A arte em tempos de guerra – Shirin Neshat

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Shirin Neshat, Rapture Series, 1999. Photograph taken by Larry Barns. © Shirin Neshat. Courtesy Gladstone Gallery, New York and Brussels

“Arte é a nossa arma. Cultura é a nossa forma de resistência. As vezes eu invejo os artistas ocidentais, por sua liberdade de expressão (…) mas também me preocupo com o Ocidente, porque a cultura corre o risco de ser apenas uma forma de entretenimento.” – Shirin Neshat.

Já falei mais de uma vez, mas não canso de repetir, Washington D.C. é um lugar privilegiado para os amantes de Arte. Na capital americana, existe uma infinidade de museus e todos são gratuitos.

Minha recente descoberta foi o Hirshhorn Museum, mais um museu do gigantesco complexo cultural Smithsonian. Esse museu foi fundado em 1974 por Joseph Hirshhorn, imigrante da Letônia, que cresceu no Brooklin – NY, com sua mãe viúva e seus 12 irmãos.

Fotografia de Mark Alan André
Vista do prédio do Hirshhorn Museum com seu jardim de esculturas povoado por obras de Ai Wewei.

Sua coleção impressionante de arte moderna e contemporânea foi doada ao Smithsonian e logo abrigada em um maravilhoso prédio projetado por Gordon Bunshaft, ganhador do Pritzker Prêmio de Arquitetura.

Tudo no prédio é maravilhoso: sua construção redonda e forrada de painéis de vidro, seu pátio interno e seu jardim adjacente de esculturas modernas e contemporâneas.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hirshhorn_Museum_Sculpture_Garden.JPG
Jardim de Esculturas anexo ao museu. Hirshhorn Sculpture Garden

Mas não quero descrever o museu. Isso está muito melhor explicado na página oficial que se encontra aqui: http://hirshhorn.si.edu

Quero falar de uma exposição que visitei lá e que foi uma daquelas de arrebatar! Trata-se da artista iraniana Shirin Neshat. Como mulher, como iranina, como exilada e como imigrante ela já teria muito para contar. Some-se a isso a sua delicadeza, o seu olhar, a sua captura do belo, mesmo no meio de tanta dor, tanta intolerância.

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Quem encontra a Julia, minha filha, nessa belíssima imagem?

Quando a Arte atinge esse patamar, ela me arrasta. Povoa minhas ideias, meu coração e meu sono por dias. Aliás, passam- se anos e ainda consigo lembrar de imagens que vi em exposições memoráveis.

O mundo está em guerra. A guerra do oriente médio diz respeito a todos nós, cidadãos ocidentais. São mulheres, são crianças, são seres humanos que perderam o seu direito mais precioso: à vida!IMG_1835

O Brasil, apesar de não viver a realidade do fanatismo religioso, vê crescer a cada dia a intolerância e o desrespeito ao diferente. Essa dualidade que o país assiste atualmente é perigosíssima! “Cidadão de bem” que atropela e mata o bandido  é saudado como herói na internet. Amigos queridos e próximos, que vejo todos os dias nas redes sociais, cegos pelo ódio, incitando a violência e a ideologia do olho por olho, dente por dente.

Estamos regredindo e isso me assusta. Evidente que a lambança política e o populismo barato, grandes responsáveis por toda a situação caótica que se vive no Brasil, também me enojam e me causam indignação. Contudo, essa indignação não pode ser maior do que a nossa humanidade.

As últimas semanas foram terríveis! A foto do menino Aylam na praia do Mediterrâneo escancarou um realidade cruel, que não se via desde os tempos nazistas. No Brasil, a decadência política e a falta de esperança, nos EUA, o menino Ashmed preso por ser criativo e muçulmano… Às vezes queria só parar o tempo, respirar e tomar um copo de água.

Para isso existe a Arte, que salva, que cura e mostra caminhos. Como esse de Shirin Neshat que sobreviveu ao horror e nos conta sua história.  Existem ainda tantos outros, pequenos e anônimos artistas pelo mundo, que insistem em criar, pintar e desenhar a esperança.

A Arte é o que melhor evidencia a nossa humanidade. Que essa ferramenta poderosa sirva como luz a nos guiar nesses tempos de trevas.

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Julia e Amanda em uma das salas da exibição

Fiz minha parte, levei minhas filhas à exposição. Passamos alguns jantares discutindo intolerância religiosa e racial, o papel da mulher no mundo, viver em culturas diferentes. Todos esses tópicos surgiram a partir de Shirin Neshat e a ela sou grata. Através da arte estamos tentando construir cidadãos melhores, capazes de um dia fazer desse planeta um lugar menos inóspito…

PS: A fotografia que ilustra o cabeçalho desse post eu tirei outro dia, andando por D.C., quando me deparei com esse magnífico painel de Chagal, feito em 1969  e extremamente atual. Observem e tirem suas próprias conclusões:

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Marc Chagal – Russian – 1887 – 1985 Orphee – 1969 Stone and glass mosaic

Queria um dia conhecer a Grécia…..

Ilha de Kos - Grécia
Ilha de Kos – Grécia

Nesse vasto mundo são tantos os lugares que sonho em um dia conhecer e a Grécia, está entre os primeiros. Mas hoje, acordei e vi uma foto diferente da Grécia dos meus sonhos de mares azuis. Era um menino morto na praia. Um menino.

O mar da Grécia hoje ficou negro. Pensar em turismo me pareceu tão nonsense nesse mundo em guerra, porque estamos em guerra, faz tempo! E sim, diz respeito a todos nós. A violência, a ganância, o radicalismo e tantas outras imbecilidades parecem estar ganhando a luta contra a civilidade.

Chorei. Penso em que tipo de raça estamos nos tornando. Cada vez mais conectados, cada vez mais tecnológicos e cada vez mais frios e indiferentes.

Acompanho há tempos o drama dos refugiados sírios. Minha curiosidade tem um motivo pessoal, pois minha irmã está morando com a família na Base Militar de Icirlik na Turquia, que é a  base mais próxima da fronteira com a Síria, onde milhares de refugiados sírios-curdos, chegam diariamente.

Já li muito, conversei a respeito, mas ainda não entendo. A situação é extremamente complexa e não vou me atrever a tentar explicar, mesmo porque certas coisas jamais terão explicação.

Ontem morreu o Aylan, menino curdo de três anos de idade. Outro dia morreram outros, tanto no Mar Mediterrâneo quanto nas terras tropicais brasileiras. E o mais cruel, muitos outros morrerão amanhã.

Queria que se “Ele” existisse, pudesse me responder. Por quê? Por nascerem curdos? Por nascerem cariocas nas favelas do tráfico? Por serem apenas crianças na hora errada e no lugar errado?

O mundo hoje se debate com a questão dos refugiados e milhares de dedos em riste apontam para a Europa xenofóbica, que fecha seus portões a essa gente errante. Aqui nos EUA sou imigrante e assim como eu, vejo milhares de famílias de distantes partes do mundo. Desconheço a política americana de refugiados, mas sei que a política migratória é bastante restritiva, mas ainda assim, pessoas de todos os cantos chegam aqui para fazer a vida – e muitos conseguem admiravelmente.

A humanidade expulsa seus filhos de sua própria terra e também não é capaz de abrir a porta àqueles que vêm em busca de esperança.

Essa não é a Grécia dos meus sonhos. Esse não é o mundo dos meus sonhos. Meu coração hoje está com Aylan, boiando no Mediterrâneo.

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