Pessoas

Tentando organizar a bagunça demilhares de fotos no meu computador, me deparei com as imagens que ilustramesse texto.

São pessoas. Pessoas presentesnos meus arquivos de fotos, pessoas que um dia foram tão íntimas a ponto deestarem no meu arquivo de fotos! Pessoas que hoje se tornaram estranhas,distantes e quase desconhecidas. Algumas, sequer me lembro quem são.

A vida é engraçada. É a metáforaperfeita de uma estrada, pela qual caminhamos desde quando nascemos.

Essa estrada possui curvas,ladeiras, abismos e desvios. Por ela, atravessamos tempestades, ondas de calor,gelo e neve e algumas vezes uma brisa suave e doce aparece para afagar nossoscabelos…

Aprendemos com as dificuldades.Muitas vezes, as pernas doem, os pés quase sangram e maldizemos a estrada.Imploramos para que fique suave, para que surjam atalhos. Outras vezes, oterreno se torna tão paradisíaco, que esquecemos o quão árido já foi um dia.

Não há possibilidade de retornos. Até tentamos! Damos alguns passos para trás de quando em vez, mas a vida – ops, a estrada – torna a nos empurrar para frente. Infelizmente alguns desistem, interrompem o caminho muito antes dele terminar. Outros insistem em manipular o tempo. Não aceitam que passe e tentam a todo custo, remover as marcas do envelhecimento. Uma minoria ainda, quer acelerá-lo, antecipando problemas e preocupações. Quanta bobagem! A verdade é que não temos controle. O tempo se vai, independente de nossas vontades.

Há até aqueles que resolvemparar. Abandonam-se na estrada, em estado de paralisia, sem andarem para frenteou para trás. Não é opção, sinto lhes dizer, a própria vida irá empurrá-los.

Descobrimos sabores, cheiros etexturas. Algumas esquinas, nos fazem rever nossos conceitos, nos mudam decabeça para baixo. Outras dão saudades, saudades de quando não éramos o quesomos agora.

Mas os grandes influenciadoresdessa estrada, não são os acidentes geográficos, a temperatura ou a paisagem.São as pessoas. São essas da foto, que agora, parecem figurinhas…

São rostos que podem virarhistórias dentro da nossa biografia, ou apenas vagas lembranças. São almas quenos contaminam, influenciam e às vezes, têm até o poder de mudar nossoscaminhos. Por trilhas mais fáceis – ou não.

Alguns desses rostos escolhemos,outros nos são impostos. Amamos, gostamos, detestamos. Mas é inegável queaprendemos. Por mais mínimo que tenha sido seu papel, em algum momento, fizeramparte de nossa estrada.

Meu caminho me levou para longede grande parte dessas pessoas. Certamente, alguns eu não irei rever novamente.Outros me acompanharão, independente da distância. Com cada um aprendi, mesmoque algumas lições tenham sido doloridas.

No final, colocando todos assim, em perspectiva, no mesmo recorte de uma fotografia ¾, vejo que não há melhores ou piores. Bonitos ou feios, ricos ou pobres. São apenas figurinhas, poeiras de estrelas que um dia brilharam nas galáxias, segundo várias linhas filosóficas.

Grãos infinitamente minúsculonessa imensidão universal. Mas, porém, contudo, todavia, tiveram, em algummomento, impacto na minha vida. Isso os faz gigantes e me leva a conclusão, deque os encontros pessoais são os fatos que verdadeiramente impactam a nossavida.

Que eu possa adicionar mais figurinhas na minha estrada….

E como diria o gênio Guimarães Rosa:

O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

Seguimos.

PS.: Há muito mais rostinhos no meu arquivo, mas a tecnologia exigiu que muitos ficassem de fora, porém continuarão arquivados! 😉

Sou brasileira.

 

Sou brasileira. Paulistana, nascida e criada na capital. Cidade em que vivi por 39 anos. Sou brasileira. Quando cheguei à capital americana, de mala e cuia no inverno gelado de 2014, senti meus ossos tremerem, de frio, de medo. Sou brasileira. Enfrentei uma língua que não dominava muito bem, enfrentei sozinha, o pânico de minhas filhas em seus primeiros dias de aula, cobertos de neve e ausentes de sorriso e gentileza. Sou brasileira. Chorei várias noites, encolhida no armário de casacos, com saudades do calor, da comida, dos amigos e das conversas. Sou brasileira. Assisti encantada a políticas de inclusão feitas pelo melhor presidente da história, um negro que honrou a Casa Branca. Sou brasileira. Senti pânico e dor de barriga, quando vi bandeiras que lembravam às do Reich Nazista tomarem conta dos belíssimos monumentos históricos de Washington DC, na inauguração presidencial de 2016. Sou brasileira. Me comovi e me identifiquei com os relatos assustados de mulheres imigrantes, refugiadas e sozinhas, nos meus encontros semanais de inglês. Sou brasileira. Segurei na mão de uma menina de El Salvador e levei ela, sua mãe e seus irmãos pequenos para casa, em um dia de frio e chuva, onde eles não tinham sequer roupas adequadas. Sou brasileira. Desenhei cartazes de protesto com minhas filhas e juntas nos unimos a milhares de outras mulheres pelas ruas, de Nova Iorque e Seattle, contra as decisões equivocadas do presidente Trump. Sou brasileira. Engoli o choro e tentei mudar de assunto, quando a caminho da escola, ouvimos no rádio os tiros que mataram centenas de pessoas em Las Vegas, e fizeram minha filha caçula entrar em pânico. Sou brasileira. Recebi em minha casa, adolescentes gays, negros, pobres, ricos e refugiados. Todos eles, queridos amigos das minhas filhas. Sou brasileira. Cozinho feijão na panela de pressão e faço churrasco, sempre que o tempo permite. Sou brasileira. Me revoltei quando a corrupção desvendada pela Lava Jato veio à tona. Me indignei e me assustei com as primeiras palavras que ouvi, de um deputado então desconhecido – Jair Messias Bolsonaro. Sou brasileira. Ouvi, paciente e com empatia, o lamento de parentes e amigos, sobre a trágica situação brasileira, sobre a crise e sobre como tudo andava difícil, mesmo que essas pessoas, ainda viajassem, comprassem e trocassem de carro com muito mais frequência, do que os ricos que conheci em Mclean (uma das cidades mais ricas dos EUA). Sou brasileira. Sofri por saber que meu padrasto, tinha sido diagnosticado com uma doença séria e não tinha convênio médico. Sou brasileira. Fiquei eternamente grata por ele estar no Brasil e lá, diferente dos EUA, ele conseguiu ser atendido e tratado pelo Sistema Único de Saúde, sem gastar um real, sequer. Sou brasileira. O Brasil, do Oiapoque ao Chuí, também me pertence. Suas terras, sua gente, também me dizem respeito. Não importa se moro em Brasília ou em Xangai. Sou brasileira. Foram muitas dores nesses anos de imigrante. Frio, medo, solidão, insegurança, falta de grana, falta de apoio. Chorei litros. Sou brasileira. Mas acho que de tudo, o que doeu mais e será mais difícil de superar, foi ter gente (bem próxima até) gritando no meu FB, no meu Whatsapp, mas nunca na minha cara – covardes que são – de que eu, não posso opinar, não posso questionar a insanidade coletiva dessas eleições presidenciais. Sou brasileira. Estudei em Universidade Pública, cresci na periferia, frequentei a classe média alta de São Paulo, transitei pelas ruas dos jardins e pelas vielas de Carapicuíba. Já peguei ônibus em ponto final do Heliópolis e já tive motorista particular. Sou brasileira. Entendo a falta de contato, de telefonemas e mensagens, de quem antes vivia na minha casa. Entendo as distâncias que aos poucos foram construídas porque a vida vai lentamente, aproximando aqueles que têm almas e propósitos comuns, a medida que afasta os que são díspares. Sou brasileira. Entendo que prioridades e valores são diferentes à cada pessoa, à cada realidade. Sou brasileira.  Entendo que a corrupção, a ganância, a falta de vergonha na cara, criam espaços vazios que podem ser preenchidos por loucos e populistas de plantão. Sou brasileira. Entendo que cada um individualmente, se coloque a frente do coletivo. Sou brasileira. Entendo o medo de assalto e bala perdida. Sou brasileira. Entendo a paixão pela Anita, Neymar e Roberto Carlos. Sou brasileira. Entendo que quando o carnaval chega, todos pulam felizes. Sou brasileira. Entendo que a casa está sempre bagunçada, e a discórdia sempre à espreita. Sou brasileira. Entendo amores doentios por extremos como Lula e Bolsonaro. Sou brasileira. Entendo que dar um Iphone X para seu filho seja mais importante do que levá-lo a conhecer o MoMA. Sou brasileira. Entendo que pagar impostos e ter estradas esburacadas, irrita demais. Sou brasileira. Entendo que mãe pobre, solteira e moradora da favela, pouco pode fazer para que seu filho não sucumba ao tráfico. Sou brasileira. Entendo as fofocas e intrigas pelas costas, e os sorrisos amarelos nas reuniões de família. Sou brasileira. Entendo o sofrimento em ostentar um estilo de vida, incompatível com o salário ganho. Sou brasileira. Entendo o ódio no olhar do menor infrator, que nunca teve acesso à nada. Sou brasileira. Entendo a fé cega ao Edir Macedo, ao Chico Xavier e ao Papa Francisco. Sou brasileira. Entendo coisas e dicotomias, que talvez, nenhum outro povo do mundo, possa entender. Entendo o Brasil e sua brasilidade, muito mais do que a América e seu “way of life”. Concordo, discordo, questiono, aprendo, ignoro. Sou brasileira. Mas não entendo o preconceito, o racismo e o ódio. Não entendo a intolerância ao meu modo de pensar diferente. Não entendo e não aceito, ser questionada no meu direito de opinar e votar (garantido pela Constituição), porque não moro no Brasil. Já fui vítima de assalto, traição, fofoca, inveja, rancor. Tudo isso passou. Mas agora doeu, e doeu fundo, ter a minha legitimidade de ser brasileira colocada à prova, porque moro fora. E simplesmente porque discordo da escolha de vocês! Porque né, sejamos sinceros, se eu colocasse agora a faixa do seu candidato no meu perfil, seria compartilhada e até citada como exemplo: olha: ela mora nos States e defende o nosso “presidenciável”. Cada um que me acusou nesse sentido, saiba que seu objetivo foi atingido. Me magoaram, me machucaram e criaram um abismo em nossas relações. Eu sou brasileira. Esse país, que vocês ocupam, também é meu, e sempre será. E vou gritar, até perder a minha voz, pelos valores que eu acredito, ainda que eu more em Marte. Essas cores, essa bandeira e essa terra, que vocês estão maltratando, também são minhas! EU SOU BRASILEIRA, ainda que seja uma brasileira pelo mundo…

Tarsila do Amaral, Figura Solitária
Óleo sobre tela, 1930

Somos reflexos de nossas escolhas

Dizer que são tempos estranhos é chover no molhado. O mundo parece que saiu dos trilhos, principalmente para aqueles desatentos que não perceberam que esses trilhos nunca existiram. Mas então o que mudou?

Acho que a internet e as mídias sociais estão entre as maiores revoluções da humanidade. A informação é rápida e em segundos fico a par do que acontece na China. O curioso é que isso toma meu tempo, e deixo de andar pelo meu próprio bairro para ficar grudada no Facebook. Fico sabendo do tsunami na Indonésia, mas não sei mais se minha vizinha continua viva…

Nos desconectamos da realidade com o pretexto de nos conectarmos virtualmente. Meio bizarro não?

As notícias que nos inundam são terríveis. Imagens fortes de famintos na Venezuela, crianças bombardeadas na Síria, refugiados náufragos na Europa e adolescentes baleados na Rocinha.

Desemprego, alta do dólar, crise na saúde pública, escolas sucateadas, arrastão nas praias cariocas, tiroteios por toda parte. O que fazer?

Não dá para negar que está difícil e em tempos assim precisamos sempre nomear culpados e salvadores. Nossa natureza imediatista se auto-engana e procura por soluções fáceis e milagrosas. Querem um exemplo?  Cirurgias plásticas e remédios de dieta mágicos, são sempre mais desejados do que o velho e cansativo combo de reeducação alimentar e rotina pesada de exercícios físicos.

Por que nos problemas sociais haveria de ser diferente? Quantos de nós, trocamos nosso tempo de Facebook por trabalhos comunitários na nossa cidade, no nosso bairro, no nosso condomínio? Mais fácil e cômodo repassar textos e vídeos de Whatsapp e acreditarmos, que assim, estamos fazendo nossa parte!

Quem de nós leva os filhos a museus e exposições de arte? Quem de nós visita asilos para aprender com os mais velhos? Quem de nós organiza campanhas de prevenção e educação sexual nas favelas do Brasil? Quem de nós vista a Cracolândia para levar um prato de sopa, ou um cobertor para aqueles zumbis?

Muito mais fácil as soluções imediatas: Ipad para os filhos,  pena de morte, revólver na mão, etc. Crescer e evoluir dá trabalho, e muito! Mas acreditamos que essa responsabilidade não nos cabe. O governo que faça sua parte! Para isso que pagamos impostos….

Nos isentamos de responsabilidades e quando aparecem aqueles que validam os nossos desejos mais inomináveis, nos rendemos facilmente e com os braços abertos. Ah, que alívio! Vai acabara esse “mimimi” de igualdade de gêneros, igualdade social, etc. etc.

Percebo que erroneamente tentam comparar nossos tempos sombrios aos tempos que precederam o Nazi-Fascismo. Acho agora pior… se Hitler tivesse acesso ao Twitter e ao Whatsapp, talvez estivesse por aqui até hoje.

Nosso cérebro desenhado para procurar  zonas de conforto, já criou um antídoto mais que certeiro para aquilo que contradiz as nossas suposições: Fake News! Olha que fácil! Aquilo que me incomoda e faz pensar, eu simplesmente coloco na prateleira do “fake”.

Sinto ser a portadora das más notícias, que você pode até dizer que são “fakes”, mas empurrar pobres e minorias para debaixo do tapete, ou morro acima, não é solução. Ipanema que o diga! Ao contrário, políticas excludentes tendem a médio prazo, fazer da classe média de hoje, a classe baixa de amanhã… e essa massa só irá crescer. Você sim, vai em breve perceber que será impossível parcelar aquela viagem à Miami.

Já sei, quem chegou até aqui, a contragosto, deve estar pensando: lá vem mais uma esquerdopata petista. Bom não sou petista, nunca fui! Muito menos esquerdopata. Quadrilhas que assaltaram o Brasil por 4 mandatos seguidos, não me representam. Mas menos ainda, deputados encostados há 30 anos, que propagam o ódio e a violência.

O meu país (esse é um direito meu, ainda que eu more fora) está sendo representado por duas correntes abomináveis.  São escolhas políticas que refletem o que somos.

Por muito tempo, atribuí isso à nossa falta de educação e formação. Não é verdade! Quem está elegendo Bolsonaro foi bem educado, em escolas e universidades particulares do Brasil. Ele não é fruto da ignorância. Ele é fruto da nossa desumanidade, do nosso preconceito, do nosso moralismo hipócrita, que rebola ao som da Anita, mas feministas que mostram o peito, merecem a morte! Essa mesma desumanidade que passeia de carro financiado, depois da pizza de sábado, checando o Iphone, enquanto ignora as crianças  maltrapilhas nas calçadas,  famintas e fumando crack. Essa sociedade que se diz Cristã e  esquece que Jesus foi o maior líder da não-violência, deixando-se morrer pelos seus algozes, sem jamais revidar na mesma moeda da bárbarie.

Por outro lado, quem defende Haddad e Lula acredita igualmente em soluções simplistas, valendo-se de uma hipocrisia arrogante, incapaz de reconhecer seus próprios erros e ver que de verdade, o Partido dos Trabalhadores, há muito tempo deixou de ser de trabalhadores. Uma gente que grita e faz barulho, mas fecha os olhos para aquilo que é incoveniente e mancha sua reputação: uma adesão escancarada ao sistema corrupto que assola o Brasil desde o seu descobrimento.

Minha escolha é clara: jamais serei conivente à corrupção. Irei sempre combatê-la com os recursos que me são cabidos. Mas além disso,  jamais conseguirei olhar da mesma maneira, para aqueles que por trás desse escudo de pretensa moralidade, estão entregando o país ao ódio e à intolerância.

O mundo está doente. Mas meu país está na UTI, e acho quem nem os balões de oxigênio irão salvá-lo.

 

 

Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

As pequenas grandes mentiras…

Me faltou ar. Fazia tempo que um filme, ou série de televisão tivesse esse impacto em mim. Estou falando de Big Little Lies.

Essa micro-série da HBO que se encerrou ontem, foi gloriosa em suas escolhas. A começar pelo elenco afiadíssimo, sobretudo Nicole Kidman no papel mais marcante de sua carreira. Esse show foi baseado em um livro da escritora australiana Liane Moryart. Eu já havia lido uma obra da mesma autora há anos atrás e já havia me impressionado com sua capacidade precisa de tratar de temas densos.

A identificação foi imediata. Também já fiz parte de um grupo de mulheres parecidas, na faixa dos 40 anos, com filhos frequentando a mesma escola e com as vidas aparentemente idílicas. Casas bonitas e casamentos perfeitos.

Quantas são as mentiras que escondemos dos outros atrás das nossas máscaras de perfeição? E o mais grave, quantas são as mentiras que escondemos de nós mesmos, querendo sempre nos auto enganar que estamos a salvo dos problemas?

Por trás de famílias bonitas no Facebook,  viagens sensacionais no Instagram e rotinas impecáveis existem camadas obscuras de realidade que nem sempre vêm à superfície.

Não se trata de uma situação específica que acomete apenas uma classe social, mas se trata da nossa frágil humanidade. É isso que me encanta. Por baixo de máscaras estamos todos, igualmente, enfrentando a vida, fazendo-nos equivalentes, apesar de toda e qualquer diferença.

O tema central da série é a violência doméstica e os relacionamentos abusivos. Os danos podem ser imensuráveis e irreparáveis, não à toa que parece que vivemos em um ciclo, onde a violência sempre se repete, de pai para filho, condenando nossa sociedade a uma recorrência de sofrimento eterno.

Quase sempre o lado frágil da moeda é o feminino. Estamos em 2017, quase na segunda década do século XXI e ainda assistimos passivamente à subserviência feminina.

Eu cresci em um ambiente abusivo. Ainda guardo fresco na memória o comportamento agressivo de meu pai dirigido a mim e a minha mãe. São ecos de memória que me acompanharão para sempre, infelizmente.

Quis o destino que eu fosse mãe de três meninas de dois pais diferentes, mas ambos amorosos e respeitosos com suas mulheres. Ainda assim, um medo inconsciente me persegue, será que minhas filhas terão a mesma sorte, de viverem relacionamentos saudáveis e livres de agressões físicas e psicológicas?

Considerando os avanços da luta feminina, a essa altura do campeonato, essa questão já nem deveria ser considerada. Tal qual como pensarmos nos perigos da Peste Negra, que dizimou a Idade Média,  em dias atuais. Mas, trata-se de uma realidade cruel e palpável.

Ano de 2017: os EUA elegeram um homem para a presidência da república, que se gabou publicamente de tocar mulheres pela vagina, sem o consentimento delas. Que entrava, sem permissão e sem medo em vestiários femininos, onde adolescentes se trocavam.

Ano de 2017: famoso ator global sexagenário assedia e agride verbalmente assistente de figurino da rede globo. Repercussão: silêncio. Nem as mais ativistas artistas dentro da rede mencionaram uma palavra.

Ano de 2017: mulheres continuam a se boicotar. Sofrem assédio sexual violento em festas de carnaval nas ruas do Brasil, e ainda são criticadas publicamente por outras, como se fossem responsáveis por tal violência.

Chega! Estou esgotada…. Não aguento mais tamanha hipocrisia. Não aguento mais.

O mundo ainda é um lugar muito hostil às mulheres. Até quando?

Se você faz parte daquele grupo, que se reúne com amigas para sempre julgar e condenar comportamentos femininos alheios, sinto te dizer, você também é responsável por essa violência.

Comentários como: Por que ela se veste assim? Por que ela trabalha fora e deixa os filhos? Por que ela se acomoda e vive às custas do marido? Por que ela é desleixada? Por que ela é tão vaidosa? Por que ela namora tanto? Por que ela é tão pudica? Por que ela é bem sucedida? Por que ela não faz nada?  etc. etc. etc.

Podem parecer inócuos, mas servem de combustível para a mulher ser sempre subjugada dentro da sociedade.

Já escrevi aqui sobre o drama da violência contra a mulher, que atinge mulheres em todo mundo, de todas as classes sociais.  Eu repetirei incansavelmente: essa condição poderá mudar quando mulheres se enxergarem como aliadas. Quando mulheres se levantarem em defesa de outras, deixando para trás a superficialidade das competições, ciúmes, invejas e recalques.

Abro meu coração, minha alma e meu tempo para quem quiser se dedicar a essa causa de união e valorização sincera da condição feminina. Ao mesmo tempo, fecho as portas definitivamente para quem só pensa em julgar, boicotar, agredir e fofocar.

Só existe uma saída e isso o show Big Little Lies mostrou lindamente nas cenas finais: juntas somos mais fortes e invencíveis.

Vamos dar, finalmente, as mãos?

http://www.hbo.com/big-little-lies/about/video/trailer.html?autoplay=true

 

 

 

 

 

Que venham as flores….

Já chegou a Primavera por aqui e essa será a minha terceira desde que deixei o Brasil. Engraçado, tenho 41 anos e só passei a apreciar e esperar pela Primavera desde que vim para cá. Claro que o inverno longo e monocromático, é um dos grandes responsáveis por isso, mas não quero atribuir essa espera somente ao frio do norte.

Eu mudei. Não só de endereço e país, mas mudei algo dentro de mim. Não me atrevo a dizer que foi para melhor, porque isso seria ser simplista demais. Nunca gostei de resumir as coisas entre isso ou aquilo.

Fiquei mais reflexiva e com isso perdi um pouco da leveza. Explico: no conforto da minha terra e da minha língua era muito mais fácil ser comunicativa. Podia falar o que pensava, usar as referências todas da minha infância, as piadas internas da minha geração, que todo mundo saberia o que eu estava querendo dizer.

Aqui tudo passa por um filtro. Primeiro o da língua…como traduzir meus pensamentos e ideias em inglês? Depois o comportamental e social, qual será a reação, saberão entender o que estou falando? E finalmente o da relevância, pois já que tudo tem que ser pensado e mastigado, sempre penso se vale a pena tal esforço e muitas vezes opto simplesmente por me calar.

Conseguem perceber como pode ser exaustivo? Claro que isso muda algo dentro de você. E não é só isso…

Viver imersa em outras culturas e valores me fez me questionar o tempo inteiro quais são os meus verdadeiros valores. O que me move? O que  é importante para mim?

No Brasil gostava de comprar sapatos. Ok, sei que é um exemplo frívolo mas serve bem para ilustrar. Ter um sapato novo em um almoço com as amigas, ou em um compromisso de trabalho era sempre um motivo a mais para uma conversa, mesmo que fosse das mais fúteis: uau! Que sapato bacana!

Aqui eu experimento a sensação de ser transparente. São tantas pessoas, de tão diferentes lugares e com tão diversas bagagens, que você se torna apenas mais um. Todos parecem que olham através de você. Me sinto uma parede de vidro, que ninguém  nota, quanto mais olha para os meus sapatos.

Saindo dos sapatos e partindo para algo muito mais substancioso como a vida, percebo que de onde vim (São Paulo) há uma pressão constante pelo “parecer”. A lista é infinita, vai desde ter o carro mais sofisticado ao comportamento descolado de só usar bike e carregar uma sacola reciclável.

Estamos sempre querendo pertencer, seja ao grupo da escola, do trabalho ou dos amigos. A sociedade que nos molda, parece exigir isso de nós. Quando somos recolocados em um meio desconhecido ao nosso e ao qual, definitivamente NÃO pertencemos, experimentamos uma liberdade gigante de finalmente ser o que quisermos.

Isso é bom. E muda muito nossos conceitos. Não é privilégio de um país de primeiro mundo. Novamente vamos fugir da tentação de banalizar as coisas. Trata-se apenas de uma das vantagens de ser estrangeiro.

Digo isso porque noto os mesmos comportamentos equivocados de tentar pertencer, que eu via e fazia em S. Paulo, dentro de pessoas que nasceram aqui, ou foram criadas aqui nos Estados Unidos.

Isso é tão curioso percebem? Conseguimos ser mais livre e mais autênticos dentro de grupos que desconhecemos, mesmo que a gente se sinta extremamente desconfortável, com a língua, com os hábitos, com a cultura…

A intimidade cobra um preço alto: o de sempre representar o papel que esperam que a gente faça. Imagine aquela festa de família, que te deu mais trabalho para escolher o que vestir do que qualquer outro evento, afinal o que sua tia e seus primos iriam pensar….

Dito isso, vou para um outro ponto. Viver fora NÃO nos faz melhores. Leio e escuto infinitos depoimentos de ex-patriados e em todos há sempre aquela pitada de arrogância: “ah, como hoje eu sei muito mais do que aqueles que ficaram na mesma”.

Eu também caí nessa armadilha. Mas o deslumbramento se esvai depois de três anos (no meu caso) e começa a se formar uma ideia mais realista: Eu não melhorei, eu não evoluí. Eu apenas fui exposta a novas experiências que transformaram meu modo de pensar e confesso, a Gabriela de antes me faz uma falta imensa.

É difícil lidar com a ausência de nós mesmos, com aquilo que fomos e acreditamos um dia e hoje não mais. Dói se sentir um peixe fora d’água em grupo de antigos amigos e parentes, onde nada daquilo, nem mesmo as piadinhas de sempre, parecem fazer sentido.

Como tudo, a realidade não é plana, é cheia de curvas, subidas e descidas e determinar as coisas entre branco e preto é um engano lamentável que estamos sempre cometendo.

A vida é cíclica, como as estações. Muitas vezes é preciso paciência para esperar o tempo certo das coisas. E assim volto à primavera e a metáfora do que ela representa: renovação.

Viver aqui, nesses dois anos iniciais foi como atravessar um inverno rigoroso, com surpresas desagradáveis e um frio que não passava, causado pelo desconforto da solidão e a saudades de tudo que me era familiar. Estou finalmente pronta pra podar meus galhos e deixar a Primavera entrar de novo em minha vida, anunciando uma nova fase.

Terei que abrir mão de muita coisa (mais ainda do que já tive), mas tudo com a esperança de me ver renovada e cheia de cores novas. Viver, pode ser sim, uma delícia! A gente só precisa ter coragem para jogar fora o que não serve mais e abrir o peito e o coração para uma nova estação.

Que venham as flores… 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Somos todos iguais…simples assim.

Pois é, ser humano é uma coisa engraçada não? A gente nasce e logo nas primeiras horas de vida começamos a aprender. Aprendemos por observação e instinto e assim, quando a fome aperta choramos, pois já sabemos que aquele ser maravilhoso que nos carregou por meses na barriga, irá correndo nos atender na nossa primeira necessidade. Observação e instinto, portanto.

Vamos nos desenvolvendo e continuamos a copiar ou rejeitar comportamentos alheios. Nossa língua, não à toa, é chamada de língua mãe, pois é o som mais familiar que conhecemos. Repetimos os sons, jeitos e comportamentos de nossos pais, desde a primeira infância. Depois saímos do conforto da casa e caímos nos desafios da escola e do mundo: convivências e muito, muito mais aprendizado.

Reagimos conforme aprendemos e assim, aos poucos vamos construindo a nossa personalidade. E aqui está a pegadinha: nos achamos únicos, incríveis ou não, mas quase sempre acreditamos erroneamente que só nós sentimos, pensamos e vivemos dessa ou daquela maneira. Esquecemos que somos, antes de qualquer coisa, frutos de um meio e portanto, produto e consequência de outros que vieram antes ou ao mesmo tempo que nós.

Não somos exclusivos, não somos especiais e nem a última cereja do bolo. Também não somos os renegados, coitados e únicos sofredores nesse mundo. Se é assim, por que então nos agoniamos tanto com nossas próprias vidas? Ou por que nos sentimos sempre tão importantes e extraordinários?

Para deixar mais claro o que digo vou citar um exemplo pra lá de clássico: das mamães que acham que seus filhotes são seres especiais e iluminados, com inteligência acima da média e com caráter que lembra o do Buda….pois é, acho que 99,99% das mães que conheço acreditam nisso e por que então não vivemos em uma sociedade iluminada e perfeita?

Todo esse papo é para dizer que quando saí do meu mundo confortável e conhecido e passei a viver aqui nos EUA, imersa em outra cultura, fui obrigada a expandir meu olhar. A solidão nos torna automaticamente grandes observadores. Parei de viver no automático e passei a prestar muito mais atenção ao que me cerca. Aos lugares e pessoas a minha volta.

Descobri semelhanças profundas em mães que vieram de um lugar chamado Eritréia, que eu antes nunca tinha ouvido falar. Descobri diferenças gritantes em meio a brasileiras que vieram de um mesmo contexto que o meu. E assim percebi o óbvio: somos exatamente iguais. Medíocres iguais, medrosos iguais, ansiosos iguais, orgulhosos iguais, teimosos iguais, etc. etc.

Temos sonhos, medos e anseios semelhantes ao do nosso vizinho, do entregador de pizza ou do presidente da república. (mesmo que ele seja laranja! 😀 ). Somos simples e complexamente humanos.

Um post que encontrei essa semana no Facebook foi o que me motivou a escrever esse texto. Trata-se da linda história de dois amigos da pré-escola que cortaram seus cabelos iguais, para que a professora pudesse confundi-los. Eles se amam tanto e se reconhecem tanto um no outro que o fato de um ser branco e o outro negro simplesmente passou despercebido. A história toda você vê aqui.

Eu me emocionei e parei para pensar. Em que momento deixamos essa simplicidade maravilhosa da infância ir embora? Em que momento passamos a nos sentir superiores ou inferiores ao outro e assim começamos um processo mesquinho e egoísta de vida?

Ser humano significa andar pelo mundo com milhões de espelhos a nossa volta.

Espelhos que encontramos naquele vizinho antipático, naquela amiga fofoqueira, naquela modelo maravilhosa da revista. Somos todos muito mais parecidos do que pensamos….

Morar em uma cultura que não é tão aberta à troca é difícil. Norte-americanos são normalmente muito fechados. Dificilmente abrem a guarda da vida e da intimidade e é comum o sentimento de isolamento de quem vem de fora. Mas analisando friamente a cultura de onde vim e de onde fui criada (Brasil) também chego a conclusão que somos “aparentemente” abertos. Expomos nossos feitos em redes sociais, lamentamos nossas dores publicamente no FB, mas a relação de sinceridade, de olho no olho e troca autêntica de experiências é coisa muito rara, mesmo em amizades longínquas e relações familiares.

Vivendo aqui sinto muita falta desse olho no olho, e percebo que a intimidade e o amor que achei que tivesse com tantos no Brasil, na verdade era muito fugaz e superficial.  Eu que mantinha a minha casa brasileira cheia de amigos e família, vejo hoje que foram poucos, pouquíssimos os que permaneceram.

A responsabilidade também é minha. Acho que todos nós nos colocamos em uma bolha de superioridade ou inferioridade em um certo momento, e com isso nos isolamos em nossos mundos, sem perceber que é a troca que nos salva, é a troca que nos faz crescer.

Como sempre a arte é muito mais precisa do que as palavras. Esse magnífico trabalho de Hans Eijkelboom, exposto na 30. Bienal de Artes de S. Paulo, mostra pessoas ao redor do globo que foram fotografadas por ele durante 20 anos.

Ele agrupou-as em tipos semelhantes de roupas e comportamento e o resultado é esse: não somos únicos! Inevitavelmente existirão ao redor de nós muito mais iguais do que imaginamos e mesmo o nosso maior arroubo de criatividade já foi feito por outrem ou será feito um dia. Somos apenas pequenos pontos nesse vasto universo…

Vamos descer do pedestal? Vamos romper as bolhas?

Um caminho é ter como lema a belíssima frase de Mário Quintana: “O amor é quando moramos um no outro”. Quando entendemos e aplicamos a dimensão disso em nossas vidas, tudo fica infinitamente mais fácil. Bora tentar?

Até a próxima! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

50 tons de laranja

 

50 tons de laranja….

Laranja sempre foi uma das minhas cores favoritas, alegre, vibrante, cheia de energia! Além de remeter à fruta, que pela combinação de simplicidade e riqueza é uma das maiores bênçãos da natureza.

Infelizmente deixei de ser fã da cor, desde o início do ano passado, por razões um tanto óbvias. Laranja também pode remeter ao “fake”, ao bronzeado ridículo e artificial e também àqueles que inocentemente (ou não) se prestam a fazer papéis escusos para defenderem poderosos.

Você sabia que uma escala tonal pode ser composta por infinitas graduações de cor, e não é só o cinza que apresenta essas nuances todas.

Usando um pouco da ironia como estilo de escrita, já que em tempos estranhos é melhor falar em entrelinhas, vou propor um teste, para saber em que tom de laranja você se encontra. Cada resposta afirmativa aumenta o seu tom cítrico.

  • Você acredita ferozmente que suas opiniões (sobre tudo) correspondem à verdade absoluta?
  • Você acha que o único caminho a Deus e à salvação religiosa é através da sua crença pessoal e todas as outras estão equivocadas?
  • Em uma roda de amigos, ou em feeds de redes sociais, você sempre quer ter a palavra final?
  • Você despreza todos que tem visão política diferente da sua?
  • Você abomina o aborto, mas fecha os olhos para as milhares de crianças em situação de miséria extrema e risco de vida dentro do seu país?
  • Você defende que “cidadão de bem” possua arma para se defender e matar quando for preciso?
  • Você se diz tolerante aos gays, mas desde que eles expressem suas escolhas bem longe de você e de seus filhos?
  • Você acha que “ser gay” é fruto de uma má influência da mídia e dos tempos atuais?
  • Você respeita as mulheres, mas concorda que a culpa de estupros, traições e sexismo é sempre delas mesmas?
  • Você abomina a visão política da esquerda?
  • Você despreza a visão política da direita?
  • Você acredita que o mundo é bipolar, dividido claramente entre bons e maus, petistas e coxinhas, anjos e demônios, sem nada entre eles?
  • Você repete frases como: “bandido  bom é bandido morto?
  • Você acredita que todo favelado é bandido? (ou que todo muçulmano é terrorista?)
  • Você acha que o Sudeste (e sobretudo S. Paulo) carregam o Brasil nas costas e deveriam existir barreiras físicas contra a migração nordestina?
  • Você acredita que o esforço individual é o único fator responsável pelo sucesso (ou fracasso), sem considerar o contexto social?
  • Você defende uma cidade limpa, onde qualquer manifestação artística tem que ser substituída por cinza? Afinal de contas está se cuidando da saúde pública e uma coisa tem tudo a ver com a outra coisa, assim como borboletas, sereias e maionese e inclusive verba pública!!….

Pois é, eu poderia continuar essa lista infinitamente, mas paro por aqui. Viu só como temos mais laranja dentro de nós do que imaginamos (eu inclusive!). Em uma escala ou outra, essa é a cor do momento e não se trata de exclusividade dos EUA.

Acho que é tempo de refletir: em que medida me situo no meio em que vivo? Em que medida minha tolerância e empatia superam as minhas crenças ideológicas e religiosas?

O mundo só muda quando mudamos e mais do que nunca é preciso revermos aquilo que nos torna humanos, ou corremos o risco de nos olharmos no espelho e vermos refletido apenas a sombra de um palhaço laranja….

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida é tão rara….

Eu ando cansada…. Cansada do frio que mal começou, cansada dos dias curtos que terminam às 4h30 da tarde, cansada do meu feed de notícias que só me traz desilusão, enfim, não estou vivendo meus melhores dias.

Já li um bocado sobre a depressão de inverno, bastante comum em pessoas “tropicais”que vivem no hemisfério norte. O antídoto é sempre o mesmo: atividades ao ar livre, alimentação saudável, pensamentos positivos. Parece tão fácil, mas não é.

Fica difícil ter coragem de caminhar sob a garoa constante e o frio de 0 grau, impossível trocar o chocolate quente pelo suco de couve e o mais complicado: pensar em coisas boas quando você acorda e vê que um avião com vários jovens atletas, cheios de esperança e alegria caiu nas florestas da Colombia.

O mundo anda árido e 2016 foi um ano bem complicado. Depois de 2015, com o terrível incidente da Samarco em MG, processo político decadente do Brasil e do planeta, a crise de refugiados, etc. cheguei a achar que nada de pior poderia vir a acontecer nessa maltratada atualidade. Mas 2016 chegou querendo destaque: atentados terroristas, mais e mais decadência política, morte de pessoas essenciais e Donald Trump. Agora essa tragédia aérea envolvendo os meninos de Chapecó….

Eu sei, está difícil. Mas continuo acreditando que a vida é escolha. Em meio ao caos, precisamos focar nosso olhar em direção àquilo que nos alenta. Parece uma bobagem, mas às vezes a felicidade vem em gotas homeopáticas.

Uma fotografia bonita, uma mensagem carinhosa e inesperada, um salto amoroso do cachorro de estimação, uma chamada de vídeo no Facetime, um estranho gentil que segura a porta e sorri pra você…. São nessas miudezas da vida que a gente se alimenta e encontra forças para seguir em frente

A vida não para, não espera e é rara, como já diz aquela música linda do Lenine que eu deixo aqui  para vocês.

 

Acho que precisamos todos de um esforço coletivo, retornando ao mundo paciência e esperança, porque só assim conseguiremos sair dessa nuvem cinza para transformar positivamente esse mundão, que apesar de todas as suas dores é maravilhoso. Estamos todos juntos nesse barco que não para nunca e cabe somente a nós que seu percurso seja feito sobre águas calmas.

 

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