Vilarejo

Tocando “Vilarejo” da Marisa Monte no carro e eu começo a chorar. As lágrimas escorrem no meu rosto e mal consigo me controlar. Dirigindo mais uma vez, por baixo das gigantes e centenárias árvores das ruas de Capitol Hill – o bairro mais bonito de Seattle – com o sol dourado de janeiro, iluminando os galhos.

Sempre gostei de sinais. Acho que são ferramentas dos anjos, ainda que não acredite muito em anjos, vai entender… E a música começou a tocar quando eu estava pensando no quanto estou sempre de partida.

Na verdade, estamos todos de partida, mas para mim isso ficou muito mais concreto depois que saí do Brasil. São tantas despedidas que mal cabem no meu peito. Além das pessoas, passei a me despedir de calçadas, árvores, cafés, cheiros, paredes e texturas. Toda essa miscelânea de coisas ordinárias que compõem uma vida…

Agora estou aqui, escrevendo a mão. Só por curiosidade, mas quando as palavras saem lá do fundinho de mim, preciso de papel e caneta. Não dá para digitar, vai entender, de novo!

Estou aqui pensando e dissecando cada verso da letra de Vilarejo, como eu fazia nas aulas de literatura da FFLCH. Por que essa simplicidade me emociona tanto?

Porque fala de lugares que buscamos e que não existem. Utópicos.      


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe

Paraíso se mudou para lá.

Vilarejo povoado por heróis e mães. Amor e segurança. Amor e empatia. Amor e proteção. Paraíso, só pode ser…

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

E pela sensatez das coisas, a vida não deveria ser assim? Um semear e colher de sonhos? Na nossa realidade cotidiana, vivemos sem perceber, o sonho plantado de outros. O sonho de quem um dia pensou em se locomover sobre rodas, em voar como pássaro, o sonho de quem imaginou uma ferramenta de comunicação como a internet, e assim exemplos se acumulam, indefinidamente. Mas em que lugar escondemos os nossos próprios sonhos e por que não fazemos deles sementes?

Toda a gente cabe lá
Palestina, Xangrilá
Lá o tempo espera
Lá é Primavera

Infelizmente com cada vez mais frequência não deixamos pessoas “caberem” na nossa vida, na nossa casa, na nossa cidade, no nosso país. Encolhemos nossos espaços afetivos. Reclamamos de políticas restritivas de acesso imigratório, mas não abrimos as janelas de nossa alma para os novos amigos e os novos encontros.

Sabemos que o tempo não espera. Essa talvez, seja a única certeza e a mais dolorida também. Assim como a areia, o tempo escorre pelos dedos. Projetos não executados se perdem em gavetas empoeiradas da memória, sonhos não realizados, viram sementes de frustração, escolhas não feitas tornam-se arrependimentos amargos. Não, o tempo não espera…

E assim como a Primavera, estação colorida perfumada e efêmera, o tempo se esvai tal qual pétalas de flores caídas no jardim. O lugar ideal seria de fato o da eterna Primavera, eterno tempo de renascimento e florescência….

Em todas as mesas pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção

Por que cada vez é mais difícil se ater ao que é essencial? Pão, amor, sonhos e flores. Será que precisamos de muito mais que isso? Nos perdemos em demandas sucessivas e insatisfações eternas.

Chorei porque vejo que estou sempre a procura desse vilarejo. Como uma alma em desassossego, já deixei o Brasil, já mudei de costa a costa nos Eua e agora outra mudança se desenhando no horizonte. No fundo é isso que buscamos, esse vilarejo, onde portas e janelas se abrem para sorte.

Mas talvez, esse Vilarejo possa estar dentro da gente. Reformar a casa, jogar fora os excessos e encher o pulmão com a brisa da simplicidade. Amar, ser amado, semear sonhos e colher realizações.

Nunca é tarde, e um dia, certamente me mudarei para lá…

Até a próxima! 😉

Pessoas

Tentando organizar a bagunça demilhares de fotos no meu computador, me deparei com as imagens que ilustramesse texto.

São pessoas. Pessoas presentesnos meus arquivos de fotos, pessoas que um dia foram tão íntimas a ponto deestarem no meu arquivo de fotos! Pessoas que hoje se tornaram estranhas,distantes e quase desconhecidas. Algumas, sequer me lembro quem são.

A vida é engraçada. É a metáforaperfeita de uma estrada, pela qual caminhamos desde quando nascemos.

Essa estrada possui curvas,ladeiras, abismos e desvios. Por ela, atravessamos tempestades, ondas de calor,gelo e neve e algumas vezes uma brisa suave e doce aparece para afagar nossoscabelos…

Aprendemos com as dificuldades.Muitas vezes, as pernas doem, os pés quase sangram e maldizemos a estrada.Imploramos para que fique suave, para que surjam atalhos. Outras vezes, oterreno se torna tão paradisíaco, que esquecemos o quão árido já foi um dia.

Não há possibilidade de retornos. Até tentamos! Damos alguns passos para trás de quando em vez, mas a vida – ops, a estrada – torna a nos empurrar para frente. Infelizmente alguns desistem, interrompem o caminho muito antes dele terminar. Outros insistem em manipular o tempo. Não aceitam que passe e tentam a todo custo, remover as marcas do envelhecimento. Uma minoria ainda, quer acelerá-lo, antecipando problemas e preocupações. Quanta bobagem! A verdade é que não temos controle. O tempo se vai, independente de nossas vontades.

Há até aqueles que resolvemparar. Abandonam-se na estrada, em estado de paralisia, sem andarem para frenteou para trás. Não é opção, sinto lhes dizer, a própria vida irá empurrá-los.

Descobrimos sabores, cheiros etexturas. Algumas esquinas, nos fazem rever nossos conceitos, nos mudam decabeça para baixo. Outras dão saudades, saudades de quando não éramos o quesomos agora.

Mas os grandes influenciadoresdessa estrada, não são os acidentes geográficos, a temperatura ou a paisagem.São as pessoas. São essas da foto, que agora, parecem figurinhas…

São rostos que podem virarhistórias dentro da nossa biografia, ou apenas vagas lembranças. São almas quenos contaminam, influenciam e às vezes, têm até o poder de mudar nossoscaminhos. Por trilhas mais fáceis – ou não.

Alguns desses rostos escolhemos,outros nos são impostos. Amamos, gostamos, detestamos. Mas é inegável queaprendemos. Por mais mínimo que tenha sido seu papel, em algum momento, fizeramparte de nossa estrada.

Meu caminho me levou para longede grande parte dessas pessoas. Certamente, alguns eu não irei rever novamente.Outros me acompanharão, independente da distância. Com cada um aprendi, mesmoque algumas lições tenham sido doloridas.

No final, colocando todos assim, em perspectiva, no mesmo recorte de uma fotografia ¾, vejo que não há melhores ou piores. Bonitos ou feios, ricos ou pobres. São apenas figurinhas, poeiras de estrelas que um dia brilharam nas galáxias, segundo várias linhas filosóficas.

Grãos infinitamente minúsculonessa imensidão universal. Mas, porém, contudo, todavia, tiveram, em algummomento, impacto na minha vida. Isso os faz gigantes e me leva a conclusão, deque os encontros pessoais são os fatos que verdadeiramente impactam a nossavida.

Que eu possa adicionar mais figurinhas na minha estrada….

E como diria o gênio Guimarães Rosa:

O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

Seguimos.

PS.: Há muito mais rostinhos no meu arquivo, mas a tecnologia exigiu que muitos ficassem de fora, porém continuarão arquivados! 😉

Sou brasileira.

 

Sou brasileira. Paulistana, nascida e criada na capital. Cidade em que vivi por 39 anos. Sou brasileira. Quando cheguei à capital americana, de mala e cuia no inverno gelado de 2014, senti meus ossos tremerem, de frio, de medo. Sou brasileira. Enfrentei uma língua que não dominava muito bem, enfrentei sozinha, o pânico de minhas filhas em seus primeiros dias de aula, cobertos de neve e ausentes de sorriso e gentileza. Sou brasileira. Chorei várias noites, encolhida no armário de casacos, com saudades do calor, da comida, dos amigos e das conversas. Sou brasileira. Assisti encantada a políticas de inclusão feitas pelo melhor presidente da história, um negro que honrou a Casa Branca. Sou brasileira. Senti pânico e dor de barriga, quando vi bandeiras que lembravam às do Reich Nazista tomarem conta dos belíssimos monumentos históricos de Washington DC, na inauguração presidencial de 2016. Sou brasileira. Me comovi e me identifiquei com os relatos assustados de mulheres imigrantes, refugiadas e sozinhas, nos meus encontros semanais de inglês. Sou brasileira. Segurei na mão de uma menina de El Salvador e levei ela, sua mãe e seus irmãos pequenos para casa, em um dia de frio e chuva, onde eles não tinham sequer roupas adequadas. Sou brasileira. Desenhei cartazes de protesto com minhas filhas e juntas nos unimos a milhares de outras mulheres pelas ruas, de Nova Iorque e Seattle, contra as decisões equivocadas do presidente Trump. Sou brasileira. Engoli o choro e tentei mudar de assunto, quando a caminho da escola, ouvimos no rádio os tiros que mataram centenas de pessoas em Las Vegas, e fizeram minha filha caçula entrar em pânico. Sou brasileira. Recebi em minha casa, adolescentes gays, negros, pobres, ricos e refugiados. Todos eles, queridos amigos das minhas filhas. Sou brasileira. Cozinho feijão na panela de pressão e faço churrasco, sempre que o tempo permite. Sou brasileira. Me revoltei quando a corrupção desvendada pela Lava Jato veio à tona. Me indignei e me assustei com as primeiras palavras que ouvi, de um deputado então desconhecido – Jair Messias Bolsonaro. Sou brasileira. Ouvi, paciente e com empatia, o lamento de parentes e amigos, sobre a trágica situação brasileira, sobre a crise e sobre como tudo andava difícil, mesmo que essas pessoas, ainda viajassem, comprassem e trocassem de carro com muito mais frequência, do que os ricos que conheci em Mclean (uma das cidades mais ricas dos EUA). Sou brasileira. Sofri por saber que meu padrasto, tinha sido diagnosticado com uma doença séria e não tinha convênio médico. Sou brasileira. Fiquei eternamente grata por ele estar no Brasil e lá, diferente dos EUA, ele conseguiu ser atendido e tratado pelo Sistema Único de Saúde, sem gastar um real, sequer. Sou brasileira. O Brasil, do Oiapoque ao Chuí, também me pertence. Suas terras, sua gente, também me dizem respeito. Não importa se moro em Brasília ou em Xangai. Sou brasileira. Foram muitas dores nesses anos de imigrante. Frio, medo, solidão, insegurança, falta de grana, falta de apoio. Chorei litros. Sou brasileira. Mas acho que de tudo, o que doeu mais e será mais difícil de superar, foi ter gente (bem próxima até) gritando no meu FB, no meu Whatsapp, mas nunca na minha cara – covardes que são – de que eu, não posso opinar, não posso questionar a insanidade coletiva dessas eleições presidenciais. Sou brasileira. Estudei em Universidade Pública, cresci na periferia, frequentei a classe média alta de São Paulo, transitei pelas ruas dos jardins e pelas vielas de Carapicuíba. Já peguei ônibus em ponto final do Heliópolis e já tive motorista particular. Sou brasileira. Entendo a falta de contato, de telefonemas e mensagens, de quem antes vivia na minha casa. Entendo as distâncias que aos poucos foram construídas porque a vida vai lentamente, aproximando aqueles que têm almas e propósitos comuns, a medida que afasta os que são díspares. Sou brasileira. Entendo que prioridades e valores são diferentes à cada pessoa, à cada realidade. Sou brasileira.  Entendo que a corrupção, a ganância, a falta de vergonha na cara, criam espaços vazios que podem ser preenchidos por loucos e populistas de plantão. Sou brasileira. Entendo que cada um individualmente, se coloque a frente do coletivo. Sou brasileira. Entendo o medo de assalto e bala perdida. Sou brasileira. Entendo a paixão pela Anita, Neymar e Roberto Carlos. Sou brasileira. Entendo que quando o carnaval chega, todos pulam felizes. Sou brasileira. Entendo que a casa está sempre bagunçada, e a discórdia sempre à espreita. Sou brasileira. Entendo amores doentios por extremos como Lula e Bolsonaro. Sou brasileira. Entendo que dar um Iphone X para seu filho seja mais importante do que levá-lo a conhecer o MoMA. Sou brasileira. Entendo que pagar impostos e ter estradas esburacadas, irrita demais. Sou brasileira. Entendo que mãe pobre, solteira e moradora da favela, pouco pode fazer para que seu filho não sucumba ao tráfico. Sou brasileira. Entendo as fofocas e intrigas pelas costas, e os sorrisos amarelos nas reuniões de família. Sou brasileira. Entendo o sofrimento em ostentar um estilo de vida, incompatível com o salário ganho. Sou brasileira. Entendo o ódio no olhar do menor infrator, que nunca teve acesso à nada. Sou brasileira. Entendo a fé cega ao Edir Macedo, ao Chico Xavier e ao Papa Francisco. Sou brasileira. Entendo coisas e dicotomias, que talvez, nenhum outro povo do mundo, possa entender. Entendo o Brasil e sua brasilidade, muito mais do que a América e seu “way of life”. Concordo, discordo, questiono, aprendo, ignoro. Sou brasileira. Mas não entendo o preconceito, o racismo e o ódio. Não entendo a intolerância ao meu modo de pensar diferente. Não entendo e não aceito, ser questionada no meu direito de opinar e votar (garantido pela Constituição), porque não moro no Brasil. Já fui vítima de assalto, traição, fofoca, inveja, rancor. Tudo isso passou. Mas agora doeu, e doeu fundo, ter a minha legitimidade de ser brasileira colocada à prova, porque moro fora. E simplesmente porque discordo da escolha de vocês! Porque né, sejamos sinceros, se eu colocasse agora a faixa do seu candidato no meu perfil, seria compartilhada e até citada como exemplo: olha: ela mora nos States e defende o nosso “presidenciável”. Cada um que me acusou nesse sentido, saiba que seu objetivo foi atingido. Me magoaram, me machucaram e criaram um abismo em nossas relações. Eu sou brasileira. Esse país, que vocês ocupam, também é meu, e sempre será. E vou gritar, até perder a minha voz, pelos valores que eu acredito, ainda que eu more em Marte. Essas cores, essa bandeira e essa terra, que vocês estão maltratando, também são minhas! EU SOU BRASILEIRA, ainda que seja uma brasileira pelo mundo…

Tarsila do Amaral, Figura Solitária
Óleo sobre tela, 1930

Somos reflexos de nossas escolhas

Dizer que são tempos estranhos é chover no molhado. O mundo parece que saiu dos trilhos, principalmente para aqueles desatentos que não perceberam que esses trilhos nunca existiram. Mas então o que mudou?

Acho que a internet e as mídias sociais estão entre as maiores revoluções da humanidade. A informação é rápida e em segundos fico a par do que acontece na China. O curioso é que isso toma meu tempo, e deixo de andar pelo meu próprio bairro para ficar grudada no Facebook. Fico sabendo do tsunami na Indonésia, mas não sei mais se minha vizinha continua viva…

Nos desconectamos da realidade com o pretexto de nos conectarmos virtualmente. Meio bizarro não?

As notícias que nos inundam são terríveis. Imagens fortes de famintos na Venezuela, crianças bombardeadas na Síria, refugiados náufragos na Europa e adolescentes baleados na Rocinha.

Desemprego, alta do dólar, crise na saúde pública, escolas sucateadas, arrastão nas praias cariocas, tiroteios por toda parte. O que fazer?

Não dá para negar que está difícil e em tempos assim precisamos sempre nomear culpados e salvadores. Nossa natureza imediatista se auto-engana e procura por soluções fáceis e milagrosas. Querem um exemplo?  Cirurgias plásticas e remédios de dieta mágicos, são sempre mais desejados do que o velho e cansativo combo de reeducação alimentar e rotina pesada de exercícios físicos.

Por que nos problemas sociais haveria de ser diferente? Quantos de nós, trocamos nosso tempo de Facebook por trabalhos comunitários na nossa cidade, no nosso bairro, no nosso condomínio? Mais fácil e cômodo repassar textos e vídeos de Whatsapp e acreditarmos, que assim, estamos fazendo nossa parte!

Quem de nós leva os filhos a museus e exposições de arte? Quem de nós visita asilos para aprender com os mais velhos? Quem de nós organiza campanhas de prevenção e educação sexual nas favelas do Brasil? Quem de nós vista a Cracolândia para levar um prato de sopa, ou um cobertor para aqueles zumbis?

Muito mais fácil as soluções imediatas: Ipad para os filhos,  pena de morte, revólver na mão, etc. Crescer e evoluir dá trabalho, e muito! Mas acreditamos que essa responsabilidade não nos cabe. O governo que faça sua parte! Para isso que pagamos impostos….

Nos isentamos de responsabilidades e quando aparecem aqueles que validam os nossos desejos mais inomináveis, nos rendemos facilmente e com os braços abertos. Ah, que alívio! Vai acabara esse “mimimi” de igualdade de gêneros, igualdade social, etc. etc.

Percebo que erroneamente tentam comparar nossos tempos sombrios aos tempos que precederam o Nazi-Fascismo. Acho agora pior… se Hitler tivesse acesso ao Twitter e ao Whatsapp, talvez estivesse por aqui até hoje.

Nosso cérebro desenhado para procurar  zonas de conforto, já criou um antídoto mais que certeiro para aquilo que contradiz as nossas suposições: Fake News! Olha que fácil! Aquilo que me incomoda e faz pensar, eu simplesmente coloco na prateleira do “fake”.

Sinto ser a portadora das más notícias, que você pode até dizer que são “fakes”, mas empurrar pobres e minorias para debaixo do tapete, ou morro acima, não é solução. Ipanema que o diga! Ao contrário, políticas excludentes tendem a médio prazo, fazer da classe média de hoje, a classe baixa de amanhã… e essa massa só irá crescer. Você sim, vai em breve perceber que será impossível parcelar aquela viagem à Miami.

Já sei, quem chegou até aqui, a contragosto, deve estar pensando: lá vem mais uma esquerdopata petista. Bom não sou petista, nunca fui! Muito menos esquerdopata. Quadrilhas que assaltaram o Brasil por 4 mandatos seguidos, não me representam. Mas menos ainda, deputados encostados há 30 anos, que propagam o ódio e a violência.

O meu país (esse é um direito meu, ainda que eu more fora) está sendo representado por duas correntes abomináveis.  São escolhas políticas que refletem o que somos.

Por muito tempo, atribuí isso à nossa falta de educação e formação. Não é verdade! Quem está elegendo Bolsonaro foi bem educado, em escolas e universidades particulares do Brasil. Ele não é fruto da ignorância. Ele é fruto da nossa desumanidade, do nosso preconceito, do nosso moralismo hipócrita, que rebola ao som da Anita, mas feministas que mostram o peito, merecem a morte! Essa mesma desumanidade que passeia de carro financiado, depois da pizza de sábado, checando o Iphone, enquanto ignora as crianças  maltrapilhas nas calçadas,  famintas e fumando crack. Essa sociedade que se diz Cristã e  esquece que Jesus foi o maior líder da não-violência, deixando-se morrer pelos seus algozes, sem jamais revidar na mesma moeda da bárbarie.

Por outro lado, quem defende Haddad e Lula acredita igualmente em soluções simplistas, valendo-se de uma hipocrisia arrogante, incapaz de reconhecer seus próprios erros e ver que de verdade, o Partido dos Trabalhadores, há muito tempo deixou de ser de trabalhadores. Uma gente que grita e faz barulho, mas fecha os olhos para aquilo que é incoveniente e mancha sua reputação: uma adesão escancarada ao sistema corrupto que assola o Brasil desde o seu descobrimento.

Minha escolha é clara: jamais serei conivente à corrupção. Irei sempre combatê-la com os recursos que me são cabidos. Mas além disso,  jamais conseguirei olhar da mesma maneira, para aqueles que por trás desse escudo de pretensa moralidade, estão entregando o país ao ódio e à intolerância.

O mundo está doente. Mas meu país está na UTI, e acho quem nem os balões de oxigênio irão salvá-lo.

 

 

Eu e o Galo

Tempo. Acho que esse é um dos recursos mais preciosos de nossa existência. Fazemos péssimo uso dele…infelizmente.

Eu fui agraciada, tenho tempo, um luxo quase que imensurável. O excesso de tempo coincide com o excesso de ideias e pensamentos, que vagueiam minha mente até latejar minhas têmporas. Ideias, conclusões, argumentos que nascem e morrem dentro de mim, muitas vezes até lutando contra eles mesmos. Confuso, eu sei. Ultimamente tenho sofrido. A cobrança eterna das mídias sociais, estão criando uma culpa em mim. O tempo precisa ser empregado! Como?

Desenho. Apago. Entro em pânico perante a tela branca do computador. As palavras, que antes saíam com tremenda facilidade, parecem travar no fundo da garganta. Já tive crises de ansiedade, crises de depressão. Sou escolada e conheço de longe os sintomas. Sinto a onda se aproximar….

Mas dessa vez quero resistir, quero tirar dela o que melhor puder, no jeito mais oportunista possível. Então resolvi me entregar e pintar aquilo que anda me consumindo: um galo.

Sim. Estou pintando um galo. Um galo lindo que vi em Kauai, a ilha mais remota do Havaí, que tive o privilégio de visitar há algumas semanas.

Vi também o mar, vi as rochas, vi a vida marinha em esplendor. Mas vi galos, centenas deles. Andando livremente pelas ruas, estradas, praias e até restaurantes. Todos lindos, coloridos, com uma plumagem típica de uma mesma família, uma mesma raça… seriam todos primos?

Em praias esperamos ver gaivotas, surfistas, crianças, barcos, biquínis… mas galos?

Desafiando a lógica eles estavam lá, alguns com suas galinhas, mas a maioria, independentes. Sem família, sem cercas, sem limites: livres.

Acordava cedinho, com o nascer do sol. Tenho sono leve e o fuso não ajudava. Mas mais do que tudo, acordava com eles, cantando, anunciando um novo dia.

Várias vezes ao dia ouvia o mesmo cacarejar. Engraçado, na minha ignorância pensava que galos só cantavam ao amanhecer…. não, eles cantam o dia I N T E I R O.

Me acostumei. Gostava e agora sinto saudades. Foram, de certa forma, minha companhia. Claro que tirei milhares de fotos.

Não foram suficientes. Em algum cantinho do meu cérebro, uma tecla ficava batendo. Preciso pintar o galo.

Está saindo, quase tão lindo quanto ao vivo. (Desculpem, depois dos 40,  modéstia é hipocrisia!)

Vou fazer em aquarela e se criar coragem em óleo também. Para quê? Para quem?

Não importa. A arte me ensinou que o fim nunca foi o mais importante, mas sim o percurso.

Meu caminho agora é esse, me perder nas texturas das penas e cores. Perceber, através do meu pincel, que a vida tem encantos ordinários, que valem mais que qualquer coisa. Um galo. Cores. Que me fizeram pausar esse momento conturbado que vivemos e trouxeram de volta o equilíbrio da minha respiração.

Obrigada Kauai, por mais esse presente.

Continuemos… até breve! 😉

 

Aquilo que escondemos: nossa energia verdadeira

Pois é, nessa vida contemporânea, de redes sociais e exposição máxima, ficamos com a (falsa) impressão que conhecemos tudo e todos a fundo.

A Gisele Büdchen coloca fotos da cozinha dela e imediatamente já nos sentimos íntimos. O que falar então, das celebridades que enchem nosso dia de vídeos e histórias, mostrando até o momento em que escovam os dentes? Aquele colega, que você mal conhecia quando trabalhavam juntos, agora se exibe jogado no sofá, de calção de gosto duvidoso, assistindo Palmeiras e tomando cerveja….

Fico surpresa, em saber que a colega de escola da minha filha, tem milhares de seguidores e fica se questionando, ao vivo, sobre que cor deve pintar as sobrancelhas…. e por aí vai. O mundo em ebulição, guerras iminentes, líderes equivocados, corrupção impune, mortes inexplicáveis, etc. etc. e nós nos apegando ao molho que a Gabriela Pugliesi coloca no macarrão.

De 2016 para cá, isso parece que perdeu o controle. Até meu marido, que era um anti- mídia social convicto, fica grudado no feed do Instagram. E eu também! Basta ver as minhas mais de 2000 fotos. (Já curtiu? Já me segue?)

Acho que estamos todos sofrendo de uma espécie de contágio coletivo. Algo que vicia mais que morfina, e que nos mantém alienados e anestesiados. Além disso –  para mim isso é que é grave –  nos iludimos e acreditamos em coisas que funcionam somente em um clique e não, necessariamente, correspondem à verdade.

Sem querer bancar a erudita, mas a filosofia já antecipou o fenômeno e, através de séculos, vários autores se debruçaram sobre as necessidades e comportamentos humanos em seus meios sociais. Em 1967, Guy Debord, filósofo francês, publica o ensaio “A sociedade do espetáculo”. Eu confesso que estudei trechos e ainda não o encarei por inteiro, mas o que vi foi o suficiente para me deixar embasbacada. Seria Guy Debord, um Nostradamus reencarnado? Como ele pôde descrever, tão bem, a loucura que vivemos hoje, com mais de meio século de antecipação?

Deixo aqui um aperitivo, uma das frases do seu texto, que me provoca arrepios e que de forma  tão simples e genial, define a nossa sociedade atual:

“No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso”

Sim! Estamos vivendo uma realidade invertida, um cotidiano às avessas. A vida, como é, está cada vez mais se tornando desinteressante e cedendo seu lugar às stories forjadas e cheias de filtros. Há filtros para tudo! Te rejuvenescer, fazer o sol brilhar em um dia que a praia está uma caca, afinar a sua cintura, colocar uma cara de palhaço que te deixa feliz, etc. O céu parece ser o limite. E assim, criamos intimidades falsas, com pessoas e vidas falsas. As consequências, têm sido por hora, uma série de sentimentos equivocados, distorcidos e doloridos.

Um dos que mais andam em alta: inveja! Quem nunca a sentiu? Você está, embaixo da chuva e de cachecol, há mais de 8 meses, e vê a recepcionista da escola que você frequentou em 1980, tomando sol na praia, sob um céu azul e caipirinha na mão. Dá para não sentir inveja?

Abriram-se também as portas do inferno! Somos constantemente invejados, e até odiados, simplesmente porque mostramos que temos um jardim bonitinho. Amigos se afastam e semi-desconhecidos mandam comentários irônicos e agressivos. Que fase!

Outras vezes, ao contrário, nos sentimos tão privilegiados, que chega a provocar um incômodo. Isso acontece quando você vê a espinha gigantesca no meio da testa, da Luana Piovani, que tentando se fazer de descolada, fotografa em close o seu infortúnio.

E assim o tempo vai passando e esses feeds vão nos assombrando. Alguns inspiram, muitos incomodam e outros tanto aborrecem, de tão chatos que são.

Não percebemos que a vida também está passando. Enquanto me distraio no celular, deixo de notar o passarinho azul que pousou no meu gramado.

Esse distanciamento, do que é real, certamente trará consequências. Não sei ainda quais serão, mas agradeço a dica de amigos bem informados, que possam me indicar autores mais atuais que já estão fritando no assunto.

Só tenho a certeza de que o mundo não para. As estações continuam se modificando, meus cabelos ficando cada vez mais brancos e o tempo, implacavelmente, correndo rápido.

A minha vida não é perfeita, meu jardim nem sempre está florido e também não sou imune a problemas e preocupações, de toda ordem. Vida perfeita, somente a da Cinderela, depois que se casou com o príncipe, mas assim mesmo, será? Ninguém nunca escreveu a parte 2 da história…

Somos humanos, somos falíveis e somos frágeis, sujeitos a ventos e trovoadas, e também momentos de calmaria. Ufa!

Se eu fosse o Zuckerberg, tratava logo de criar mais um aplicativo. Que fotografasse em tempo real a nossa aura, a nossa energia pessoal. De forma realista! Já imaginaram? Seria um exercício maravilhoso, para nos policiarmos e controlarmos o fluxo de nossas emoções e pensamentos. Pararmos de desejar, ainda que inconscientemente, o mal àqueles que estão “aparentemente” felizes. Sermos gratos, mesmo quando há uma pilha de louças na pia. E mais do que tudo, resgatarmos a simplicidade da vida. Aquilo que cotidianamente importa, e não é digno, ou espetacular o suficiente, para ir parar nos posts do Instagram.

Viram só? Lancei a ideia. Se algum gênio resolver investir a fundo e capitalizar, fique a vontade, só se lembre de me mandar o crédito ok?

Beijos e boa vida real pra todo mundo!

 

 

 

E essa chuva que não passa?

Bom, viver é adaptar-se. Nunca pensei que essa seria a regra da minha vida. Já perdi a conta a quantas adaptações fui submetida desde dezembro de 2014, quando fechei as portas da minha casa e embarquei para os EUA.

De lá, para cá, já morei em 6 (SEIS) casas diferentes. Virei uma expert em embalar e desembalar objetos e chorar de desespero tendo que organizar uma casa do chão ao teto – de novo – sem ajuda.

Isso cria na gente uma alma cigana, uma espécie de desapego constante, ou talvez um trauma: não posso gostar, não posso me envolver, porque a qualquer momento, tenho que deixar tudo para trás. Não é fácil, desde o aspecto emocional e cabeludo da coisa, até às bobagens do cotidiano. Dia desses, me peguei desesperada na cozinha, procurando pelo espremedor de limão, que eu tinha certeza que estava na gaveta X. Sim, estava. Mas na última casa que morei, não nessa.

Pode parecer bobagem, mas estressa e irrita. Textos e posts inspirados adoram dizer e falar sobre desapego, olhar o copo meio cheio, aceitar, blá-blá-blá, como se fossem coisas fáceis de se atingir. Confesso que isso anda me agoniando! A verdade é que, acabam  trazendo ainda mais fardo sobre os meus ombros, pois se não me adapto a culpa é minha, de novo.

Pois bem, estou já há quase oito meses em Seattle. Uma cidade completamente diferente da última que morei, parece até que mudei de país. Se não fosse pelo Starbucks e o Wallgreens, me lembrando a toda hora que estou na América, poderia pensar que mudei para outro planeta.

A cidade tem um milhão de vantagens, se eu fizer uma lista de prós e contras, tenho certeza que as qualidades vencem. Comida maravilhosa, cafés espetaculares, parques lindíssimos, lagos por todos os lados, pessoas simpáticas, senso de comunidade, etc.

Mas tem a chuva, e ela é cruel. Incansável. Não tem praticamente um dia, desde novembro, que ela não apareceu. Nem que seja por alguns minutos, ou algumas gotas. Falta sol, falta cor, falta o brilho das coisas e também das pessoas.

Tudo é perfeito, que nem frutas de cera em uma bandeja. Mas cadê a vida? Essa é a minha sensação. Me obriguei a me olhar no espelho. Não esse, que fica no banheiro, em cima da pia, mas no espelho da alma, mergulhar dentro de mim e tentar entender o porquê de tanta insatisfação. Coitada da cidade, que se esforça tanto para ser cool e diversificada, a culpa não é dela. Nem da chuva.

O que está me faltando são os pedaços de mim, que fui obrigada a largar pelo caminho, com tantas mudanças. Larguei a estudante de crítica e curadoria, larguei a dançarina de flamenco, larguei a mulher chic de almoços com amigas no Shopping Iguatemi, larguei a prima divertida, que fazia festas e churrascos animados em casa, larguei a rata de praia, que descia a serra todo santo final de semana, larguei a dona da galeria virtual, projeto que sonhei tanto. Larguei a aluna de inglês na aula super diversificada de Fairfax, larguei a espectadora voraz de museus e exposições, larguei a exploradora de vinícolas de final de semana, larguei a voluntária da biblioteca, etc. etc.

Ser imigrante é virar uma cebola. Sem glamour e sem luxo nenhum, vamos nos descascando, vamos nos desfazendo e trocando de pele o tempo todo. Creio que aos vinte anos, deve ser maravilhoso. Aos 40, nem tanto! Cansa e eu estou sentindo esse cansaço.

O inverno não acaba, já estamos em meados de abril e o termômetro mal consegue chegar nos 10C. A chuva e o cinza continuam, mas temos o colorido das flores. (Primavera em Seattle é um espetáculo! Muita chuva, lembram? As flores amam…)

Isso cria um tempo, interminável de reflexões e elocubrações, nem sempre positivas.

Esse texto não é inspiracional, é um desabafo. Tem dias que é exaustivo tentar se manter forte e positiva.

Estou com saudades, de todas as Gabrielas que ficaram no caminho. Mas não desisto, continuo procurando preencher todos os buraquinhos que elas deixaram. Escrevo, porque tem coisas em mim, que só saem por escrito e mergulho na arte, minha salvadora de todas as horas.

Aqui em Seattle, apareceu a Gabriela que ama pintar a óleo, faz uns desenhos ridículos, mas está caminhando. Para onde, não tenho a menor ideia, afinal, pode ser que a vida me mova de novo, a qualquer momento.

O negócio é seguir o mantra budista e viver um momento de cada vez. O meu agora é, enrolar o cachecol no pescoço e colocar o casacão de chuva para encarar a rua, afinal esse texto-desabafo me atrasou para o meu compromisso…

Fazer o quê? A vida não para. Sigamos….

 

 

 

 

Meu amor por você… São Paulo!

Ah São Paulo….cidade onde passei 39 anos da minha vida. Cresci em um bairro tradicional e histórico: Ipiranga. Lá encontrei as amigas que são para sempre, apesar de não nos vermos há algum tempo já.

Infância na rua, brincando com meus primos e enlouquecendo as freiras do colégio que eu estudava. Não tinha muita ideia da imensidão da cidade, porque meu mundo se resumia às padarias do Ipiranga, onde adorava ir com meu pai, tomar café da manhã e esperar o frango de televisão ficar pronto para o almoço.

Só aos 17 anos entendi essa cidade. Entrei na faculdade, do lado oposto, extremo da zona oeste! Cruzava todos os dias, do Ipiranga ao Butantã de transporte coletivo: ônibus e metro. Quanta gente diferente, quantas coisas no percurso de duas horas. Aprendia tanto, ou mais do que na sala de aula…

O tempo passou e tanta água rolou por debaixo das pontes do rio Pinheiros e Tietê.

Brooklin, Higienópolis, Consolação, Jardins, Vila Mariana, Pinheiros, Santo Amaro, Lapa, Perdizes, Morumbi, Sé, Aclimação, Vila Prudente, Vila Madalena, Barra Funda…. um bocado de bairros se somaram ao meu repertório. Cada um sendo quase um universo particular.

Problemas, assaltos, descaso. Comecei a odiar e reclamar, muito! Achei que eu e São Paulo estávamos quites. Chega! Vou me embora, não para Passárgada, mas pra Washington DC mesmo.

Já fazem 3 anos e nem em DC estou mais. Agora vivo no Acre americano, Seattle, um canto no extremo noroeste americano, mas que pretende ser e agir como uma cidade cosmopolita, cheia de tecnologia e modernidade, mas um pouco carente da diversidade e da energia que faz da Pauliceia algo tão único!

Nem em Nova Iorque é possível encontrar essa magnitude urbana – desculpa aí Douglas 😉

Penso que não sou do Brasil, sou de São Paulo. Essa terra do concreto e da feiura, que carrega uma mistura explosiva de todos os cantos, carregada de brasilidade. Eu sei, é confuso mesmo.

Não tinha ideia do quanto já era familiarizada com a cultura japonesa, goiana, italiana, mineira, espanhola, alemã, baiana, recifense, curitibana, catarinense, haitiana, francesa, manauense, árabe, judaica…  Nos limites dessa cidade cabe o mundo!  Obrigada São Paulo, por me preparar. E ah, São Paulo, como te odeio. Porque você me deixou mal- acostumada e em nenhum canto do mundo encontrarei o que você me proporcionou.

Saudades do seu caos, minha amada terra! Foi preciso perder-te para ver o quanto é gigante e generosa.

Quem sabe, um dia, não nos encontramos novamente?

Arte salva. Sempre.

Muitas vezes é preciso darmos um passo para trás, ou nos afastarmos um pouco para ver as coisas em perspectiva. Foi o que fiz nessa semana difícil, talvez uma das piores do ano, onde dois fatos aparentemente distintos, me tiraram o chão.

O primeiro foi a imensa polêmica do Museu de Arte Moderna – O MAM – em S. Paulo.

Multidões em fúria passaram a agredir até fisicamente todas as instituições culturais, que segundo suas óticas distorcidas, são compostas de gente deturpada, praticantes de pedofilia, zoofilia e outras tantas atrocidades. O motivo disso tudo? Um homem nu.

Quem cresceu nos anos 80, como eu, deve se lembrar da abertura da novela Brega e Chic das 7:00 pm da Rede Globo, onde um homem pelado ficava de costas mostrando a bunda. Ou então da Xuxa, Mara e Angélica, com seus vestidinhos curtos e super-erotizados. Isso sem falar na Tiazinha, figura explícita que incitava práticas sadomasoquistas na TV aberta.

Isso nunca chocou, como também nunca chocou o carnaval da Globeleza pelada, as piadas machistas dos programas humorísticos ou o pai de família falando no almoço de domingo: meu filho tem que ser comedor!

Por que isso agora? A resposta é: nos tornamos todos, massas de manobra.Por trás desse moralismo repentino está uma entidade poderosa e perigosa, querendo evangelizar o país. Sem perceber, até os descrentes passam a compartilhar vídeos com mensagens subliminares a respeito de ódio e discursos de nós contra eles. Não é mais possível nesse país dividido, defender qualquer linha progressista, sem ser acusado de esquerdopata, comunista, petista, etc.

E a Arte? Que papel ela tem nessa celeuma toda? Aqui vai a minha crítica. Involuntariamente a arte contemporânea brasileira é também responsável por esse maniqueísmo. Para quem já vivenciou o circuito paulistano de arte, sabe muito bem que é um clube fechado, para poucos. A arte brasileira não é inclusiva! Existem maravilhosas iniciativas pelas periferias do brasilsão afora, existem geniais artistas produzindo a duras penas em seus ateliês improvisados com pouquíssimos recursos e apoios nulos. E a triste constatação, a visibilidade dada a eles é zero!

O establisment da arte brasileira não lhes dá espaço. Prefere navegar nas águas seguras dos cânones, dos consagrados. E dá-lhe releitura, reinterpretação, etc. etc. O Panorama de Arte Brasileiro, até onde eu saiba, era responsável por trazer à tona as novidades da arte brasileira, um cenário amplo da produção atual nacional. Mas a curadoria resolveu ir para o caminho mais fácil, que fala a língua dos colecionadores. E lá vamos nós de Lígia Clark, em uma performance, na minha opinião equivocada. Veja bem: não me refiro aqui à moralidade ou ao fato de mãe, filha, homem pelado, etc. Isso passa longe da minha discussão. Me refiro a uma interpretação rasa de um trabalho magnífico, que são os bichos.

O momento foi péssimo! As águas da ignorância ainda estavam fervendo por conta do Queermuseum e aí foi só questão de minutos para se abrirem as portas do inferno. O brasileiro médio, que tem sua vida cultural pautada nos programas televisivos de domingo, passou a ser crítico raivoso de arte contemporânea. Arte que ele nunca ouviu falar, arte que nunca lhe foi apresentada!

Ressalto aqui que o ingresso do MASP custa R$30,00, que as feiras de arte, patrocinadas com leis de isenção fiscal, custam R$40,00. Que as galerias paulistanas estão longe de ser os lugares mais simpáticos e acolhedores para uma visita de final de semana, para aqueles que não tem como comprar trabalhos de milhares de reais. Enfim, muita água nesse caldo.

A classe artística em peso se posicionou veemente e eu aplaudo essa iniciativa! Porém ao mesmo tempo me pergunto, que ações foram feitas ao longo de todos esses anos no intuito de incluir, de agregar essa horda marginalizada pela elite cultural?

O curioso é que certamente muitos de meus colegas do meio artístico me chamarão de retrógrada e careta por essa crítica, ao passo que familiares e conhecidos me excluirão para sempre de suas vidas por eu ter me tornado uma “esquerdopata”.

Entendem como a saída está difícil?

Viro a página e sinto sangrar meu coração ao som dos tiros de Las Vegas. Minha dor aumenta, quando vejo parentes e amigos defendendo o porte de armas, a defesa do cidadão de bem.

Parece que são mundos distintos, mas na verdade fazem parte da mesma moeda. As melhores lições que recebi na vida sobre humanidade, respeito, liberdade, tolerância, diversidade, amor, etc. etc. foram em museus e exposições de arte.

Arte, desde os tempos da caverna, é o caminho que nos leva a entender o passado e a desenhar o futuro. Arte é o que melhor atinge a nossa sensibilidade humana, que nos difere de todos os outros mamíferos. Arte é o que nos mostra que a violência das ações e reações não serão nunca o melhor caminho. Arte é sempre a primeira coisa a ser banida em sociedades autoritárias e cruéis. Por que será?

Vamos refletir juntos, vamos expandir nossa humanidade para além das crenças moralistas e rasas que querem nos infringir. Vamos fugir das respostas prontas e baratas, como o fechamento de um museu ou o armamento de uma população.

Vamos ser inclusivos, vamos ser tolerantes, vamos amar ao próximo para além de nossas diferenças. Esse é o único caminho, e não me parece tão difícil. Que tal tentarmos?

Arte salva. Sempre.

 

PS: dedico esse texto aos brilhantes artistas e curadores brasileiros, que produzem sem parar, mesmo que não tenham reconhecimento ou espaço, nem dentro da cena de arte estabelecida, nem entre seus familiares e conhecidos, que desconhecem o brilhantismo dessa luta! Eles sabem quem são ❤

 

 

 

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