O que a arte me ensinou

Acredito que a construção do que somos é feita aos poucos, tal qual a de uma casa. Começa pela escolha do terreno e o assentamento das fundações, que são nossa família e o campo de valores onde começa nossa trajetória.

Segue depois pelas escolhas do layout e funcionalidade, pela prioridade das coisas: uma cozinha maior ou um quarto extra? Gosto de cores quente ou frias? Quero ser engenheiro ou massagista? E assim vamos pouco a pouco nos definindo.

Mas assim como a casa, estamos em constante evolução, abertos a novos “puxadinhos” ou reformas que praticamente demolem tudo que havia antes para se recomeçar do zero…

Quando procuramos respostas a questões profundas no cotidiano da vida, podemos nos surpreender positivamente como tudo é sempre mais claro, mais simples e mais descomplicado do que parece.

Mas por quê essa lenga lenga toda inicial? Para falar de escolhas que fiz recentemente e que com certeza redefiniram minha trajetória e reformularam conceitos que eu, um dia acreditei, que seriam imutáveis… (ah que tolinha eu fui!)

Sempre tive meu caminho pautado pela arte. Cresci assistindo minha mãe caprichosa, executando com paixão seus diversos trabalhos manuais. Esse foi meu terreno…

Escolhi caminhos avessos e equivocados, mas a semente sempre esteve lá.

Me encantei pelos caminhos conceituais, polêmicos e praticamente inacessíveis da arte contemporânea, sobretudo a brasileira, com a qual estive envolvida por muitos anos na minha vida paulistana.

Mas sabe aquele amor verdadeiro? Não paixão temporária de verão, mas amor que faz seu espírito inteiro tremer e faz sua existência valer a pena? Pois é, esse amor começou a nascer nas minhas solitárias idas à National Gallery em Washington DC, onde eu encontrava abrigo e conforto para a minha confusa vida de imigrante.

Tantas horas dentro daquelas galerias e um encantamento que cada vez mais crescia com os mestres: Vermmer, Rembrandt, Leonardo, Dürer, Cézanne, Courbet, Sargent… e todos que têm na artesania, no esforço exaustivo de pintar e desenhar, a sua marca registrada.

Que coisa antiquada, cansativa e ultrapassada – dirão muitos! E os entendo.

Mas precisava pausar. Esse mundo frenético e midiático, de milhares de imagens por segundo, estava me sufocando. Fazendo com que eu perdesse o sentido da vida. Algo muito fora de ordem, para o meu ser, para os meus padrões.

Criei coragem, apontei os lápis, limpei os pincéis e comecei a estudar ferozmente essa atividade quase inatingível: pintar e desenhar com calma, com apuro, com precisão.

Gastar horas, dias, olhando para um mesmo objeto, descobrindo a cada olhar, novas relações de cores, tonalidades e temperaturas. Tentar capturar com as minhas mãos e o meu fazer, aquilo que me emociona, e congelar momentos que seriam facilmente perdidos no oceano do Instagram.

Encontrei meus pares. Encontrei minha tribo e fiquei muito feliz em saber que há muitos como eu, nessa mesma busca. Não somos antiquados ou ultrapassados. Somos também contemporâneos, uma força de resistência nesse mundo de efemeridades.

Ainda que tardiamente, finalmente descobri como quero construir a minha casa. Através da arte, essa palavra abrangente, que tantas vezes curou minhas dores.

Sigamos, sempre fiéis e resistentes aos nossos princípios!

Até a próxima.

Eu e o Galo

Tempo. Acho que esse é um dos recursos mais preciosos de nossa existência. Fazemos péssimo uso dele…infelizmente.

Eu fui agraciada, tenho tempo, um luxo quase que imensurável. O excesso de tempo coincide com o excesso de ideias e pensamentos, que vagueiam minha mente até latejar minhas têmporas. Ideias, conclusões, argumentos que nascem e morrem dentro de mim, muitas vezes até lutando contra eles mesmos. Confuso, eu sei. Ultimamente tenho sofrido. A cobrança eterna das mídias sociais, estão criando uma culpa em mim. O tempo precisa ser empregado! Como?

Desenho. Apago. Entro em pânico perante a tela branca do computador. As palavras, que antes saíam com tremenda facilidade, parecem travar no fundo da garganta. Já tive crises de ansiedade, crises de depressão. Sou escolada e conheço de longe os sintomas. Sinto a onda se aproximar….

Mas dessa vez quero resistir, quero tirar dela o que melhor puder, no jeito mais oportunista possível. Então resolvi me entregar e pintar aquilo que anda me consumindo: um galo.

Sim. Estou pintando um galo. Um galo lindo que vi em Kauai, a ilha mais remota do Havaí, que tive o privilégio de visitar há algumas semanas.

Vi também o mar, vi as rochas, vi a vida marinha em esplendor. Mas vi galos, centenas deles. Andando livremente pelas ruas, estradas, praias e até restaurantes. Todos lindos, coloridos, com uma plumagem típica de uma mesma família, uma mesma raça… seriam todos primos?

Em praias esperamos ver gaivotas, surfistas, crianças, barcos, biquínis… mas galos?

Desafiando a lógica eles estavam lá, alguns com suas galinhas, mas a maioria, independentes. Sem família, sem cercas, sem limites: livres.

Acordava cedinho, com o nascer do sol. Tenho sono leve e o fuso não ajudava. Mas mais do que tudo, acordava com eles, cantando, anunciando um novo dia.

Várias vezes ao dia ouvia o mesmo cacarejar. Engraçado, na minha ignorância pensava que galos só cantavam ao amanhecer…. não, eles cantam o dia I N T E I R O.

Me acostumei. Gostava e agora sinto saudades. Foram, de certa forma, minha companhia. Claro que tirei milhares de fotos.

Não foram suficientes. Em algum cantinho do meu cérebro, uma tecla ficava batendo. Preciso pintar o galo.

Está saindo, quase tão lindo quanto ao vivo. (Desculpem, depois dos 40,  modéstia é hipocrisia!)

Vou fazer em aquarela e se criar coragem em óleo também. Para quê? Para quem?

Não importa. A arte me ensinou que o fim nunca foi o mais importante, mas sim o percurso.

Meu caminho agora é esse, me perder nas texturas das penas e cores. Perceber, através do meu pincel, que a vida tem encantos ordinários, que valem mais que qualquer coisa. Um galo. Cores. Que me fizeram pausar esse momento conturbado que vivemos e trouxeram de volta o equilíbrio da minha respiração.

Obrigada Kauai, por mais esse presente.

Continuemos… até breve! 😉

 

Arte salva. Sempre.

Muitas vezes é preciso darmos um passo para trás, ou nos afastarmos um pouco para ver as coisas em perspectiva. Foi o que fiz nessa semana difícil, talvez uma das piores do ano, onde dois fatos aparentemente distintos, me tiraram o chão.

O primeiro foi a imensa polêmica do Museu de Arte Moderna – O MAM – em S. Paulo.

Multidões em fúria passaram a agredir até fisicamente todas as instituições culturais, que segundo suas óticas distorcidas, são compostas de gente deturpada, praticantes de pedofilia, zoofilia e outras tantas atrocidades. O motivo disso tudo? Um homem nu.

Quem cresceu nos anos 80, como eu, deve se lembrar da abertura da novela Brega e Chic das 7:00 pm da Rede Globo, onde um homem pelado ficava de costas mostrando a bunda. Ou então da Xuxa, Mara e Angélica, com seus vestidinhos curtos e super-erotizados. Isso sem falar na Tiazinha, figura explícita que incitava práticas sadomasoquistas na TV aberta.

Isso nunca chocou, como também nunca chocou o carnaval da Globeleza pelada, as piadas machistas dos programas humorísticos ou o pai de família falando no almoço de domingo: meu filho tem que ser comedor!

Por que isso agora? A resposta é: nos tornamos todos, massas de manobra.Por trás desse moralismo repentino está uma entidade poderosa e perigosa, querendo evangelizar o país. Sem perceber, até os descrentes passam a compartilhar vídeos com mensagens subliminares a respeito de ódio e discursos de nós contra eles. Não é mais possível nesse país dividido, defender qualquer linha progressista, sem ser acusado de esquerdopata, comunista, petista, etc.

E a Arte? Que papel ela tem nessa celeuma toda? Aqui vai a minha crítica. Involuntariamente a arte contemporânea brasileira é também responsável por esse maniqueísmo. Para quem já vivenciou o circuito paulistano de arte, sabe muito bem que é um clube fechado, para poucos. A arte brasileira não é inclusiva! Existem maravilhosas iniciativas pelas periferias do brasilsão afora, existem geniais artistas produzindo a duras penas em seus ateliês improvisados com pouquíssimos recursos e apoios nulos. E a triste constatação, a visibilidade dada a eles é zero!

O establisment da arte brasileira não lhes dá espaço. Prefere navegar nas águas seguras dos cânones, dos consagrados. E dá-lhe releitura, reinterpretação, etc. etc. O Panorama de Arte Brasileiro, até onde eu saiba, era responsável por trazer à tona as novidades da arte brasileira, um cenário amplo da produção atual nacional. Mas a curadoria resolveu ir para o caminho mais fácil, que fala a língua dos colecionadores. E lá vamos nós de Lígia Clark, em uma performance, na minha opinião equivocada. Veja bem: não me refiro aqui à moralidade ou ao fato de mãe, filha, homem pelado, etc. Isso passa longe da minha discussão. Me refiro a uma interpretação rasa de um trabalho magnífico, que são os bichos.

O momento foi péssimo! As águas da ignorância ainda estavam fervendo por conta do Queermuseum e aí foi só questão de minutos para se abrirem as portas do inferno. O brasileiro médio, que tem sua vida cultural pautada nos programas televisivos de domingo, passou a ser crítico raivoso de arte contemporânea. Arte que ele nunca ouviu falar, arte que nunca lhe foi apresentada!

Ressalto aqui que o ingresso do MASP custa R$30,00, que as feiras de arte, patrocinadas com leis de isenção fiscal, custam R$40,00. Que as galerias paulistanas estão longe de ser os lugares mais simpáticos e acolhedores para uma visita de final de semana, para aqueles que não tem como comprar trabalhos de milhares de reais. Enfim, muita água nesse caldo.

A classe artística em peso se posicionou veemente e eu aplaudo essa iniciativa! Porém ao mesmo tempo me pergunto, que ações foram feitas ao longo de todos esses anos no intuito de incluir, de agregar essa horda marginalizada pela elite cultural?

O curioso é que certamente muitos de meus colegas do meio artístico me chamarão de retrógrada e careta por essa crítica, ao passo que familiares e conhecidos me excluirão para sempre de suas vidas por eu ter me tornado uma “esquerdopata”.

Entendem como a saída está difícil?

Viro a página e sinto sangrar meu coração ao som dos tiros de Las Vegas. Minha dor aumenta, quando vejo parentes e amigos defendendo o porte de armas, a defesa do cidadão de bem.

Parece que são mundos distintos, mas na verdade fazem parte da mesma moeda. As melhores lições que recebi na vida sobre humanidade, respeito, liberdade, tolerância, diversidade, amor, etc. etc. foram em museus e exposições de arte.

Arte, desde os tempos da caverna, é o caminho que nos leva a entender o passado e a desenhar o futuro. Arte é o que melhor atinge a nossa sensibilidade humana, que nos difere de todos os outros mamíferos. Arte é o que nos mostra que a violência das ações e reações não serão nunca o melhor caminho. Arte é sempre a primeira coisa a ser banida em sociedades autoritárias e cruéis. Por que será?

Vamos refletir juntos, vamos expandir nossa humanidade para além das crenças moralistas e rasas que querem nos infringir. Vamos fugir das respostas prontas e baratas, como o fechamento de um museu ou o armamento de uma população.

Vamos ser inclusivos, vamos ser tolerantes, vamos amar ao próximo para além de nossas diferenças. Esse é o único caminho, e não me parece tão difícil. Que tal tentarmos?

Arte salva. Sempre.

 

PS: dedico esse texto aos brilhantes artistas e curadores brasileiros, que produzem sem parar, mesmo que não tenham reconhecimento ou espaço, nem dentro da cena de arte estabelecida, nem entre seus familiares e conhecidos, que desconhecem o brilhantismo dessa luta! Eles sabem quem são ❤

 

 

 

Somos todos iguais…simples assim.

Pois é, ser humano é uma coisa engraçada não? A gente nasce e logo nas primeiras horas de vida começamos a aprender. Aprendemos por observação e instinto e assim, quando a fome aperta choramos, pois já sabemos que aquele ser maravilhoso que nos carregou por meses na barriga, irá correndo nos atender na nossa primeira necessidade. Observação e instinto, portanto.

Vamos nos desenvolvendo e continuamos a copiar ou rejeitar comportamentos alheios. Nossa língua, não à toa, é chamada de língua mãe, pois é o som mais familiar que conhecemos. Repetimos os sons, jeitos e comportamentos de nossos pais, desde a primeira infância. Depois saímos do conforto da casa e caímos nos desafios da escola e do mundo: convivências e muito, muito mais aprendizado.

Reagimos conforme aprendemos e assim, aos poucos vamos construindo a nossa personalidade. E aqui está a pegadinha: nos achamos únicos, incríveis ou não, mas quase sempre acreditamos erroneamente que só nós sentimos, pensamos e vivemos dessa ou daquela maneira. Esquecemos que somos, antes de qualquer coisa, frutos de um meio e portanto, produto e consequência de outros que vieram antes ou ao mesmo tempo que nós.

Não somos exclusivos, não somos especiais e nem a última cereja do bolo. Também não somos os renegados, coitados e únicos sofredores nesse mundo. Se é assim, por que então nos agoniamos tanto com nossas próprias vidas? Ou por que nos sentimos sempre tão importantes e extraordinários?

Para deixar mais claro o que digo vou citar um exemplo pra lá de clássico: das mamães que acham que seus filhotes são seres especiais e iluminados, com inteligência acima da média e com caráter que lembra o do Buda….pois é, acho que 99,99% das mães que conheço acreditam nisso e por que então não vivemos em uma sociedade iluminada e perfeita?

Todo esse papo é para dizer que quando saí do meu mundo confortável e conhecido e passei a viver aqui nos EUA, imersa em outra cultura, fui obrigada a expandir meu olhar. A solidão nos torna automaticamente grandes observadores. Parei de viver no automático e passei a prestar muito mais atenção ao que me cerca. Aos lugares e pessoas a minha volta.

Descobri semelhanças profundas em mães que vieram de um lugar chamado Eritréia, que eu antes nunca tinha ouvido falar. Descobri diferenças gritantes em meio a brasileiras que vieram de um mesmo contexto que o meu. E assim percebi o óbvio: somos exatamente iguais. Medíocres iguais, medrosos iguais, ansiosos iguais, orgulhosos iguais, teimosos iguais, etc. etc.

Temos sonhos, medos e anseios semelhantes ao do nosso vizinho, do entregador de pizza ou do presidente da república. (mesmo que ele seja laranja! 😀 ). Somos simples e complexamente humanos.

Um post que encontrei essa semana no Facebook foi o que me motivou a escrever esse texto. Trata-se da linda história de dois amigos da pré-escola que cortaram seus cabelos iguais, para que a professora pudesse confundi-los. Eles se amam tanto e se reconhecem tanto um no outro que o fato de um ser branco e o outro negro simplesmente passou despercebido. A história toda você vê aqui.

Eu me emocionei e parei para pensar. Em que momento deixamos essa simplicidade maravilhosa da infância ir embora? Em que momento passamos a nos sentir superiores ou inferiores ao outro e assim começamos um processo mesquinho e egoísta de vida?

Ser humano significa andar pelo mundo com milhões de espelhos a nossa volta.

Espelhos que encontramos naquele vizinho antipático, naquela amiga fofoqueira, naquela modelo maravilhosa da revista. Somos todos muito mais parecidos do que pensamos….

Morar em uma cultura que não é tão aberta à troca é difícil. Norte-americanos são normalmente muito fechados. Dificilmente abrem a guarda da vida e da intimidade e é comum o sentimento de isolamento de quem vem de fora. Mas analisando friamente a cultura de onde vim e de onde fui criada (Brasil) também chego a conclusão que somos “aparentemente” abertos. Expomos nossos feitos em redes sociais, lamentamos nossas dores publicamente no FB, mas a relação de sinceridade, de olho no olho e troca autêntica de experiências é coisa muito rara, mesmo em amizades longínquas e relações familiares.

Vivendo aqui sinto muita falta desse olho no olho, e percebo que a intimidade e o amor que achei que tivesse com tantos no Brasil, na verdade era muito fugaz e superficial.  Eu que mantinha a minha casa brasileira cheia de amigos e família, vejo hoje que foram poucos, pouquíssimos os que permaneceram.

A responsabilidade também é minha. Acho que todos nós nos colocamos em uma bolha de superioridade ou inferioridade em um certo momento, e com isso nos isolamos em nossos mundos, sem perceber que é a troca que nos salva, é a troca que nos faz crescer.

Como sempre a arte é muito mais precisa do que as palavras. Esse magnífico trabalho de Hans Eijkelboom, exposto na 30. Bienal de Artes de S. Paulo, mostra pessoas ao redor do globo que foram fotografadas por ele durante 20 anos.

Ele agrupou-as em tipos semelhantes de roupas e comportamento e o resultado é esse: não somos únicos! Inevitavelmente existirão ao redor de nós muito mais iguais do que imaginamos e mesmo o nosso maior arroubo de criatividade já foi feito por outrem ou será feito um dia. Somos apenas pequenos pontos nesse vasto universo…

Vamos descer do pedestal? Vamos romper as bolhas?

Um caminho é ter como lema a belíssima frase de Mário Quintana: “O amor é quando moramos um no outro”. Quando entendemos e aplicamos a dimensão disso em nossas vidas, tudo fica infinitamente mais fácil. Bora tentar?

Até a próxima! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre tudo um pouco

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House and Trees (Maison et arbres) 1890-1894 Oil on canvas 25 5/8 x 31 7/8 in. (65.2 x 81 cm) The Barnes Foundation, Merion, Pennsylvania

Depois de um pequeno hiato, me deu vontade de escrever. Apesar de poucas semanas de pausa, muitas coisas aconteceram, sensação de que se passaram meses. Aliás, a vida fora do Brasil parece acontecer em outro tempo e espaço e tudo fica mais intenso, inclusive o passar do tempo. Provavelmente  porque aqui, nos EUA, temos que desempenhar inúmeros papéis. Ou como se diz: wear many hats! Não é fácil….

Tivemos uma ameaça de furacão! Sim, um furacão de proporções destruidoras como o famoso Katrina. Justiça seja feita, dessa vez o nome dado foi masculino: Joaquin. Ele não chegou a se aproximar perigosamente da costa leste americana, mas o suficiente para provocar uma interminável semana de chuva e dias feios. Quase emboloramos! Longos dias dentro de casa, com o cinza entrando pela janela….depois de um verão luminoso, foi um triste início de outono.

No meio desse cinza deprê mais uma notícia aterrorizante: um atirador mata 9 pessoas em uma faculdade no estado de Oregon. Chorei.

Impossível não me abalar e não me sentir afetada por isso. Um dos principais motivos que me fez embarcar nessa jornada foi a fuga da violência paulistana e a esperança em criar minhas filhas em um lugar mais seguro. Pois bem, não há tranquilidade nesse mundo.

Alguns amigos, mais esclarecidos que eu, dizem que esse tipo de psicopatia violenta é resultado da louca vida contemporânea, da pressão consumista, da falta de sentido real da vida. Nas palavras do próprio atirado de Oregon (o qual me recuso a nomear para não contribuir com seus minutos de fama nessa doença chamada sociedade do espetáculo!) ele afirma:

“The material world is a lie. Most people will spend hours standing in front of stores just to buy a new Iphone … I used to be like that, always concerned about what clothes I had, rather than whether or not I was happy. But not anymore.”

[O mundo material é uma mentira. A maioria das pessoas vai gastar horas esperando na frente das lojas só pra comprar um novo Iphone … Eu era assim, sempre preocupado com as roupas que eu tinha, em vez de se eu era feliz ou não. Mas agora não mais.]

Não sei se podemos culpar o peso do consumo e da aparência por atrocidades como essa. Culpo mais a sociedade americana, que insiste em armar seus cidadão até os dentes, e em um momento de loucura, ou mesmo tédio, uma alma infeliz tem nas mãos o que precisa para fazer uma grande m….

Enfim, essa discussão vai longe e não quero me ater a ela. O homem é bicho do homem, desde que o mundo é mundo! Motivos e justificativas para atrocidades estão sempre a disposição, quando me parece que o mais simples é: somos seres factíveis, com mais erros do que acertos. Por pouco, muito pouco, guerras, barbáries, mortes, torturas e toda sorte de violência contra o próprio homem são cometidas. Basta olhar para a história e ver que desde sempre o homem persegue o homem! Sem dó ou piedade, baseado apenas em suas ideologias, religiões, fé, ganância, poder, etc. etc. Infelizmente é uma lista infinita de motivos. Isso tudo antes da existência do Iphone….que fique claro!

Ao contrário do sentimento generalizado de desolação, tenho a teimosia em achar que estamos  evoluindo. Apesar dos meninos boiando no Mediterrâneo, apesar dos “gun shooters” norte-americanos, apesar da crise política do Brasil, apesar do caos sangrento do Oriente Médio, apesar da xenofobia europeia e da miséria africana. Sim, gosto de história, e afirmo: a humanidade já viveu dias piores.

Hoje estou aqui, sentada em frente ao meu blog, questionando, pensando e escrevendo livremente sobre isso. Posso até sair nas ruas da Virgínia, lugar onde fica a temível NRA ( National Riffle Association -responsável pelo maior lobby armamentista do planeta) com cartazes gritando pelo desarmamento e ninguém irá me prender por isso.

Estamos lentamente em evolução. Minhas filhas tem uma educação infinitamente mais sofisticada do que a que eu tive um dia. Todos tem o mundo ao alcance dos dedos. Campanhas humanitárias em prol dos refugiados pipocam em todos os cantos, o brasileiro finalmente se indigna pela corrupção! Vamos tentar ver o copo meio cheio?

É mês de outubro. Mês das crianças no Brasil e o Facebook começa a ficar infestado de retratos de criança. Não vou colocar o meu. Minha vida adulta e madura de quarentona é infinitamente mais interessante do que a da menina loirinha magricela de trancinhas do Colégio Virgem Poderosa. (acredite, eu estudei em um colégio com esse nome!)

Não sou saudosista, não perco tempo olhando para trás e me lamentando pelo que não volta mais. Aliás, essa é uma condição imprescindível se você pretende mudar de país.

Prefiro trocar minhas folhas e esperar pelo novo, assim como o outono! Welcome Fall! 😉

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Foto tirada por mim, no caminho da minha casa

PS: A respeito das duas imagens que ilustram esse post: o primeiro uma das mais lindas pinturas de Cézanne, que transmite primorosamente as cores e sensações do outono no hemisfério norte. A segunda, uma foto que tirei de uma casa perto da minha, que sempre me chamou a atenção, e só hoje, pude perceber o porquê! A semelhança de composição com o belíssimo trabalho de Cézanne, que estava arquivado nos rincões da minha memória… Ter tanta beleza assim pela vizinhança é um bom motivo pra sorrir não é não? 🙂

A arte em tempos de guerra – Shirin Neshat

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Shirin Neshat, Rapture Series, 1999. Photograph taken by Larry Barns. © Shirin Neshat. Courtesy Gladstone Gallery, New York and Brussels

“Arte é a nossa arma. Cultura é a nossa forma de resistência. As vezes eu invejo os artistas ocidentais, por sua liberdade de expressão (…) mas também me preocupo com o Ocidente, porque a cultura corre o risco de ser apenas uma forma de entretenimento.” – Shirin Neshat.

Já falei mais de uma vez, mas não canso de repetir, Washington D.C. é um lugar privilegiado para os amantes de Arte. Na capital americana, existe uma infinidade de museus e todos são gratuitos.

Minha recente descoberta foi o Hirshhorn Museum, mais um museu do gigantesco complexo cultural Smithsonian. Esse museu foi fundado em 1974 por Joseph Hirshhorn, imigrante da Letônia, que cresceu no Brooklin – NY, com sua mãe viúva e seus 12 irmãos.

Fotografia de Mark Alan André
Vista do prédio do Hirshhorn Museum com seu jardim de esculturas povoado por obras de Ai Wewei.

Sua coleção impressionante de arte moderna e contemporânea foi doada ao Smithsonian e logo abrigada em um maravilhoso prédio projetado por Gordon Bunshaft, ganhador do Pritzker Prêmio de Arquitetura.

Tudo no prédio é maravilhoso: sua construção redonda e forrada de painéis de vidro, seu pátio interno e seu jardim adjacente de esculturas modernas e contemporâneas.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hirshhorn_Museum_Sculpture_Garden.JPG
Jardim de Esculturas anexo ao museu. Hirshhorn Sculpture Garden

Mas não quero descrever o museu. Isso está muito melhor explicado na página oficial que se encontra aqui: http://hirshhorn.si.edu

Quero falar de uma exposição que visitei lá e que foi uma daquelas de arrebatar! Trata-se da artista iraniana Shirin Neshat. Como mulher, como iranina, como exilada e como imigrante ela já teria muito para contar. Some-se a isso a sua delicadeza, o seu olhar, a sua captura do belo, mesmo no meio de tanta dor, tanta intolerância.

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Quem encontra a Julia, minha filha, nessa belíssima imagem?

Quando a Arte atinge esse patamar, ela me arrasta. Povoa minhas ideias, meu coração e meu sono por dias. Aliás, passam- se anos e ainda consigo lembrar de imagens que vi em exposições memoráveis.

O mundo está em guerra. A guerra do oriente médio diz respeito a todos nós, cidadãos ocidentais. São mulheres, são crianças, são seres humanos que perderam o seu direito mais precioso: à vida!IMG_1835

O Brasil, apesar de não viver a realidade do fanatismo religioso, vê crescer a cada dia a intolerância e o desrespeito ao diferente. Essa dualidade que o país assiste atualmente é perigosíssima! “Cidadão de bem” que atropela e mata o bandido  é saudado como herói na internet. Amigos queridos e próximos, que vejo todos os dias nas redes sociais, cegos pelo ódio, incitando a violência e a ideologia do olho por olho, dente por dente.

Estamos regredindo e isso me assusta. Evidente que a lambança política e o populismo barato, grandes responsáveis por toda a situação caótica que se vive no Brasil, também me enojam e me causam indignação. Contudo, essa indignação não pode ser maior do que a nossa humanidade.

As últimas semanas foram terríveis! A foto do menino Aylam na praia do Mediterrâneo escancarou um realidade cruel, que não se via desde os tempos nazistas. No Brasil, a decadência política e a falta de esperança, nos EUA, o menino Ashmed preso por ser criativo e muçulmano… Às vezes queria só parar o tempo, respirar e tomar um copo de água.

Para isso existe a Arte, que salva, que cura e mostra caminhos. Como esse de Shirin Neshat que sobreviveu ao horror e nos conta sua história.  Existem ainda tantos outros, pequenos e anônimos artistas pelo mundo, que insistem em criar, pintar e desenhar a esperança.

A Arte é o que melhor evidencia a nossa humanidade. Que essa ferramenta poderosa sirva como luz a nos guiar nesses tempos de trevas.

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Julia e Amanda em uma das salas da exibição

Fiz minha parte, levei minhas filhas à exposição. Passamos alguns jantares discutindo intolerância religiosa e racial, o papel da mulher no mundo, viver em culturas diferentes. Todos esses tópicos surgiram a partir de Shirin Neshat e a ela sou grata. Através da arte estamos tentando construir cidadãos melhores, capazes de um dia fazer desse planeta um lugar menos inóspito…

PS: A fotografia que ilustra o cabeçalho desse post eu tirei outro dia, andando por D.C., quando me deparei com esse magnífico painel de Chagal, feito em 1969  e extremamente atual. Observem e tirem suas próprias conclusões:

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Marc Chagal – Russian – 1887 – 1985 Orphee – 1969 Stone and glass mosaic

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