Somos todos iguais…simples assim.

Pois é, ser humano é uma coisa engraçada não? A gente nasce e logo nas primeiras horas de vida começamos a aprender. Aprendemos por observação e instinto e assim, quando a fome aperta choramos, pois já sabemos que aquele ser maravilhoso que nos carregou por meses na barriga, irá correndo nos atender na nossa primeira necessidade. Observação e instinto, portanto.

Vamos nos desenvolvendo e continuamos a copiar ou rejeitar comportamentos alheios. Nossa língua, não à toa, é chamada de língua mãe, pois é o som mais familiar que conhecemos. Repetimos os sons, jeitos e comportamentos de nossos pais, desde a primeira infância. Depois saímos do conforto da casa e caímos nos desafios da escola e do mundo: convivências e muito, muito mais aprendizado.

Reagimos conforme aprendemos e assim, aos poucos vamos construindo a nossa personalidade. E aqui está a pegadinha: nos achamos únicos, incríveis ou não, mas quase sempre acreditamos erroneamente que só nós sentimos, pensamos e vivemos dessa ou daquela maneira. Esquecemos que somos, antes de qualquer coisa, frutos de um meio e portanto, produto e consequência de outros que vieram antes ou ao mesmo tempo que nós.

Não somos exclusivos, não somos especiais e nem a última cereja do bolo. Também não somos os renegados, coitados e únicos sofredores nesse mundo. Se é assim, por que então nos agoniamos tanto com nossas próprias vidas? Ou por que nos sentimos sempre tão importantes e extraordinários?

Para deixar mais claro o que digo vou citar um exemplo pra lá de clássico: das mamães que acham que seus filhotes são seres especiais e iluminados, com inteligência acima da média e com caráter que lembra o do Buda….pois é, acho que 99,99% das mães que conheço acreditam nisso e por que então não vivemos em uma sociedade iluminada e perfeita?

Todo esse papo é para dizer que quando saí do meu mundo confortável e conhecido e passei a viver aqui nos EUA, imersa em outra cultura, fui obrigada a expandir meu olhar. A solidão nos torna automaticamente grandes observadores. Parei de viver no automático e passei a prestar muito mais atenção ao que me cerca. Aos lugares e pessoas a minha volta.

Descobri semelhanças profundas em mães que vieram de um lugar chamado Eritréia, que eu antes nunca tinha ouvido falar. Descobri diferenças gritantes em meio a brasileiras que vieram de um mesmo contexto que o meu. E assim percebi o óbvio: somos exatamente iguais. Medíocres iguais, medrosos iguais, ansiosos iguais, orgulhosos iguais, teimosos iguais, etc. etc.

Temos sonhos, medos e anseios semelhantes ao do nosso vizinho, do entregador de pizza ou do presidente da república. (mesmo que ele seja laranja! 😀 ). Somos simples e complexamente humanos.

Um post que encontrei essa semana no Facebook foi o que me motivou a escrever esse texto. Trata-se da linda história de dois amigos da pré-escola que cortaram seus cabelos iguais, para que a professora pudesse confundi-los. Eles se amam tanto e se reconhecem tanto um no outro que o fato de um ser branco e o outro negro simplesmente passou despercebido. A história toda você vê aqui.

Eu me emocionei e parei para pensar. Em que momento deixamos essa simplicidade maravilhosa da infância ir embora? Em que momento passamos a nos sentir superiores ou inferiores ao outro e assim começamos um processo mesquinho e egoísta de vida?

Ser humano significa andar pelo mundo com milhões de espelhos a nossa volta.

Espelhos que encontramos naquele vizinho antipático, naquela amiga fofoqueira, naquela modelo maravilhosa da revista. Somos todos muito mais parecidos do que pensamos….

Morar em uma cultura que não é tão aberta à troca é difícil. Norte-americanos são normalmente muito fechados. Dificilmente abrem a guarda da vida e da intimidade e é comum o sentimento de isolamento de quem vem de fora. Mas analisando friamente a cultura de onde vim e de onde fui criada (Brasil) também chego a conclusão que somos “aparentemente” abertos. Expomos nossos feitos em redes sociais, lamentamos nossas dores publicamente no FB, mas a relação de sinceridade, de olho no olho e troca autêntica de experiências é coisa muito rara, mesmo em amizades longínquas e relações familiares.

Vivendo aqui sinto muita falta desse olho no olho, e percebo que a intimidade e o amor que achei que tivesse com tantos no Brasil, na verdade era muito fugaz e superficial.  Eu que mantinha a minha casa brasileira cheia de amigos e família, vejo hoje que foram poucos, pouquíssimos os que permaneceram.

A responsabilidade também é minha. Acho que todos nós nos colocamos em uma bolha de superioridade ou inferioridade em um certo momento, e com isso nos isolamos em nossos mundos, sem perceber que é a troca que nos salva, é a troca que nos faz crescer.

Como sempre a arte é muito mais precisa do que as palavras. Esse magnífico trabalho de Hans Eijkelboom, exposto na 30. Bienal de Artes de S. Paulo, mostra pessoas ao redor do globo que foram fotografadas por ele durante 20 anos.

Ele agrupou-as em tipos semelhantes de roupas e comportamento e o resultado é esse: não somos únicos! Inevitavelmente existirão ao redor de nós muito mais iguais do que imaginamos e mesmo o nosso maior arroubo de criatividade já foi feito por outrem ou será feito um dia. Somos apenas pequenos pontos nesse vasto universo…

Vamos descer do pedestal? Vamos romper as bolhas?

Um caminho é ter como lema a belíssima frase de Mário Quintana: “O amor é quando moramos um no outro”. Quando entendemos e aplicamos a dimensão disso em nossas vidas, tudo fica infinitamente mais fácil. Bora tentar?

Até a próxima! 🙂

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

50 tons de laranja

 

50 tons de laranja….

Laranja sempre foi uma das minhas cores favoritas, alegre, vibrante, cheia de energia! Além de remeter à fruta, que pela combinação de simplicidade e riqueza é uma das maiores bênçãos da natureza.

Infelizmente deixei de ser fã da cor, desde o início do ano passado, por razões um tanto óbvias. Laranja também pode remeter ao “fake”, ao bronzeado ridículo e artificial e também àqueles que inocentemente (ou não) se prestam a fazer papéis escusos para defenderem poderosos.

Você sabia que uma escala tonal pode ser composta por infinitas graduações de cor, e não é só o cinza que apresenta essas nuances todas.

Usando um pouco da ironia como estilo de escrita, já que em tempos estranhos é melhor falar em entrelinhas, vou propor um teste, para saber em que tom de laranja você se encontra. Cada resposta afirmativa aumenta o seu tom cítrico.

  • Você acredita ferozmente que suas opiniões (sobre tudo) correspondem à verdade absoluta?
  • Você acha que o único caminho a Deus e à salvação religiosa é através da sua crença pessoal e todas as outras estão equivocadas?
  • Em uma roda de amigos, ou em feeds de redes sociais, você sempre quer ter a palavra final?
  • Você despreza todos que tem visão política diferente da sua?
  • Você abomina o aborto, mas fecha os olhos para as milhares de crianças em situação de miséria extrema e risco de vida dentro do seu país?
  • Você defende que “cidadão de bem” possua arma para se defender e matar quando for preciso?
  • Você se diz tolerante aos gays, mas desde que eles expressem suas escolhas bem longe de você e de seus filhos?
  • Você acha que “ser gay” é fruto de uma má influência da mídia e dos tempos atuais?
  • Você respeita as mulheres, mas concorda que a culpa de estupros, traições e sexismo é sempre delas mesmas?
  • Você abomina a visão política da esquerda?
  • Você despreza a visão política da direita?
  • Você acredita que o mundo é bipolar, dividido claramente entre bons e maus, petistas e coxinhas, anjos e demônios, sem nada entre eles?
  • Você repete frases como: “bandido  bom é bandido morto?
  • Você acredita que todo favelado é bandido? (ou que todo muçulmano é terrorista?)
  • Você acha que o Sudeste (e sobretudo S. Paulo) carregam o Brasil nas costas e deveriam existir barreiras físicas contra a migração nordestina?
  • Você acredita que o esforço individual é o único fator responsável pelo sucesso (ou fracasso), sem considerar o contexto social?
  • Você defende uma cidade limpa, onde qualquer manifestação artística tem que ser substituída por cinza? Afinal de contas está se cuidando da saúde pública e uma coisa tem tudo a ver com a outra coisa, assim como borboletas, sereias e maionese e inclusive verba pública!!….

Pois é, eu poderia continuar essa lista infinitamente, mas paro por aqui. Viu só como temos mais laranja dentro de nós do que imaginamos (eu inclusive!). Em uma escala ou outra, essa é a cor do momento e não se trata de exclusividade dos EUA.

Acho que é tempo de refletir: em que medida me situo no meio em que vivo? Em que medida minha tolerância e empatia superam as minhas crenças ideológicas e religiosas?

O mundo só muda quando mudamos e mais do que nunca é preciso revermos aquilo que nos torna humanos, ou corremos o risco de nos olharmos no espelho e vermos refletido apenas a sombra de um palhaço laranja….

 

 

 

 

 

 

 

 

Conexões 


A vida é a arte dos encontros, ou desencontros. Não importa realmente como, mas de uma maneira ou de outra estamos sempre nos conectando a  pessoas e nos desconectando de algumas. Já pararam para pensar em quantos seres cruzam nossos caminhos? Pode ser o vizinho passeando com o cachorro, o guarda de trânsito, o colega de trabalho no elevador, a mãe segurando o filho no banco do metrô, enfim…. possibilidades infinitas! Desses encontros aleatórios podem surgir conexões profundas e duradouras, assim como amizades fugazes que duram somente uma estação ou o tempo dos interesses em comum.

Falo isso porque  já estou batendo na porta de 2017 e também já cruzei a linha dos quarenta anos. A reflexão é inevitável. Penso em tantas pessoas que passaram pela minha vida. Tão poucas que permaneceram e tantas que deixei seguir ou que me deixaram também. 

A internet e sua conexão poderosa até permite que eu bisbilhote de quando em vez aqueles que já não são íntimos. Aqueles que dividiram um tempo com uma Gabriela que já não existe mais.

Dizem que morremos e renascemos constantemente e eu vejo verdade nessa afirmação. Os propósitos, as crenças, os sonhos e realidades se transformam e modificam também nossa essência. 

Mudar de país e viver em um lugar longe de tudo que é familiar criou um divisor de águas na minha existência. A solidão virou a companhia constante e o sorriso do caixa do supermercado passou a ter uma importância gigante.

Parei de viver no automático e passei a ser observadora de cada segundo da minha vida, afinal tudo traz possibilidades e experiências inéditas.

Às vezes dói  e outras alivia.  Ser a sua própria companhia proporciona revelações que  relação nenhuma poderá te trazer. Aprendemos muito com o outro, mas aprendemos ainda mais com o que o outro deixa em nós.

Agora estou de férias, em um dos lugares mais paradisíacos do planeta. A natureza vibra aqui em uma proporção assustadora! Me faz refletir, me faz aquietar e curiosamente tem me feito sonhar. 

Sonho todas as noites com pessoas que já passaram pela minha vida , pessoas de quem não ouço falar faz tempo, mas que de uma certa maneira continuam vivendo em mim.

Estamos todos ao mesmo tempo dividindo esse passeio pela Terra, em um momento complicado, turbulento, com muito mais dúvidas que respostas. 

Eu tenho medo, confesso. E talvez tenha até deixado meu otimismo cair da bolsa nesses meses difíceis que preencheram 2016. Porém estar  aqui e sonhar com olhares e sorrisos de quem já fez parte da minha vida me fez acreditar definitivamente em algo maior. Uma espécie de conexão que ultrapassa a barreira do contato físico.

O ano novo não muda nada, apenas mais uma página virada no calendário. A mudança está na mente e no coração de cada um. 2017 chega e exige que sejamos fortes, perante a tantos obstáculos.

Próximos ou não, amigos ou não, acho que devemos  apenas nos conectar e deixar viver no outro aquilo que nos falta. 

Sinto muito falta de alguns e também gratidão, principalmente por todos os pedacinhos que habitam em mim, e que me fazem ser quem sou. Eles vieram de todos vocês, que um dia compartilharam o meu caminho.

Namastê e que venha 2017 com mais pontes do que muros.

A vida é tão rara….

Eu ando cansada…. Cansada do frio que mal começou, cansada dos dias curtos que terminam às 4h30 da tarde, cansada do meu feed de notícias que só me traz desilusão, enfim, não estou vivendo meus melhores dias.

Já li um bocado sobre a depressão de inverno, bastante comum em pessoas “tropicais”que vivem no hemisfério norte. O antídoto é sempre o mesmo: atividades ao ar livre, alimentação saudável, pensamentos positivos. Parece tão fácil, mas não é.

Fica difícil ter coragem de caminhar sob a garoa constante e o frio de 0 grau, impossível trocar o chocolate quente pelo suco de couve e o mais complicado: pensar em coisas boas quando você acorda e vê que um avião com vários jovens atletas, cheios de esperança e alegria caiu nas florestas da Colombia.

O mundo anda árido e 2016 foi um ano bem complicado. Depois de 2015, com o terrível incidente da Samarco em MG, processo político decadente do Brasil e do planeta, a crise de refugiados, etc. cheguei a achar que nada de pior poderia vir a acontecer nessa maltratada atualidade. Mas 2016 chegou querendo destaque: atentados terroristas, mais e mais decadência política, morte de pessoas essenciais e Donald Trump. Agora essa tragédia aérea envolvendo os meninos de Chapecó….

Eu sei, está difícil. Mas continuo acreditando que a vida é escolha. Em meio ao caos, precisamos focar nosso olhar em direção àquilo que nos alenta. Parece uma bobagem, mas às vezes a felicidade vem em gotas homeopáticas.

Uma fotografia bonita, uma mensagem carinhosa e inesperada, um salto amoroso do cachorro de estimação, uma chamada de vídeo no Facetime, um estranho gentil que segura a porta e sorri pra você…. São nessas miudezas da vida que a gente se alimenta e encontra forças para seguir em frente

A vida não para, não espera e é rara, como já diz aquela música linda do Lenine que eu deixo aqui  para vocês.

 

Acho que precisamos todos de um esforço coletivo, retornando ao mundo paciência e esperança, porque só assim conseguiremos sair dessa nuvem cinza para transformar positivamente esse mundão, que apesar de todas as suas dores é maravilhoso. Estamos todos juntos nesse barco que não para nunca e cabe somente a nós que seu percurso seja feito sobre águas calmas.

 

O dia depois de amanhã e o início da era Trump

Meu café que me acompanha agora está amargo, assim como meus pensamentos. Não é fácil acordar depois de uma tremenda ressaca emocional, onde eu vi vencer o racismo, o machismo e a misoginia. Mas é preciso erguer a cabeça e ver a figura inteira: como chegamos até aqui e para onde iremos depois?

Donald Trump venceu democraticamente e legitimamente, por pouco menos da metade dos votos. O sistema eleitoral americano, que é completamente diferente do brasileiro, o elegeu através da maioria ganha nos colégios eleitorais. Isso indica que os EUA está dividido, rachado ao meio entre dois pensamentos completamente diferentes.

Essa mesma polarização aconteceu na Inglaterra, na Itália, em Israel e no Brasil, entre tantos outros lugares… Trata-se de um fenômeno atual e global. Não existe mais meio termo, pessoas estão se amotinando atrás de suas crenças, deixando nenhum espaço para a conciliação.

No primeiro dia após o resultado da eleição, esse efeito devastador já pôde ser observado em atitudes execráveis ao longo do país. Alunos de uma High School da Pensilvânia marcharam durante o refeitório e gritando: construa o muro!  Eles carregavam placas do Trump, enquanto outros alunos latinos, asiáticos e imigrantes em geral ficaram acuados de cabeça baixa.

A filha de 8 anos de um conhecido meu, eleitor de Trump, foi para a escola pública em Maryland e foi questionada por sua professora em quem seus pais votaram. Quando a resposta foi Trump a professora começou a gritar com a menina, sendo apoiada por outra professora. Pais que estavam no corredor tiveram que entrar na sala para acalmar os ânimos.

Vários fatos, tristes como esses, já começaram a acontecer no primeiro dia da era Trump e podem ser facilmente encontrados na internet. Milhares já se programam para protestar contra o novo presidente e milhares já se preparam para defendê-lo. O clima é tenso, hostil e infelizmente não vai melhorar….

Passei boa parte da noite pensando e lendo tudo o que podia para tentar encontrar respostas. Cheguei a algumas conclusões, ainda muito cruas, que queria dividir aqui.

Graças à internet e sobretudo ao Mark Zuckerberg o mundo mudou! Todas as nossas relações mudaram completamente mas continuamos a ser educados a pensarmos em moldes que não fazem o menor sentido hoje. Felizmente, agora um número infinitamente maior de pessoas ao redor do mundo tem acesso à informação. Basta um clique de qualquer celular e você estará assistindo ao vivo pessoas falando de Bangladesh, se você quiser.

O problema – grave –  é que com a democratização massiva da informação, podemos filtrar aquilo que nos alimenta. Dificilmente perderemos nossos minutos de navegação diária para lermos a respeito daquilo que não aceitamos. Um exemplo prático para qualquer brasileiro: eleitores da Dilma e do PT jamais usarão como fonte de informação o blogue do Reinaldo de Azevedo. Da mesma forma que seguidores do Rodrigo Constantino jamais lerão os textos de Jean Willis.

E assim vamos nos aprisionando em uma bolha perigosa, que só reforça nossas convicções e nos faz acreditar em certezas distorcidas da realidade. O ódio vem na sequência e tudo que é diferente daquilo que eu acredito passa a ser visto como abjeto e desprezível.

É um perigo! Eu mesma caí nessa bolha, quando me opus veemente à reeleição de Dilma no Brasil. Fui rasa, fui parcial e me alimentava só de informações que me diziam o que eu acreditava. Foi através da dor de viver em outra língua e ser obrigada a conviver em uma realidade muito diferente  que me fez ver o quanto a gente cresce na diversidade e o quanto nossos pontos de vista podem ser estreitos.

Nesse momento, por mais que seja difícil,  é preciso pensar: Será que a metade dos eleitores americanos, que são pró Trump, estão totalmente desprovidos de suas razões? O maior exercício de humanidade é colocar-se na pele do outro e cada vez menos fazemos isso.

Não sou imparcial e tenho  também minhas próprias convicções, seguem algumas:

  • não sou religiosa e critico racionalmente a fé cristã (já perdi amigos por isso L )
  • defendo o aborto e o direito de escolha das mulheres (apesar de nunca cogitar em fazê-lo, sendo essa a minha escolha)
  • aplaudo a diversidade e o casamento homossexual, assim como a liberdade sexual de qualquer pessoa
  • sou a favor da democracia e ainda que ela traga resultados amargos, como os dessa eleição, ela é o sistema mais justo criado pelo homem
  • sou absolutamente contra qualquer arma de fogo e defendo a restrição absoluta das mesmas

Poderia continuar essa lista infinitamente e nem assim estaria falando verdades mas apenas expondo o meu ponto de vista! Percebem a diferença entre opinar e catequizar?

Respeito e estou completamente aberta à discussão de argumentos contrários a qualquer um dos itens que escrevi acima, mas infelizmente sei que muitos, depois dessas minhas afirmações, passarão a me ignorar solenemente.

Eu sigo firme na minha maior defesa: ter liberdade para fazer minhas escolhas ideológicas, pessoais e políticas, sem cercear e agredir os diferentes e nem permitir que me agridam.

Parece utópico demais pensar que um dia esse consenso irá existir, mas o contrário disso está apenas nos arrastando para as trevas que o mundo assiste hoje.

Permita-se ler e se informar em fontes diferentes das que te agradam, aproveitando o privilégio de ter acesso a toda e qualquer informação.  Você pode se surpreender positivamente! Isso ontem aconteceu comigo, quando um crítico ferrenho à campanha da Hillary Clinton me apontou motivos incontestáveis para a vitória de Trump.

É preciso sair da bolha, é preciso ouvir o outro, é possível darmos as mãos e pensarmos na construção de um mundo menos cruel. Precisamos mais do que nunca de pontes ao invés de muros….

Vamos todos tomar um trago de esperança?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A experiência de ser turista na minha terra – 20 dias de Brasil

Então, eu fiz um carnaval em um outro post quando disse que iria ao Brasil não foi mesmo? Estou me sentindo em dívida para quem me lê e quer saber como foi essa experiência de ser turista na própria terra. Vamos lá?

O primeiro choque é o conforto de ouvir, falar e pensar em português o tempo todo. Foi uma espécie de alívio, como quando a cabeça para de doer depois de dias de um incômodo. Se traduzir o tempo todo é um dos grandes desafios de quem vive fora da terra de origem. Mesmo aqueles ultra super fluentes, com o inglês no automático, sabem que o conforto de se expressar na sua própria língua faz uma grande diferença.

Se sentir abraçado e sentir querido também cativa o coração. Mas algumas gotinhas de dor pingam nessa atmosfera. Você percebe que nem todos sentiram sua falta como você as deles e alguns com quem você tanto contava e ansiava em ver, simplesmente ignoram a sua visita, afogado que estão nas suas vidas cotidianas. Pode ser um pouco chato, mas é a primeira e grande lição: a vida continuou…. Você mudou de casa, de país, de emprego e de amigos, quase um tsunami na própria vida e acaba se esquecendo de que todo mundo que ficou continuou com a mesma rotina de sempre. Fica difícil para aqueles que ficaram dimensionar e avaliar a importância de um abraço. Eu entendo e supero, juro!

Outros, ao contrário, nos surpreendem com o carinho sincero e a receptividade. E aí até machuca mais, afinal como voltar e viver longe de pessoas tão especiais? (aqui faço uma pausa pra engolir um soluço).

As comparações são inevitáveis. Moro na Virgínia, ao lado da capital norte-americana. Ruas e bairros impecáveis, equipamentos e serviços públicos primorosos, melhores escolas do país, altíssima renda per capita, blá, blá, blá…. São Paulo me dá um soco com o seu oposto: ruas ainda mais sujas e abandonadas do que me lembrava, violência explosiva, sensação constante de insegurança, estilo de vida caríssimo e incompatível com a realidade da maioria. Miséria e carro blindado, o tempo todo, todo o tempo.

Foi difícil essa parte. Confesso que pensei, não quero viver mais aqui não. O ar pesado de poluição e uma gigantesca diferença social. R$700,00 reais um jantar em um lugar comum, muita gente, mas MUITA, dormindo sobre jornais na Av. Paulista  (!). Difícil lidar e encarar.

Mas aí vem o almoço elaborado no capricho pelas amigas, o mar verde e delicioso em pleno inverno, o cheiro de pão da padaria e a coxinha estalando na boca. Complicou! Uma montanha russa de emoções. Pertenço mas não pertenço, entende.

Esse é o sentimento de um expatriado. Cadê meu lugar, aqui ou lá, ou os dois? Já aprendi a gostar dos EUA, da organização, do respeito e da beleza dos lugares por onde passo. Só que meu coração não vibra, ele se aquieta. É diferente.

No Brasil eu odeio e amo intensamente o tempo todo, meio exaustivo, mas muito vivo.

Não tenho respostas…. por enquanto vou tocando meu barco aqui focando na frente, absorvendo todas as experiências e oportunidades que essa terra proporciona e tentando não olhar para trás. Continuo fiel ao meu ideal de não ser árvore e poder me deslocar por esse mundo todo de olhos e peitos abertos. Mas faço um adendo, apesar de não ser árvore, tenho raízes e essas serão eternamente verde e amarelas!

 

 

Casamento – o maior de todos os desafios!

BeFunky Collage2

O que nos diferencia como humanos de todos os outros seres vivos do planeta? A convivência e os afetos…

Desde bebês amar é o verbo mais utilizado. Amamos nossas mães, amamos o colo e conforto do peito. Crescemos e vamos nos conectando, com irmãos, amigos, colegas e vizinhos. Alguns permanecem, outros vão se embora pela vida.

Nesse oceano de rostos e personalidades terá sempre uma que baterá mais forte e com essa decidimos nos casar. A paixão, os sonhos de uma vida em comum pela frente, os arrepios e desejos, tudo isso faz parte do caldo inicial. Achamos que não poderemos mais viver sem aquela pessoa e decidimos nos unir em matrimônio (oficial ou não).

Começam os desafios, as dificuldades. Dividir cozinha, banheiro e dinheiro não é para qualquer um… De repente chegam filhos e tudo vira outra coisa. Não é mais um casal, mas sim uma família. Um micro-organismo vivo, com regras e funcionamentos próprios, que compartilham ideias, gostos e sonhos.

Claro que existem divergências profundas, cada um vêm de um background diferente. Aquele charme do início, “ai que fofo, ele ama filmes de terror”, vira rapidinho uma implicância e uma irritação.

Tudo pode ser motivo para briga e discórdia, mas quando o encontro é de almas, isso fica pequeno.

Por que falo tudo isso? Porque hoje, dia do meu aniversário, comemoro 20 anos de casamento. Não com a mesma pessoa, porque no decorrer desses anos todos nos modificamos bastante. Estou longe daquela menina insegura que entrou na igreja em 1996…

Mas a vontade de ficar junto, a parceria, a amizade são maiores. Claro que a viagem nem sempre foi tranquila e enfrentamos muitas águas turbulentas. Mas o segredo, se é que existe um é esse: nos amamos  exatamente pelo que somos.

Podemos passar horas em silêncio um ao lado do outro, sem a necessidade de palavras. Cultivamos e investimos em prazeres em comum, brigamos e ficamos de mal, mas nunca mais do que por uma noite. Sentimos saudades e toleramos a cara feia e amassada de manhã. Te amo, parabéns pelos 20 parceiro!

É possível encontrar isso, não existe só em filmes e contos de fadas.  Pego carona na dica de  Vinícius de Moraes, que casou dezenas de vezes e conhecia o assunto como ninguém! Fica aqui a contribuição do poetinha:

“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração”

Vinícius de Moraes – Samba de Benção