Maternidade – um banho exagerado de doçura

Ainda é maio e me permito continuar pensando na data mais melosa do calendário: o dia das mães e seu excesso de amor e doçura.

Aqui nos EUA a comemoração coincide com a do Brasil e somos sufocados por todos os tipos de apelos publicitários. Além disso, somos obrigados a lidar com a enorme pressão que vem das mídias sociais. Não basta ser filho, não basta ser mãe. Faz parte do jogo da vida contemporânea expor ao máximo nossas intimidades, numa espécie de competição velada: quem teve o dia das mães mais bonito? Quem demonstra mais o seu amor? Quem é a mãe perfeita?

Ok, sei que que estou sendo insuportável, mas é que ando cansada desse vácuo existente entre vida real e vida virtual. Não pensem que me excluo dessa onda: basta ver meu perfil no Instagram.

O problema é que tudo isso gera uma demanda por perfeição. E nós, seres humanos complexos, estamos longe, bem longe de sermos plenos e cheios de filtros como mostra a vida do facebuki.

Ser mulher implica em tantas escolhas e ser mãe é apenas uma delas – ou não. Eu, por exemplo, não escolhi ser mãe. Fui surpreendida aos 17 anos de idade e embarquei na aventura. Recebi minha filha de braços abertos com o máximo de cuidado e responsabilidade cabíveis em uma menina de 17 anos. Errei, sofri, acertei, perdi e ganhei. Não foi uma estrada fácil, aliás não é e não será nunca. Mas acho que gostei da brincadeira e quis repetir. Oito anos depois me planejei com tudo que tinha direito e fui mãe novamente, dessa vez com marido, casa e enxoval personalizado.

A família parecia completa e finalmente achei que era o momento de sossegar e investir em tantas coisas que tiveram que ser adiadas. Mas quem disse que somos nós que planejamos a vida? Veio mais um bebê para a conta, sem aviso prévio! Eu era já uma mulher experiente de 30 anos e ainda assim engravidei de novo, no susto.

Depois disso nem preciso dizer que meu marido correu e fechou a fábrica definitivamente!

Mas para que digo tudo isso? Eu sou a prova viva que ser mãe às vezes, independe da nossa vontade. Quando era adolescente e inconsequente, ok, até é esperado uma gravidez indesejada, mas e depois? Quando já era uma balzaquiana?

Claro que poderia optar por não ter, mas eu pessoalmente, já sinto a vida pulsando dentro das minhas entranhas no primeiro exame de sangue e isso para mim Gabriela, não seria uma opção que eu fosse capaz de encarar.

Não julgo quem o faça! Respeito e acho que da vida e do corpo de cada um, ninguém -nem presidente, nem papa, nem pastor – tem direito de meter a colher. (Alerta de tema ultra polêmico! Espero ter deixado bem clara minha posição…)

Só acho que nós mulheres merecemos um descanso verdadeiro dessa sublimação toda. Entendo as mamães de primeira viagem e seus encantamentos descomunais. Entendo as relutantes em ceder à maternidade, entendo as que amam um playground, como admiro as que detestam e preferem mil vezes viagens de negócios.

O que não entendo e que já encheu a paciência é essa necessidade insuportável de se definir tudo em moldes e regras.

Claro que isso faz parte da natureza humana, mas de uns tempos pra cá, com a vida virtual democratizando todo e qualquer achismo, está ficando muito chato.

Tem manual para tudo! Parto normal? Que absurdo! Parto cesariano? Que anti-natural! Papinha orgânica? Coisa de vegano chato! Saquinho de doritos no lanche escolar? Essa mãe deveria ser processada!

Desde quando permitimos tantas “verdades” embasadas em achismos nas nossas vidas?

A vida passa e rápido! Minha filha mais velha já tem 24 anos. Cresceu dançando Carla Perez e comeu muito miojo. Hoje revejo certas escolhas e provavelmente faria diferente, mas ela sobreviveu! Tem um conhecimento absurdo sobre arte e se alimenta com um cuidado impecável. Não virou “funkeira” nem comedora compulsiva de Big Mac. E mesmo se fosse assim, qual o problema?

Estamos nessa vida em um mesmo barco, cuja única certeza é um fim cada vez mais próximo. Por que então tanta energia gasta em julgamentos, achismos e uma disputa louca por verdades absolutas?

Sou mãe e gosto do meu papel. Isso não significa que às vezes eu não me ressinta por não ter dedicado mais tempo à uma carreira profissional. Isso não quer dizer o quanto às vezes preciso e amo estar sozinha, sem ninguém dependo de mim. Somos uma montanha russa de emoções, sentimentos e vontades e deixar que outros nos ditem caminhos é o maior desserviço que poderíamos fazer por nós mesmos.

Acho que mais do que nunca, com o mundo gritando por ajuda, é preciso que a maternidade resulte na formação de adultos conscientes e preparados para as adversidades, porque vou te dizer uma coisa: do jeito que caminham as coisas a vida não dará tréguas nem sossego para as próximas gerações.

Errem, acertem, experimentem e não acreditem em fotos ou cenas perfeitas de “my stories”. A vida é infinitamente maior e mais surpreendente que isso.

Vamos em frente com mais realidade e menos virtualidade. O que você acha?

 

 

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. Rita de Cássia disse:

    É isso mesmo!O pior que esse mundo louco vai nos enlouquecendo também e nos moldando conforme ele,recentemente me submeti a uma cirurgia onde só depois vi que não fiz por mim,mais pelos outros…

    Curtir

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