionamentos, policiais à paisana dispararam e atingiram o indivíduo, que foi levado em estado crítico ao hospital, mas sobreviveu.

Esse lugar bonito, bem cuidado e aparentemente simpático e cheio de turistas é sem dúvidas um dos pontos de maior tensão do planeta. O policiamento é ostensivo e não se engane, além dos vários policiais uniformizados visíveis, existem outros tantos disfarçados de cidadãos comuns sempre prontos para a ação.

Moro nesse país há pouco mais de um ano, portanto não me sinto confortável para discutir ou questionar seus métodos. Na minha visão pacifista, me pareceu uma reação exagerada, mas de novo, não sou apta para julgar!

Essa semana, quando ainda lidávamos com o absurdo do estupro coletivo no RJ, fomos atropelados pela notícia do menino de 11 anos baleado por um policial em São Paulo.

As discussões acaloradas e cheias de opinião logo tomaram conta do Facebook e vi com tristeza todos discutindo as consequências de mais um trágico acontecimento: os que acham que fez bem a polícia em matar e os que enxergam o fato como uma execução sumária de uma criança de 11 anos. Ao invés de pontes, as pessoas constroem trincheiras através das certezas de suas opiniões.

Pouco se falou sobre as causas e a falência de uma sociedade como um todo que esse caso representa: crianças de 10 e 11 anos, armadas, assaltando na calada da noite, dirigindo carros roubados por São Paulo…

Sim, eu me sinto responsável! Eu falhei como cidadã brasileira e acho que falhamos todos. Não é um problema da periferia, não é um problema de caráter, é um problema social, do qual somos todos igualmente culpados.

Em países de primeiro mundo, até pipocam casos de violência infantil, mas na maioria das vezes ligados a problemas de psicopatias. Casos isolados de transtorno mental. Infelizmente no Brasil é uma epidemia, mais cruel que o vírus da Zika.

Enquanto os intelectualizados discutem fervorosamente no Facebook, tecendo críticas ferozes (e justas) à nossa vergonhosa classe política, uma massa de invisíveis cresce nas periferias.

Me lembro que em 2013 dirigi pelas ruas de Carapicuíba, periferia de São Paulo. Era época de férias escolares e fiquei estarrecida com a quantidade de crianças nas ruas. Sem pais, crianças muito pequenas brincavam perigosamente em telhados das construções precárias, na beira do lago poluído. Sem escola, crianças muito pequenas não sabiam dos perigos que as estavam rondando. Sem atividades, crianças muito pequenas, ficam zanzando a toa pelas ruas de um dos municípios mais violentos do Brasil. Não eram 10 ou 20, mas centenas! Não me esqueço da sensação de tristeza ao olhar para os morros e ver um mar infinito de barracos e crianças por toda parte.

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Crianças nas vielas de Carapicuíba – São Paulo

Cheguei em casa e covardemente encarei  as minhas filhas, achando que o que me cabia era dar o máximo de mim para educá-las para um fim melhor. Não me engajei em nenhuma ONG, não voluntariei nas favelas, não participei de nenhum projeto social, apenas reforcei minha atenção para as minhas crias e para as crianças de conhecidos próximos.

Fui egoísta, cuidei somente do meu jardim e achei que votar  para governos melhores e investir pesado na educação das minhas filhas era o que de máximo me cabia fazer. Que tola!

A vida ensina, e foi aqui, no país mais capitalista do mundo que aprendi a importância da coletividade. Os jardins públicos e gramados das ruas em geral, são muitas vezes mais cuidados que os jardins particulares.

Pode ser uma metáfora boba, mas que mostra o que faz um país ser chamado de primeiro mundo: o coletivo vem em primeiro lugar! Nas escolas públicas o voluntariado por parte dos pais é quase que uma regra e não exceção. As crianças se engajam em campanhas de ajuda aos menos favorecidos: são inúmeros os eventos promovidos para esse fim. A diversidade cultural e social, coloca no mesmo banco de escola filhos de congressistas e de imigrantes latinos. Todos limpam a cafeteria depois da refeição e aprendem massivamente a importância de respeitar e honrar o país.

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Crianças nos jardins de uma escola pública em Northern Virgínia 

Ter uma experiência em voluntariado no seu currículo é tão importante quanto uma graduação e desde a escola elementar as crianças são estimuladas a isso.

Isso é mérito do governo? NÃO! Isso é mérito de uma sociedade participativa.

As pessoas trocam facilmente o seu tempo de folga para limpar a escola e a rua do bairro, ao invés de passar o dia cuidando da própria casa. Dividem igualmente seu tempo à manutenção do bairro, a atividades escolares e aos assuntos pessoais. É implícito o conhecimento de que se o todo não vai bem, a sua vida pessoal também estará afetada.

Claro que a perfeição passa longe e o fato acontecido na Casa Branca ilustra o quanto estamos longe de uma sociedade equililbrada. Tanto nos EUA, quanto no Brasil pessoas foram sumariamente baleadas quando se mostraram uma ameaça.

Mas existem diferenças gritantes em ambas situações. Um homem armado em frente à residência oficial do presidente dos EUA, lugar que reúne diariamente centenas de turistas do mundo todo. Trata-se de um país que está em guerra declarada há anos contra o terrorismo internacional e vive sob constante ameaça de ataques. Policiais à paisana atiraram, mas não mataram, em uma “provável” ameaça terrorista.

Já o Brasil é outro país latino que parece ter sucumbido à violência cotidiana: a ameaça veio por parte de um menino de onze anos, que usava uma arma e tinha cometido um assalto ao lado do amigo de dez anos. Foi atingido mortalmente.

Devido a nossa omissão social assistimos inertes a  um país falindo nos escombros da violência e da falta de perspectiva. É mais do que urgente que a sociedade brasileira dedique atenção e cuidado à tudo que rege a vida pública. Quando lutamos somente pela nossa vida privada e pelos nossos interesses pessoais, o país perde como um todo e a bala que atingiu uma criança de 11 anos, na verdade atingiu a todos nós!

Conheço felizmente algumas vozes nessa imensidão que se propuseram à ação. Deixarei abaixo os links aos interessados e uma pergunta aos meus conterrâneos: o que VOCÊ está fazendo a respeito? Acredite, regar apenas o seu jardim não será suficiente. O Brasil clama urgentemente por uma sociedade mais participativa, mais engajada em questões relacionadas à cidadania. Pode parecer pouco, mas o trabalho que você realiza coletivamente dentro do seu próprio condomínio já é um exercício eficaz na construção de comunidades melhores.

Projeto Aquarela  – Projeto comunitário que trabalha com crianças em situação de risco na região de Campo Limpo em  São Paulo. Necessita urgentemente de voluntários!

Projeto Mundo Irmão – Projeto comunitário que atua em duas frentes: estímulo à construção da cidadania através da leitura de livros infantis e ajuda financeira a diversas instituições de caridade proveniente da comercialização dos livros

Band Voluntário – Organização que surgiu no Colégio Bandeirantes em São Paulo e atua na divulgação de várias ONGS engajadas em trabalhos de melhorias sociais, além de outras atividades

Instituto Brasil Solidário – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, voltada à valorização dos ser humano, oferecendo-lhe oportunidades por meio da educação. Atua em todo o Brasil com inúmeros projetos sociais, culturais, educacionais e de saúde. Lindíssimo trabalho que tive a oportunidade de conhecer.

São apenas algumas opções que conheço pessoalmente, mas para quem se interessar, basta um google e certamente você encontrará oportunidades de trabalho para a construção de um Brasil melhor!

Mount Vernon – Um espetáculo a beira do Potomac

A Virginia, estado norte-americano onde vivo, têm me encantado com paisagens de tirar o fôlego e a riqueza em lugares históricos e interessantes.

Um dos últimos que tive o prazer de conhecer foi Mount Vernon, residência do primeiro presidente americano George Washington. Propriedade da família Washington, desde os primórdios dos EUA, a fazenda Mount Vernon, com cerca de 3 mil acres é um dos destinos históricos mais visitados pelos americanos.

O deslumbramento se explica pela admirável localização geográfica, campos verdes cercados pelas águas do Rio Potomac e a possibilidade de entrar na intimidade remanescente do primeiro homem mais importante da América.

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Vista da varanda da Mansão 

A casa, construída em etapas ao longo de anos, é um prato perfeito para os voyeristas que podem bisbilhotar o quarto, a sala íntima e os pequenos detalhes de um estilo de vida que já não existe mais. Inclusive a ala íntima da família, que ficou fechada durante anos e o quarto ensolarado onde George Washington morreu. Chama a atenção a austeridade dos cômodos, em contraste impressionante com o luxo visto em propriedades européias do mesmo período. Infelizmente, fotos dos ambientes internos não são permitidas.

O que me impressionou  foi o cuidado com que os objetos e móveis foram preservados e isso é muito comum nos Estados Unidos. Existe um apreço a tudo que faz parte da história e é um show de conservação e restauro. Impossível não sentir um nó na garganta ao comparar com meu querido Brasil, que vê todo seu patrimônio histórico ser dilapidado ao longo de sucessivas administrações políticas que nunca dão à nossa História o valor que ela merece….

Voltando `a Mount Vernon, a estrada para se chegar lá por si só já vale o passeio. Beirando o Potomac e rodeada por árvores centenárias, chega-se à propriedade. Fui agora, no gelado mês de janeiro, mas fiquei sonhando em voltar na Primavera, para poder deitar naqueles gramados e simplesmente deixar o tempo passar.

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Rio Potomac beirando o caminho para Mount Vernon

Para as crianças é uma grande oportunidade de ver  a cozinha e a despensa antiga, e como era o funcionamento de uma casa há dois séculos atrás. Outra grande diversão para os pequenos é observar os animais e estábulos da fazenda.

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Minha pequena observando os animais na fazenda

No topo de uma pequena colina foram enterrados dezenas de escravos e lá se construiu  um monumento. Foi  emocionante visitar o  lugar.O curioso é que a poucos passos dali estão também enterrados, George e sua esposa Martha, dividindo seu último pedaço de terra com os escravos que lhes serviram por anos….. não dá para deixar de pensar que somos todos igualmente humanos no final das contas.

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Túmulo de George e Martha Washington

Além da fazenda é possível visitar o museu anexo, com louças, documentos, objetos e obras de arte da época. Muitos dos funcionários estão vestidos à caráter e parece mesmo uma viagem no tempo. O restaurante local, com preços surpreendentemente acessíveis, é lindíssimo, com as paredes forradas de papel retratando a época e imensas lareiras para aquecer o ambiente.

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Eu desfrutando o aconchegante restaurante local

As fotos não me deixam mentir sobre a beleza do lugar, e quem estiver a passeio pela região de Washington D.C. não deve deixar de colocar no roteiro uma visita à Mount Vernon.

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O link para saber mais vc encontra aqui

 

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Surpresas positivas e negativas depois de um ano de América

Já passou um ano que me mudei com a minha família de São Paulo para a região de Washington D.C. Depois de passar pelo ciclo completo das quatro estações chegou a hora de um balanço. Como foram muitas descobertas,  esse post vai em itens  que descrevem alguns dos preconceitos comuns que muitos têm em relação aos EUA e a confirmação ou negação dos mesmos. Vamos lá…

  • A cultura americana é pobre, rasa e de consumo imediato.

Mentira! Sempre achei que nada poderia superar a cultura brasileira em termos de diversidade, riqueza e criatividade. Pois bem, me surpreendi! Os EUA é um dos ambientes mais criativos que eu conheci. Devido ao grande número de imigrantes que aqui chegam diariamente, o caldo cultural supera o brasileiro. Música, teatro, cinema, literatura, artes visuais, etc. têm produções intensas e constantes, surgindo assim coisas maravilhosas e outras péssimas, mas em termos de volume é admirável!

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Exposição “Wonder” Na Renwick Gallery em DC. Um dos milhares de centros culturais que existe só aqui na Costa Leste.

  • Come-se mal nos EUA. Tudo é fast food e de baixa qualidade.

Mentira! Pelo menos em regiões com grande diversidade migratória a culinária é riquíssima.  Em cada esquina é possível encontrar restaurantes de todas as origens e preços possíveis. Se quiser cozinhar em casa então, a quantidade de opções e variedades de produtos chega a ser assustadora. Mesmo há um ano aqui, continuo passando horas dentro dos supermercados, perdida entre tantas possibilidades de escolhas, cheiros e sabores. Encontro mais variedade de queijos e vinhos do que já vi na Espanha e na França. Mais variedades de massas do que na Itália. Mais variedade e modos de preparo de sushis do que em S. Paulo, enfim…uma aventura constante de variedades gastronômicas. Fora a quantidade de supermercados e produtos orgânicos, com uma preocupação que chega a ser excessiva com o “comer saudável”. Apenas uma ressalva, comer bem por aqui significa gastar muito mais. A alimentação de qualidade não é barata e nem tampouco acessível a todos.

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Loja especializada em vinhos. Parece um supermercado gigante, mas só com vinhos de todos os tipos, preços e nacionalidades.

  •  Americanos em geral são sedentários 

Mais ou menos! Mais um aspecto que talvez varie de região a região mas aqui na costa leste todo mundo se mexe. No inverno ou no verão é constante o número de pessoas caminhando pelas ruas, pedalando, correndo e se exercitando. Nas escolas o programa de educação física é intenso e as crianças praticam muitas atividades, inclusive nos finais de semana. Vários esportes que nunca ouvi falar são muito populares e também  o nosso “futebol” é super praticado. Ainda assim grande parte da população  apresenta sobrepeso, devido ao consumo excessivo de gorduras e carboidratos. Felizmente esse mal hábito está mudando, mas ainda faz parte da vida de muita gente por aqui.

  • Americanos são egocêntricos e nada sabem além da América

Mentira! Ao longo desse ano não encontrei ninguém que não soubesse do Brasil. Quase todos que conheci ou cruzei por aqui estão muito bem informados sobre o que acontece no nosso país e em todos os continentes. Muitas vezes quem se mostrou desinformada e ignorante fui eu, principalmente no que diz respeito aos povos e costumes do Oriente Médio e da Ásia, que pouco fazem parte da realidade brasileira.

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Biblioteca do Congresso Nacional, uma das mais belas que já vi. Aqui existem bibliotecas públicas  quase a cada esquina e são altamente freqüentadas. O povo americano tem intrínseco o hábito da leitura e informação.

  • Americanos são racistas e preconceituosos

Mentira! O que mais me surpreende por aqui é a quantidade de imigrantes bem sucedidos. A América realmente cumpre o papel de abrigar povos e sonhos do mundo inteiro e criar oportunidades reais de sucesso. Gente de todos os cantos do planeta conseguem trabalho e qualidade de vida. Se fosse um país tão xenofóbico como pintam, isso não seria possível. Lembrando que pensamentos nazistas e retrógrados como o do Sr. Donald Trump são rejeitados pela grande maioria dos norte-americanos que reconhecem a força e a contribuição dos imigrantes nesse país.

  • História e cultura vc encontra na Europa! EUA é só entretenimento e compras

Mentira! Os EUA  preservam demais a sua história e cultura. Em quase todas as cidades americanas vc encontra uma opção imensa de monumentos históricos, museus, bibliotecas e tudo o mais para conhecer e se aprofundar na história do país. As casas centenárias são preservadas com muito primor, e claro, não se pode esquecer que os EUA é um país  jovem como o Brasil, se o compararmos à Europa. Eu pessoalmente, não sou fã do entretenimento fácil da Disney, e passei um ano aqui me surpreendendo com inúmeras atrações culturais e históricas sem pisar na terra do Mickey. 😉

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Mount Vernon, casa onde viveu George Washington no século XVIII. Um dos exemplos de primor de preservação do patrimônio histórico

  • São poucas as opções de beleza natural nos EUA.

Mentira! Com certeza essa foi a maior das surpresas. Já havia visitado os EUA como turista inúmeras vezes, mas morando na costa leste tive a oportunidade de conhecer lugares magníficos. Paisagens marítimas e pôr do sol cinematográficos na Chesapeakbay, montanhas cobertas de folhas douradas em Shenandoah, vinícolas deslumbrantes em Loundon County, cidades históricas à beira do Potomac, cavernas surpreendentes em Luray, etc., etc. A lista é imensa e olha que estou me referindo somente à região que cerca DC. Poderia ainda falar das belezas de Massachusets, Rhode Island, Connecticut, e tantos lugares que tive o privilégio de visitar, mas isso é assunto para outro post.

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O espetáculo do outono

 

Como nem tudo são flores, seguem algumas decepções que também fazem parte dessa trajetória:

  • Sistema de Saúde americano é excelente

Mentira! Não existe saúde pública, nem de péssima qualidade. Se você não tem como pagar está bem encrencado e pior não há o que fazer. Convênio de saúde é essencial, como água! Não é possível viver sem isso nesse país. A má notícia é que isso custa caro, e muito. Além do preço dos planos serem elevados, o paciente sempre paga uma co-participação em tudo, das consultas, aos exames e cirurgias e esse valor pode ser bem assustador. A relação médico-paciente é fria. Tudo se conversa por email e as consultas são super concisas, nada de papear e saber além do necessário. Deu uma dor de barriga, enxaqueca ou febre no final de semana? Se não for algo absolutamente grave, segure a onda e espere até marcar uma consulta, porque atendimentos emergenciais podem custar uma fortuna. Nunca pensei que diria isso, mas até o capenga SUS do Brasil consegue ser melhor do que o nada que é a saúde pública americana.

  • Custo de vida é baratíssimo

Mentira! De todos os comentários desagradáveis que ouço de amigos e parentes brasileiros, esse é o mais irritante: “você está muito bem, ganha em dólar!” A ignorância está em cada palavra dessa frase. Ganha-se em dólar sim e paga-se em dólar tb! E caro, muito caro! Moradia na região de DC é tão cara quanto no Leblon do Rio de Janeiro. Alugueis de uma casa boa com três dormitórios giram em torno de U$3.500,00 podendo chegar aos U$5.000,oo com facilidade. Não se compra uma casa razoável, em um bairro com boas escolas públicas por menos de U$900mil e casas acima de U$1 milhão são a grande maioria. Alimentação de qualidade é caríssima, tanto quanto no Pão de Açúcar ou no Saint Marché (mercados caros de S.Paulo). Você encontra tudo que imagina e de excelente qualidade, mas com preços exorbitantes também. Ok, sei que os fanáticos por outlets (outra roubada) devem estar discordando. Eletrodomésticos, carros, roupas de grifes e cosméticos são mais baratos que no Brasil, mas morando aqui esse não é seu gasto essencial e acreditem, gasta-se tanto com saúde, moradia e alimentação que sobra muito pouco para as pechinchas de uma bolsa de grife a U$100,00!

  • Os EUA é o país da diversão

Mentira! Quem conhece os EUA pelo grande número de parques temáticos, shows da Broadway, filmes de Hollywood pode ter a impressão de que é um país em constante festa e diversão! Sinto dizer que não. Aqui se trabalha mais do que no Brasil (o custo de vida é caro, lembra?) e americanos em geral tem uma maneira muito diferente de se divertir. Mesmo as atividades de lazer costumam seguir um roteiro e regras pré-estabelecidas. Espontaneidade é uma qualidade rara por aqui. Um hobby por exemplo, feito para se relaxar e sair da rotina é sempre algo levado extremamente à sério, com cobranças, metas e a necessidade de buscar a perfeição em tudo. Olhando os rankings mundiais de esportes, de descobertas científicas e tecnológicas, de artes, etc. é comum ver muitas vezes os EUA nos primeiros lugares. Consigo entender isso hoje, observando o profundo espírito de competição e a busca por excelência em absolutamente tudo! Para nós, brasileiros, pode ser exaustivo. A máxima de “deixa a vida me levar, vida leva eu” não existe aqui. Até a diversão tem que ter objetivos bem definidos, com horário sempre marcados….costumo dizer que no Brasil o almoço acaba quando acaba a conversa. Aqui a conversa é literalmente interrompida no meio, se acabou o horário. Deu pra entender?

  • É fácil fazer amigos

Mentira! Americanos são muito bem educados. Todos te cumprimentam, seguram a porta para você passar e oferecem ajuda ao menor sinal de problemas. Bom dia, boa tarde e como vai são as expressões mais ouvidas, sempre e em todos os lugares. Porém, não confunda educação e simpatia com amizade. Raramente passa disso. Os grupos são muito fechados e a intimidade é o valor mais precioso para eles. Festas e encontros são raros, e quando acontecem são sempre cheios de formalidades. Imagino o tamanho da dificuldade em se morar em um estado norte americano onde existem poucos estrangeiros…. Fiz com facilidade muitas amigas brasileiras, algumas européias, latinas e asiáticas, mas americanas o saldo por enquanto é zero.  Mesmo entre eles, amizades onde se visitam constantemente, fazem viagens juntos e trocam confidências são muito raras. Trata-se de outra forma de se relacionar e para nós, cheios de calor brasileiro, esse é um dos desafios mais difíceis de encarar. O que salva, são os amigos da terrinha e também de outras nacionalidades que encontramos por aqui.

  • Não existe violência

A violência no Brasil atingiu um dos maiores patamares mundiais e fica difícil de se comparar, mas aqui, apesar de números muito menores, a violência existe sim!Não sofremos de medos de assaltos ou sequestros, nem violência decorrente de tráfico de drogas e desigualdade social, mas os terríveis “mass shootings” são uma triste realidade. Nas escolas públicas as crianças são submetidas à simulações preventivas de incêndio e massacres! Confesso que fiquei apavorada, mas a prevenção é algo levado muito a sério por aqui e os números são alarmantes. Esse é outro tópico que poderia se alongar muito e falo sobre ele aqui, somente para afirmar, que infelizmente os EUA não estão isentos da violência.

Ok….e o saldo de tudo isso? Diria que por enquanto estamos vivendo um empate técnico. Ganhamos muito e perdemos também, um ano ainda é pouco para sedimentar impressões. Sei que muito está por vir, para o bem e para o mal, afinal a vida é feita de luminosos verões e escuros invernos, não tem jeito! Comparar Brasil e EUA é um erro, que pode levar a um estado profundo de desânimo.  O Brasil é único e os EUA também. Tentar afastar-se de preconceitos pode ser o começo de um caminho para o final feliz, nessa difícil transição.

Vamos que vamos e Feliz 2016!!!

 

 

De Charlie Brown à Cebolinha – qual a sua infância?

Acabei de sair do cinema, onde passei quase duas horas me divertindo com o filme Peanuts, ou Charlie Brown, como era conhecido na minha infância.

Quem já chegou aos quarenta sabe do que estou falando: no começo dos anos 80 uma febre invadiu São Paulo, não sei se se estendeu pelo Brasil inteiro, mas o cachorrinho Snoopy era o item mais cobiçado entre as crianças da minha época. Eu mesma sonhava com um, mas tive que me contentar em ter uma versão fajuta, já que a original era caríssima para os padrões da minha família.

Mas só hoje, vivendo há quase um ano nesse país, pude entender Charlie Brown e seus amigos. Confesso que fiquei intrigada e confusa, pois se trata de um produto tão característico da cultura americana, que não entendo como fez tamanho sucesso na terra brasilis.

Não há exageros em Charlie Brown! A escola que se vê no filme é exatamente uma Elementary School, assim como a casa, o bairro, os dias de neve, as brincadeiras na rua, a biblioteca, o bulling, as premiações escolares…tudo! Minha filha disse: as cadeiras são idênticas às da minha classe. Poderia até ser um documentário.

Por isso a paixão americana pelo Snoopy. É um retrato vivo da infância norte-americana. A vida das crianças aqui gira em torno da escola, do bairro, das ruas. São espaços democráticos, onde uma mistura interessante de classes sociais, culturas e raças acontece.

Como já falei outras vezes, o menino rico que chega à escola de BMW usa roupas parecidas com o menino pobre de origem hispânica que vem a pé cuidando dos irmãos menores. Todos na mesma sala, se encontrando na mesma biblioteca, no mesmo parque e brincando juntos em um dia de neve na rua.

A escola pública proporciona isso. Os espaços públicos proporcionam isso.

Infelizmente a minha infância foi carente de tais espaços. Era longe de ser rica, mas estudei em escola particular e apesar de morar perto de uma imensa favela paulistana, nunca tive um amigo de lá. Assim como também nunca tive um amigo muito mais rico que eu.

No Brasil vivemos em prateleiras. Podemos nos mover um degrau ou dois, mas nunca além disso, estamos sempre cercados por iguais. Os espaços públicos de uma grande cidade como São Paulo segregam mais do que agregam. No jeito de vestir, falar, frequentar você já atesta a sua origem e com certeza se sente absolutamente desconfortável se estiver em lugares muito distantes da sua classe social. Para cima ou para baixo, não importa.

Tanto Charlie Brown quanto a Turma da Mônica, que eu lia compulsivamente, povoaram a minha imaginação infantil. Confesso que bateu uma invejinha, porque o americano se reconhece na vida de Charlie Brown. Agora para uma criança brasileira (rica ou pobre)  o bairro do Limoeiro, arborizado, com praças e ruas, onde o Cascão, o Cebolinha, a Magali e a Mônica brincam, aprontam e caminham, sem perigos ou muros, é uma enorme obra de ficção. Um espaço tão distante da realidade que só poderia existir em quadrinhos.

Nos anos 80 já não era assim. Nos anos 2000, geração das minhas filhas, a liberdade então se encolheu ainda mais, se encerrando dentro dos muros do condomínio, dos exércitos de babás vestidas de branco, das cancelas dos clubes, dos corredores de shoppings (credo!). Por ser otimista, gosto de pensar que talvez exista em algum cantinho do Brasil uma cidade com o bairro do Limoeiro, com casas confortáveis para todo mundo, crianças caminhado até a padaria, correndo nas ruas, deitando nos gramados. Pena que cada vez que  vejo notícias do meu país, minha esperança morre um pouco, com escolas sendo fechadas, pessoas sendo baleadas, cidades sendo engolidas pela lama da irresponsabilidade.

Tristes trópicos, Charlie Brown! 😦

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