Eu e o Galo

Tempo. Acho que esse é um dos recursos mais preciosos de nossa existência. Fazemos péssimo uso dele…infelizmente.

Eu fui agraciada, tenho tempo, um luxo quase que imensurável. O excesso de tempo coincide com o excesso de ideias e pensamentos, que vagueiam minha mente até latejar minhas têmporas. Ideias, conclusões, argumentos que nascem e morrem dentro de mim, muitas vezes até lutando contra eles mesmos. Confuso, eu sei. Ultimamente tenho sofrido. A cobrança eterna das mídias sociais, estão criando uma culpa em mim. O tempo precisa ser empregado! Como?

Desenho. Apago. Entro em pânico perante a tela branca do computador. As palavras, que antes saíam com tremenda facilidade, parecem travar no fundo da garganta. Já tive crises de ansiedade, crises de depressão. Sou escolada e conheço de longe os sintomas. Sinto a onda se aproximar….

Mas dessa vez quero resistir, quero tirar dela o que melhor puder, no jeito mais oportunista possível. Então resolvi me entregar e pintar aquilo que anda me consumindo: um galo.

Sim. Estou pintando um galo. Um galo lindo que vi em Kauai, a ilha mais remota do Havaí, que tive o privilégio de visitar há algumas semanas.

Vi também o mar, vi as rochas, vi a vida marinha em esplendor. Mas vi galos, centenas deles. Andando livremente pelas ruas, estradas, praias e até restaurantes. Todos lindos, coloridos, com uma plumagem típica de uma mesma família, uma mesma raça… seriam todos primos?

Em praias esperamos ver gaivotas, surfistas, crianças, barcos, biquínis… mas galos?

Desafiando a lógica eles estavam lá, alguns com suas galinhas, mas a maioria, independentes. Sem família, sem cercas, sem limites: livres.

Acordava cedinho, com o nascer do sol. Tenho sono leve e o fuso não ajudava. Mas mais do que tudo, acordava com eles, cantando, anunciando um novo dia.

Várias vezes ao dia ouvia o mesmo cacarejar. Engraçado, na minha ignorância pensava que galos só cantavam ao amanhecer…. não, eles cantam o dia I N T E I R O.

Me acostumei. Gostava e agora sinto saudades. Foram, de certa forma, minha companhia. Claro que tirei milhares de fotos.

Não foram suficientes. Em algum cantinho do meu cérebro, uma tecla ficava batendo. Preciso pintar o galo.

Está saindo, quase tão lindo quanto ao vivo. (Desculpem, depois dos 40,  modéstia é hipocrisia!)

Vou fazer em aquarela e se criar coragem em óleo também. Para quê? Para quem?

Não importa. A arte me ensinou que o fim nunca foi o mais importante, mas sim o percurso.

Meu caminho agora é esse, me perder nas texturas das penas e cores. Perceber, através do meu pincel, que a vida tem encantos ordinários, que valem mais que qualquer coisa. Um galo. Cores. Que me fizeram pausar esse momento conturbado que vivemos e trouxeram de volta o equilíbrio da minha respiração.

Obrigada Kauai, por mais esse presente.

Continuemos… até breve! 😉

 

Fechamento de um ciclo 

Coincidência? No dia que começa o outono, transição entre as minhas duas estações favoritas (Summer-Fall) eu finalizo um ciclo. Foram três anos vivendo na Virginia, três anos em que aprendi mais do que 40! 

Deixar meu país, minha família e amigos e um terreno conhecido e seguro, ainda que complicado, para recomeçar tudo de novo em outro idioma, outro clima, outras paragens foi um grande desafio. 

A dor que senti ao ver minha casa querida, desmontada e cheia de caixas esperando pelo caminhão, será para sempre um marco na minha vida.  Aquela Gabriela, a Gabi da Granja (por eu morar na Granja Viana em São Paulo e ser conhecida assim por alguns amigos) morreu. 

Não me reconheço mais naquela vida que tinha, nos pensamentos e opiniões que cultivava, nos valores que eu acreditava.

Mudar de país implica em uma mudança profunda, que afeta o nosso âmago. Muito mais que cortar o cabelo ou até trocar de marido! Abala as nossas estruturas e nos faz pensar de uma forma diferente de tudo que aprendemos em uma vida inteira. 

A Virginia me ensinou isso. Cheguei aqui no inverno e nunca tive uma recepção calorosa, nem por parte do clima, nem por parte do povo. Meu primeiro inverno se resumiu a dias de infinita solidão, onde só conversava com minhas filhas. Medo de sair, medo de falar, medo de explorar. A primeira primavera chegou e tudo começou lentamente a florescer (que metáfora mais clichê, eu sei!). Vi um dos maiores espetáculos da minha vida, que são as cerejeiras em flor em Washington DC e jamais esquecerei o encantamento que tive ao andar embaixo daquele teto de flores.

Finalmente a temperatura esquentou e me surpreendi com a linda baía de Chesapeake. Seus caranguejos gigantes, por do sol inesquecível e os deliciosos vinhos brancos. O calor chegou até a sufocar, até a mim, que sou amante das altas temperaturas.

Com isso a chegada do outono trouxe uma surpresa agradável, dias ainda mais lindos e milhões de folhas trocando de cor. Sinto muito Brasil, mas esse espetáculo você não consegue fornecer aos teus.

O outono no hemisfério norte é pura magia! Nunca pensei que houvessem tantos tipos de maçãs, cenouras e abóboras. Tantas feiras, festivais e comidas maravilhosas…

E assim foi meu primeiro ano, de encantamento, saudades e surpresas. Outros ciclos vieram e tudo já não era novidade. Conheci pessoas, descobri costumes e lugares e vi que conseguiria  sim, viver muito bem longe do meu Brasil.

A Virginia me ensinou a ser forte, me mostrou que amigos verdadeiros e constantes são realmente muito poucos, quase únicos. Me ensinou a eu ser a minha própria companhia, nos cafés, exposições de arte e outros tantos eventos  que estive sempre sozinha. Me ensinou que um sorriso e uma gentileza nem sempre são sinais de amizade, e que a formalidade estará acima de qualquer coisa, mesmo entre brasileiros.

O lugar é lindo, as estações são encantadoras mas não há aquele calor dos afetos que eu sempre estive acostumada a ter. A mais valiosa das lições que recebi foi que aprendi a viver sem isso e aprendi a entender que tudo bem pessoas serem assim. Nascemos sozinhos e assim morremos. 

Hoje passei o dia quase todo sozinha. Em uma casa já vazia, observando o vai e vem das caixas no caminhão. Muito tempo de reflexão, nesse pórtico maravilhoso, acompanhada apenas dos passarinhos e da marmota simpática que vive no meu jardim. 

Meus vizinhos me surpreenderam com uma dose de carinho e cuidado que não tive nem no Brasil. Uma amiga mais que querida, e muito muito especial veio me levar pra almoçar. Ela sabe quem é e eu serei eternamente grata ao seu carinho….

Mais uma lição da Virginia, não importa a quantidade e sim a qualidade! E isso eu tive de sobra de poucos bons amigos.

E assim eu me despeço como o Verão….deixando o Outono entrar e trazer a renovação de minha própria paisagem, agora em outras paradas. Seattle here I go…. 

Obrigada Virginia! 

A experiência de ser turista na minha terra – 20 dias de Brasil

Então, eu fiz um carnaval em um outro post quando disse que iria ao Brasil não foi mesmo? Estou me sentindo em dívida para quem me lê e quer saber como foi essa experiência de ser turista na própria terra. Vamos lá?

O primeiro choque é o conforto de ouvir, falar e pensar em português o tempo todo. Foi uma espécie de alívio, como quando a cabeça para de doer depois de dias de um incômodo. Se traduzir o tempo todo é um dos grandes desafios de quem vive fora da terra de origem. Mesmo aqueles ultra super fluentes, com o inglês no automático, sabem que o conforto de se expressar na sua própria língua faz uma grande diferença.

Se sentir abraçado e sentir querido também cativa o coração. Mas algumas gotinhas de dor pingam nessa atmosfera. Você percebe que nem todos sentiram sua falta como você as deles e alguns com quem você tanto contava e ansiava em ver, simplesmente ignoram a sua visita, afogado que estão nas suas vidas cotidianas. Pode ser um pouco chato, mas é a primeira e grande lição: a vida continuou…. Você mudou de casa, de país, de emprego e de amigos, quase um tsunami na própria vida e acaba se esquecendo de que todo mundo que ficou continuou com a mesma rotina de sempre. Fica difícil para aqueles que ficaram dimensionar e avaliar a importância de um abraço. Eu entendo e supero, juro!

Outros, ao contrário, nos surpreendem com o carinho sincero e a receptividade. E aí até machuca mais, afinal como voltar e viver longe de pessoas tão especiais? (aqui faço uma pausa pra engolir um soluço).

As comparações são inevitáveis. Moro na Virgínia, ao lado da capital norte-americana. Ruas e bairros impecáveis, equipamentos e serviços públicos primorosos, melhores escolas do país, altíssima renda per capita, blá, blá, blá…. São Paulo me dá um soco com o seu oposto: ruas ainda mais sujas e abandonadas do que me lembrava, violência explosiva, sensação constante de insegurança, estilo de vida caríssimo e incompatível com a realidade da maioria. Miséria e carro blindado, o tempo todo, todo o tempo.

Foi difícil essa parte. Confesso que pensei, não quero viver mais aqui não. O ar pesado de poluição e uma gigantesca diferença social. R$700,00 reais um jantar em um lugar comum, muita gente, mas MUITA, dormindo sobre jornais na Av. Paulista  (!). Difícil lidar e encarar.

Mas aí vem o almoço elaborado no capricho pelas amigas, o mar verde e delicioso em pleno inverno, o cheiro de pão da padaria e a coxinha estalando na boca. Complicou! Uma montanha russa de emoções. Pertenço mas não pertenço, entende.

Esse é o sentimento de um expatriado. Cadê meu lugar, aqui ou lá, ou os dois? Já aprendi a gostar dos EUA, da organização, do respeito e da beleza dos lugares por onde passo. Só que meu coração não vibra, ele se aquieta. É diferente.

No Brasil eu odeio e amo intensamente o tempo todo, meio exaustivo, mas muito vivo.

Não tenho respostas…. por enquanto vou tocando meu barco aqui focando na frente, absorvendo todas as experiências e oportunidades que essa terra proporciona e tentando não olhar para trás. Continuo fiel ao meu ideal de não ser árvore e poder me deslocar por esse mundo todo de olhos e peitos abertos. Mas faço um adendo, apesar de não ser árvore, tenho raízes e essas serão eternamente verde e amarelas!

 

 

Casamento – o maior de todos os desafios!

BeFunky Collage2

O que nos diferencia como humanos de todos os outros seres vivos do planeta? A convivência e os afetos…

Desde bebês amar é o verbo mais utilizado. Amamos nossas mães, amamos o colo e conforto do peito. Crescemos e vamos nos conectando, com irmãos, amigos, colegas e vizinhos. Alguns permanecem, outros vão se embora pela vida.

Nesse oceano de rostos e personalidades terá sempre uma que baterá mais forte e com essa decidimos nos casar. A paixão, os sonhos de uma vida em comum pela frente, os arrepios e desejos, tudo isso faz parte do caldo inicial. Achamos que não poderemos mais viver sem aquela pessoa e decidimos nos unir em matrimônio (oficial ou não).

Começam os desafios, as dificuldades. Dividir cozinha, banheiro e dinheiro não é para qualquer um… De repente chegam filhos e tudo vira outra coisa. Não é mais um casal, mas sim uma família. Um micro-organismo vivo, com regras e funcionamentos próprios, que compartilham ideias, gostos e sonhos.

Claro que existem divergências profundas, cada um vêm de um background diferente. Aquele charme do início, “ai que fofo, ele ama filmes de terror”, vira rapidinho uma implicância e uma irritação.

Tudo pode ser motivo para briga e discórdia, mas quando o encontro é de almas, isso fica pequeno.

Por que falo tudo isso? Porque hoje, dia do meu aniversário, comemoro 20 anos de casamento. Não com a mesma pessoa, porque no decorrer desses anos todos nos modificamos bastante. Estou longe daquela menina insegura que entrou na igreja em 1996…

Mas a vontade de ficar junto, a parceria, a amizade são maiores. Claro que a viagem nem sempre foi tranquila e enfrentamos muitas águas turbulentas. Mas o segredo, se é que existe um é esse: nos amamos  exatamente pelo que somos.

Podemos passar horas em silêncio um ao lado do outro, sem a necessidade de palavras. Cultivamos e investimos em prazeres em comum, brigamos e ficamos de mal, mas nunca mais do que por uma noite. Sentimos saudades e toleramos a cara feia e amassada de manhã. Te amo, parabéns pelos 20 parceiro!

É possível encontrar isso, não existe só em filmes e contos de fadas.  Pego carona na dica de  Vinícius de Moraes, que casou dezenas de vezes e conhecia o assunto como ninguém! Fica aqui a contribuição do poetinha:

“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração”

Vinícius de Moraes – Samba de Benção

 

 

 

Passei dos 40, e agora?

DSC_0337_1024
A vida nos brinda com um oceano de possibilidades

31 de dezembro, ao redor do mundo pessoas começam seus rituais, dos mais variados tipos, todos se preparando para a virada do ano, o recomeçar. Nessa energia gigantesca que envolve o planeta, planos são escritos, sonhos são compartilhados e promessas são feitas. Janeiro começa e muito disso tudo vai parar esquecido em algum canto da vida.

Eu já gosto de direcionar minha energia para o meu ano novo particular. Tudo começa no dia 11 de julho, véspera do meu aniversário. Fico nostálgica, pensativa e normalmente olhando para trás, para descobrir o que deu certo e o que precisa ser modificado.

Assim como quase todo mundo, esqueço dos meus planos e promessas e acabo deixando tudo para depois, no decorrer dos dias que se seguem.

Mas agora é diferente, são quarenta e um anos que batem à minha porta. Isso mesmo, 40 + 1 ! Já cruzei a linha dos enta e com certeza só sairei dela agora para uma viagem desconhecida.

Essa sensação de finitude começa a pesar e me dou conta de que meu tempo está diminuindo e contando contra mim.

Não dá para se auto-enganar: a pele já não é mais a mesma, linhas e vincos ao redor dos olhos e mechas brancas se multiplicando na cabeça. O fôlego acaba mais rápido e foi-se embora a flexibilidade de pular um muro ou subir em uma árvore.

Mas a mudança mais significativa não está na embalagem, está na alma. A vista piora, mas parece que enxergo melhor. Coisas que tinham grande importância parecem bobagens ao passo que miudezas do cotidiano ganham uma enorme dimensão. Claro que dá vontade de parar o tempo e congelar, evitando o inevitável. Bobagens até passaram pela minha cabeça, como a vontade de ser mãe de novo (!), até eu perceber que não queria mais um filho, queria meus trinta de volta.

Não dá para ser hipócrita e mergulhar nesses chavões tão cafonas de hoje em dia, como os “40 são os novos 20” , “4.1”e bla’bláblá.

40 não é 30. Acorda! Nada funciona mais como nos trinta, algumas coisas pioram e muito! Mas a graça da vida é essa porque muita coisa melhora também. Cada ano, cada fase tem seu encanto. O medo vai diminuindo e a vontade de nos agradarmos em primeiro lugar vai se tornando o mais importante. Passamos a nos conhecer melhor e a nos respeitarmos mais.

Quem nasceu em meados dos anos 70 e início dos anos 80 sabe bem do que estou falando. Passamos por uma transformação assustadora. Do telefone com extensão para os celulares. Da enciclopédia Barsa para a internet. Dos caderninhos de enquete e agendas-diário para o Facebook…. Assistimos de camarote ao mundo mudando e as relações também. Tudo isso agrega à nossa bagagem e as gerações mais novas, dos vinte e poucos anos não saberão o que era ter hora para ligar para a melhor amiga, ou nunca mais ter notícias do amor de verão.

Esse é o lado bom, ser testemunha das transformações do tempo e da evolução da vida. Ter histórias para contar, lembranças para visitar e ainda tempo para cultivar novos sonhos.

A vida é agora e cada minuto conta. Não dá para deixar nada para depois, nem mesmo aquela mensagem que ficamos adiando eternamente  em mandar – essa é pra vc amiga 😉  . Eu por exemplo, estava acomodada em um oceano de ostracismo. Casa arrumada, filhas e marido, um emprego meia-boca que me ocupava, situação econômica estabelecida e mais nada de muito significativo. Não tive coragem de sacudir e jogar tudo para o alto, mas a vida foi generosa e me virou de ponta cabeça.

Mudei de país, mudei de casa, aprendi uma nova língua, fiz amigos totalmente novos e diferentes e estou batalhando em um projeto profissional que acredito muito. Claro que doeu, claro que dá saudades, claro que morro de medo e dor de barriga às vezes, mas mais do que isso, sinto que estou preenchendo o caderno da minha vida com cores e significados. Mesmo que algumas páginas sejam cinzas de doer….

Já plantei a árvore, já tive as filhas e agora estou escrevendo o livro… vida que segue e que bom ter 41! QUARENTA E UM, e não essa breguice tosca de 4.1, por favor.

Viva!

 

 

 

 

 

A hora de visitar a terrinha – confusão de sentimentos!

Hoje finalmente recebi meu ticket de viagem ao Brasil. Serão 20 dias de férias por lá, depois de quase dois anos longe. Fica difícil descrever a confusão de sentimentos.

Estou muito feliz, por poder rever as pessoas que marcaram a minha vida e sempre serão meu norte. Mas devo confessar que bate um arrepio na alma….o que se passou enquanto eu estive fora, o quanto eu mudei? O quanto tantos mudaram?

A vida de um expatriado é como uma montanha russa. Apesar do clichê, ainda não encontrei definição melhor: uma constante de altos e baixos.  Novas descobertas, novos cheiros, novos sabores e novos amigos e ao mesmo tempo a certeza irrefutável de que tudo que deixamos para trás não voltará jamais!  Não tem como não ser dolorido e delicioso ao mesmo tempo.

Rever o Brasil, minha terra adorada e dourada, depois de quase dois longos anos, causa sim um tremendo frio na barriga.

Nesse tempo que me ausentei, pessoas se amotinaram por suas crenças políticas, guerra travada entre dois símbolos sagrados aos brazucas: a mortadela e a coxinha!   Em comum, pelo menos para quem vê de fora, uma vontade feroz de ver as coisas melhorarem.

Nada  melhorou por enquanto, e o sol poente ainda parece distante da terra brasilis, mas algumas coisas permanecem, como esse calor inconfundível que só se vê por aí….

Ai, meu Brasil, que saudade de você! Saudade de me sentir verdadeiramente abraçada, saudades de ouvir a melodia linda da língua de Camões, saudades de ouvir Chico Buarque ( sim, eu o amo apesar de tudo e contra todos!), saudades do desejo e da saliva na boca de quem espera por uma caipirinha de maracujá com cachaça na areia quente da praia….

São tantas coisas que fazem falta, que acredite você – que sonha com os outlets da Flórida –  nada será capaz de substituí-las!

Acontece que a vida anda, o dia toma o lugar da noite e a primavera dá lugar ao verão! Descobrimos, a duras penas, que não somos árvores e sim seres adaptáveis às condições que nos cercam.

Hoje, gosto de ver bandeiras vermelhas e azuis, pontuadas de estrelas, balançando ao ritmo dos ventos. Gosto de  ouvir Hotel Califórnia, na voz de um cantor anônimo no bar, tanto quanto ouvia Djavan nos bares da vida da Vila Madalena. Aprendi a degustar o sabor de um verdadeiro hamburger e me emociona ver crianças de todas as raças, cores e credos jurarem fidelidade à bandeira de Abraham Lincoln, todos os dias na escola pela manhã.

Enfim e por fim, não existem respostas óbvias ou caminhos claros. A vida é passagem e como dizia meu amado Guimarães Rosa, estamos todos à margem desse grande rio.

Vou fazer minhas malas e rever meus amados, mas agora com um outro sentimento: não mais pertenço ao Brasil, nem tampouco aos EUA! Sou apenas uma terráquea tentando fazer dos limões da vida uma grande limonada! Seguimos….

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atirando para se defender? Brasil e EUA – diferenças…

Pela milésima vez estive em frente à Casa Branca nesse final de semana. Morando em Washington DC, é impossível não levar parentes e amigos que chegam aqui pela primeira vez para conhecerem a “Casa do Obama”(por enquanto).

Não reclamo, eu gosto! A Casa Branca fica em um lugar lindo e agradável para caminhadas, além de ser ao lado de uma das galerias de arte mais charmosas da cidade, Renwick Gallery. Para mim é sempre um bom programa.

Contudo, quando estive lá não consegui parar de pensar em um fato recentemente acontecido e pouco mencionado na mídia. Em maio desse ano, um homem aproximou-se do edifício com uma arma em punho. Sem questionamentos, policiais à paisana dispararam e atingiram o indivíduo, que foi levado em estado crítico ao hospital, mas sobreviveu.

Esse lugar bonito, bem cuidado e aparentemente simpático e cheio de turistas é sem dúvidas um dos pontos de maior tensão do planeta. O policiamento é ostensivo e não se engane, além dos vários policiais uniformizados visíveis, existem outros tantos disfarçados de cidadãos comuns sempre prontos para a ação.

Moro nesse país há pouco mais de um ano, portanto não me sinto confortável para discutir ou questionar seus métodos. Na minha visão pacifista, me pareceu uma reação exagerada, mas de novo, não sou apta para julgar!

Essa semana, quando ainda lidávamos com o absurdo do estupro coletivo no RJ, fomos atropelados pela notícia do menino de 11 anos baleado por um policial em São Paulo.

As discussões acaloradas e cheias de opinião logo tomaram conta do Facebook e vi com tristeza todos discutindo as consequências de mais um trágico acontecimento: os que acham que fez bem a polícia em matar e os que enxergam o fato como uma execução sumária de uma criança de 11 anos. Ao invés de pontes, as pessoas constroem trincheiras através das certezas de suas opiniões.

Pouco se falou sobre as causas e a falência de uma sociedade como um todo que esse caso representa: crianças de 10 e 11 anos, armadas, assaltando na calada da noite, dirigindo carros roubados por São Paulo…

Sim, eu me sinto responsável! Eu falhei como cidadã brasileira e acho que falhamos todos. Não é um problema da periferia, não é um problema de caráter, é um problema social, do qual somos todos igualmente culpados.

Em países de primeiro mundo, até pipocam casos de violência infantil, mas na maioria das vezes ligados a problemas de psicopatias. Casos isolados de transtorno mental. Infelizmente no Brasil é uma epidemia, mais cruel que o vírus da Zika.

Enquanto os intelectualizados discutem fervorosamente no Facebook, tecendo críticas ferozes (e justas) à nossa vergonhosa classe política, uma massa de invisíveis cresce nas periferias.

Me lembro que em 2013 dirigi pelas ruas de Carapicuíba, periferia de São Paulo. Era época de férias escolares e fiquei estarrecida com a quantidade de crianças nas ruas. Sem pais, crianças muito pequenas brincavam perigosamente em telhados das construções precárias, na beira do lago poluído. Sem escola, crianças muito pequenas não sabiam dos perigos que as estavam rondando. Sem atividades, crianças muito pequenas, ficam zanzando a toa pelas ruas de um dos municípios mais violentos do Brasil. Não eram 10 ou 20, mas centenas! Não me esqueço da sensação de tristeza ao olhar para os morros e ver um mar infinito de barracos e crianças por toda parte.

2014-07-25-00000085931
Crianças nas vielas de Carapicuíba – São Paulo

Cheguei em casa e covardemente encarei  as minhas filhas, achando que o que me cabia era dar o máximo de mim para educá-las para um fim melhor. Não me engajei em nenhuma ONG, não voluntariei nas favelas, não participei de nenhum projeto social, apenas reforcei minha atenção para as minhas crias e para as crianças de conhecidos próximos.

Fui egoísta, cuidei somente do meu jardim e achei que votar  para governos melhores e investir pesado na educação das minhas filhas era o que de máximo me cabia fazer. Que tola!

A vida ensina, e foi aqui, no país mais capitalista do mundo que aprendi a importância da coletividade. Os jardins públicos e gramados das ruas em geral, são muitas vezes mais cuidados que os jardins particulares.

Pode ser uma metáfora boba, mas que mostra o que faz um país ser chamado de primeiro mundo: o coletivo vem em primeiro lugar! Nas escolas públicas o voluntariado por parte dos pais é quase que uma regra e não exceção. As crianças se engajam em campanhas de ajuda aos menos favorecidos: são inúmeros os eventos promovidos para esse fim. A diversidade cultural e social, coloca no mesmo banco de escola filhos de congressistas e de imigrantes latinos. Todos limpam a cafeteria depois da refeição e aprendem massivamente a importância de respeitar e honrar o país.

IMG_3222
Crianças nos jardins de uma escola pública em Northern Virgínia 

Ter uma experiência em voluntariado no seu currículo é tão importante quanto uma graduação e desde a escola elementar as crianças são estimuladas a isso.

Isso é mérito do governo? NÃO! Isso é mérito de uma sociedade participativa.

As pessoas trocam facilmente o seu tempo de folga para limpar a escola e a rua do bairro, ao invés de passar o dia cuidando da própria casa. Dividem igualmente seu tempo à manutenção do bairro, a atividades escolares e aos assuntos pessoais. É implícito o conhecimento de que se o todo não vai bem, a sua vida pessoal também estará afetada.

Claro que a perfeição passa longe e o fato acontecido na Casa Branca ilustra o quanto estamos longe de uma sociedade equililbrada. Tanto nos EUA, quanto no Brasil pessoas foram sumariamente baleadas quando se mostraram uma ameaça.

Mas existem diferenças gritantes em ambas situações. Um homem armado em frente à residência oficial do presidente dos EUA, lugar que reúne diariamente centenas de turistas do mundo todo. Trata-se de um país que está em guerra declarada há anos contra o terrorismo internacional e vive sob constante ameaça de ataques. Policiais à paisana atiraram, mas não mataram, em uma “provável” ameaça terrorista.

Já o Brasil é outro país latino que parece ter sucumbido à violência cotidiana: a ameaça veio por parte de um menino de onze anos, que usava uma arma e tinha cometido um assalto ao lado do amigo de dez anos. Foi atingido mortalmente.

Devido a nossa omissão social assistimos inertes a  um país falindo nos escombros da violência e da falta de perspectiva. É mais do que urgente que a sociedade brasileira dedique atenção e cuidado à tudo que rege a vida pública. Quando lutamos somente pela nossa vida privada e pelos nossos interesses pessoais, o país perde como um todo e a bala que atingiu uma criança de 11 anos, na verdade atingiu a todos nós!

Conheço felizmente algumas vozes nessa imensidão que se propuseram à ação. Deixarei abaixo os links aos interessados e uma pergunta aos meus conterrâneos: o que VOCÊ está fazendo a respeito? Acredite, regar apenas o seu jardim não será suficiente. O Brasil clama urgentemente por uma sociedade mais participativa, mais engajada em questões relacionadas à cidadania. Pode parecer pouco, mas o trabalho que você realiza coletivamente dentro do seu próprio condomínio já é um exercício eficaz na construção de comunidades melhores.

Projeto Aquarela  – Projeto comunitário que trabalha com crianças em situação de risco na região de Campo Limpo em  São Paulo. Necessita urgentemente de voluntários!

Projeto Mundo Irmão – Projeto comunitário que atua em duas frentes: estímulo à construção da cidadania através da leitura de livros infantis e ajuda financeira a diversas instituições de caridade proveniente da comercialização dos livros

Band Voluntário – Organização que surgiu no Colégio Bandeirantes em São Paulo e atua na divulgação de várias ONGS engajadas em trabalhos de melhorias sociais, além de outras atividades

Instituto Brasil Solidário – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, voltada à valorização dos ser humano, oferecendo-lhe oportunidades por meio da educação. Atua em todo o Brasil com inúmeros projetos sociais, culturais, educacionais e de saúde. Lindíssimo trabalho que tive a oportunidade de conhecer.

São apenas algumas opções que conheço pessoalmente, mas para quem se interessar, basta um google e certamente você encontrará oportunidades de trabalho para a construção de um Brasil melhor!

Andanças por aí: seres humanos, a melhor parte!

Fiz uma viagem recente à Charleston, Carolina do Sul. Vi coisas lindas e interessantes, aprendi um bocado sobre história norte-americana, tirei muitas fotos, tomei sol na praia e blá blá blá. Poderia ficar aqui me exibindo e detalhando o que qualquer busca no google pode te mostrar e que também detalharei em breve no blog Brasileiras pelo Mundo, mas ao invés disso quero falar de encontros.

Isso mesmo, encontros! Tive dois momentos únicos nessa viagem que valem um post. O primeiro foi em um entardecer na deslumbrante praia de Folly Beach. Um píer destinado aos pescadores segue em direção ao mar, e a sensação de ver o sol se pondo no oceano, em profundo silêncio e acompanhada de quem mais amo já serviu para valer o dia.

IMG_0033
Píer de pescadores na mágica Folly Beach – Carolina do Sul

Mas estávamos em um dia de sorte e teve mais. Na saída do píer notei um belo casal, ele pintava a nanquim em um cavalete e ela estava sentada sobre uma canga colorida cercada de cartas de tarot. Não resisti e parei para puxar conversa…. ele foi criado na mesma cidade que moro hoje, Fairfax VA e anda pelo mundo pintando, desenhando e criando. Uma vida dura, como a de todo artista que ainda não encontrou seu lugar ao sol. Ela tirava cartas e me pediu que escolhesse uma. Fiquei impressionada por ouvir coisas tão coerentes a meu próprio respeito.

Um casal jovem, bonito, desses que fogem às regras e as convenções a que estamos acostumados. Senti emanar deles uma liberdade que desconheço. Apesar das dificuldades que certamente eles enfrentam, eles seguem firmes naquilo que acreditam. Arte.

O trabalho dele, Aaron Burke, é impressionante. Um traço ágil, forte e uma imaginação infinita. Foi um encontro rápido, emoldurado por uma paisagem deslumbrante e que certamente me trouxe um enriquecimento que carregarei comigo, melhor que qualquer souvenir de lojinhas.

Na noite seguinte estávamos caminhando pelas ruas já vazias de Charleston, iluminadas por uma lua que parecia um sol. Procurávamos fantasmas e estávamos justamente fotografando túmulos do belo cemitério da Igreja quando surgiu outro casal. Policiais fardados, típicos americanos desses que você imagina comendo donuts e tomando café.

O homem chegou de mansinho e em um gesto surpreendente perguntou se poderia assustar meu marido, que estava distraído nas fotografias de terror. Achei graça e começamos a conversar. Logos estávamos falando do Brasil e de nossas vidas e qual não foi a minha surpresa quando a policial feminina arriscou umas frases em português! Ela me contou que havia passado o Natal de 2013 no Rio de Janeiro, na casa de uns amigos. Tirou o celular do bolso e me mostrou orgulhosa as fotos da viagem, de uma ceia de Natal em uma comunidade pobre de algum morro carioca. Me disse que esses amigos eram mais que especiais e que os conheceu pois a filha deles tinha sido assassinada em Charleston pelo ex-marido americano, que continua foragido. Essa policial se envolveu na história, ficou íntima da família, a ponto de viajar para o Rio e se hospedar com eles. Disse para mim que não vai desistir de encontrar o culpado e que cuidou pessoalmente de toda a burocracia que um caso desses envolve, prestando apoio irrestrito à família.

IMG_0105-2
Noite de lua cheia em Charleston, cheia de surpresas e encontros

 

Veja só minha gente: dois casais representando os opostos de uma sociedade. Os “hippies”livres e de espírito artístico e os militares uniformizados. Dois casais que em noites seguidas me mostraram o que é humanidade, o que é simpatia, o que é ser solidário ao outro. Dois casais que têm freqüentemente seus papéis execrados nessas redes sociais de ódio e verdades absolutas  (hippie vagabundo e militar opressor).

Sou feliz por estar construindo na minha vida uma rede de amigos que é diversificada. Odeio as panelinhas, odeio as posições estanques que as pessoas se colocam, julgando e condenando os diferentes. Procuro andar pelo mundo de olhos abertos e coração também e sou agraciada por isso recebendo de presente encontros assim, tanto de policias americanos imponentes, quanto de hippies belíssimos no píer. Ambos me mostrando em sua plenitude que ao final somos todos igualmente  seres humanos.

Em tempos de trevas e ódio pelo mundo chega a ser ridícula a repetição da famosa frase cafona: mais amor, por favor. Porém não vejo outra saída que não a da tolerância, a do respeito e fim de julgamentos preconceituosos.

Março já acabou e a Primavera por aqui segue a todo vapor. Esses encontros foram minhas lições de Páscoa e aí? Quais foram as suas?

Até a próxima…. 😉

 

 

Paz

guernica

Viver… Mais do que uma sucessão de horas e dias, trata-se da construção de um caminho. Cada atitude, cada escolha nada mais são do que as pedras que cravamos em nossa estrada pessoal. Por muitas vezes essa estrada se conecta a outras e assim uma rede complexa vai se formando e nos identificando como um grupo coeso, que no mesmo tempo e espaço divide essa trajetória no planeta Terra.

Tudo é tão maior do que nossas pequenas e egoístas expectativas que se nós nos ocupássemos em ajustar as nossas perspectivas, certamente o mundo seria muito mais amigável.

Antes de qualquer nacionalidade está a nossa humanidade. Somos irmãos, independentes de crenças religiosas ou bagagens culturais. Essas deveriam servir apenas para enriquecer nossa existência através da diversidade e não se transformar em bandeiras de rancor e ódio.

Afinal, até entre as relações mais estreitas, que acontecem no seio das famílias, as diferenças e divergências existem.

As ideologias e crenças que nos orientam não podem jamais nos cegar e fazer com que nos esqueçamos de que estamos todos no mesmo barco, lidando e lutando na construção de nossos caminhos.

Quando eu era menina costumava ouvir John Lennon com freqüência pois ele era o ídolo maior do meu pai. Uma alma sensível que compôs uma das mais belas canções da Humanidade e foi encerrada com um covarde tiro de revólver.

Muitos anos se passaram, mas a humanidade ainda não pareceu acordar para aqueles versos e se eu pudesse fazer somente um pedido para o universo, seria que Imagine se transformasse em Reality…..

PS: A imagem que ilustra o post é Guernica, uma das obras primas do artista catalão Pablo Picasso, que tão bem retratou os horrores da guerra e suas consequências depois de um cruel bombardeio em um vilarejo basco, no cenário da Guerra Civil Espanhola, por volta de 1937.

 

Blog no WordPress.com.

Acima ↑