De Charlie Brown à Cebolinha – qual a sua infância?

Acabei de sair do cinema, onde passei quase duas horas me divertindo com o filme Peanuts, ou Charlie Brown, como era conhecido na minha infância.

Quem já chegou aos quarenta sabe do que estou falando: no começo dos anos 80 uma febre invadiu São Paulo, não sei se se estendeu pelo Brasil inteiro, mas o cachorrinho Snoopy era o item mais cobiçado entre as crianças da minha época. Eu mesma sonhava com um, mas tive que me contentar em ter uma versão fajuta, já que a original era caríssima para os padrões da minha família.

Mas só hoje, vivendo há quase um ano nesse país, pude entender Charlie Brown e seus amigos. Confesso que fiquei intrigada e confusa, pois se trata de um produto tão característico da cultura americana, que não entendo como fez tamanho sucesso na terra brasilis.

Não há exageros em Charlie Brown! A escola que se vê no filme é exatamente uma Elementary School, assim como a casa, o bairro, os dias de neve, as brincadeiras na rua, a biblioteca, o bulling, as premiações escolares…tudo! Minha filha disse: as cadeiras são idênticas às da minha classe. Poderia até ser um documentário.

Por isso a paixão americana pelo Snoopy. É um retrato vivo da infância norte-americana. A vida das crianças aqui gira em torno da escola, do bairro, das ruas. São espaços democráticos, onde uma mistura interessante de classes sociais, culturas e raças acontece.

Como já falei outras vezes, o menino rico que chega à escola de BMW usa roupas parecidas com o menino pobre de origem hispânica que vem a pé cuidando dos irmãos menores. Todos na mesma sala, se encontrando na mesma biblioteca, no mesmo parque e brincando juntos em um dia de neve na rua.

A escola pública proporciona isso. Os espaços públicos proporcionam isso.

Infelizmente a minha infância foi carente de tais espaços. Era longe de ser rica, mas estudei em escola particular e apesar de morar perto de uma imensa favela paulistana, nunca tive um amigo de lá. Assim como também nunca tive um amigo muito mais rico que eu.

No Brasil vivemos em prateleiras. Podemos nos mover um degrau ou dois, mas nunca além disso, estamos sempre cercados por iguais. Os espaços públicos de uma grande cidade como São Paulo segregam mais do que agregam. No jeito de vestir, falar, frequentar você já atesta a sua origem e com certeza se sente absolutamente desconfortável se estiver em lugares muito distantes da sua classe social. Para cima ou para baixo, não importa.

Tanto Charlie Brown quanto a Turma da Mônica, que eu lia compulsivamente, povoaram a minha imaginação infantil. Confesso que bateu uma invejinha, porque o americano se reconhece na vida de Charlie Brown. Agora para uma criança brasileira (rica ou pobre)  o bairro do Limoeiro, arborizado, com praças e ruas, onde o Cascão, o Cebolinha, a Magali e a Mônica brincam, aprontam e caminham, sem perigos ou muros, é uma enorme obra de ficção. Um espaço tão distante da realidade que só poderia existir em quadrinhos.

Nos anos 80 já não era assim. Nos anos 2000, geração das minhas filhas, a liberdade então se encolheu ainda mais, se encerrando dentro dos muros do condomínio, dos exércitos de babás vestidas de branco, das cancelas dos clubes, dos corredores de shoppings (credo!). Por ser otimista, gosto de pensar que talvez exista em algum cantinho do Brasil uma cidade com o bairro do Limoeiro, com casas confortáveis para todo mundo, crianças caminhado até a padaria, correndo nas ruas, deitando nos gramados. Pena que cada vez que  vejo notícias do meu país, minha esperança morre um pouco, com escolas sendo fechadas, pessoas sendo baleadas, cidades sendo engolidas pela lama da irresponsabilidade.

Tristes trópicos, Charlie Brown! 😦

Where are you from?

Engraçado, a língua, o sotaque, a cara não negam, não sou daqui. Basta eu abrir a boca para ouvir a pergunta: where are you from?

Quando digo que sou do Brasil recebo sempre um sorriso amigável. Eu realmente não tinha ideia de como o Brasil é popular mundo afora, dizer que é do Brasil te leva instantaneamente  a uma posição “cool”, bacana.

Aqui tem gente do mundo inteiro e já observei essa reação em suecos, alemães, franceses, italianos, japoneses, coreanos, salvadorenhos, colombianos, paquistaneses, afegãos, filipinos, russos, nepaleses, iraquianos, americanos…ufa, a lista é imensa!

Sempre ouço a mesma resposta, não necessariamente nessa ordem: Uau! Brasil! Que sorte, que lugar lindo, e a Copa do Mundo? Foi duro perder pra Alemanha…” Alguns mais bem informados, me perguntam qual a explicação para a horrenda crise econômica e a crescente violência. Outros, que sabem apenas do Brasil idílico me perguntam das praias e sempre, sempre, sempre do futebol!

Outro dia foi irritante. Um vietnamita ficou super bravo quando eu disse que era brasileira. Me deu uma bronca: “Como vcs conseguiram perder para Alemanha daquele jeito? Nós do Vietnã, que amamos o futebol brasileiro ficamos desesperados! Como vocês fizeram uma coisa dessas?” Eu juro que não sabia se xingava ou ria. Foi uma situação bizarra, para dizer o mínimo.

Teve também uma simpática mulher de El Salvador que só faltou me pedir um autógrafo. Segundo ela o Brasil é o lugar mais incrível do mundo, com as melhores pessoas, só porque é a terra de Ronaldinho Gaúcho, o maior craque de todos os tempos, na opinião dela.  Engraçado o poder do futebol…

Já  entre os americanos, que pouco ligam para futebol, as reações são também curiosas. Conheci ocasionalmente uns três ou quatro que viajaram ao Brasil e esses sofrem de uma paixão platônica pela nossa terra. Me convidaram para fazer churrasco na casa deles, adoram falar umas poucas palavras em português e tem um orgulho danado em mostrar que sabem a diferença entre Rio e São Paulo.

Ah o Brasil é realmente uma terra querida mundo afora, mas tão odiado internamente. Sou a última a poder reclamar dos insatisfeitos, eu era e ainda sou muito crítica em relação ao nosso desenvolvimento, sobretudo educacional e cultural. Mas não posso negar, somos vistos como um povo bonito, alegre, simpático, que come muitíssimo bem e domina a arte do futebol, além claro de passarmos a maior parte de nossas vidas deitados sob um sol maravilhoso à beira mar (quem dera…)  Penso que deve ser muito mais difícil dizer: sou do Afeganistão, sou do Irã, sou da Venezuela…. Nós temos uma imagem positiva perante o mundo, que provoca admiração, mesmo que para nós, que vivemos a realidade na pele, isso seja um tanto estereotipado.

Não se conhece uma terra, um povo, ou mesmo uma língua sem vivenciá-la. Posso dizer isso agora, com quase um ano (já!!!) de Estados Unidos. Vários dos meus (pre)conceitos foram por terra, da comida aos costumes, positiva e negativamente! Acho divertido observar o reverso da moeda, como somos vistos mundo afora…

Estar aberto para o novo é a melhor sacada da vida, e acreditem, tudo pode surpreender. E por falar em surpresas, eu descobri que o povo afegão é um dos mais lindos do mundo. Conheci um homem que poderia trabalhar em Hollywood, tamanha era  a beleza de seus traços, e antes de reclamarem, estava acompanhada do meu marido, que apesar de seu machismo brazuca, concordou comigo! 😉

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Para ilustrar: meu cantinho favorito no Brasil: Paraty! Com suas ruas de pedras, suas casinhas históricas, seu mar deslumbrante, sua cachaça e sua música popular nas rodas de samba. Tudo isso representa o que o Brasil tem de melhor e que me mata de saudades…. 😦

Sobre tudo um pouco

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House and Trees (Maison et arbres) 1890-1894 Oil on canvas 25 5/8 x 31 7/8 in. (65.2 x 81 cm) The Barnes Foundation, Merion, Pennsylvania

Depois de um pequeno hiato, me deu vontade de escrever. Apesar de poucas semanas de pausa, muitas coisas aconteceram, sensação de que se passaram meses. Aliás, a vida fora do Brasil parece acontecer em outro tempo e espaço e tudo fica mais intenso, inclusive o passar do tempo. Provavelmente  porque aqui, nos EUA, temos que desempenhar inúmeros papéis. Ou como se diz: wear many hats! Não é fácil….

Tivemos uma ameaça de furacão! Sim, um furacão de proporções destruidoras como o famoso Katrina. Justiça seja feita, dessa vez o nome dado foi masculino: Joaquin. Ele não chegou a se aproximar perigosamente da costa leste americana, mas o suficiente para provocar uma interminável semana de chuva e dias feios. Quase emboloramos! Longos dias dentro de casa, com o cinza entrando pela janela….depois de um verão luminoso, foi um triste início de outono.

No meio desse cinza deprê mais uma notícia aterrorizante: um atirador mata 9 pessoas em uma faculdade no estado de Oregon. Chorei.

Impossível não me abalar e não me sentir afetada por isso. Um dos principais motivos que me fez embarcar nessa jornada foi a fuga da violência paulistana e a esperança em criar minhas filhas em um lugar mais seguro. Pois bem, não há tranquilidade nesse mundo.

Alguns amigos, mais esclarecidos que eu, dizem que esse tipo de psicopatia violenta é resultado da louca vida contemporânea, da pressão consumista, da falta de sentido real da vida. Nas palavras do próprio atirado de Oregon (o qual me recuso a nomear para não contribuir com seus minutos de fama nessa doença chamada sociedade do espetáculo!) ele afirma:

“The material world is a lie. Most people will spend hours standing in front of stores just to buy a new Iphone … I used to be like that, always concerned about what clothes I had, rather than whether or not I was happy. But not anymore.”

[O mundo material é uma mentira. A maioria das pessoas vai gastar horas esperando na frente das lojas só pra comprar um novo Iphone … Eu era assim, sempre preocupado com as roupas que eu tinha, em vez de se eu era feliz ou não. Mas agora não mais.]

Não sei se podemos culpar o peso do consumo e da aparência por atrocidades como essa. Culpo mais a sociedade americana, que insiste em armar seus cidadão até os dentes, e em um momento de loucura, ou mesmo tédio, uma alma infeliz tem nas mãos o que precisa para fazer uma grande m….

Enfim, essa discussão vai longe e não quero me ater a ela. O homem é bicho do homem, desde que o mundo é mundo! Motivos e justificativas para atrocidades estão sempre a disposição, quando me parece que o mais simples é: somos seres factíveis, com mais erros do que acertos. Por pouco, muito pouco, guerras, barbáries, mortes, torturas e toda sorte de violência contra o próprio homem são cometidas. Basta olhar para a história e ver que desde sempre o homem persegue o homem! Sem dó ou piedade, baseado apenas em suas ideologias, religiões, fé, ganância, poder, etc. etc. Infelizmente é uma lista infinita de motivos. Isso tudo antes da existência do Iphone….que fique claro!

Ao contrário do sentimento generalizado de desolação, tenho a teimosia em achar que estamos  evoluindo. Apesar dos meninos boiando no Mediterrâneo, apesar dos “gun shooters” norte-americanos, apesar da crise política do Brasil, apesar do caos sangrento do Oriente Médio, apesar da xenofobia europeia e da miséria africana. Sim, gosto de história, e afirmo: a humanidade já viveu dias piores.

Hoje estou aqui, sentada em frente ao meu blog, questionando, pensando e escrevendo livremente sobre isso. Posso até sair nas ruas da Virgínia, lugar onde fica a temível NRA ( National Riffle Association -responsável pelo maior lobby armamentista do planeta) com cartazes gritando pelo desarmamento e ninguém irá me prender por isso.

Estamos lentamente em evolução. Minhas filhas tem uma educação infinitamente mais sofisticada do que a que eu tive um dia. Todos tem o mundo ao alcance dos dedos. Campanhas humanitárias em prol dos refugiados pipocam em todos os cantos, o brasileiro finalmente se indigna pela corrupção! Vamos tentar ver o copo meio cheio?

É mês de outubro. Mês das crianças no Brasil e o Facebook começa a ficar infestado de retratos de criança. Não vou colocar o meu. Minha vida adulta e madura de quarentona é infinitamente mais interessante do que a da menina loirinha magricela de trancinhas do Colégio Virgem Poderosa. (acredite, eu estudei em um colégio com esse nome!)

Não sou saudosista, não perco tempo olhando para trás e me lamentando pelo que não volta mais. Aliás, essa é uma condição imprescindível se você pretende mudar de país.

Prefiro trocar minhas folhas e esperar pelo novo, assim como o outono! Welcome Fall! 😉

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Foto tirada por mim, no caminho da minha casa

PS: A respeito das duas imagens que ilustram esse post: o primeiro uma das mais lindas pinturas de Cézanne, que transmite primorosamente as cores e sensações do outono no hemisfério norte. A segunda, uma foto que tirei de uma casa perto da minha, que sempre me chamou a atenção, e só hoje, pude perceber o porquê! A semelhança de composição com o belíssimo trabalho de Cézanne, que estava arquivado nos rincões da minha memória… Ter tanta beleza assim pela vizinhança é um bom motivo pra sorrir não é não? 🙂

A arte em tempos de guerra – Shirin Neshat

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Shirin Neshat, Rapture Series, 1999. Photograph taken by Larry Barns. © Shirin Neshat. Courtesy Gladstone Gallery, New York and Brussels

“Arte é a nossa arma. Cultura é a nossa forma de resistência. As vezes eu invejo os artistas ocidentais, por sua liberdade de expressão (…) mas também me preocupo com o Ocidente, porque a cultura corre o risco de ser apenas uma forma de entretenimento.” – Shirin Neshat.

Já falei mais de uma vez, mas não canso de repetir, Washington D.C. é um lugar privilegiado para os amantes de Arte. Na capital americana, existe uma infinidade de museus e todos são gratuitos.

Minha recente descoberta foi o Hirshhorn Museum, mais um museu do gigantesco complexo cultural Smithsonian. Esse museu foi fundado em 1974 por Joseph Hirshhorn, imigrante da Letônia, que cresceu no Brooklin – NY, com sua mãe viúva e seus 12 irmãos.

Fotografia de Mark Alan André
Vista do prédio do Hirshhorn Museum com seu jardim de esculturas povoado por obras de Ai Wewei.

Sua coleção impressionante de arte moderna e contemporânea foi doada ao Smithsonian e logo abrigada em um maravilhoso prédio projetado por Gordon Bunshaft, ganhador do Pritzker Prêmio de Arquitetura.

Tudo no prédio é maravilhoso: sua construção redonda e forrada de painéis de vidro, seu pátio interno e seu jardim adjacente de esculturas modernas e contemporâneas.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hirshhorn_Museum_Sculpture_Garden.JPG
Jardim de Esculturas anexo ao museu. Hirshhorn Sculpture Garden

Mas não quero descrever o museu. Isso está muito melhor explicado na página oficial que se encontra aqui: http://hirshhorn.si.edu

Quero falar de uma exposição que visitei lá e que foi uma daquelas de arrebatar! Trata-se da artista iraniana Shirin Neshat. Como mulher, como iranina, como exilada e como imigrante ela já teria muito para contar. Some-se a isso a sua delicadeza, o seu olhar, a sua captura do belo, mesmo no meio de tanta dor, tanta intolerância.

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Quem encontra a Julia, minha filha, nessa belíssima imagem?

Quando a Arte atinge esse patamar, ela me arrasta. Povoa minhas ideias, meu coração e meu sono por dias. Aliás, passam- se anos e ainda consigo lembrar de imagens que vi em exposições memoráveis.

O mundo está em guerra. A guerra do oriente médio diz respeito a todos nós, cidadãos ocidentais. São mulheres, são crianças, são seres humanos que perderam o seu direito mais precioso: à vida!IMG_1835

O Brasil, apesar de não viver a realidade do fanatismo religioso, vê crescer a cada dia a intolerância e o desrespeito ao diferente. Essa dualidade que o país assiste atualmente é perigosíssima! “Cidadão de bem” que atropela e mata o bandido  é saudado como herói na internet. Amigos queridos e próximos, que vejo todos os dias nas redes sociais, cegos pelo ódio, incitando a violência e a ideologia do olho por olho, dente por dente.

Estamos regredindo e isso me assusta. Evidente que a lambança política e o populismo barato, grandes responsáveis por toda a situação caótica que se vive no Brasil, também me enojam e me causam indignação. Contudo, essa indignação não pode ser maior do que a nossa humanidade.

As últimas semanas foram terríveis! A foto do menino Aylam na praia do Mediterrâneo escancarou um realidade cruel, que não se via desde os tempos nazistas. No Brasil, a decadência política e a falta de esperança, nos EUA, o menino Ashmed preso por ser criativo e muçulmano… Às vezes queria só parar o tempo, respirar e tomar um copo de água.

Para isso existe a Arte, que salva, que cura e mostra caminhos. Como esse de Shirin Neshat que sobreviveu ao horror e nos conta sua história.  Existem ainda tantos outros, pequenos e anônimos artistas pelo mundo, que insistem em criar, pintar e desenhar a esperança.

A Arte é o que melhor evidencia a nossa humanidade. Que essa ferramenta poderosa sirva como luz a nos guiar nesses tempos de trevas.

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Julia e Amanda em uma das salas da exibição

Fiz minha parte, levei minhas filhas à exposição. Passamos alguns jantares discutindo intolerância religiosa e racial, o papel da mulher no mundo, viver em culturas diferentes. Todos esses tópicos surgiram a partir de Shirin Neshat e a ela sou grata. Através da arte estamos tentando construir cidadãos melhores, capazes de um dia fazer desse planeta um lugar menos inóspito…

PS: A fotografia que ilustra o cabeçalho desse post eu tirei outro dia, andando por D.C., quando me deparei com esse magnífico painel de Chagal, feito em 1969  e extremamente atual. Observem e tirem suas próprias conclusões:

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Marc Chagal – Russian – 1887 – 1985 Orphee – 1969 Stone and glass mosaic

A maternidade em terras estrangeiras

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Três idades da Mulher – Gustav Klimt

Ser mãe é vencer eternamente uma montanha de desafios e ser mãe em terra e língua estrangeira requer ainda mais coragem e habilidade para lidar com eles. Não é fácil…

Me lembro do meu primeiro mês aqui, afogada na neve e nas novidades, quando eu tive que matricular minhas filhas no sistema de ensino público em que tudo funciona de uma forma completamente diferente do Brasil.

Como estrangeiro, seus filhos são submetidos a provas de Inglês e conhecimentos gerais, como ciências e álgebra, e a partir do resultado eles são encaminhados ao nível correspondente de aulas de ESOL (inglês como língua estrangeira) e de reforços nos respectivos conteúdos onde apresentam dificuldades.

Minha filha mais velha, na época com 13 anos, foi muito bem na avaliação, tanto de inglês como geral e a recomendação foi que ela entrasse direto na High School. Nós entramos em pânico! Afinal o ano letivo já tinha começado há  meses ( as aulas aqui começam em setembro e estávamos em janeiro) e a idade em que as crianças  entram no High School é 14 anos.

Não aceitei a imposição e briguei, com meus inglês capenga, para que ela refizesse a metade do oitavo ano, antes de ir para o nono, que é quando começa a High.

Foi então que ouvi a seguinte frase do avaliador: “Você e seu marido decidiram vir para esse país. A escolha portanto não foi dela, e sim de vocês! Acha justo que ela atrase seis meses na escola, por uma decisão da qual ela não fez parte?”

Acabei conseguindo o que eu queria e ela foi para o oitavo ano onde pôde rever alguns conteúdos e se sentir mais confiante para agora, finalmente e na idade certa, começar a High School.

Esse episódio todo não é importante, mas sim a frase que ouvi e que  não sai da minha cabeça:  será que meu marido e eu, fizemos o certo ao impormos uma mudança tão radical na vida das nossas filhas?

Sei que hoje, um dia após a vergonhosa comemoração em Brasília, com nossa incompetente presidente desfilando protegida por muros e canhões, muitos dos que me leem aqui devem pensar: claro! Não há dúvidas: o Brasil está na sua pior fase, sem qualquer esperança….

Sim, eu sei. Aqui temos segurança, educação de qualidade, menos desigualdade social, respeito, civilidade, etc. etc.

Mas vejam, não temos o conforto de nossa terra, o conforto de nossa língua. E principalmente para mães como eu: nos sentimos completamente sozinhas nessa árdua tarefa de educar e orientar nossos filhos em terras desconhecidas.

Finalmente hoje, minha filha foi para a High School! Uma escola enorme, com cerca de 3.000 alunos adolescentes. Uma infinidade de matérias novas e de salas num labirinto de corredores.  Para nós brasileiros, a estrutura física de uma High School lembra muito mais a de uma Universidade do que os colégios que conhecemos. E olha que vivenciamos de perto os maiores de São Paulo, como Colégio Rio Branco e Visconde de Porto Seguro!

Ainda sim, foi apavorante! Levei ela até lá e senti a sua mãozinha gelada de medo, assim como seus olhos vermelhos. Quando ela desceu do carro, sozinha e carregando todo o material para o primeiro dia, no meio de uma infinidade de adolescentes e rostos desconhecidos, foi difícil eu não chorar!

Ser mãe é sentir no âmago, mil vezes mais, tudo o que um filho sente! Mesmo para mim, que já sou mãe experiente – minha filha mais velha está se mudando essa semana para um novo apartamento na Philadélphia, que ela vai dividir com o namorado – haja coração!

Isso sem falar da minha caçula, de dez anos, que eu  também deixei hoje em uma nova escola, sem conhecer absolutamente ninguém! Foi mais um momento de lágrimas contidas e mãos encharcadas de suor…

Acreditem:  a língua, a terra, a experiência compartilhada com pessoas que tem a mesma história que você, fazem uma falta danada nesses momentos. Queria poder tomar um café com uma mãe como eu e abrir meu coração, sobre meus medos e inseguranças. Queria poder levar minhas filhas para brincar e se distraírem com os primos no final de semana, ou então para a casa da vovó, onde elas seriam cercadas de carinhos.

Mas fizemos uma escolha. Por nós, por elas…. Deixar a terra em que estão as nossas raízes nunca é uma decisão fácil e a pergunta que o avaliador da escola deixou pra mim, sempre volta à tona.

Semana passada, quando a terrível imagem do menino Aylan tomou conta do mundo, foi impossível para mim não sangrar por dentro!  Seu corpinho inerte na praia, todo arrumado de sapatos e roupas boas, evidenciava os cuidados de uma mãe, que assim como eu, escolheu um vida diferente para o seu filho. Salvas as diferenças, sou também imigrante e responsável por essa brusca mudança na vida de minhas filhas.

A busca é eterna: sempre tentando encontrar nesse mundão afora o melhor para os nossos filhos, acima de qualquer coisa. Hoje só espero que minhas meninas tenham tido uma boa acolhida nas novas escolas e que isso aumente a certeza de que fizemos a escolha certa.

Queria um dia conhecer a Grécia…..

Ilha de Kos - Grécia
Ilha de Kos – Grécia

Nesse vasto mundo são tantos os lugares que sonho em um dia conhecer e a Grécia, está entre os primeiros. Mas hoje, acordei e vi uma foto diferente da Grécia dos meus sonhos de mares azuis. Era um menino morto na praia. Um menino.

O mar da Grécia hoje ficou negro. Pensar em turismo me pareceu tão nonsense nesse mundo em guerra, porque estamos em guerra, faz tempo! E sim, diz respeito a todos nós. A violência, a ganância, o radicalismo e tantas outras imbecilidades parecem estar ganhando a luta contra a civilidade.

Chorei. Penso em que tipo de raça estamos nos tornando. Cada vez mais conectados, cada vez mais tecnológicos e cada vez mais frios e indiferentes.

Acompanho há tempos o drama dos refugiados sírios. Minha curiosidade tem um motivo pessoal, pois minha irmã está morando com a família na Base Militar de Icirlik na Turquia, que é a  base mais próxima da fronteira com a Síria, onde milhares de refugiados sírios-curdos, chegam diariamente.

Já li muito, conversei a respeito, mas ainda não entendo. A situação é extremamente complexa e não vou me atrever a tentar explicar, mesmo porque certas coisas jamais terão explicação.

Ontem morreu o Aylan, menino curdo de três anos de idade. Outro dia morreram outros, tanto no Mar Mediterrâneo quanto nas terras tropicais brasileiras. E o mais cruel, muitos outros morrerão amanhã.

Queria que se “Ele” existisse, pudesse me responder. Por quê? Por nascerem curdos? Por nascerem cariocas nas favelas do tráfico? Por serem apenas crianças na hora errada e no lugar errado?

O mundo hoje se debate com a questão dos refugiados e milhares de dedos em riste apontam para a Europa xenofóbica, que fecha seus portões a essa gente errante. Aqui nos EUA sou imigrante e assim como eu, vejo milhares de famílias de distantes partes do mundo. Desconheço a política americana de refugiados, mas sei que a política migratória é bastante restritiva, mas ainda assim, pessoas de todos os cantos chegam aqui para fazer a vida – e muitos conseguem admiravelmente.

A humanidade expulsa seus filhos de sua própria terra e também não é capaz de abrir a porta àqueles que vêm em busca de esperança.

Essa não é a Grécia dos meus sonhos. Esse não é o mundo dos meus sonhos. Meu coração hoje está com Aylan, boiando no Mediterrâneo.

“Vem cá meu bem, que é bom lhe ver! O mundo anda tão complicado que hoje eu quero fazer, tudo por você…” Renato Russo

A Dança - Henri Matisse - 1909 - 1910
A Dança – Henri Matisse – 1909 – 1910
Pois é, complicado é pouco! Tenho o péssimo hábito de checar o celular quando acordo e assim meus dias começam com uma enxurrada de notícias, na maioria das vezes ruins. Sei por exemplo, que a vida no Brasil não está para peixe, mas apesar dos muitos amados que vivem por lá, esses problemas estão ficando cada dia mais distantes.

Esqueci o que é medo e a sensação de violência vai se tornando distante. Arrisco a dizer que se trata de um sentimento físico, parecido com uma dor de dente insuportável e constante que de repente parou de existir e você nem se lembra mais como era.

Caminho sozinha a noite, deixo o celular na mesa do restaurante enquanto vou me servir no balcão, esqueço de trancar a porta da frente de casa, assim como os vidros do carro estão sempre abertos. Tinha até me esquecido o quanto é bom dirigir no entardecer com o vento batendo no rosto…

O incrível é pegar o metrô, de relógio, aliança e corrente e ler o jornal do dia no Ipad, sem medo de ser feliz. Mas, metrô? Como assim? Isso me lembra o que tanto ouvi da boca de amigos e conhecidos de São Paulo, “ah, meus filhos já andaram de metrô em Londres e Nova Iorque, mas em São Paulo nem pensar….” Hmmm, parece que misturei alhos com bugalhos agora não? Mas será mesmo que a crescente violência e a ausência da classe média “alta” nos metrôs paulistanos são assuntos assim tão díspares?

Um dos segredos a que eu atribuo o conforto da vida social americana é o fato de aqui ser um verdadeiro “melting pot” ou um caldeirão de várias pessoas, raças, etnias e classes sociais vivendo de forma muito parecida.

A menina muçulmana coberta de véus toma uma coca-cola na praça de alimentação ao lado da amiga loira de shorts e piercing no umbigo. O  motorista do caminhão de mudança é casado com uma funcionária executiva do Capitólio e o veterinário romeno, marido da professora sueca, incrementa a renda da família trabalhando de barmen algumas noites da semana. Ah e claro, o chiquérrimo executivo divide o banco do metrô com o garoto negro do hip hop!

Enfim, tenho vivenciado e observado um novo jeito de vida em sociedade. Evidente que existem ricos, pobres, poderosos, latinos, pardos e negros, mas as diferenças não são tão escancaradas como no Brasil. São vários os fatores que contribuem para isso, e escrever nesse terreno árido exigiria muito mais do que tenho de conhecimentos sociológicos e intelectuais. Estou aqui, somente arriscando um palpite de observadora, principalmente nesse momento em que tantos esqueletos do retrocesso surgem todas as manhãs no meu feed do Facebook…

Não acredito em saídas fáceis para séculos de abismos sociais, culturais e econômicos.  Mas tenho um palpite: a melhora só virá quando se olhar para frente e às vezes temo que as soluções imediatistas que têm surgido à rodo, são na verdade um eterno caminhar para trás. (Lembrando que no Brasil se investe mais em presídios do que em escolas).

Não consigo vislumbrar um futuro positivo que não passe pela diminuição das diferenças, pela generosidade e pelo olhar para o próximo como um semelhante e não alguém além ou aquém da minha pessoa. Dica:  se você sonha com o primeiro mundo, risque a frase cafona “olha com quem está falando” do seu vocabulário. 😉

O que me inspirou hoje, veio também na enxurrada das notícias matinais. Mal tinha aberto os olhos quando assisti à leitura emocionante de um poema de Elizabeth Bishop, escritora americana que viveu no Rio de Janeiro entre as décadas de 50 e 60, casada com a arquiteta Maria Carlota de Macedo Soares, responsável pelo projeto e execução do Aterro do Flamengo.

O ano era 1964. Da varanda do seu apartamento no Flamengo, Bishop assistiu à execução de um bandido carioca pelos policiais. A tragédia rendeu um belíssimo poema, interpretado de forma emocionante por Jorge Pontual. O link está abaixo:

http://g1.globo.com/globo-news/globo-news-em-pauta/videos/t/todos-os-videos/v/jorge-pontual-traduz-texto-de-elizabeth-bishop/4403624/

Me fez pensar, estamos em 2015 e nada foi melhorado desde então. Talvez seja hora de rever as estratégias e ao contrário da brutalidade, tentarmos a cordialidade. Enxergar no outro um pouco de nós mesmos, ainda que nossas origens e histórias sejam infinitamente diferentes, pode ser um bom início!  Eu e minhas filhas temos colocado isso em prática frequentemente, e acreditem, é muito gratificante  se sentir fazendo parte de um todo, composto de pessoas totalmente diferentes de você.

Por que afinal, onde está o certo ou o errado? O que me faz melhor ou pior do que você? Estamos apenas dividindo o mesmo barco ao mesmo tempo, não? Que possamos nos dar as mão e fazer do mundo algo menos complicado e bom mesmo de se viver!

Vem chegando o…outono!

Estou já há sete meses longe da minha terra brasilis, mas arrisco dizer que foram tantas descobertas que a experiência parece pesar mais que sete anos, quase sete vidas, aliás!

Primeiro foi o frio, que pareceu ornar seus dias curtos e cinzentos com todo o pânico das novidades e de todo o funcionamento de uma vida inédita para se aprender. As noites foram encurtando e chegaram as maravilhosas cores da primavera. Um pouquinho de conforto, misturado ao encantamento gerado por todas as possibilidades que se abriram, assim como as mais incríveis e diversas flores. O tempo esquentou, se iluminou e a vida pareceu finalmente se encaixar no trilho.

Agora, com o verão já chegando ao fim, abre-se espaço para um balanço mental:  as férias estão terminando, as visitas já cessaram e a rotina começa mais uma vez a se rearranjar. Começou a doer! Bateu uma enorme saudades de uma vida inteira que ficou para trás e não voltará mais, a não ser em fragmentos de memórias e milhares de fotografias que hoje são mais corriqueiras e acessíveis do que o oxigênio.

Me disseram: olhe para frente e não para trás. Estou tentando, juro!   Me agarrar a uma possibilidade de futuro confortável é a minha tábua de salvação,  afinal se não temos o futuro idealizado  sorridente à nossa frente a vida perde todo o sentido.

O difícil está em não olhar para trás, em  esquecer os recortes do Instagram que teimam em deixar indeléveis um passado glorioso e  perceber a cada dia que voltar não será mais possível. Aquele lugar mágico, ficou congelado na minha memória e já não existe mais.

Ser imigrante em um país com um nível de civilidade infinitamente maior que o seu lugar de origem provoca uma imensa delicia, acompanhada de uma profunda dor. Fica impossível se imaginar vivendo novamente na selva do salve-se quem puder, do jeitinho, da aparência supérflua do ter e da mediocridade cultural. Não quero mais. Não conseguiria mais.

Por outro lado, cadê o conforto de estar em casa, compartilhar piadas internas que só brasileiros serão capazes de entender, sentir cheiro de churrasco familiar e café com amizade? A civilidade do primeiro mundo cobra um preço e esse é a ausência de tudo isso.

Viver é escolha! Escolhi estar aqui e agora e só me resta olhar pra frente. O outono se aproxima e espero que assim como as folhas  encontram a sua maturidade em um infinito de amarelos e laranjas, eu possa encontrar a maturidade emocional de abraçar por inteiro a minha escolha, e lidar com a saudade de um jeito menos dolorido! Que venha a nova estação….

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Explosão de cores do pôr-do-sol nas águas do Potomac – National Harbor – D.C.