E essa chuva que não passa?

Bom, viver é adaptar-se. Nunca pensei que essa seria a regra da minha vida. Já perdi a conta a quantas adaptações fui submetida desde dezembro de 2014, quando fechei as portas da minha casa e embarquei para os EUA.

De lá, para cá, já morei em 6 (SEIS) casas diferentes. Virei uma expert em embalar e desembalar objetos e chorar de desespero tendo que organizar uma casa do chão ao teto – de novo – sem ajuda.

Isso cria na gente uma alma cigana, uma espécie de desapego constante, ou talvez um trauma: não posso gostar, não posso me envolver, porque a qualquer momento, tenho que deixar tudo para trás. Não é fácil, desde o aspecto emocional e cabeludo da coisa, até às bobagens do cotidiano. Dia desses, me peguei desesperada na cozinha, procurando pelo espremedor de limão, que eu tinha certeza que estava na gaveta X. Sim, estava. Mas na última casa que morei, não nessa.

Pode parecer bobagem, mas estressa e irrita. Textos e posts inspirados adoram dizer e falar sobre desapego, olhar o copo meio cheio, aceitar, blá-blá-blá, como se fossem coisas fáceis de se atingir. Confesso que isso anda me agoniando! A verdade é que, acabam  trazendo ainda mais fardo sobre os meus ombros, pois se não me adapto a culpa é minha, de novo.

Pois bem, estou já há quase oito meses em Seattle. Uma cidade completamente diferente da última que morei, parece até que mudei de país. Se não fosse pelo Starbucks e o Wallgreens, me lembrando a toda hora que estou na América, poderia pensar que mudei para outro planeta.

A cidade tem um milhão de vantagens, se eu fizer uma lista de prós e contras, tenho certeza que as qualidades vencem. Comida maravilhosa, cafés espetaculares, parques lindíssimos, lagos por todos os lados, pessoas simpáticas, senso de comunidade, etc.

Mas tem a chuva, e ela é cruel. Incansável. Não tem praticamente um dia, desde novembro, que ela não apareceu. Nem que seja por alguns minutos, ou algumas gotas. Falta sol, falta cor, falta o brilho das coisas e também das pessoas.

Tudo é perfeito, que nem frutas de cera em uma bandeja. Mas cadê a vida? Essa é a minha sensação. Me obriguei a me olhar no espelho. Não esse, que fica no banheiro, em cima da pia, mas no espelho da alma, mergulhar dentro de mim e tentar entender o porquê de tanta insatisfação. Coitada da cidade, que se esforça tanto para ser cool e diversificada, a culpa não é dela. Nem da chuva.

O que está me faltando são os pedaços de mim, que fui obrigada a largar pelo caminho, com tantas mudanças. Larguei a estudante de crítica e curadoria, larguei a dançarina de flamenco, larguei a mulher chic de almoços com amigas no Shopping Iguatemi, larguei a prima divertida, que fazia festas e churrascos animados em casa, larguei a rata de praia, que descia a serra todo santo final de semana, larguei a dona da galeria virtual, projeto que sonhei tanto. Larguei a aluna de inglês na aula super diversificada de Fairfax, larguei a espectadora voraz de museus e exposições, larguei a exploradora de vinícolas de final de semana, larguei a voluntária da biblioteca, etc. etc.

Ser imigrante é virar uma cebola. Sem glamour e sem luxo nenhum, vamos nos descascando, vamos nos desfazendo e trocando de pele o tempo todo. Creio que aos vinte anos, deve ser maravilhoso. Aos 40, nem tanto! Cansa e eu estou sentindo esse cansaço.

O inverno não acaba, já estamos em meados de abril e o termômetro mal consegue chegar nos 10C. A chuva e o cinza continuam, mas temos o colorido das flores. (Primavera em Seattle é um espetáculo! Muita chuva, lembram? As flores amam…)

Isso cria um tempo, interminável de reflexões e elocubrações, nem sempre positivas.

Esse texto não é inspiracional, é um desabafo. Tem dias que é exaustivo tentar se manter forte e positiva.

Estou com saudades, de todas as Gabrielas que ficaram no caminho. Mas não desisto, continuo procurando preencher todos os buraquinhos que elas deixaram. Escrevo, porque tem coisas em mim, que só saem por escrito e mergulho na arte, minha salvadora de todas as horas.

Aqui em Seattle, apareceu a Gabriela que ama pintar a óleo, faz uns desenhos ridículos, mas está caminhando. Para onde, não tenho a menor ideia, afinal, pode ser que a vida me mova de novo, a qualquer momento.

O negócio é seguir o mantra budista e viver um momento de cada vez. O meu agora é, enrolar o cachecol no pescoço e colocar o casacão de chuva para encarar a rua, afinal esse texto-desabafo me atrasou para o meu compromisso…

Fazer o quê? A vida não para. Sigamos….

 

 

 

 

Meu amor por você… São Paulo!

Ah São Paulo….cidade onde passei 39 anos da minha vida. Cresci em um bairro tradicional e histórico: Ipiranga. Lá encontrei as amigas que são para sempre, apesar de não nos vermos há algum tempo já.

Infância na rua, brincando com meus primos e enlouquecendo as freiras do colégio que eu estudava. Não tinha muita ideia da imensidão da cidade, porque meu mundo se resumia às padarias do Ipiranga, onde adorava ir com meu pai, tomar café da manhã e esperar o frango de televisão ficar pronto para o almoço.

Só aos 17 anos entendi essa cidade. Entrei na faculdade, do lado oposto, extremo da zona oeste! Cruzava todos os dias, do Ipiranga ao Butantã de transporte coletivo: ônibus e metro. Quanta gente diferente, quantas coisas no percurso de duas horas. Aprendia tanto, ou mais do que na sala de aula…

O tempo passou e tanta água rolou por debaixo das pontes do rio Pinheiros e Tietê.

Brooklin, Higienópolis, Consolação, Jardins, Vila Mariana, Pinheiros, Santo Amaro, Lapa, Perdizes, Morumbi, Sé, Aclimação, Vila Prudente, Vila Madalena, Barra Funda…. um bocado de bairros se somaram ao meu repertório. Cada um sendo quase um universo particular.

Problemas, assaltos, descaso. Comecei a odiar e reclamar, muito! Achei que eu e São Paulo estávamos quites. Chega! Vou me embora, não para Passárgada, mas pra Washington DC mesmo.

Já fazem 3 anos e nem em DC estou mais. Agora vivo no Acre americano, Seattle, um canto no extremo noroeste americano, mas que pretende ser e agir como uma cidade cosmopolita, cheia de tecnologia e modernidade, mas um pouco carente da diversidade e da energia que faz da Pauliceia algo tão único!

Nem em Nova Iorque é possível encontrar essa magnitude urbana – desculpa aí Douglas 😉

Penso que não sou do Brasil, sou de São Paulo. Essa terra do concreto e da feiura, que carrega uma mistura explosiva de todos os cantos, carregada de brasilidade. Eu sei, é confuso mesmo.

Não tinha ideia do quanto já era familiarizada com a cultura japonesa, goiana, italiana, mineira, espanhola, alemã, baiana, recifense, curitibana, catarinense, haitiana, francesa, manauense, árabe, judaica…  Nos limites dessa cidade cabe o mundo!  Obrigada São Paulo, por me preparar. E ah, São Paulo, como te odeio. Porque você me deixou mal- acostumada e em nenhum canto do mundo encontrarei o que você me proporcionou.

Saudades do seu caos, minha amada terra! Foi preciso perder-te para ver o quanto é gigante e generosa.

Quem sabe, um dia, não nos encontramos novamente?

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